Padre

Padre – Priest

Direção: Scott Charles Stewart

Gênero: Faroeste Vampiresco (WTF?)

EUA – 2011

Stewart matou a aula de artes quando estava tentando ser cineasta. Matou as aulas de literatura enquanto estava no colegial e nisso perdeu a chance de ouvir falar em poesia…  Quando Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) nos leva a pensar, por meio do Poema V, que as coisas são o que são e seus devidos valores devem ser atribuídos enquanto seres que são sendo,  fico aqui a pensar que o mistério da palavra não é alcançado por todos. É uma pena, sem dúvidas.

Uma árvore tem a propriedade de ser qualquer coisa na metáfora, mas se no real das coisas ela deixar de ter as propriedades que lhe garantem o próprio conceito de árvore, simplesmente deixa de ser uma árvore. O mesmo vale para qualquer coisa. Uma flor não pode ter no real uma propriedade de um lápis, senão deixa de ser flor e passa a ser lápis. Um sapato não será um ovni de gnomos! Nem um papel será um tapete de elfos! Papel é papel e tapete de elfos é tapete de elfos!

Na arte, no entanto, um tapete de elfo pode facilmente ser um ovni de gnomos, e o melhor: sem sentir angústia de ser outra coisa que não o que se é.  (fui obrigada a fazer  uma analogia com a máxima sartreana de que o homem é condenado a ser livre e a obrigação de ser livre é a geradora e causadora da angústia, para este filósofo).

Padre, por sua vez, só pode ser um padre. Diz Caeiro que se Deus é uma árvore, uma flor, o Sol, por que deveríamos chamá-lo de Deus ao invés de árvore, flor, Sol, luar…? Enfim, Padre é padre e está condenado a sê-lo, ainda que seja livre para ser padre. Ainda que a existência seja definida primordialmente pelo não-ser.  Isto é, Padre (o filme) não pode ser padre na medida em que se subverte em metáforas e se torna um assassino de vampiros, contrariando a máxima de “não matar”. Ademais, vamos falar mais rasgado? WTF!!!!! Já vi de tudo neste mundo, mas faroeste vampírico protagonizado por um padre é novidade. Sigamos a lógica: padre é padre, faroeste é faroeste, vampiro é vampiro.

Certo?

Misturar tudo deu numa sopa tão bizarra e desarmônica que a própria Vampinha dispensou a  ideia de escrever sobre o filme, deixou pra mim. E na boa? Não dou conta do recado… porque pra mim, se vampiro é vampiro, se padre é padre e se faroeste é faroeste, então esse filme (adaptação de uma história em quadrinhos e jogo sul-coreano) é dos mais estranhos…

Por: Guerra de Pipoca.

 

Nosso Lar

Nosso Lar

Direção: Wagner de Assis

Gênero: Fantasia

Brasil – 2010

 

A teologia é um ramo da literatura fantástica

                                        - Jorge Luís Borges

            Normalmente não me meto em assuntos religiosos. Tenho uma certeza praticamente absoluta sobre a inexistência do sobrenatural e, quando não em contexto de arguições antropológicas, considero obsoleto abordar o tema. Para ser sincero, o que penso das religiões em geral é bastante simples. Existe uma expressão, do sociólogo Erving Goffman, para instituições falidas que ainda pensam ter algum poder expressivo: acalmando o otário(não para as pessoas que acreditam, mas as Instituições em si!) No caso, as Igrejas não possuem poder significativo, mas é bom deixarmos acreditar que ainda tem relevância. Nada impede que, se algum dia de fato se sentirem ameaçadas, contra-ataquem e recuperem a influência social de outrora. Precisamente, para impedir que isto aconteça, a sociedade em geral confere certa voz à Igreja, fingindo dar importância às suas palavras. Na prática, pouco pode fazer. Se a Igreja se impõe contra o aborto, isto pode influenciar tão somente os próprios religiosos. Uma menina não-religiosa abortará de qualquer modo. E não sofrerá represálias morais por seus semelhantes, a princípio, seu grupo social. Se ela for religiosa, abortar e sofrer tais represálias pelos religiosos… bem, está na hora de se tornar atéia. E se argumentarmos sobre a constituição do Estado laico e das condições financeiras daquela que quer abortar; ipso facto, não muda muita coisa do que mencionei acima. No mais, certas leis serão eventualmente aceitas quer a Igreja tolere ou não. Sua voz é semelhante ao do velho patriarca gagá na discussão sobre os afazeres familiares. Todo mundo finge escutar por respeito. Entretanto, no fundo, os efeitos de suas palavras são inofensivos. É melhor deixar o velho patriarca iludido, sedado, do que provocá-lo. Vai que ele resolve deserdar todo mundo ou algo assim? Penso semelhante em relação às instituições religiosas.

            Portanto, não tinha a menor intenção em falar mal deste filme a priori. Infelizmente, ele é ruim demais! Ultrapassou todas as minhas expectativas! Recomendo para casos de insônia ou masoquismo. Diante o imenso sucesso do filme –o maior orçamento e a maior bilheteria do cinema nacional – é minha obrigação saber o que se passa nele já que meu trabalho é pensar as culturas e as sociedades. Tenho uma técnica para tornar o fardo menos torturante. Imagino tudo em termos de literatura fantástica. Portanto, quando São Tomas de Aquino, em sua Suma Teológica, revela os segredos da “Obra de Deus”, imediatamente penso na Terra Média, no Gandalf e no Sauraman erguendo seus cajados etc. A Bíblia, então, com a criação do mundo… leio como se fosse Tolkien.

Quando Aquino diz:

 ”Dizemos que Deus não tem nome ou está acima de qualquer denominação, porque a sua essência sobrepuja o que dele inteligimos e exprimimos pela palavra.

A verdade, considerada como virtude, não é a verdade comum, mas uma certa verdade, pela qual o homem se mostra como é, nas palavras e nas obras. A verdade da vida é aquela pela qual o homem, na sua vida, realiza o fim para o qual foi ordenado pelo intelecto divino…

Basta imaginar como se tais palavras fossem proferidas pela Khaleesi sobre a existência ou não de dragões, no Game of Thrones, para tudo se tornar mais interessante. Vão por mim que funciona!

Infelizmente, Nosso Lar é tão ruim que nem com essa capacidade de abstração consegui gostar do filme. Como? Como um filme tedioso, sem nenhum resquício de ação, repleto de lições moralistas simplórias auto-evidentes e pedantes conseguiu fazer tanto sucesso? Como isso foi possível? Se isso é o que brasileiro médio acredita e tem como valor, é de desanimar quaisquer perspectivas para o futuro do país.

A essência de qualquer religião, mais do que dizer qual será o destino dos homens após a morte, é estabelecer a Ordem do Universo para que os homens possam viver em harmonia. Cansamos de ouvir a velha história de que as Religiões pregam a paz fazendo guerra, certo? Não é exatamente uma hipocrisia, uma vez que a paz fundamental aqui é do próprio grupo. A Religião—seja lá qual for—mantém a coesão interna do grupo e justifica, legitima, a violência. Em outras palavras, ela controla e delimita qual segmento que deve morrer. Ao concentrar a violência da sociedade sobre infelizes determinados, ela garante a paz dos demais. Porém, para que isso seja possível, é preciso que a sociedade inteira concorde com as regras desse ordenamento. Junta-se o útil ao agradável em designar os hereges àqueles que devem morrer.

O termo “religião” provém do latim, religare. Há um duplo significado disto: religar os homens ao elo que possuem em comum, o fundamento do passado em comum que o fazem agora viverem juntos em sociedade. O outro significado é mais poético e talvez mais significativo. Religar/ delegar ao Outro aquilo que sou incapaz de fazer sozinho. Explico: a união dos homens é capaz de levantar prédios, pontes e mil maravilhas. Não obstante, é incapaz de, digamos, deter uma tsunami. Eis então como os homens elaboram seus pactos com os deuses, para que estes controlem a natureza em favor dos primeiros.

Portanto, a Religião é Política. Bispos na televisão não são algo recente. Digo, a televisão pode ser, mas os dedinhos santificados mexendo as cartas em nossos afazeres, não é. Sempre foi assim. E é por isso que falarei, neste texto, de Ciências Políticas. Evidentemente, das três irmãs das Ciências Sociais, este terreno é o que menos conheço. Vamos lá de qualquer forma, é sempre interessante brincar com São Tomas de Aquino e a concepção da cidade ideal na Idade Média. É surpreendentemente próxima daquela pregada em Nosso Lar, salvo pelo advento da mentalidade capitalista entre os setecentos anos de diferença das duas obras.

Constitucio, na Idade Média, denota os aspectos de órgão; não somente jurídico, mas também de corpos, como o de um ser humano. Pode-se dizer de um sarado que ele tem “boa constituição”. Se para os homens existem condições de saúde e de doença, o mesmo é pensando em relação ao Estado (lembrando que o Estado Moderno só surge na, tcharan, Idade Moderna). Em Aristóteles, há três formas de bom governo para as correspondentes formas degeneradas: Monarquia e Tirania, Aristocracia e Oligarquia, Politéia e Democracia. A noção de “regime” não tem nada a ver com os Vigilantes do Peso. Ela advém da pastoral cristã, não necessariamente relacionada ao poder coercitivo. Trata-se do deslocamento de um pastor de almas ao governante, ao longo do tempo. O que um sacerdote não convence pela persuasão, cabe ao rei punir através da força.

Então, um belo dia às vésperas da Segunda Guerra Mundial, um médico chamado André Luiz bate as botas. Embora o filme insista em negar Kant dizendo que espaço e tempo não existem, André Luiz cai num lugar geograficamente bem semelhante ao nosso imaginário, senão do Inferno, do Purgatório. Se espaço e tempo não existissem, ele poderia cair em qualquer lugar, mas me parece que a queda especificamente no Purgatório foi proposital. Então o espaço existe e pronto! E se tempo não existe, existe a morte pra início de conversa? A vida transcorre, do nascimento à morte, no tempo, não? Bem, não vou entrar na Física e muito menos na metafísica, voltemos para Aquino.

De regimine principum (1265) foi escrito por Ptolomeu de Lucca, mas Aquino levou os créditos. Tanto faz. É um livro de aconselhamento ao governante, cujo representante mor deste estilo literário é Maquiavel com O Príncipe. A noção moderna de Estado não deve ser aplicada nem ao mundo Medieval, nem ao Nosso Lar, porque nessa cosmologia o que define a cidade-estado como organização política não é o território. Esses conceitos de Estado, Poder e dominação são inseparáveis na modernidade, mas não é necessariamente universal. Regimen é diferente de dominatioRegimen não é uma ideia política. Seu significado é ético, relacionado à atividade pastoral. A função de um rector é de regere, ou seja, conduzir. A coerção pela força tem papel secundário, pois a condução das almas à salvação se dá pela persuasão.

Bem, vou dar um pulinho rápido em Max Weber. Pessoas mais humildes tendem a desenvolver religiosidades de salvação. O mundo é maculado por uma injustiça original, um pecado, então acredita-se na vinda de um Vingador, digo, Salvador para corrigir isso. Pessoas de classes médias para cima—como no caso da maioria dos adeptos do espiritismo ou das versões ocidentais do budismo—desenvolvem religiões mais particulares, individualistas, com forte ênfase no desenvolvimento pessoal e que, portanto, legitimam as recompensas e privilégios que podem adquirir. Nosso Lar, desta perspectiva, enquadra-se perfeitamente na análise de Weber. André Luiz é um médico, não um favelado. E todos seus amiguinhos poltergeist são advogados, engenheiros etc… claro, duvido que haja um antropólogo! Voltemos para Tomas de Aquino.

Dentre as três formas de governo, a monarquia de Um só (o rei, o líder espiritual ou seja lá quem for) favorece a função pela qual o governo existe, que é conduzir a multidão à unidade. As almas que não são dobradas pelo convencimento da palavra serão dobradas pela coerção imposta ao corpo. Ir para o céu depende aparentemente do seu livre-arbítrio, mas se porventura você não seguir os ditames locais…é Inferno!

