
Death Note
Autor: Tsugumi Ohba
Direção do anime: Tetsurō Araki
Gênero: Animação, Suspense, Ação
Japão – 2004-2006 (mangá)/ 2006-2007 (anime)
FO-DÁS-TI-CO
Por: Eduardo Cidade*
*Observações sobre Death Note:
Pois, para os meus companheiros lançados na aventura após uma vida no mais das vezes pacata, essa mescla de maldade e de asneira afigurava-se um fenômeno inacreditável, único, excepcional, a incidência, sobre as suas próprias pessoas e sobre as de seus carcereiros, de uma catástrofe internacional como até então jamais se produzira na história. Mas para mim, que correra o mundo e que, nos anos anteriores, vira-me metido em situações pouco banais, uma experiência desse tipo não era de todo desconhecida. Sabia que, lenta e progressivamente, elas se punham a brotar, qual uma água traiçoeira, de uma humanidade saturada por sua própria imensidão e pela complexidade cada dia maior de seus problemas, como se a sua epiderme estivesse irritada com a fricção resultante de intercâmbios materiais e intelectuais ampliados pela intensidade das comunicações. Naquela terra francesa, a guerra e a derrota só haviam apressado a marcha de um processo universal, facilitado a instalação de uma infecção duradoura, e que jamais desapareceria por completo da face da Terra, renascendo em um ponto quando enfraquecesse em outro. Todas essas manifestações estúpidas, execráveis e crédulas que os grupos sociais segregam como um pus quando começa a lhes faltar a distância, eu não as encontrava naquele dia pela primeira vez”.
Claude Lévi-Strauss, Tristes Trópicos.
Raito Yagami—ou Yagami Raito, para falar como os japoneses—é um dos melhores alunos do Japão. É certinho demais. É curioso como é típico das pessoas se surpreenderem quando cidadãos do bem surtam. Na verdade é mais previsível do que imaginamos, embora não provável. O fato de algo ser raro não significa que não é previsto. Dificilmente ganharei na Mega Sena caso decida apostar; mas certamente não ganharei se jamais o fizer. Em temperamentos humanos, a ignição pode-se dar numa reestruturação da dicotomia “não quero” e “não posso”. Quando a barreira do “não posso” é suplantada, restando somente a do “não quero”, então fica-se mais fácil compreender porque tantas pessoas certinhas, cidadãos de bem, surtam. É o que acontece com Raito, num belo dia tedioso, quando o Shinigami (um deus da morte, na mitologia japonesa) Ryuuk deixa seu Death Note cair nas redondezas.
Não consigo pensar em outro exemplo menos tosco a fim de me tornar mais claro. Suponhamos uma sala que, impreterivelmente, explode às dez horas. Quem estiver nela neste horário, se dá mal. Desde criança o sujeito é educado—seja pela mãe ou quem for—a sair desta às nove horas. No início ele chora, grita e esperneia querendo ficar mais tempo, mas a autoridade é inflexível. A concessão, geralmente como recompensa por algum mérito deste indivíduo, é de alguns minutos—porém sempre antes das dez horas. Este ser crescerá incorporando seu natural desejo em sair da sala antes das dez. Isto se tornará parte de sua “natureza”, mesmo quando tal autoridade não mais o reprimir. Portanto, ele de fato “não quer” ficar até as dez. Não é forjado, é um desejo legítimo e sincero. Mas não vamos nos iludir. Ainda assim, ele “não pode”.
“Não faço a menor questão em ter um jatinho particular” ou “não gostaria de ser um rei, acho que seria sem-graça” são sentenças pronunciadas regularmente por pessoas que, ainda que quisessem, não poderiam. Não se trata de uma opção! Isto não quer dizer que sejam hipócritas ou frustradas. Na maior parte das vezes, dizem com toda a sinceridade o que desejam e o que não desejam. Este é o brilhantismo do poder que a cultura exerce em nosso senso de julgamento! É só prestar atenção em qualquer conversa de boteco: quanto mais sincero o “não quero” aparentar em relação ao “não posso”, mais moralmente belo consideramos o ator social que pronuncia tal assertiva. A boate fecha às 6 da manhã impreterivelmente. Quem é considerado mais elegante? O rapaz que sai às 5 da manhã por vontade própria ou o outro que, sob chutes e pontapés dos seguranças, tenta ficar para além do final?