Juntando Weber e a idealização política de Aquino, torna-se fácil entender a apologia do sofrimento feito pelo líder religioso naquela comunidade astral louca do filme. “Todo merecimento se conquista através do trabalho”. Assim…

Tipo…

Vamos combinar…

Rameira que pariu! Você rala a vida inteira, pasta, sofre para ganhar o pão de cada dia e depois de morrer… tem que continuar trabalhando? Se isso é o Paraíso, imagina o Inferno? E não é qualquer trabalho, é praticamente escravo, a ver a condição socioeconômica aparente dos residentes daquele mundo astral. Parece bem próximo de bairros proletários do subúrbio das grandes cidades. Ou seja, em vida, para médicos, engenheiros e advogados, a mais-valia da sua mão de obra é mais lucrativa do que post-mortem. Novamente, isto é no Paraíso, imaginem o Inferno…

A estrutura jurídica dos direitos de soberania é um pressuposto da ideia de governo, como uma condição de governo na modernidade. Na modernidade, o reino é a condição de governo. Na Idade Média, pode-se dizer que o regimen é a condição do regnum. Logo, os preceitos são opostos. A condição para que haja rei e realeza é de que o indivíduo que governa o faça com retedição: rex recte “regendo”. Afinal, o princeps é o primeiro lugar na ordem republicana. Ao reger com retidão, o indivíduo tem direito para ser rei. O rei existe para fazer a justiça no seculuum—o tempo dos homens, a realidade mundana.

Para Marcel Gauchet, Cristo é a radical subversão (oposição) às expectativas do que se supõe ser um messias. É pobre, ferrado, só apanha e, no final, não consegue salvar ninguém. Não tem redenção mundana, não chega envolto de glória. Não significou nem um pouco da pompa esperada de um messias. A Igreja se constitui na tentativa do monopólio das interpretações sobre a existência e a função do Cristo.

Então, naquele mundo do Nosso Lar, André Luz não tem sequer o direito de fazer perguntas. Reparem nisso: cada vez que ele faz uma indagação, leva um fora dos mais experientes. “Não faça tantas perguntas, tudo tem seu tempo para as respostas” (o mais interessante é que, nós, telespectadores, jamais saberemos quais são essas respostas). Nosso Lar menospreza as faculdades do intelecto—afinal, o conhecimento médico de André Luiz tornou-se completamente inútil—e faz apologia da alienação. Exemplos de frases concretas do filme? Eis: “Diplomas na Terra não servem de nada”; “O que sabe sobre medicina espiritual?” (eu, Eduardo Cidade, particularmente sei que ela não funciona, mas enfim); “Tente não pensar em nada”; “Diplomas terrenos!”. Aliás, para que exista medicina espiritual no mundo astral, significa que é possível sentir dor após a morte. Logo, não há total desvinculação com o corpóreo o que significa que o filme se contradiz o tempo todo.

O mundo medieval é tão somente um vale de lágrimas em espera da salvação. Qual é a justificativa e a legitimidade do governo mundano para exigir a obediência do cristão? O governo dos homens pelos homens faz parte dos planos da Providência Divina. E de que maneira entram nesses planos? Deve-se obedecer César porque o governante garante uma vida calma, serena, piedosa e digna. Os governantes indiretamente ajudam os indivíduos na vida virtuosa, criando as condições—paz e ordem—para que a realização de tal vida seja possível. Seria mais difícil alcançar a Virtude se houvessem conflitos e guerra. É o disciplinador dos corpos que assegura a ordem gerando o terreno favorável à dedicação da vida virtuosa. O rei (regnum) obriga os indivíduos a seguir a ordem pública. O reino é umaecclesia universalis—uma comunidade de fiéis batizados em Cristo. Não devemos confundir com uma hierarquia de organização eclesiástica, onde pertence o sacerdotium.

Atualmente, só se pode falar de governo supondo a existência de Estado. A equação é inversa no pensamento medieval. Só existe um reino digno deste nome se o rei é bom. O verdadeiro rei deve ser um santo. Ele personifica as leis naturais: ou seja, a ordem objetiva do mundo que deve servir de conduta para o indivíduo. O regime vem antes do governo! Os direitos de governo não precedem o governo. O rei apenas chega a sê-lo se for justo. As leis fundamentais são baseadas na tradição e, neste sentido, um bom motivo para uma revolta seria “eu me rebelo porque ele não cumpre o que prescreve a lei de Deus. Ele não é justo”. Surreal, não? A concepção ministerial da realeza deriva do fato que o ministério originalmente significa um serviço. O rei desempenha uma função eclesiástica. E o pastor é um ministro! Sacerdotium e regnum estão ambos ao serviço de deus. Surreal ao quadrado.

Então, aquele velhinho que concede ou não o direito das almas penosas falarem com os vivos é rei e sacerdote simultaneamente. O engraçado é que mesmo morto você não encontra com Deus diretamente, mas com seus asseclas. Deus é VIP demais para encontrar com sua própria criação. Em termos marxistas, seria ele um alienado? Já dizia Nietzsche: o cristianismo é o platonismo das massas (e antes de qualquer crítica, as religiões ocidentais, por mais que reivindiquem singularidade, possuem forte influência cristã).

Na virada do primeiro ao segundo milênio, o Papa Gregório VII propôs em sua reforma uma tentativa em submeter os governantes seculares à autoridade do babado, digo, papado. O rei começava a se secularizar, mas ainda é cedo para falar de uma ruptura, em termos modernos, da política com religião. No mundo de Nosso Lar, elas andam de mão dadas. Se não fosse o pecado, os homens não precisariam de um rei. Um evento que minou a predominância católica foi o de São Bartolomeu, na França do século XVI (quem não souber o que foi isso, Google! Se eu explicar, me estenderei demais). Surgiu uma necessidade dos protestantes defenderem publicamente a rebeldia contra o rei da França. A disputa é entre duas casas reais, os Guise (católicos) e os Bourbons (protestante). Catherine de Médici tenta matar o futuro Henrique IV, o rei protestante que se converte ao catolicismo e redige um edito de tolerância. Isso vai subverter as imagéticas do propósito do Rei e do Reino, mas não vamos nos apressar.

            Em primeiro lugar, o bem-comum é a paz. E o “um” (o rei) realiza melhor que dois, três ou quatro. Para São Tomas de Aquino, a monarquia realiza melhor a unidade e é de longe a melhor forma de governo. O papel do rei será tanto mais digno deste nome quanto mais virtuosamente ele cumprir sua função. A fácil definição de virtude é possível uma vez que operamos em princípios absolutos (o bom rei não tem muitos cavalos, não tem muitas mulheres e lê a Bíblia diariamente—que porre! Se é para ser rei assim, prefiro ser escravo).

Um senhor pode ser um tirano em sua casa. A tirania é um conceito independente de sua função pública. A Economia, originalmente, se refere às normais e leis da conduta da casa (oikos, em grego). Os missi são enviados do imperador encarregados de velar pela boa ordem do reino com fortes implicações morais. Não se trata somente de impostos, mas, por exemplo, verificar se as mulheres de dada aldeia são adúlteras ou não.

            Na década de 1260, a Política de Aristóteles é traduzida por um monge dominicano flamengo. Aristóteles fornece menos um corpo de doutrinas do que uma linguagem a partir da qual será uma vertente propagada. Há duas tipologias de regime na Idade Média: o regime político e o regime real. Nas monarquias reais, o rei governa segundo suas leis. No regime política, tais como nas cidades italianas, o sujeito que governa o faz segundo as leis da cidade.

            A Universidade é o local de produção intelectual dos séculos XII e XIII, com a expansão urbana e associação de pessoas. Uma universitas é composta pela pluralidade de um grupo humano; quase uma “pessoa jurídica” resultante da pluralidade de indivíduos. As diversas faculdades rivalizam entre si, buscam prevalecer um ramo do saber sobre os outros. As faculdades, por excelência, são: Direito, Medicina, Teologia e Artes Liberais.

            A escolástica é um método (é a cultura das universidades) de estruturação do pensamento, cujo patrono-mor é Aristóteles. Desenvolve-se então um rigoroso sistema de argumentação e retórica. A produção escolástica máxima são os comentários sobre uma cultura formada de livros cânones. O que se faz na Universidade é para aqueles que estão dentro destas, numa lógica coorporativa fechada. Não é muito diferente de hoje em dia.

            O que isso tem a ver com as aventuras de André Luiz no além?  Nada…digo, tudo! O não-questionamento e obediência cega à autoridade são típicos do pensamento escolástico. Aristóteles disse x, então é x. Pode-se, no máximo, tecer comentários. “Beba água e não fale nada” – o que é isso senão incitação à não-crítica, suprimento do pensamento crítico? “Toda forma de servir é uma benção”: não seria uma total defesa da hierarquia já dada no mundo, na qual devo me conformar com as estruturas tais como elas já são designadas por um artífice soberano e supremo, inquestionável?

            Agora, o mais surpreendente de tudo! Se você acha que, após a morte, baixar na cabeça do Chico Xavier ou qualquer outro médium é de graça, reles engano! Um morto não pode simplesmente sair entrando na mente de qualquer médium: é preciso trabalhar! Os vivos pagam a conta do celular; os mortos, para falar através dos médiuns. É justo, não? Na verdade acho uma palhaça. Em Nosso Lar, é preciso acumular bônus-horas para merecer serviço. É “trabalho, sempre trabalho”. Mas em prol de que os mortos trabalham para construir algo? Se é metafísico, se não está submetido às leis da física, simplesmente não há necessidade empírica alguma. É totalmente moralista. A generosidade jamais é gratuita e o exemplo do filme deixa isto nítido. Uma morta infeliz não consegue enviar mensagens para a família. Ela precisa fazer algo para merecer. Assim, se fosse entre os vivos, entenderia, mas por que diabos o Paraíso é tão infernal, tão humano, demasiadamente humano? Nem mesmo no Céu pode-se escapar da lógica da dádiva, da maldição do dom, do Marcel Mauss? E praticamente o dinheiro astral deles serve apenas para entrar em contato com os vivos, ainda assim, é desaconselhado. “Não vale a pena entrar em contato com os vivos, é preciso ter espiritualidade”. Tipo, eu não sou um espírito? Somente espírito, aliás? Como é que faço para ter ainda mais espiritualidade se já sou, integralmente, um espírito? Bem, provavelmente não sou tão espírito assim, uma vez que, para se ter uma casa, preciso merecer. E quem não merece? Vira mendigo no Paraíso? Ou é um pressuposto que há seleção prévia, no sentido que somente os já disciplinados na doutrina e aptos a aceitar qualquer palhaçada dita podem adentrar o grupinho?

            Tudo bem que a ideia de liberdade como isenção de regras é moderna, data de Hobbes (e, mesmo assim, em Kant liberdade é um tipo de ação isenta de influência sensível, pautada pela racionalidade e com fortes implicações morais). Para os Antigos, liberdade é poder participar da vida política da civitas, mas carambolas…

            Nesse mundo astral, os dirigentes dão o exemplo… aff! É praticamente um daqueles discursos clichês de mercado, que exigem do funcionário o mesmo padrão de excelência que o patrão, mas sem recompensá-lo igualmente. E se ousar exigir recompensa, é mesquinharia. Ou melhor, é aquele velho discurso que o excesso material é dialeticamente proporcional ao vazio espiritual. Discurso tal que funciona somente com os proletários, não com os dirigentes. O filme é explícito nisto. O mundo que valoriza o valor de troca da mercadoria cai na contradição de que, em última análise, não há valor em nada. Pensei que o Paraíso estivesse acima disto, mas me iludi…

            Bem, se não é para falar com os vivos na lan house (sim, os mortos se comunicam com os médiuns em lan houses astrais. Tem Internet e tudo no universo supostamente imaterial). Entrementes, se para além de morar num bairro proletário e falar com os vivos nalan house, qual a finalidade dessa pregação moral toda sobre a importância do trabalho? Teria Tomas de Aquino a resposta para o enigma?

O Homem tem um fim para o qual está destinado, a razão é o meio para alcançá-lo. Como os homens divergem sobre estes fins, é preciso que um dirigente defina e oriente os homens. Telos, em grego, significa fim. A concepção da Natureza em Aristóteles é teleológica. Só se conhece a Natureza de algo quando suas potencialidades estão plenamente desenvolvidas. A Natureza do homem é ser um animal político; o homem está destinado em viver na cidade. Somente na cidade o homem se realiza plenamente. Lá, sua situação será de suficiência (e as necessidades humanas não são apenas materiais).

            Neste contexto, o regente existe por fazer parte de uma ordem da Natureza. Se antes o rei existia pelo pecado, em Tomas de Aquino é um dado inevitável da Natureza, de caráter ontológico. O fim da comunidade é o bem da multidão: é a paz e a unidade. Logo, a finalidade do rei tem um quê de mundano, apesar de toda pregação sacerdotal. A Graça não contradiz a Natureza, mas a aperfeiçoa. Existe congruência entre a ordem do mundo e os planos da Providência.

A verdadeira natureza é a semelhança de Deus; no entanto, por conta do pecado, o homem nega sua própria essência. Se os homens não fossem pecadores, bastariam os sacerdotes. Os topos são pontos de passagem canônicos na formulação da retórica. Qual é o fim do homem? O homem possui a razão para reconhecer seus fins, entretanto, a razão não lhe basta. Acontece, porém, agirem os homens de modos diversos em vista do fim, o que a própria diversidade dos esforços e ações humanos patenteia. Portanto, precisa o homem de um dirigente para o fim. É a carência biológica dos homens que os impelem à associação. Neste sentido, é utilitário. Lembremos de Max Weber em sua distinção entre ação instrumental e ação baseada em valores (há outros dois tipos de ações para Weber, como a via afetos e a por tradição). Uma ação relativiza os valores em função de cálculo de fins e meios. Noutro, entra a questão dos valores e honra. A deficiência do homem é suprimida pela capacidade de associação política.

            Oras, é melhor ser dois juntos do que um; desta forma pode-se tirar proveito da mútua sociedade. A natureza é o fim e a natureza do homem é a cidade, por lá encontrar condições de plena suficiência. O atributo natural implica atualização de determinada potencialidade. Em Max Weber, na Ciência como Vocação, não nos é mais dado fazer como um cientista do Renascimento. Ao conhecer fatos, se descobre sentidos, como por exemplo se alguém desvendar a natureza do piolho por consequência prova-se a existência dos deuses (se o piolho é perfeito, então ele é necessariamente obra divina). É por isso que argumentos religiosos são tão evidentes para os crentes e simplórios para cientistas. Se o mundo é tão belo, então necessariamente foi criado por entidades supremas. Tenho certeza que todos aqui já ouviram tal argumento. Aff.

            A cidade visa a vida boa e a virtude daqueles que nela vivem; é para além das meras segurança e manutenção utilitária das condições de vida. A linguagem em sua essência exige a cidade! Antonomasticamente (por analogia, por identidade raiz), o despotes—ou seja, déspota—, é o nome grego para o senhor de uma casa. O senhor concebe, o escravo realiza. A casa surge em condição de falta originária de cada um dos componentes. De uma associação de casas, surge a aldeia, que suprirá as carências da casa. De várias aldeias unidas, emerge a cidade. A cidade basta em si mesma, é o ponto de chegada. Aquilo que é suficiente é plenamente. A cidade é o ponto de chegada por ser suficiência e plenitude em termos ontológicos. A falta de tal plenitude é uma falha, uma falta da própria identidade. Afinal, o corpo que não muda é idêntico a si mesmo—e isso é o ideal na Antiguidade e na Idade Média.  O movimento na Física aristotélica é impulsionado por uma lógica de identidade, de essencialidade. Para Kant, a Natureza é o conhecimento de fenômenos, daquilo que é observável. O ideal é buscar conexões factuais. Em Aristóteles, fatos e sentidos são categorias inseparáveis. Falar da natureza do homem é ponderar do próprio sentido da existência humana. Ou melhor, arethé—virtude, excelência, aquilo que é bom e belo. O bom é associado ao reconhecimento dos outros de sua excelência. Lembram do Banquete do Platão? Alcebíades e Ágathon? Então, ágathos significa bom. O Cristianismo reverte essa concepção, uma vez que, quanto melhor for o indivíduo, menos este deve aparecer para os outros.

            Enfatizo que, para São Tomas de Aquino, o bem comum é a unidade, ou seja, a paz.Politeia pode, além da forma adequada da democracia, com cautela, ser traduzido comoconstituição ou regime. O regime bem organizado está em sintonia para com a finalidade ele mesmo existe, em harmonia com a natureza. Como o mundo é imperfeito, há espaço para a ação humana uma vez que a natureza não realiza por si só. Se muitos governarem a cidade, todos estes sujeitos precisarão submeter suas vontades a uma única vontade. Adiante, a natureza também funciona deste modo, realizando a unidade de modo mais eficaz. Porém, se um realiza o bem melhor, também realiza o mal pior vide ser uma vontade única na direção ruim; no caso dos muitos ruins, os interesses maus se neutralizam. A tirania absoluta é a pior forma de governo; não obstante, só um tiquinho de tirania ainda é melhor que a democracia. Melhor uma tirania light, com poucas calorias, do que a democracia. Se o importante é a unidade da cidade; neste aspecto o argumento é mundano. Os fins que dizem respeito à salvação dos homens não necessariamente coincidem com a salvação da cidade. E a salvação da cidade é a suprema lei.

            Até porque, se fosse só eclesiástico, os termos seriam incompreensíveis. De certo modo, isso justifica a lan house e as casas proletárias em Nosso Lar (sem contar os trens futurísticos estilo parque de diversões da Disney).

            As monarquias medievais são frequentemente eletivas. A eleição não é popular, mas o resultado da escolha de indivíduos de posição privilegiada. Não é por voto individual, mas fruto de consenso unânime. Um poder que limita o soberano é a negação do direito de matar e a possibilidade de resistência ao tirano. As autoridades são, então, aqueles que cumprem funções públicas, podendo destituir o tirano (e de qual país e século falamos).

            A resposta para o risco de tirania é simples. O governo misto. Neste arranjo, as virtudes não são dos governantes, mas das instituições. Elas não necessariamente produzem virtude, mas elaboram limites e restrições. No pensamento grego havia um ciclo vital básico das sociedades humanas. A monarquia se estabelece diante o caos do suposto Estado de Natureza. Os sucessores do primeiro rei esquecem da situação original de conflito e pensam mais em si mesmos do que no interesse público, culminando em tirania. Eventualmente são depostos pelos aristocratas que, caídos no vício, se entregam à oligarquia. É, então, novamente deposta: eis o surgimento da democracia. No governo misto, cada tipo de órgão encontra o contra-peso com os demais. Encontra-se uma ordem os diferentes regimes se equilibram mutuamente. É cheia de freios e contrapesos (checks and balances, no pensamento político anglo-saxão). Tal mecanismo evita o abuso de poder.

            Como garantir a estabilidade, a permanência—ou seja, a durabilidade—na vida da cidade? São Tomas de Aquino recupera a reflexão de Políbio. O regime é condição do reino, então Aquino aplica a ideia da linguagem da constituição do governo misto nesta. Não é uma descrição, mas uma afirmação normativa. O pressuposto do Rei é a justiça daquele que governa. O arranjo do governo misto permite uma realeza política. Logo, o rei é limitado pelas leis, assegurando que o rei governe com retidão e justiça. Não se trata da preocupação com a comunidade de cidadãos, mas a importância de assegurar que o monarca não se torne um tirano. A constituição mista, para Aquino, é a possibilidade da monarquia limitada. Se o rei for extremamente virtuoso, ele não estará submetido à lei vide que sua própria lei é a Justiça. Esta seria a monarquia real, mas não é “plausível”. Tempera-se o rei: a melhor forma de limitar o poder do rei e garantir a Justiça. Para Políbio, é mais importante a estabilidade e a paz. Na lógica de Aquino, não há Estado.

Em nota: governo misto é um protótipo da divisão dos poderes de Montesquieu. É uma tentativa de combinar monarquia com aristocracia e democracia, mas não planejo me estender muito nisto. Na minha humilde opinião, qual a forma de governo em Nosso Lar?

            Oras, trata-se de um governo oligofrênico (tal palavra significa, literalmente, débil mental). No Leviatã, de Hobbes, o estado de natureza é de homens segmentados. A instituição do governante transforma a multidão em pessoa pública. A realização da unidade da multidão envolve o conceito de finalidade uma vez que a ordem pública não é apenas a delegação de disciplinas. Ela envolve alguma concepção teleológica da vida coletiva: a sociabilidade dos homens tem determinado fim. No Leviatã, o homem não é social e tampouco tem um bem supremo. No mundo do Hobbes, não há finalidade objetivamente dada na vida política. Nossas percepções sensoriais recebem impressões que desempenham pressões por todo o corpo. Onde não há movimento, não há vida. Os valores são resultados dos nossos apetites que consideramos bons e ruins. O Bom depende dos apetites, daquilo que dá prazer. O mau é seu avesso. O desejo e a aversão não existem fora do Homem: existem apenas movimentos internos do corpo produzindo valores.

            Em São Tomas de Aquino, a ordem do mundo está objetivamente dada. Alguém lembra de como é a capa do Leviatã? Há um sujeito segurando um báculo—espécie de cetro episcopal—em uma das mãos e uma espada, na outra. A cabeça dá unidade ao corpo, que é composto por múltiplos bonequinhos—digo—súditos. O poder é um artífice e, sem um poder público, a unidade seria impossível. Os homens são dissidentes. Em Aquino, o poder não é um artifício, mas uma exigência lógica para alcançar os tais fins da Natureza. Se não há poder, então temos uma aberração. A comunidade perfeita, por natureza, exige a existência do poder. Entretanto, isto é pela lógica. Empiricamente, dada a imperfeição do mundo, é possível que o poder não exista (o que é, ressalto, uma aberração). A tirania em excesso é o pior dos regimes, porém a tirania moderada é melhor que o mau governo de muitos. A democracia permite que cada um busque seus próprios interesses, rompendo a unicidade do bem-comum.

            Religião não é qualquer Política. É monarquia absoluta!

            Para finalizar, não posso deixar de falar da Eloísa, uma jovem morta que chega no além quando André Luiz começa a se adaptar com todo aquele esoterismo. Ela é rebelde, acha aquelas casas proletárias muita pobreza, detesta as lições de morais chatas e sei lá o que ao quadrado. Portanto, ela é categórica ao afirmar que tem direito sobre a própria vida. Eu também pensaria isso, mas André Luiz refuta, diz que não. Ele explica sobre a Lei da Ação e Reação, no melhor estilo de livros de auto-ajuda. Pode-se pensar que é o momento mais emocionante do filme, que enfim vai acontecer algo em torno de todo aquele sermão. E acontece. Mal Eloísa tenta fugir do Paraíso que ela se dá mal. O Céu é um cárcere privado. ÉLeviatã. Ao menos Hobbes é mais pragmático do que moralista.

            Regimem Bene Commixtum: regime adequadamente misturado. A representação não é algo resultante de uma designação eletiva. No melhor regime, há um que preside, alguns homens virtuosos exercem funções no principado e muitos elegem o príncipe. O melhor regime combina elementos de três formas constitucionais—a monarquia, a aristocracia e a democracia. É na questão da constituição mista em relação à monarquia absoluta que Aquino e Nosso Lar começam a divergir. Porém, na parte da virtude e do auto-convencimento da doutrina dominante, são quase idênticos.

Não troco nosso planeta azul por nenhum outro lugar na galáxia, nem pelos mundos felizes”. É preciso ser masoquista para dizer isso. Se o Homem não busca a felicidade e nem mesmo no Paraíso ela é encontra, o que é que ele busca? Ah, não caio nessas. O Homem moderno busca a felicidade. O Homem medieval, a salvação, mesmo que isso implique em preferir deliberadamente o sofrimento ao invés da boa-venturança.