Onde quero chegar com isso? Simples. O sentimento de Justiça tem nessa lógica um de seus alicerces. O moralmente belo tem seu preço e costuma ser bem elevado, afinal, la noblesse oblige. Quando se é correto em demasia, é fácil concluir que o mundo está podre e não tem mais salvação: resta somente a punição. Não quer sair da sala antes das dez? Então tudo bem; fique nela e morra! Em linhas gerais, Raito Yagami raciocina desse modo. E se nunca demonstrou antes é porque “não podia”, mas, com um belo Death Note em mãos, a coisa muda de figura…
Não há muito a dizer sobre Death Note além de que é fodástico. O Raito é fodão, o L é fodão, o Shinigami Ryuuk é fodão, a Misa nem tanto: mas, no conjunto, a série consegue prover um bom entretenimento. Obviamente a inteligência de Raito e L são extremamente exageradas. Embora ache legal, também admito que a falha desse desenho é precisamente essa “inteligência” surreal. “Eu sei que você sabe que eu sei que você que eu sei que você sabe que eu sei que você sabe. Logo, você sabe que eu sei, então agirei partindo desse pressuposto para você achar que eu não sei que você sabe quando, na verdade, eu sei. Contudo, farei de tal forma prevendo que você sabe que agirei dessa postura tentando te enganar, então propositalmente vou me contradizer para tentar enganá-lo. Você sabe que farei isso, por isso o farei etc”…ad infinitum. É para se perder, não? Enfim, é um desenho animado, então não dá para levar tão à sério assim.
O nome da pessoa em que você escrever no caderno morrerá! E quem poderia cogitar a hipótese da existência de um Shinigami? Neste mundo científico, é absurdo pensar em razões místicas. Aqui, onde o absurdo entra em jogo, entra o questionamento: se jamais me descobrirão, então o “não posso” deixa de existir. E o “não quero”, ainda que verdadeiro e sincero, é frágil demais para se sustentar por muito tempo. Afinal, o poder corrompe justamente por ser a ausência do não-poder.
Regularmente menciono que minha definição favorita de cultura é “negação da natureza”, mas essa definição, embora eficaz na maioria dos exemplos, não é completa. Nos seres humanos, pensar na Natureza em estado bruto é inviável (e muito menos pensar numa natureza humana. Isto não existe, há, quando muito, uma condição humana em perpétua construção). O cientista dialoga não com a natureza pura, mas com um determinado estado da relação entre a natureza e a cultura definível pelo período da historia no qual ele vive, pela civilização que é a sua e pelos meios materiais de que dispõe. Logo, o inventário do conjunto predeterminado de conhecimentos práticos e teóricos e de meios técnicos limita as soluções possíveis para um dado questionamento seja lá de qual ordem, prático ou moral. O pensamento científico e o pensamento mítico, por mais que compartilhem semelhanças, nem de longe são iguais. Pode-se dizer que o primeiro opera através de conceitos enquanto o segundo, por meio dos signos. Com efeito, uma das maneiras pelas quais o signo se opõe ao conceito está ligada a que o segundo se pretende integralmente transparente em relação à realidade, enquanto o primeiro aceita, exige mesmo, que uma certa densidade de humanidade seja incorporada ao real. O conceito aparece como o operador de uma “abertura” do conjunto com o qual se trabalha, sendo a significação do operador a sua “reorganização”; ela não o aumenta nem o renova, limitando-se a obter o grupo de suas transformações. A moral—ou melhor, o moralmente belo—se assemelha ao pensamento místico.