Vamos combinar que os Vikings, estes sim, sabiam o que é realmente o Paraíso!

Não vou estragar a surpresa para quem não viu o filme, mas estas cenas, embora não realmente relevantes para o texto, não podem ser ignoradas!

*Depois de tanto discurso de superação e desapego de questões mundanas, André Luiz sentiu ciúmes ao saber que a mulher arrumou outro. Ah, francamente, que superação fajuta!

*O final do filme fala do André Luiz como se ele fosse uma pessoa de verdade, “André Luiz continua a trabalhar em Nosso Lar até os dias de hoje”. Ele não quis reencarnar de 1930 até a atualidade. Gostou mesmo de morrer. Será que o IDH é alto em Nosso Lar pra valer tanto a pena? Bem, só pode ser, porque night e diversão são inexistentes. A única coisa que compensa são os concertos de música clássica ao ar livre naqueles belos jardins, mas acho que não pode beber, então fica sem graça…

Por: Eduardo Cidade.

Retórica

Dizem que o cinema é uma arte completa, e até existem teóricos empenhados a provar essa afirmação. Enquanto não se tem conclusões quanto a isso, a música segue no topo da arte e considero que mereça essa posição de “completude”, pois a música alcança algo em nós com uma naturalidade quase nata. Mas, não estou com pretensões de me prolongar na música, quero falar sobre uma área da cinematografia que é específico do bom cinema: a retórica.

De maneira ampla, a retórica é a ciência da linguagem e comunicação. Restringindo-a ao mundo cinematográfico, a retórica se afunilaria para os efeitos do discurso e métodos para alcançar tais efeitos. Para além, é através da retórica que o cineasta obtém o domínio da plateia. O espectador, quando vai ao cinema, espera algo da obra. O papel do cineasta é comunicar aquilo que se espera, e mais, ele tem o poder de emocionar por meio da arte quem o assiste. Ou seja, ainda que o veículo do cinema seja tecnológico, o retórico (isto é, o cineasta) fala/comunica alguma coisa que é gerador de profundos efeitos (emocionais, racionais etc) no ser humano.

Eisenstein, teórico de cinema e cineasta, em 1932 afirmou que o cineasta – com sua retórica – tem a capacidade de destruir a realidade reconstruindo-a e transformando-a em um outro sistema também de realidade, e que proporciona “arrumar” imagens nos sentimentos e mentes dos espectadores. Desta forma e de acordo com Dudley Andrew(2002), a teoria de Eisenstein é interpretada como uma teoria da propaganda. Isto é, o objetivo dos filmes é arrumar imagens de forma inteligente com a intenção de causar o maior efeito emocional possível no espectador. Em outras palavras, o cinema-propaganda subordina a arte às reações emocionais no ser humano e aos “conhecimentos construídos” por meio da obra.

Desta maneira, o cinema é a maior arma de propaganda possível e seu método é a retórica. De forma que, a arte cinematográfica transmite mensagens completas que envolvem o espectador. Se ele “compra” o que vem na propaganda é outra boa questão para ser pensada, posto que os efeitos e mensagens de um filme não ocupam o lugar comum, a via comum. Isto é, sendo o cinema arte, então pode-se dizer que o objetivo visa – antes de tudo – as emoções e não a razão.

Por conseguinte, pode-se dizer que um bom filme é aquele que porta uma ótima retórica?

Por: Guerra de Pipoca.

Sobre Alice…

 

(Feita por mim do livro: Alice no País das Maravilhas)

Alice no País das Maravilhas  de Tim Burton – EUA / 2010

Por um motivo muito simples gosto bastante desta obra: toda a jornada de Alice é para conhecer aquilo que é desconhecido. Nada mais psicanalítico do que isto. Aliás, Alice é um incentivo para qualquer área desde que seja do saber ainda não sabido. Creio que pesquisadores, etnógrafos, analistas e até mesmo curiosos perguntadores sobre “por que o céu é azul” tem um pouco ou muito do “sangue” desta menina de belos cachos dourados. Não me resta dúvida: saber é um verbo que atinge o imaginário do país das maravilhas. Não importa se a dúvida é sobre “por que somos assim?” ou “por que Urano está tão longe do Sol?”, posto que – no fundo e no raso – qualquer pergunta que se faça é uma busca de sanar o  desconhecido de nós mesmos. “O que somos nós? Quem somos nós? Pra onde vamos nós?” –  O que Alice faz senão isto? Portanto, é uma obra literária que recomendo por, também, ser ancorada na fantasia. Aquilo que não damos conta de resolver, fantasiamos. Não esta fantasia consciente e que é dita de maneira racional, me refiro à fantasia inconsciente. Esta que não é conhecida… Ou seja, fantasiamos o tempo todo, ainda que não “saibamos” sobre isso.

A minha relutância em assistir a este filme diz respeito à repetição nos cinemas desta obra tão cara. Ora, se o assunto diz respeito ao desconhecido, por que repeti-la tantas vezes sob diversas máscaras a ponto de perder sua graça? Ou seja, a obra já está tão conhecida que a mensagem sobre buscar o desconhecido perdeu um pouco de seu valor no cinema. Será que não há mais nenhuma história de fantasia desconhecida que não possa ser retratada na telona? Só há a Alice? Tão limitante e limitado restringir a fantasia a apenas Alice no País das Maravilhas. Tendo a pensar que nós, seres humanos, estamos muito empobrecidos de criatividade…

Portanto, depois de um ano de seu lançamento, só agora que me dispus a assisti-lo. Espero que nenhum outro diretor tenha a falta de imaginação de por Alice mais uma vez nos cinemas. Já deu. Não há mais o que sugar desta obra. De maneira que imagino que esta Alice já se esgotou em possibilidades de mostrar sobre o desconhecido. Já se tornou conhecida demais e sob formas das mais variadas.

Falar deste filme, por conseguinte, é esmiuçar a pobreza da falta de criatividade desses diretores do Cinema. Deixo pra lá por respeito à obra literária, que é linda e instigante; e, sobretudo, não precisou ser feita em 3D para conquistar o mundo. Ao contrário, é uma trama muito simples.

Pra que complicá-la?

Por: Guerra de Pipoca.

2 anos de Guerra de Pipoca!!!

Enfim, se fechamos o ciclo de mais um ano, então, que venha mais! Somos gulosos!

:D

Parabéns para nós!

Beijos,

Guerra de Pipoca.

La Haine

La Haine

Direção: Mathieu Kassovitz

Gênero: Cinema Verdade, Ação

França – 1995

Alguém, quando criança, compreendia por que a noviça rebelde era rebelde se o máximo que fazia era cantar nos Alpes austríacos? É preciso compreender o contexto histórico, não? O que uma mera arma de fogo pode causar nas vinte e quatro horas na vida de três jovens das banlieus francesas? O beur (franco-árabe) Saïd Taghmaoui, o judeu Vicent Cassel e o negro Hubert Koundé não sabem que, numa queda, o importante é o impacto ao aterrisar. Quem são eles senão indesejáveis para o mundo? Não diria que são sem posição social, mas precisamente, como diria Foucault, inconscientemente citado por Saïd, jovens “trancados do lado de fora”. Essa é a lógica de um gueto, de uma área menosprezada, uma lepra da estética. A síntese do mal, a razão por todas as malezas sociais. Nos embalos de Tropa de Elite 2, enfim escrevo sobre La Haine, filme preto e branco que está longe de ser monótono! Ruben Katzman demonstra o processo de sedução à homogenia da cultura dominante para, esta, depois, abandonar os próprios seduzidos. Posso chegar –e é meu intuito, num buraco mais embaixo. Vamos por partes!

 

O conhecimento é produto de uma dupla relação entre o que é produzido socialmente e o que é socialmente reproduzido. Logo, o que sabemos sobre as zonas degradadas—favelas, guetos, banlieus—e seus moradores perpassam um discurso tributário das representações do senso comum muito antes da análise da produção das ciências sociais a partir dos anos cinquenta. Esse problema se choca com sua antítese na militância da própria ciência social. Não há anjos e demônios; um discurso não deve ser suplementado por outro. O Capitão Nascimento pode xingar o quanto quiser os cientistas sociais. Sou um deles, mas diferente daqueles que ele denuncia. Tento distinguir o x qua x e o y qua y.

 

O outsider tem sua clássica representação como inimigo do Estado e da sociedade a ser combatido; são sujos e vivem em condições insalubres que denotam suas virtudes morais intrínsecas. Muito bem, quando a culpa recai sobre seus residentes torna-se fácil obscurecer a responsabilidade estatal. Uma comunidade carente é traduzida como antro da promiscuidade moral. Louis Chevalier chama tais segmentos de “classes perigosas” e disto advém o seguinte questionamento ético: deve-se permitir a sobrevivência de pessoas não enquadradas no mercado de trabalho? Seria isto estimular o ócio? O trabalho aqui não se configura em qualquer meio de subsistência, mas tão somente naquele oficializado pelo Estado. E justamente só come quem trabalha de acordo com a oferta do mercado. Logo, há uma geração de pobreza maior, uma vez que as ocupações destas populações são destituídas de seus meios tradicionais de sobrevivência. É um apelo sedutor para a cultura “dominante”. A falta de opção é vista como escolha, como preferência pelo vício por parte de quem resiste ao modelo idealizado. Aliás, lembrando que para Marx, Ideologia é falsa consciência enquanto Cultura é uma alienação mistificada. Quem preferir pode definir Cultura como espaço da discussão pela hegemonia. Acho que fica melhor neste contexto embora prefira a denominá-la como “negação da Natureza”.

 

O problema é justamente a falta de capacidade de absorção de todos àqueles que aderem as novas normas! Nas palavras de Katzman, “han sido seducidos por uma sociedad moderna em que solo pueden partipar simbolicamente, no pudiendo superar por sus próprios medios los obstáculos para alcanzar uma participacíon material equivalente”. Percebam porque não há anjos e demônios. A violência das áreas pobres em geral não se dá pela necessidade de comer ou algo vital capaz de legitimar o roubo. Obviamente a extrema pobreza existe, mas em geral em lugares mais distantes do que as favelas do Brasil e, muito menos, das banlieus francesas. Não falo da pobreza das zonas rurais, da Etiópia ou dos mendigos. Refiro-me à clássica pobreza das metrópoles urbanas. Roubam porque querem um PlayStation. Não são santos tampouco culpados, vide serem seduzidos a isso constantemente. O discurso da fome é uma espécie de redenção, mais mito do que realidade. Se estes indivíduos desejam o mesmo do que eu, qual o ponto de renúncia? Se ceder constantemente, não culminarei na inversão, ou seja, conferindo aos “indesejáveis” a prioridade na aquisição de certas mercadorias antes mesmo de mim? E se assim acontecer, talvez eu mereça isso, não? Afinal, fui eu quem ostentou e estimulou o desejo alheio pelas minhas posses. Para legitimar o desejo alheio em simultâneo ao afastamento da possibilidade de obtenção daquilo que possuo, o discurso ideológico costuma amalgamar a descrição morfológica do local com a descrição de seus habitantes, atribuindo-lhes características morais degradadas. São sujeitos transformados em objetos; entretanto, para reconhecer o sujeito, é necessário eliminar o objeto. Ao ignorar toda a subjetividade do sujeito, para que perguntar o que ele pensa ou acredita? Posso generalizar de antemão. E quando se faz uma pergunta nestas circunstâncias, já se sabe a resposta: uma noção positivista.

 

Devem desejar o que tenho porque este é o certo. Entretanto, não são dignos de tê-lo. O processo civilizador consiste na substituição da violência aberta pelo controle de normas comportamentais, ou seja, a disciplina e adestramento. É um túnel sem fim porque se traduz simplesmente em: para que você não roube meu PlayStation, te ensinarei regras de comportamento pautadas em valores que eu possuo pregadores exatamente do desejo pelo PlayStation. É por isso que a pobreza, por si só, não possui vínculo algum com a violência. Esta se manifesta mais no desejo. E essa mistura entre pessoas diferentes é um “risco”, a menos que seja regularizada e controlada. Daí o afastamento.