Raito extrapola com o Death Note. Sua fama de Justiceiro se estende e ele adquire um novo nome, Kira, em alegoria ao termo inglês killer. O moralmente belo, a estética da ética, impulsiona a ação humana de tal modo que a forma é mais importante que o resultado. Alhures falei sobre o Sacrifício, que é basicamente o exemplo máximo desse sistema. Nele a dialética entre Necessidade e Utilidade se mostra de maneira ainda mais escancarada, e talvez isso fique mais claro na construção seguinte. Também mencionei alhures que o Sagrado é associado ao Inviolável (a Ordem do Mundo), que não há como ser de outra forma, e também é, como na etimologia de sacré, uma Maldição. Ou seja, o Sagrado é maldito e irrefutável. Mas não só isso, ele também é associado ao Belo. Maldito, Inviolável e Belo. Por isso as pessoas choram quando encontram Jesus. Ainda não o encontrei porque não frequentamos os mesmos bares, mas quem sabe um dia…
Para Durkheim a necessidade de Ordem sobrepuja a necessidade de Justiça. Ele tem razão. Uma sociedade tolera certas injustiças se com isso ela pode se manter estável durante períodos longos. De nada adianta existir Justiça se isto for possível somente durante um curto período, uma vez que é quase certo contrariar a premissa básica da Ordem social (chegarei nisso em breve). Não obstante, se racionalizarmos demais a vida, perceberemos que ela não faz sentido e que viver não vale a pena. É preciso criar certas ilusões, seja na forma de deuses ou de príncipes encantados e almas gêmeas. Em escala maior, algo semelhante se passa com a Sociedade. Ainda que a paz e o mundo dos Ursinhos Carinhosos sejam impossíveis aos Homens, a Sociedade precisa desses mitos bonitos para manter sua coerção; essa crença no impossível é a comunhão (“comunidade” vem do “comum”, o que há em comum ou pacto entre os iguais) dos homens em prol de um bem acima deles. E a Justiça se assemelha ao pensamento místico por ser irracional em sua praticidade, cuja premissa jaz na restituição equivalente entre as partes (abaixo falarei sobre os ritos místicos em contraposição ao “jogo” da contemporaneidade).
A relação entre Necessidade e Utilidade pode ser meio confusa. Preciso enfatizar que o “negar a Natureza” torna-se a “própria natureza” daquele indivíduo. Ainda assim, as culturas humanas, longe de seguirem a “economia da Natureza”, adoram complicar o que poderia ser simples. Algo pode ser maldito, mas também é belo. Fica claro o seguinte: a recompensa pelo sacrifício é o privilégio. E as relações de privilégio hierarquizam os homens. Antes de seguir adiante, tentarei elucidar um pouco mais sobre a relação Necessidade e Utilidade. O emprego de termos mais ou menos abstratos não é função de capacidades intelectuais, mas de interesses desigualmente marcados e detalhados de cada sociedade particular no seio da sociedade nacional. “Subi ao observatório; aí cada estrela não é mais simplesmente uma estrela, é a estrela X do Capricórnio, é a Y do Centauro, é a Z da Ursa Maior etc. O Universo é objeto de pensamento, pelo menos como meio de satisfazer a necessidade.
Cada civilização tende a superestimar a orientação objetiva de seu pensamento; é por isso, portanto, que ela jamais está ausente. Quando cometemos o erro de ver o selvagem como exclusivamente governado por suas necessidades orgânicas ou econômicas, não percebemos que ele nos dirige a mesma censura e que, para ele, seu próprio desejo de conhecimento parece melhor equilibrado que o nosso. O hábito tão simples como a mastigação de bétele supõe, nos hanunoo das Filipinas, o conhecimento de quatro variedades de sementes de areca e de oito produtos de substituição, de cinco variedades de bétele e de cinco produtos de substituição. As espécies animais e vegetais não são conhecidas porque são úteis; elas são consideradas úteis ou interessantes porque são primeiramente conhecidas. Pode-se objetar que uma tal ciência não deve absolutamente ser eficaz no plano prático. Mas, justamente, seu objeto primeiro não é de ordem prática. Ela antes corresponde a exigências intelectuais ao invés de satisfazer às necessidades. A ideia é introduzir um princípio de ordem no universo. Qualquer que seja a classificação, esta possui uma virtude própria em relação à ausência de classificação. Afinal, os cientistas suportam a dúvida e o fracasso porque não podem fazer de outra maneira. Mas a desordem é a única coisa que não podem nem devem tolerar. Todo o objeto da ciência pura é conduzir a seu ponto mais alto e mais consciente a redução do modo caótico de percepção, que começou num plano inferior e provavelmente inconsciente, com a própria origem da vida. Pode-se perguntar, em alguns casos, se o tipo de ordem elaborado é um caráter objetivo dos fenômenos ou um artifício construído pelos cientistas. Entretanto, o postulado fundamental da ciência é que a própria natureza é ordenada. Os termos “sistemática” e “ciência teórica” são basicamente sinônimos.
Misturar Lévi-Strauss e Norbert Elias com Raito Yagami e L no mesmo liquidificador não é simples, mas vamos lá! O início da série e seu final mostram uma radical mudança na personalidade do Raito. Em principio ele aparenta mais preocupado com o mundo do que com si, é mais importante “limpar a podridão”—como ele julga—do que ser o Deus do Novo Mundo. No final do seriado o oposto ganha maior evidência. Sua preocupação narcisista o faz inclusive cometer a tão abominável Injustiça aos seus olhos ou mesmo sem perceber isto. Claro, os deuses estão acima do Bem do Mal e há um motivo para isso: são eles, no mundo contemporâneo traduzidos como Estado, que detêm o monopólio da violência. No mais, é interessante observar: quem mais implica com os remédios de emagrecer são os saudáveis e quem mais implica com os livros toscos de auto-ajuda barata são os intelectuais. Isso é simples. Podem dizer que se preocupam com a saúde alheia, justificar cientificamente por X + Y que determinado elemento é nocivo, mas no fundo, o que está em jogo é a posição privilegiada de quem está no poder. Enquanto o indivíduo quer se assemelhar àquele que tem o poder seguindo os mesmos passos deste, ele ressalta e valoriza o poder dominante. Entretanto, se for possível obter os mesmos resultados práticos sem seguir os mesmos procedimentos, o poder do dominante entra em xeque. É claro que para um estudo acadêmico jamais um livro do estilo As Tartarugas Ninjas e a Filosofia poderá se equiparar ao conhecimento do legítimo intelectual, mas na mesa de bar, sim! É claro que o corpo adquirido graças aos remédios jamais será tão saudável quanto o do atleta, mas para flertar na boate, o resultado é o mesmo!
O privilégio é conquistado mediante a renúncia. O indivíduo se abstém de determinadas práticas e incorpora algum tipo de ascese (como renegar a pizza para comer cenoura, ainda que, enfatizo, ele possa realmente gostar mais de agrião do que de brigadeiro. Não é hipocrisia, é a influência da cultura!) a fim de, com isso, ganhar o carisma e ser aceito em um grupo privilegiado. E com isso ele terá benefícios. Quanto mais isso for naturalizado, quanto menos aparentar forçado, quanto mais ele demonstrar que realmente prefere a disciplina no lugar da lassidão, mais eficaz. Por que? Porque isso se torna quase natural. E o argumento da Natureza é o argumento supremo! “Não sou eu que digo que sou melhor que você: é a própria Natureza que diz isso!”, “Olha, não tenho nada contra ti, sério… mas a Natureza diz que tu és inferior a mim, então terás que me obedecer” e por aí vai. A velha anedota de quem é rico de verdade não ostenta gratuitamente se justifica nisso: o privilégio não precisa ser dito. É auto-evidente. Entrementes, se for questionado, o grupo ameaçado utiliza argumentos da Natureza para legitimar sua superioridade. “Ainda que você possa fazer como eu, seus métodos são nocivos e isso foi comprovado cientificamente. Eu sou natural”. Simples assim. E vemos esse tipo de situação o tempo todo, não? Usar a Natureza como recurso aparentemente ausenta a responsabilidade e arbitrariedade do dominador frente ao dominante. Trata-se de uma Ordem que supera ambos, fazendo com que o dominado aceite a Injustiça do mundo como Justiça.