 

O cinturão vermelho na periferia parisiense onde os três jovens outsider residem tem seu nome num antigo conglomerado de comunistas. Ironicamente, agora estão isolados, “trancados do lado de fora”, incapazes de adentrar o glamour da contemporaneidade do capitalismo. O isolamento social produz segregação residencial. Logo, a rede de relações sociais é menor. A estrutura de oportunidades do indivíduo depende de sua sociabilidade e obtenção de recursos, para transformá-los em ativos. A falta de vínculos não gera somente a submissão do mais fraco diante o mais forte, na qual a “escória” oprimida tentaria subsistir. É além. Enquanto o oprimido jaz na base da pirâmide social, a exclusão social processa a des-filiação do indivíduo. Ele sequer é um oprimido da hierarquia. Sequer faz parte desta, é um “inútil para o mundo”. O inútil decorre da concentração e acumulação de desvantagens em determinados setores da sociedade. Não se trata de segmentação—processo de redução de oportunidades de interação de grupos ou categorias sociais distantes—mas de segregação. Não é mais o “exercito de capital de reserva” marxista, é mais grave. Não há função para estes indivíduos. Ou seja, refere-se aos processos de polarização e endurecimento das distâncias sociais. A hegemonia, aliás, é um consentimento ativo: não se impõe, convence.

A redução progressiva da sociabilidade informal entre diferentes grupos sociais, das quais um se tornará “inútil”. É realmente “inútil”? Por quais motivos? São vários: Necessidade de elevação constante dos limites de qualificação para integrar o mercado formal devido às aceleradas inovações tecnológicas e necessidades de produtividade e competição em nível mundial. A estagnação da classificação se dá, entre demais fatores como o residencial e a educação, pela própria divisão do trabalho. A segmentação diminui a interação social entre trabalhadores com diferentes graus de qualificação. Não é possível demonstrar algum talento inato ou aprender pela observação, pois não há chance para isso. Contudo, isso não afeta somente os pobres. Também afeta classes superiores, cujo resultado é uma sistemática piora a todos. Existe também a drástica desvalorização das habilidades e competências já adquiridas (antigamente Vovô servia pra ensinar algumas sabedorias de vida. Agora, se ele mal consegue acessar e-mail, é um imprestável descartável).

 

Ufa! Dá pra entender os humanistas, não? É cru-el. O problema é que é humano e não sei se é utópico acreditar que possa acontecer de outra maneira. Hubert, no ano de 1995, possui uma televisão de vinte e nove polegadas em sua casa. Os prédios não são caídos: para padrões brasileiros, seriam dignos de classe-média. É complicadíssimo determinar se a reivindicação é necessária ou exagerada. Inclusive porque muita dessa carência francesa não é meramente econômica. Adquirimos a noção do individualismo negativo: os “inúteis” para o mundo. Faltam referências, a carência é total. Faltam considerações, segurança, bens garantidos e vínculos estáveis.

 

Bem, vamos para a parte mais legal. René Girard e a gênese da violência humana! Talvez isso deixe mais claro o que tento dizer: pode ser injusto, mas há como ser de outra maneira?

Não existe relação humana sem objetos. É o mundano o espaço de troca entre homens por excelência. Em Violência e o Sagrado temos a teoria do desejo mimético (de desejar aquilo que o vizinho tem) aplicada nas mais variadas construções sociais e a lógica do sacrifício humano.  Há um duplo aspecto em vítimas expiatórias: são simultaneamente sagrados e criminosos (todo mundo aqui conhece o drama que fazem na morte de um traficante ou ditador, não? Deseja-se a morte do infeliz para depois sentir arrependimento). O bode expiatório é a válvula de escape dos ímpetos violentos acumulados no prelúdio do conflito iminente. Em geral, quem é o infeliz? O indesejável. Portanto, não se trata de um inútil para o mundo. Ele tem, sim, uma utilidade. É trágica, mas, repito, não conheço sociedade excetuando-se as de lógica totêmicas sem bodes expiatórios. O morador da banlieu ou favelado é a vítima substitutiva, sobre ela é desejado todo o ódio e sede de violência para aliviar e livrar a sociedade dos possíveis conflitos.

 

Uma sociedade está sempre sujeita a uma escalada de violência devido ao círculo vicioso de represálias, como já foi observado por etnólogos em sociedades primitivas. O surgimento de uma violência incontrolável no interior de uma sociedade ocorre normalmente nos momentos da crise sacrificial, ou seja, quando os sacrifícios rituais já não mais atuam eficientemente como válvula de escape dos impulsos violentos. Não lembro a terminologia precisa disto em economia, algo como “utilidade marginal”. É quando o remédio de emagrecer pára de dar efeito e você volta a engordar a menos que tome uma atitude nova em sua vida, provocando uma reestruturação do habitus. Talvez seja melhor explicar de outro modo: há uma exigência popular por um novo centro esportivo. O governo cede. Durante algum tempo os moradores estão felizes até este centro se banalizar e deixar de ser o foco de interesse. Surge um novo desejo. Se ninguém se manifestar, não haverá nada. O indivíduo que se manifestar é a vítima do sacrifício para gerar uma mudança.

 

Os ritos sacrificiais bem como os mitos que os narram simbolicamente representam a forma de uma sociedade reviver o seu acontecimento fundador, o sacrifício não mais ritual, mas real e espontâneo de uma vítima expiatória. Aqui insere-se a teoria do desejo mimético. Conforme nos conta Girard, o desejo mimético (o desejo de ter o bem do outro) é inerente à condição humana. Antes de racionalizar como devo agir diante uma situação, a lógica é espionar meu vizinho para ver como ele lida diante o mesmo fenômeno. Porém, a culpa não é do Outro, né? Seria fácil demais, como fazem filmes de teoria da conspiração, denunciar o Sistema como se o delator deste fosse isento de participação. Para que qualquer objeto meu tenha algum valor e significado denunciando meu próprio status, é necessário que outros o desejem.

 

Os homens desejam o bem e o ser do próximo invariavelmente, o que terminará por gerar a rivalidade mimética. O detentor do bem quererá defendê-lo mas, ao mesmo tempo, estimulará o desejo do outro pois o fato de o seu bem ser também desejado por outrem potencializa o valor do mesmo. Quando um irromper com um gesto violento o outro imediatamente revidará também por impulso mimético e assim se iniciará um rosário interminável de represálias que somente terminará com o sacrifício de uma vítima expiatória que trará de volta a paz à sociedade.

 

Nem mesmo a Terra das Brincadeiras, onde vivem os Ursinhos Carinhosos, está isenta disso. Para Girard, toda sociedade primitiva em seus primórdios experimentou o evento de uma crise de violência generalizada que ameaçava a sua própria existência e que findou com o sacrifício de uma vítima escolhida arbitrariamente, sobre a qual foram despejados todos os ódios e desejos de vingança, restaurando-se a paz social e fundando-se a própria sociedade politicamente organizada. Talvez o que incomode Vincent, Saïd e Hubert é a racionalização da função do “indesejável”. O nascimento é arbitrário: não se escolhe nascer príncipe ou mendigo. Entretanto, uma vez no mundo, a função que devem desempenhar como “indesejáveis” é bem nítida. A arma nas mãos é apenas o gatilho para cumprirem o rito sacrificial. Lembrando: se ninguém morresse em banlieus e favelas, haveria sequer um incômodo por parte da sociedade mais ampla com estas regiões?

 

Os mitos narrariam figuradamente os eventos que culminam no sacrifício, e dentre os mitos, René Girard inclui não apenas as narrativas mitológicas, mas a tragédia grega e mesmo o Antigo Testamento. Nestes textos, há uma espécie de descrição figurada parcial ou total da rivalidade mimética, da escalada de violência e do sacrifício de vítimas expiatórias. O cinema opera com o onírico, o imaginário. Há algo de mitológico nele e, assim como mitos indígenas, filmes da estirpe de Tropa de Elite 2 e La Haine desvendam o sentido oculto de muitos dos textos das culturas primitivas e antigas: eles representam simbolicamente os horríveis eventos fundadores da sociedade que terminam no sacrifício da vítima expiatória. Mas que infernos a morte de Vincent tanto representa, carambolas? A Revolução Francesa, talvez? A emancipação política do camponês antes de se tornar proletário? As guerras de colonização de um povo sobre o outro? Não posso especificar.

 

É válido lembrar aqui o exemplo do pharmakós grego (pois é, o bode expiatório que serve para aliviar as tensões sociais é o que hoje dá nome para “farmácia”. Neste exato sentido de remédio para curar. Há quem diga que não era exatamente executado, mas certamente o infeliz era condenado, no mínimo, ao ostracismo!), um pária que era mantido cativo para ser sacrificado em épocas de grandes crises e catástrofes—mesmo naturais—, como se sua morte pudesse eliminar a crise ou a catástrofe, tal como no acontecimento fundador da sociedade, o sacrifício da primeira vítima expiatória eliminou uma grave crise de violência.  O estabelecimento de uma nova Ordem, lembrando as resenhas que redigi anteriormente, transpassa uma recolocação entre o Totem e o Tabu. Quando o Escravo derruba o Rei, suas posições revezam. É claro que este tipo de análise pressupõe a História como cíclica, não é bem assim. Não obstante, não me estenderei nesse viés. Basta assinalar que uma reprodução da estrutura gera sua transformação. E mais importante! Se você hoje é Rei, nada garante que um dia o Escravo possa lhe usurpar. Neste caso, o Escravo será você! Por isso a relação de posse é delicada. Elas devem ser cobiçadas para adquirirem valor, mas é extremamente perigoso não afastar aqueles que a desejam da real possibilidade de efetivamente a usurparem. Para impedir que isso aconteça, Vincent, Saïd e Hubert são constantemente relembrados de suas posições como párias, o que abala a própria auto-estima e crença na legimitidade destas posses. A ver como o estigma é reproduzido numa cena com uma jornalista indagando se sabiam algo sobre os conflitos, como se bastasse morar no bairro para ser um de seus residentes “problemáticos”.

 

O rito serve assim para manter viva a memória do acontecimento fundador e para servir como um despejo de impulsos violentos. Quando o rito já não mais desempenha a sua função, surge a crise sacrificial: muito bem representada pelo mito de Caim e Abel. Abel sacrifica os primogênitos de seu rebanho, portanto tem uma válvula de escape. Caim já não a possui, por isso não contém seus impulsos violentos e, movido pelo desejo mimético ou inveja pelo amor que Deus tem pelo seu irmão, mata Abel.

Não apenas os ritos e os mitos são podem ser interpretados mediante teorias do desejo mimético e do sacrifício, mas inúmeros costumes primitivos como o uso de máscaras, a repulsa ao sangue menstrual e aos gêmeos, e muitas das proibições ou regras de direito primitivas. Isto serve para compreender problemas do nosso próprio tempo tais como o racismo, o anti-semitismo ou o aborto. Afinal, a perseguição por motivos de raça ou a luta pela liberação do aborto não seriam formas de ressuscitar o velho mecanismo sacrificial, elegendo novas vítimas expiatórias de nossos ódios intestinos?

 

OK! Então a violência é necessária para o próprio mito fundador de uma civilização, totem e tabu simultaneamente. Isso quer dizer que não devo fazer nada? Filosoficamente, talvez sim. Por outro lado, em um contexto mais pragmático, essa opção não me é dada. A burocracia existe para simultaneamente retificar e contornar os conflitos sociais. No caso do Brasil, a forma de distribuição de direitos sempre foi condicionada pelo mercado de trabalho e sindicatos. Duas lógicas operam correlacionadas, a dizer, quem está fora do mercado de trabalho não tem acesso aos direitos e que, para um bom governo, é necessário o pagamento de todos por bens usufruídos somente por alguns. Eventualmente a noção de que é legítimo taxar sobre a propriedade privada para assim garantir certos bens àqueles que não possuem “nada” se propagou, retificando o ideal igualitário.