Espero que duas conjecturas fiquem claras com isso! A única maneira da existência de uma Justiça perfeita é através da Injustiça para com aqueles que renunciaram diversos impulsos a fim de adquirir o privilégio. Ademais, o mundo, a priori, não tem problema algum. Os Homens inventam problemas para legitimar poderem então solucionar e legitimar sua importância. Ainda que fosse possível solucionar os ditos problemas do mundo, não há a menor intenção em fazê-lo porque a solução em si não é importante. O modo como atingir que prevalece e quanto mais homens conseguirem tal estado de perfeição, mais alto será alçado o patamar. Não se trata de simples egoísmo ou interesses conspícuos desprovidos de sensibilidade. Os Homens procedem dessa forma para garantir a Ordem.
A exigência de Ordem constitui a base do pensamento denominado “primitivo”, mas unicamente pelo fato de que constitui a base de todo pensamento, pois é sob o ângulo das propriedades comuns que chegamos mais facilmente às formas de pensamento que nos parecem muito estranhas. “Cada coisa sagrada deve estar em seu lugar”, já notava profundamente um índio doidão de algum canto bizarro, mas a ideia de base é esta: é isso o que a torna sagrada, pois, se fosse suprimida, mesmo em pensamento, toda a ordem do universo seria destruída; portanto, ela contribui para mantê-la ocupando o lugar que lhe cabe. Os requintes de um ritual que podem parecer dispensáveis quando examinados de fora e superficialmente explicam-se pelo cuidado em não deixar escapar nenhum ser, objeto ou aspecto, a fim de lhe assegurar um lugar no interior de uma classe. Esse cuidado com a observação exaustiva e com o inventário sistemático das relações e das ligações pode às vezes chegar a resultados de boa postura científica: é o caso dos índios blackfoot, que identificavam a aproximação da primavera pelo grau de desenvolvimento dos fetos de bisão extraídos do ventre das fêmeas mortas na caça. Não seria o pensamento mágico, “essa gigantesca variação sobre o tema do princípio da causalidade” (nas palavras de Hubert e Mauss) menos diferente da ciência por ignorância ou desprezo pelo determinismo do que por uma exigência de determinismo mais imperiosa e mais intransigente, e que a ciência pode, quando muito, julgar insensata e precipitada? A explicação científica corresponde sempre à descoberta de uma “ordenação”—toda tentativa desse tipo, mesmo inspirada em princípios não científicos, pode encontrar ordenações verdadeiras. Isto é possível se admitirmos que, por definição, o número das estruturas é finito: a “estruturação” possuiria então uma eficácia intrínseca, quaisquer que fossem os princípios e os métodos nos quais ela se inspirasse. Por exemplo, a química moderna reduz a variedade dos sabores e dos perfumes a cinco elementos diversamente combinados: carbono, hidrogênio, oxigênio, enxofre e azoto. Formando tabelas de presença e ausência, calculando as doses e os limites, ela chega a dar conta de diferenças e semelhanças entre qualidades que ela outrora banira de seu domínio como “secundárias”. Mas essas aproximações e distinções não surpreendem o sentimento estético, antes o enriquecem e esclarecem, criando associações de que já suspeitávamos e, portanto, pode-se compreender melhor por que e em que condições um exercício constante apenas de intuição já permitiria descobri-las. A cereja selvagem, a canela, a baunilha e o vinho de Xerez formam um grupo não mais apenas sensível, mas inteligível, pois todos contem aldeído.
A exigência de organização é uma necessidade comum à Arte e à Ciência e, consequentemente, possui um valor estético eminente. Toda classificação é superior ao caos, e mesmo uma classificação é superior ao caos, e mesmo uma classificação no nível das propriedades sensíveis é uma etapa em direção a uma ordem racional. A natureza, embora sempre munida de exceções, é feita de maneira a ser mais vantajoso para ação e o pensamento agir como se uma equivalência que satisfaz o sentimento estético correspondesse também a uma realidade objetiva. Longe de serem, como muitas vezes se pretendeu, obra de uma “função fabuladora” que volta as costas à realidade, os mitos e os ritos oferecem como valor principal a ser preservado até hoje, de forma residual, modos de observação e de reflexão que foram—e sem dúvida permanecem—exatamente adaptados a descobertas de tipo determinado: as que a natureza autorizava, a partir da organização e da exploração especulativa do mundo sensível em termos de sensível. A característica do pensamento mítico, este que mescla com o sentimento estético, é a expressão auxiliada por um repertório cuja composição é heteróclita e que, mesmo sendo extenso, permanece limitado; entretanto, é necessário que o utilize, qualquer que seja a tarefa proposta, pois nada mais tem à mão. Essa limitação impossibilita uma visão não-relativa da Justiça, será sempre arbitrária e, como tal, inferior em importância à Ordem. Por mais que algo seja Injusto, se sua solução gerar um bafafá caótico, a tendência da Sociedade é fingir que não vê.
Hmm…não sei se isso vai ficar claro, mas tentemos! O universo instrumental do pensamento mítico é fechado, e a regra de seu jogo é sempre se arranjar com os “meios” que também são “limites”, isto é, um conjunto sempre finito de utensílios e de materiais bastante heteróclitos, porque a composição do conjunto não está em relação com o projeto do momento nem com nenhum projeto particular, mas é o resultado contingente de todas as oportunidades que se apresentaram para renovar e enriquecer o estoque ou para mantê-lo como os resíduos de construções e destruições anteriores. O conjunto de meios não é, portanto, definível por um projeto (o que suporia, aliás, como com o engenheiro, a existência tanto de conjuntos instrumentais quanto de tipos de projeto, pelo menos em teoria); ele se define apenas por sua instrumentalidade. Os elementos são recolhidos ou conservados em função do princípio de que “isso sempre pode servir”. Os elementos da reflexão mítica estão sempre situados a meio-caminho entre conceitos no qual o intermediário entre a imagem e o conceito é o signo. Isto, claro, para quem lembrar do Saussure. Como um elo entre uma imagem e um conceito, os signos (linguisticos, no caso de Saussure, mas não necessariamente aqui), na união estabelecida, desempenham respectivamente os papéis de significante e significado. Assim como a imagem, o signo é um ser concreto, mas assemelha-se ao conceito por seu poder referencial: um e outro não se referem exclusivamente a si mesmos; além de si próprios, podem substituir outra coisa. Todavia, nesse sentido, o conceito possui uma capacidade ilimitada, enquanto a do signo é limitada. O que cada conceito disponível previamente no arranjo poderá potencialmente vir a “significar” (ou não) contribui em si na definição do conjunto a ser realizado, que no final será diferente do conjunto instrumental apenas pela disposição interna das partes. As unidades constitutivas de um mito, cujas combinações possíveis são limitadas pelo fato de serem tomadas de empréstimo à língua onde já possuem um sentido que restringe sua liberdade de ação têm utilidades “pré-limitadas”, evidentemente. Por outro lado, a decisão do arranjo depende da possibilidade de permutar um outro elemento na posição vacante, se bem que cada escolha acarretará uma reorganização completa da estrutura que jamais será igual àquela vagamente sonhada nem a uma outra que lhe poderia ter sido preferida.