 

Antes preciso salientar algo que talvez não tenha ficado tão claro no texto anterior! A miséria do mundo é gerada pelo Capitalismo e pela Indústria, é verdade. Contudo, estes só puderam desenvolver graças aos ideais Iluministas. Se a premissa de que os homens nascem iguais e livres não existir, os Fashion Weeks não serviriam para nada! As idolatrias dos deuses e a das celebridades são comparáveis em grau, contudo há uma nítida diferença no gênero! O indivíduo que idolatra Zeus ou Hera sabe que jamais será um deus, quando muito clama por benevolência. O indivíduo que idolatra Ronaldinhos ou Xuxa o faz com a intenção subliminar de um dia tornar-ser um deles. Se existe uma lei pregando que você, nascido plebeu, não poderá jamais vestir os trajes de um nobre mesmo que porventura reúna condições materiais para adquirir tais trajes, o catálogo de moda não serve para nada! Se existe uma lei te obrigando a andar com a cabeça abaixada atrás de um nobre, mesmo que os trajes lhe fossem acessíveis, permaneceriam sem grande valor! Somente com a ideia de que todos podem adquirir os produtos que bem entender sem receio de discriminação por casta ou qualquer qualidade irrefutável, inerente, é que a Indústria e o Capitalismo podem prosperar. E não é à toa que seu impulso primordial se deu na indústria têxtil! Também no espelho! Isso mesmo, espelho! A imagem refletida do que você potencialmente pode ser ao experimentar uma roupa no shopping!

 

Ainda assim, existe uma geometria variável: o direito em suas variantes (direitos civis, direitos políticos, direito sociais etc) depende do contexto. Na Era Vargas, a expansão dos direitos sociais foi concomitante à diminuição dos outros. Porém, Brasil não é França. O Estado nasceu forte no Brasil, com a noção do cidadão como súdito. Na França, os cidadãos “empurram” a cidadania na marra. A construção do cívico é “de baixo para cima”. Ou era, né? Se ainda fosse assim, não haveria Saïd, Vicent e Huberts perdidos por aí…

 

A sociedade privatiza o Estado. O Estado “fagocita” a sociedade. Ademais, com a queda do muro de Berlim, a crise do Estado do Bem-Estar Social se agravou. Pessoalmente não gosto desses termos escatológicos, proféticos de fim de mundo. Mas é a história oficial, então vamos lá: o Neoliberalismo conduz ao debate entre o ético e o eficaz. Os critérios de justiça e responsabilidade estatal entram em contraposição aos critérios de eficiência. Há, claro, um imaginário coletivo, um savoir vivre de adequação aos novos tempos, um “discurso gramatical”. Evidentemente só é ouvido quem consegue se ajustar à gramática e o repertório do contexto. Dane-se se você quer ser artista se o mundo não se interessa mais por isso, ainda que, em sua juventude, você tenha sido ensinado a valorizar a Arte. Essa rápida transitoriedade pós-moderna não permite com que todos se ajustem, evidentemente. A transitoriedade é justificada pelo discurso da eficiência. É isto que vai melhorar e pronto! A faca é de dois gumes. Se não mudar, piora. Se mudar, nem todos se adaptam e a exclusão aumenta. Piora de qualquer modo. Evidentemente, qualquer hegemonia estatal depende, para ter legitimidade, de dois fatores: coerção e consentimento. Nunca é só um destes; é sempre uma dosagem entre os dois termos.

 

VOCÊ FAZ PARTE DO SISTEMA E ESTÁ DE ACORDO COM ELE, QUEIRA ISSO OU NÃO! Humf! Pronto! Falei! Odeio filme de conspiração por transmitirem essa ideia de isenção de culpabilidade do indivíduo, ou então de inocência, como a ciência de sua responsabilidade pudesse lhe trazer redenção. Para ele, claro. Não para os Outros.

 

Um Sistema nada mais é que um “Universo cognitivo simbólico”. Qualquer movimento social ou protesto de ONG possui uma dupla face. São expressivas e disruptivas e integrativas e coorporativas. A ruptura também é integrativa. As duas faces da mesma moeda não são contraditórias. Afinal, se quero ir contra o Sistema, ao realizar um protesto necessariamente estabeleço um diálogo com este. E através do diálogo o Sistema permanece. O poder só é legitimado com o mínimo de consentimento. Não há como ir totalmente contra um Sistema porque não sou um ser desassociado deste: faço parte dele tanto quanto àqueles que condeno.

 

Habitantes de banlieus são pessoas de diferentes níveis educacionais, ocupações etc: não se trata de algo homogêneo. São tão estratificados entre si e seguem igualmente a lógica da “sociedade”. São capitalistas. O que os diferencia de “nós”, os “estabelecidos” em relação aos “outsiders” é somente a percepção social. Certas regiões periféricas, como todos devem saber, por vezes são mais ricas que algumas regiões dos “bairros” clássicos. Dentro das periferias os moradores agem exatamente como fazem os indivíduos da sociedade “estabelecida”, travando relações capitalistas. Não há uma lógica igualitária poética de comunidade. É a mesma lógica do público. Um gueto é tão somente um arranjo particular plenamente inserido na generalidade capitalista. Também nestes locais a monopolização dos recursos é fundamental para a reprodução das atividades econômicas. Vive-se e reproduz-se a partir da própria vulnerabilidade. Uma das piores situações que poderia acontecer para tais segmentos seria a democratização igualitária dos recursos, implicando a quebra da hierarquia local (leia-se recursos por específicas ajudas de ONGs, instituições de caridade etc).

 

A perspectiva de Anthony Giddens seria uma terceira via, nem Direita neo-liberal, nem Esquerda comunista. Para ele, não há pós-modernidade, mas uma radicalização da modernidade. Esta ocorreria quando o homem reflete e pensa sobre sua condição de vida sociologicamente. Refletindo sobre si mesmo, a sociedade pensa na própria diante os ditos da sociologia—uma dupla hermenêutica. Tal como um movimento de hélice, sociedade e sociologia se auto-definem. Entretanto, nem sempre acontece desse moldo. Quando não se conhecem as duas faces, não é possível compreender a “realidade”. A sociedade marcha num ritmo diferente da sociologia, que fica para trás. Portanto, por mais que ideólogos acreditem na revolução por vir do povo, da soberania popular etc…

 

É ilusão! Não é uma surpresa constatar que habitantes de guetos não sejam revolucionários. Na realidade, nunca o foram. Não é de suas constituições. Os pressupostos dos militantes diferem do que realmente acontece. O que se constata, repito, é a “integração” e a “negociação” (há exceções; claro). Por mais comum que seja a aspiração para mudar de vida, o entrelaçamento cultural rege para o estabelecimento de uma regularidade normativa. Os valores, hábitos, gostos, interesses e aspirações, ou seja, as aspirações, variam mais ou menos condicionadas pela forma e meio de morar. A visão de um mundo de um indivíduo o faz aspirar um salário maior a fim de ampliar o consumo, não modificá-lo. Aqui a coisa complica nos limites da tolerância.

 

Quem lembra da cena onde os três jovens entram num vernissage e flertam com duas meninas (saliento o fato de uma delas ser negra)? Eis uma peculiaridade francesa. Quando as discrepâncias entre classes são muito gritantes, como no Brasil, é visível de antemão quem é e quem não é “da área”. O conflito oriundo da segregação não chega a ocorrer por ser impedido de antemão. Quando se dá, sobretudo, por diferenças étnicas, como nos Estados Unidos, a materialização do estigma é ainda mais visível. Agora, notemos como dos três jovens, o mais revoltado é Vicent. O branco! Não é o franco-árabe nem o negro. Por que? Porque para ele o motivo de sua segregação é mais sutil, o que, ao ser efetivada, a torna mais gritante. Não é por classe ou por etnia. É simplesmente por ele não se enquadrar na Ordem. Enquanto calados, são aceitos no mundo que os tranca do lado de fora. Basta abrir a boca para…

 

Quando a descriminação não é pelo “Ter”, se torna pelo “Ser”. Mais crua e violenta, diria. O diálogo é outro. A sociabilidade é diferente. Vejamos: um vestido Versace no corpo da Dona Zulmira, a caixa do supermercado, é apenas um vestido preto. Para que aqueles trapos de pano se tornem verdadeiramente Versace, sua forma é apenas metade do caminho. A outra metade depende do modo de quem o vestir! Se os ombros ficarão à mostra, ou se vai combinar com determinado tom de batom ou corte de cabelo, a cor da bolsa e o tamanho do salto. O jeito de andar e, portanto, movimentar o vestido. É isso que transformará o vestido inteiramente em um verdadeiro Versace. A coroa de um rei não se sustenta por muito tempo na cabeça de quem não sabe governar! Portanto, por mais economicamente igualitário que seja, por mais que dois indivíduos—um da periferia e outro do bairro tradicional—possam comprar o vestido Versace, apenas o derradeiro “sabe” vesti-lo. Isto é válido para bens não-materiais. Arte contemporânea é um desses. Todo mundo que entende um pouquinho de arte sabe que Arte contemporânea não tem definição, que não é para entender nada. E é hilário ver pessoas que não entendem nada filosofando sobre o assunto na tentativa de se passarem por entendidos. É mais ou menos isso que aconteceu com os três jovens no vernissage. Naturalmente o mais revoltado é o Vicent. Ele não tem válvula de escape, não pode alegar que foi injustiçado por sua etnia negra ou árabe. Na cabeça desse rapaz a pergunta que não quer calar é: mas o que foi que eu fiz? Por que não sou como eles? O que me faz diferente dessas pessoas?

 

Você não sabe vestir o vestido Versace adequadamente. Simples assim. E tem mais! Isto equivale dizer que a maneira como você veste o vestido é barbárie. Pois é, a política é a continuação da guerra por outros meios, rapaz. A violência, neste caso simbólica, é a ausência do conflito. O seu mal-estar advém de nascer numa região degradada num país que se diz com igualdade, fraternidade e liberdade para todos. Para Loïc Wacquant, é “uma Vingança da História”. Tais valores são facilmente aderidos pelos antigos povos conquistados, porém não são realizáveis na práxis. A rotulação como periférico é uma classificação. E qualquer classificação é uma desumanização, contrariando os próprios ideias que seduzem levas de imigrantes na esperança de viver a Utopia na Terra. Bem, uma utopia, precisamente, não tem topos, não tem lugar. Só resta, então, a arma na mão.

 

Guetos incorporam pela sociedade mais ampla a metáfora da guerra. São vistos como inimigos internos que ameaçam a existência da sociedade como um todo. Precisam ser derrotados sem contemplação, estão à margem da própria sociedade e por isso não são dignos de piedade. Este “mal a ser combatido” é para além dos casos isolados que podem porventura de fato provocar problemas. Engloba toda a população circundante. Outra vez o fenômeno é cíclico. Com o cotidiano violento, somos levados a pensar que só se adapta a viver neste lugar quem é essencialmente parte disto, tão degradado quanto. A convivência dos moradores com os indivíduos potencialmente problemáticos é interpretada como conivência. Forças estatais, seja o BOPE ou polícia francesa, alegam como numa “guerra” as baixas são naturais. A mecânica opera na premissa de que inimigos não têm direitos. Em guetos não há cidadãos a proteger. Obviamente isto não implica em matar deliberadamente; porém, se morrer…é um mal necessário.

 

O repertório dos Direitos Humanos contempla basicamente os direitos civis. O apelo aos direitos humanos é a defesa mínima à Vida. Aquele que apela tanto pelos Direitos Humanos significa que suas condições mínimas de vida estão ameaçadas. Talvez alguns destes realmente sejam criminosos. Por outro lado, os que condenam os Direitos Humanos o fazem porque já os possuem, não?