Os universos mitológicos estão destinados a serem desmantelados assim que formados, para que novos universos possam nascer de seus fragmentos. Entretanto, em tal incessante reconstrução com o auxílio dos mesmos materiais, são sempre os antigos fins os chamados a desempenhar o papel de meios: os significados se transformam em significantes e vice-versa. Talvez a Arte seja o meio-caminho entre o pensamento mítico e o pensamento científico… Afinal, a emoção estética provém dessa união instaurada no âmago de uma coisa criada pelo homem e, portanto, também virtualmente pelo espectador que lhe descobre a possibilidade, através da obra de arte, entre a ordem da estrutura e a ordem do fato. Os mitos nos aparecem simultaneamente como sistemas de relações abstratas e como objeto de contemplação estética uma vez que o ato criador que engendra o mito é inverso e simétrico àquele que se encontra na origem da obra de arte. Neste último caso, parte-se de um conjunto formado por um ou vários objetos e por um ou vários fatos, ao qual a criação estética confere um caráter de totalidade, por colocar em evidência uma estrutura comum. O mito percorre o mesmo caminho mas num outro sentido: ela usa uma estrutura para produzir um objeto absoluto que ofereça o aspecto de um conjunto de fatos (pois que todo mito conta uma história). A arte procede, então, a partir de um conjunto (objeto + fato) e vai à descoberta de sua estrutura; o mito parte de uma estrutura por meio do qual empreende a construção de um conjunto (objeto + fato).
Para resumir: o útil é aliado ao estético; juntos eles foram o intermediário entre a Arte a Necessidade. O útil capaz de negar à Necessidade é costumeiramente associado ao Belo, até que pode de fato se tornar imprescindível. Seja uma máscara melanésia ou uma estátua africana: o objeto, sua função e seu símbolo parecem dobrados, um sobre o outro, formando um sistema fechado em que o fato não tem nenhuma chance de se introduzir. A criação estética depende invariavelmente da ocasião, da execução e/ ou da finalidade. O equilíbrio entre estrutura e fato, necessidade e contingência, interioridade e exterioridade é um equilíbrio precário, constantemente ameaçado pelas trações exercidas num e noutro sentido, segundo as flutuações da moda, do estilo e das condições sociais gerais. Bem, se falei de Arte e a relação do pensamento mítico com o pensamento científico; vamos agora na questão do jogo. Afinal, o que é a disputa entre Raito e L senão um “jogo”? Acima de tudo, o embate entre os dois não significa meramente quem é o melhor, mas quem está “certo”. Este é o prêmio que disputam. O N (Near) só segue as pistas já deixadas por L. Até a Misa daria conta dele!
O jogo mantém relações próximas com o rito. Todo jogo se define pelo conjunto de suas regras, que tornam possível um número praticamente ilimitado de partidas; mas o rito, que também se “joga”, parece-se mais com uma partida privilegiada, retida entre todas as possíveis, pois apenas ela resulta em um certo tipo de equilíbrio entre os dois campos. A transposição pode ser facilmente verificada no caso dos gakuku-gama da Nova Guiné, que aprenderam futebol, mas que jogam durantes vários dias seguidos, tantas partidas quantas forem necessárias, para que se equilibrem exatamente as perdidas e ganhas por cada campo: isto é tratar um jogo como se fosse um rito. Pode-se dizer o mesmo dos jogos que desenrolavam entre os índios fox, quando das cerimônias de adoção cujo objetivo era substituir um parente morto por um vivo, permitindo, assim, a partida definitiva da alma do defunto. Os ritos funerários dos fox parecem, com efeito, inspirados no cuidado maior de se livrar dos mortos e de impedir que estes se vinguem dos vivos por causa da amargura e das saudades que sentem por não estarem mais no meio deles. Portanto, a filosofia indígena adota resolutamente o partido dos vivos: “A morte é dura; mais dura ainda é a tristeza”.
A origem da morte remonta à destruição, pelos poderes sobrenaturais, do mais jovem dos irmãos míticos que desempenham o papel de heróis culturais entre todos os algonkin. Mas ela ainda não era definitiva: foi o mais velho que a tomou assim, rejeitando, apesar do seu desgosto, o pedido do fantasma que queria retomar seu lugar entre os vivos. De acordo com esse exemplo, os homens deverão se mostrar firmes em face dos mortos: os vivos os farão compreender que eles nada perdem ao morrer, pois receberão regularmente oferendas de tabaco e de comida; em troca, espera-se deles que, em compensação dessa morte cuja realidade relembram os vivos e da tristeza que lhes causa por seu óbito, assegurem-lhes uma longa existência, roupas e o que comer. São os mortos que trazem a abundância, nessa lógica, e por isso devem ser bajulados. Ora, os ritos de adoração, indispensáveis para convencer a alma do morto a partir definitivamente para o além, onde assumirá seu papel de espírito protetor, são normalmente acompanhados de competições esportivas, de jogos de destreza ou de azar, entre dois campos constituídos de acordo com uma divisão em duas metades. O jogo opõe vivos e mortos, como se antes de se desembaraçarem definitivamente dele os vivos oferecessem ao defunto o consolo de uma última partida. Não obstante, essa simetria inicial entre os dois campos decorre automaticamente a determinação antecipada do resultado. Em outras palavras: se o homem que morreu era do clã A, então o clã B deve vencer a partida. Ou se a festa é em homenagem ao clã A, quem deve ganhar é o clã B em compensação.