 

Ninguém é santo ou demônio. Creio que deva existir uma divisão da responsabilidade pela violência uma vez que não é possível apontar um culpado palpável deste ciclo vicioso. Ou melhor, não há realmente um culpado se isto faz parte da condição humana. Realmente, prefiro dedicar-me, a partir de agora, em defender o direito das abelhas de produzirem o mel. Os gregos podem me chamar de “idiots”, aquele que não participa da bios política.

 

Herdeiro dos Intocáveis da Índia, dos vikings idosos, das mães com filhos mortos do sudoeste americano, dos judeus e dos ciganos (povo originário da região da “Boêmia”. Bem sugestivo, não? O que não se inscreve na Ordem tem lá sua “pureza”, mas é um “perigo”, para Mary Douglas), Vicent não tem perspectiva de futuro brilhante. A arma na mão pode lhe soar como um efemero grito oco de esperança. Mas somente por pouco tempo. Ele é o bode expiatório de um rito sacrificial contemporâneo.

Ele e este carinha aqui debaixo deveriam lembrar que o importante não é a queda, mas a aterrisagem.

Por: Eduardo Cidade.

A Filosofia do Absurdo versus o Absurdo Cinematográfico

Kafka e Camus instituíram um sóbrio buraco no solo terrestre quando lançaram as ideias sobre o Absurdo (filosófico), que consiste em um processo de estranhamento do mundo tendo em vista a falta de sentido da vida. Com efeito, a vida não ter sentido faz mudar o questionamento “de onde viemos” para “afinal, o que diabos estamos fazendo aqui?”.

É na exigência de familiaridade com o universo que o homem se pauta, exatamente por saber que este mundo não o pertence. Ainda que compreender o mundo signifique reduzi-lo ao humano, claro. Não há outro meio de vislumbrar o universo se não for por este olhar, ao menos quando se é Homo sapiens. Este é o drama humano, para a filosofia do Absurdo de Camus.

No cinema, cuja estrutura se dá através do imaginário, fabrica-se dramas e romances em cadeias. A nostalgia humana que compõe seu drama de ser animal consciente é revertida por uma ordenação de sonhos, que foi levada a cabo através da subversão quando a arte cinematográfica abandonou a grande tradição do heroísmo enquanto dotado de sacrifícios. O heroi grego, que vive uma vida de provações, apaziguamentos e reconciliações com sua existência, não existe mais. Pra não ser tão radical, não é mais cotidianamente retratado na arte cinematográfica. Obviamente que os clássicos da literatura ainda são preservados no cinema. Imagine um filme sobre Édipo-Rei de Sófocles onde no fim ele se reconcilia plenamente com seu destino? Ou que não mata seu pai e nem fura seus olhos quando se descobre filho de Jocasta? Nem tanta subversão, não é? O primeiro diretor de cinema que fizer isso com um clássico da literatura escreverá seu próprio nome na cruz.

O cinema, como dizia, subverteu a ordem natural dos fatores. Para apaziguar o caminho natural do absurdo de viver uma vida totalmente sem sentido, a arte (que dizem que imita a vida, será?) instituiu o filme “Happy End” (nome dado por Edgar Morin). Segundo Morin, o “Happy End” não busca uma reparação, como nos clássicos dos herois do passado, mas a irrupção da felicidade. Ou seja, o filme mostra desde a felicidade total ou a esperança de felicidade, pois é necessário que haja algum sentido nisso tudo. É necessário? Necessário pra quem?

O heroi da atualidade não morre, não fracassa, não sofre. Faz mil e uma acrobacias com tom quase cômico (que diverge solenemente do tom trágico de outrora) e obtém sucesso e êxito não só no final, mas em todo o filme, pra tentar provar que a felicidade é possível. “E foram felizes para sempre”. A arte imita a vida? Repito.

Talvez para entretenimento, que por vezes se pauta no divertimento ilusório, o cinema “Happy End” tenha alguma importância até mesmo terapêutica. Mas é preciso que se diga que tal arte não responde ao absurdo da vida e não aplaca a estranha familiaridade do verbo existir.

Por: Guerra de Pipoca.

Provocações – Sergio Ajzenberg

Vi esse vídeo e não me aprofundei demais em meus pensamentos. Trago para cá para pensarmos juntos. O vídeo não é propriamente sobre cinema, porém, é possível articularmos algo pensando nesta arte.

“Você não gostaria, por exemplo, de repente, idolatrar a dúvida?”

- Abujamra -

Questão pertinente pro assunto proposto.

Cinema também é marketing cultural? Em que ponto marketing cultural atinge a arte cinematográfica?

Ainda que a “plataforma de comunicação” tenha mudado muito, o paladar humano é diversificado demais. É difícil responder ao que o ser humano tem fome, posto que comemos de tudo. É difícil, no cinema, prever que o universo 3D vai abafar a vanguarda, por exemplo. Pois calcular tal incerteza é perder tempo.

Sobre os assuntos abordados no cinema ou em qualquer outra arte são sempre aqueles que tangem o nosso próprio universo. Não dá pra fugir dessa esfera humana. Então, de alguma maneira, por mais que a moda se diversifique, nada envelhece plenamente. Se hoje, como Ajzenberg apontou, a moda é o meio ambiente, isso não necessariamente modificará temáticas cinematográficas. É possível que a maquinaria se modifique bem mais rápido do que o universo consciente que a moda propõe.

Gosto muito da parte “vozes da rua”. rsrsrs

Marketing cultural ou marketing financeiro? Será que o cinema alternativo, esse muitas vezes visto como trash, caseiro, ou esse que não tem muita publicidade, propaganda, está fadado à decadência total apenas porque não tangencia a margem do rio que vislumbra bem mais o espetáculo e o lucro excessivo?

Por: Guerra de Pipoca.

O Império das Raves

Documentário feito e produzido por Raves ponto com ponto br.

Já fui muito em raves e trances, sobretudo, no tempo em que estas estavam saindo (ou entrando) da marginalização citada no documentário. Estas festas são fenômenos com caráter de atitude, não devem ser vistas com juízo de valor do “melhor ou pior” tão característico das classificações que estamos acostumados. No entanto, essa característica é refletida no fenômeno enquanto atitude. Paradoxal, certamente.

Com a fetichização da diferença, que assenta na ideia de que, para reparar uma desigualdade, convém valorizar uma diferença em relação a outra diferença, todo mundo quer ter seu espaço no solo do individualismo. Isto é, se todos querem, logo, deixou de ter um caráter plenamente individual. Outro paradoxo, sem dúvida.

Acontece que, se é errôneo valorizar o universalismo em nome da recusa da diferença, então, é errôneo tanto quanto rejeitar o universalismo em nome da arbitrariedade da diferença.

Roudinesco, historiadora e psicanalista francesa, há muito já evocava aos quatro ventos o quanto o sujeito tem vivido num tempo em que as manifestações repousam em máscaras diversas. Assim, as expressões se tornam isoladas, exageradas indo de encontro aos limites. De acordo com ela, “a violência da calmaria, às vezes, é mais temível do que a travessia das tempestades”. (Seria o que chamamos de “Tempo Emo”?). Nas festas raves, percebe-se excesso de euforia, de “amizade”, de sociabilidade que destrói as diferenças, as classes, os problemas, todo mundo “é” igual momentaneamente. Todos querem exorcizar suas “infelicidades” festejando a céu aberto.

A questão duvidosa é quando o exorcismo se dá pela via da droga ilícita. Será que ocasiona mesmo um “exorcismo” das “infelicidades” e infortúnios? Não quero generalizar, em absoluto, pois sei que muitos vão nestas festas para outros “etc e afins”. Mas, fico tentada a continuar pensando o que tantos corpos dançantes nos dizem neste ambiente festivo e isolado do urbanismo, porém repleto de urbanização. Eles não dizem apenas que festejam ao dilúvio  da existência, mas dizem também que desaba-fam…

Por: Guerra de Pipoca.

O Rito

O Rito – Ritten

Direção: Ingmar Bergman

Gênero: Drama

Suécia – 1969

Decidi dividir o assunto deste filme em duas resenhas. A primeira, falarei sobre o filme sob a perspectiva da arte, resgatando pertinentes características do cinema de Bergman. A segunda, que não sei exatamente quando estará escrita para apreciação de vocês, pretendo isolar a última cena, o ato final, e pensar sobre os ritos totêmicos e religiosos a partir desse exemplo dado no filme. Será, portanto, uma escrita de livre interpretação com o suporte investigativo-psicanalítico.

Sabemos que Bergman foi quem inaugurou, por assim dizer, o que chamamos de “cinema Cult”; um cinema que se pretende profundo. Não é inédito em arte cinematográfica, não se utiliza de técnicas surpreendentes, mas é inédito em colocar a Filosofia Existencialista e a Psicanálise em pauta. Sim, ele era um grande estudioso do assunto. Não se interessou em ser filósofo e muito menos, psicanalista, no entanto. Mas quis diferenciar sua arte, que é o que ele verdadeiramente sabia fazer, com conteúdos filosóficos. Não era pretensioso, se sabia no lugar de artista, porém, suas obras vão além da proposta de entretenimento. E isso é proposital! Nada em seu cinema sobra. Eu o admiro muito, exatamente por ter dado conta de tornar a arte cinematográfica um canal possível de se pensar a existência, e até mesmo se emocionar com a Metafísica.

Aqui poderemos pensar na importância do entretenimento e do Cinema Cult. Claro que a arte dá espaço pra ambos, embora cinema seja entretenimento. É preciso tomar muito cuidado em proporcionar um momento artístico que traga na pele e no osso algo profundo e filosófico sem que caia nas armadilhas do discurso vazio. Vemos isso na maioria dos filmes. Cinema pretensioso, arrogante, boçal e que não diz nada com nada além de ser muito chato! Porém, o “Cult” de Bergman é realmente diferenciado, tem substancialmente suporte para tal.

Suporte que se dá de maneira bem anterior à obra, pois Bergman é um diretor que trabalhou com uma trupe de atores fixos que funcionava como uma companhia de teatro. Ou seja, os atores de seus filmes são sempre os mesmos, é uma equipe. E que equipe… Grandes nomes como Ingrid Bergman, Liv Ullmann, Gunnar Bjornstrand, Ingrid Thulin, Erik Hell etc.

Este filme O Rito, produzido em 1969, faz parte da fase experimental do diretor. Não é um de seus filmes mais conhecidos e divulgados, mas faz parte de uma época em que Bergman se encontrava bastante inspirado. Época em que foi lançado a Trilogia do Silêncio. São eles: Através de um Espelho, Luz de Inverno e O Silêncio. Em algum momento pretendo falar sobre estas obras, também. (Já deixo a dica para quem quiser saber mais desse diretor).

O Rito é um filme em formato de peça teatral de difícil compreensão, onde as falas são sumariamente importantes e que denunciam a perturbação dos personagens e do ambiente. Inclusive, o ambiente é claustrofóbico, pois o foco narrativo enquadra os personagens e não o cenário. Personagens de perfil, de frente, deitado, em pé, sentado etc, essas são as variáveis. O grande lance é que o espectador não se sente sufocado, mas se torna atento ao que está por vir.  O objetivo dessa dinâmica se torna claro quando se sabe o momento de Bergman ao fazer esse filme: ele estava sofrendo perseguições políticas por causa de sua arte. Para ficar claro é preciso dispor de uma pequena sinopse da obra:

A história se passa em algum país que não é dito. Três atores, Hans Wikelman (Gunnar Bjornstrand), sua problemática esposa Thea Von Ritt (Ingrid Thulin) e Sebastian Fisher ( o maravilhoso e impecável Anders Ek), foram acusados de fazer um espetáculo que conteria cenas de indecência (questionar o que é indecente para essa época é irrelevante). Encaminhados para um Juiz (Erik Hell) para serem investigados.

Torna-se claro durante o decorrer do filme que Bergman critica a censura! Critica o conflito estabelecido entre a arte e a ordem social. Critica os pequenos burgueses que se prendem no ato de julgar a liberdade criativa da arte. Quem é o juiz? Quem são os atores?