No grande jogo biológico e social que perpetuamente se desenrola entre vivos e mortos, é claro que os únicos ganhadores são os primeiros. Mas, de maneira simbólica ganhar um jogo é “matar” o adversário. Prescrevendo sempre o triunfo da equipe dos mortos, dá-se a estes, portanto, a ilusão de que são os verdadeiros vivos e que seus adversários estão mortos, já que eles sos “matam”. A estrutura formal do que, numa primeira abordagem, poderia parecer uma competição esportiva é, em todos os sentidos, similar à de um puro ritual, tal como o mitawit ou midewin, dos mesmos povos algonkin, onde os neófitos se fazem matar simbolicamente pelos mortos, representados pelos iniciados, a fim de obter uma suplementação da vida real ao preço de uma morte simulada. Nos dois casos, usurpa-se a morte, mas apenas para enganá-la.
O jogo aparece, portanto, como disjuntivo: ele resulta na criação de uma divisão diferencial entre os jogadores individuais ou das equipes, que nada indicaria, previamente, como desiguais. Entretanto, no fim da partida, eles se distinguirão em ganhadores e perdedores. De maneira simétrica e inversa, o ritual é conjuntivo, pois institui uma união (comunhão) ou, de qualquer modo, uma relação orgânica entre dois grupos dissociados no início, como a coletividade dos fiéis e a personagem do oficiante. No caso do jogo, a simetria é pré-ordenada; e ela é estrutural, pois decorre do princípio de que as regras são as mesmas para os dois campos. Já a assimetria é engendrada: decorre inevitavelmente da contingência dos fatos, dependam estes da intenção, do acaso ou do talento. No ritual, ocorre o inverso: coloca-se uma assimetria preconcebida e postulada entre profano e sagrado, fiéis e oficiantes, mortos e vivos, iniciados e não-iniciados etc; e o “jogo” consiste em fazer passarem todos os participantes para o lado da parte vencedora, através de fatos cuja natureza e ordenação têm um caráter verdadeiramente estrutural. O jogo produz fatos a partir de uma estrutura: compreende-se, portanto, que os jogos competitivos prosperem em nossas sociedades industriais (como a ciência, no plano especulativo ou no prático), ao passo que os ritos e os mitos não são mais tolerados senão como hobby. Afinal, eles decompõem e recompõem conjuntos factuais no plano físico, sócio-histórico e técnico e se servem deles como de outras peças indestrutíveis, em vista de arranjos estruturais que assumem alternativamente o lugar de fins e de meios.
É importante lembrar que a nossa atual separação entre “razão” e “emoção” assemelha-se bastante com as estruturas do pensamento científico e do pensamento mítico respectivamente. E por mais racional que seja Raito, ele, no fundo, foi impulsionado pelo pensamento mítico. Neste sentido, L é de fato superior ao Raito. Ainda assim, diria que o personagem com a mentalidade mais cientifica do seriado é o Ryuuk, o Shinigami. Ironicamente, o mais mitológico dos personagens (a Shinigami Remu também é mitológico, mas é uma imbecil por se sacrificar pela Misa).
Finalizando, se eu tivesse um caderninho daqueles, escreveria alguns nomes e confesso. Ai de quem passar na minha frente em concursos…
Tem para vender no eBay. Será que funciona?