Os atores não dão conta de explicar pro juiz o que eles fazem e por que são indecentes. Claro! Arte não se explica embora seja explicável. Paradoxo necessário para sua composição. Bergman se encontra neste lugar de acusado e fez desse filme uma excelente oportunidade de se pensar sobre o papel social da arte. O que esperar da arte? Quais respostas conclusivas a arte pode oferecer? E nisso, os atores rondam de cá, de lá e não sabem responder à demanda da inquisição. Não são quaisquer atores, obviamente. Perturbados ou artistas? Aqui valeria a pena diagnosticá-los por perversos, histéricos, neuróticos etc?

O filme se desenrola com os interrogatórios, a busca incessante por responder o irrespondível. Fisher é brutal! O juiz tem um problema de sudorese e Sebastian vai em sua jugular, não exatamente com essas palavras, mas o sentido é: Quem é você para falar de limpeza e decência se escorre e derrete em suor? Você, visivelmente imundo, aponta o dedo pra mim, por que? Maravilhosa metáfora! Qual o papel dos juízes? Onde eles se encontram? Em todas as partes… Tem sempre alguém para apontar dedos…

Chegamos ao ato final: o ritual. Embora todo o filme o seja. Estabelece-se como um rito. Aqui deixarei para me aprofundar na segunda resenha que farei sobre a obra.

Por agora, concluo que a sociedade se apresenta como um inferno de salvadores. Não faltam pessoas que sabem mais do outro de que de si mesmos. A maioria se esforça por remediar a vida alheia. A calçada do mundo sobra de boa-fé. E dizem que isto se configura em um vício nobre…

O filme termina – e isso não é spoiler – com legendas que afirmam que nunca mais aqueles atores apresentaram um espetáculo naquele tal país indefinido… Como terminar de outra maneira?

Por: Guerra de Pipoca.

Uma Prévia sobre a Moralidade (pós) Moderna

Por incrível que pareça o embrulho no estômago quando os olhos se deparam com cenas deploráveis é um fenômeno recente no mundo dos homens. Não foi em toda sua história que a crueldade arruinava o paladar e nem tornava repulsiva a vista sob maus tratos. Houve um tempo, a História nos conta, que as torturas e execuções eram contempladas com grande público que ovacionava os carrascos perante suas vítimas. Vítimas? Neste tempo não se falava em vítimas; os castigos eram impostos pela raiva que se sentia diante do efeito do dano causado e não pela noção de responsabilidade que temos hoje.

Houve um tempo, afirma Nietzsche, em que “fazer sofrer era altamente gratificante”. A história da Humanidade foi banhada a sangue e a Terra nunca perdeu este odor de mortes sangrentas. E nem vai perder, ainda que hoje o tempo contemple a hipocrisia da bondade e inocência. Os crimes eram chamados de crimes e quando assim eram nomeados, pois a noção de “violência” veio depois. A ideia de algo violento é uma concepção adquirida pelos animais domésticos, ou seja, nós.

As zombarias, as torturas, as arenas, a política do Pão & Circo, nos ensinam que teve um tempo em que sem crueldade não havia festividade. Tempo, segundo Nietzsche, em que o homem não tinha vergonha diante do homem. Não se falava em culpas enquanto sentimentos que pesavam as consciências, porque o homem não tinha vergonha de seus instintos. A nobreza e o Clero não se inibiam em fazer sofrer.  A censura somada à repugnância, hipótese assertiva, não contam muitos anos de vida. Nietzsche chega a dizer, e concordo com ele, que talvez a dor não doesse tanto como hoje. Porque a noção de sofrimento também sofreu modificações. Fazer sofrer fisicamente e sob tortura é diferente de sofrer demasiadamente por ser humano, como vemos hoje no mundo dos Emos, dos cordeiros e dos bovinos ruminantes.

A consciência do homem pós-moderno é mais delicada em alguns aspectos do que outrora. Ponho esse adjetivo e posso receber represálias por isso, mas ainda assim deixo esse termo sem aspas porque me refiro à consciência apenas. No Império do Politicamente Correto, por menor que seja a ação, a delicada consciência  apita em sinal de que algo pode ruir. Agora, algo que faço questão de ressaltar: não digo que este momento é melhor ou pior do que outrora em termos de organização social. Aponto as diferenças que são pautadas num mundo atual em que tudo precisa ser justificado e justificável. Justiça é uma palavra usada por metro quadrado. É sabido que nem tudo que é norma, é justo.

A “revolta” com o excesso de existencialismo emotivo e doloridíssimo (triscou doeu) não é pelo sofrimento, mas pela total falta de sentido. O que tanto dói, afinal? Dói ser Ser Humano. Tremenda babaquice, não? O globo está tomado pelo sentimento dolorido de ser quem se é. Se não bastasse a lista de “pecados” que já existe, agora foi acrescentado mais um: é pecado se sentir e ser homem, animal humano. Tudo causa nojo, repulsa, asco e derivados.

O xarope do Caetano Veloso já dizia que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Hoje em dia as pessoas só se preocupam com a dor e só sabem dela. A delícia é reservada pra poucos. Daí que os personagens mais atrozes e sanguinários do cinema são postos na telona cheio de dores, arrependimentos, sentimentos de culpa. A consciência dos monstros simplesmente pesou. Ridículo, não? É patético (e estou poupando adjetivos) supor ao monstro uma personalidade humana, vale ressaltar, moderna. Os seres amorais da literatura criativa não festejam mais aos espetáculos que cometiam com suas presas, padecem do mal irremediável de sentir pena de sua comida. Se não bastasse, se flagelam em nome do livre arbítrio por serem quem são. A espontaneidade foi pro brejo. E se isso ainda não fosse o suficiente, a maioria das pessoas que vão ao cinema sente nojo ao se deparar com cenas em que os monstros e até mesmo os humanos demonstram o que são – talvez não de direito ao que se refere ao social e suas leis– mas de fato.

Por: Guerra de Pipoca.

Anna Karenina

Anna Karenina

Direção: Bernard Rose

Gênero: Drama

EUA – Rússia – 1997

Eis um filme dúbio; não sei se recomendo. Como assim, não recomendar Tolstoi? Entre a multidão prolifera de vampiros emos e comédias românticas, Anna Karenina é oposto do “E viveram felizes para sempre”. O magistral da obra é a subversão da ideologia de que, em nome do amor, é válido abdicar de qualquer rédea. Afinal, estamos diante um dos suicídios mais célebres da literatura! Para compreender a pertinência desta obra, enfatizo que foi publicada cerca de uma década antes do famoso estudo sociológico O Suicídio, do Émile Durkheim (é ótimo andar com esse livro na rua. Preste atenção no modo como as pessoas te encaram, com uma certa piedade. Sempre acham que você está deprimido querendo se matar, nunca confabulam a hipótese de que esteja simplesmente estudando Sociologia). Tudo bem! Elogiar Tolstoi é pedante. Não obstante, como ignorar uma das mais notáveis introduções?

“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”.

De modo bem simples! O livro não começa assim! Antes desse início, jaz ainda “A vingança é minha. Eu revidarei”. A Wiképedia errou! Infelizmente os erros são inevitáveis quando se quer resumir algo, não dá para selecionar a esmo o que destacar. Anna Karenina possui cerca de oitocentas páginas, qualquer filme necessariamente descartaria o essencial da narrativa: sua lentidão. É importante frisar que essa lentidão confere o aspecto melancólico da obra; apreendemos com ela o tédio dos personagens diante suas espectativas—não o tédio do leitor!

Não obstante, é possível destacar nessa relação entre cinema e literatura algo além do estilo da linguagem. A adaptação cinematográfica possui menos de duas horas. Sequer meia-hora de filme e voilá: Anna já está pelada na cama com Vronsky. O livro requer duzentas páginas…

Não se trata em comparar a capacidade superior ou inferior de uma Arte sobre a outra no tocante profundidade, mas sobretudo na prioridade atribuída à narração. Por que Avatar e Titanic podem durar mais de três horas enquanto Anna Karenina é limitado em uma hora e meia? Aqui jaz o brilhantismo de Tolstoi em seguir na contramão de seu tempo, ao abusar da monotonia enquanto narra a trajetória de um suicídio anômico-egoísta, típico das sociedades contemporâneas. O Cinema, por mais Arte que seja, depende da Indústria. E a Indústria limita o devaneio da Arte pelo pressuposto de que ela precisa agradar o máximo de pessoas possível pelo maior denominador comum. Já em 1828 um poema narra o espírito da época:

“As mágicas colunas desses palácios

mostram ao amador, por todos os lados,

nos objetos que expõem seus portais:

a indústria, rival das artes mortais”.

Pode parecer surreal, mas o poema acima descreve o protótipo do shopping center! A partir deste momento Edgar Allan Poe e Charles Baudelaire descreveram a modernidade e desta advém o peculiar sentimento de solidão em plena multidão. O olhar panorâmico e o vislumbre da síntese substituem a profundidade. A crônica é mais prática que o romance. Em tempos industriais, não há como desperdiçar horas lendo oitocentas páginas, ainda por cima se já sabemos o final: Anna Karenina vai se suicidar atirando-se nos trilhos do trem. Isso não é spoiler: afinal, não há spoiler em clássicos literários! Partimos do pressuposto que todo mundo leu todos os grandes clássicos—é o básico do básico na acirrada competição dessa era de informação e suposta popularização conhecimento. O irônico é o resultado oposto. O Google serve para pincelar a trama. O filme narra alguns detalhes deixando escapar o essencial: a lenta degeneração psíquica de Anna causada pelo ostracismo social. Aliás, nem apenas isso. Os epítetos do livro sequer surgem no filme. Ao invés, temos Lêvin, numa cena inicial lunática, caindo num abismo, relatando seu mal-estar e correlacionando-o ao de Anna: os dois personagens mal se conhecem no romance!

Após a Comuna de Paris em 1870 até o início da Primeira Guerra Mundial, ou melhor, no caso da Rússia, até 1905 com o grande discurso de Trotsky, aflora o período histórico conhecido como Belle Époque. Anna Karenina é uma aristocrata da Rússia dos czares. Ela é bela, rica e admirada por seu charme e inteligência.

E incrivelmente infeliz! Para compreender melhor sua infelicidade, voltemos alguns passos na História. Duas cidades, Londres e Paris, marcarão definitivamente o estilo de vida de nosso tempo, seja no Brasil ou na Rússia.

Na época de Voltaire, ele idealizou Londres por suas virtudes; a citar, liberdade, comércio e arte. Tais virtudes, não obstante, não poderiam existir se ignorarmos a própria história londrina e seus valores econômicos sociais e políticos. A cidade imaginária de Voltaire precisa possuir indústria e prazer. Pode-se então constatar o óbvio camuflado!

A base da consciência cosmopolita advém da exclusão da cidade! A miséria é o índice do progresso! Para perceber progresso tem que se ver miséria! Através da miséria dos pobres, a valorização do padrão dos ricos domina o ideal de todas as classes. Nisto consiste a homogenia social e, embora citem a racionalização e o desencantamento do mundo, vemos o quão próximas são as ideologias iluminista e cristã na apologia do sofrimento! O fluxo de “progresso” advém da confabulação de um sonho: a possibilidade do pobre se tornar rico.

Evidentemente, para que isso exista, é necessário movimentar capital. Portanto, o tradicional nobre parasita é combatido. Afinal, a nobreza é acumuladora, a personificação do “rico perdulário”. A tradição está paralela ao progresso de maneira explícita. Um século antes, Molière, em O burguês fidalgo, salientou que para ser nobre, o burguês gasta todo o seu dinheiro. Essa é a lógica: é preciso gastar constantemente para manter-se no pódio da hierarquia social. Não basta ser rico, é preciso aparentar riqueza! Trata-se do oposto da ideologia aristocrática: afinal, aristoi, em grego, significa melhor. Quem é melhor se garante e não precisa competir—quem compete o faz seja por necessidade, para ganhar o pão de cada dia, seja por duvidar da própria capacidade. Quem compete é o burguês e a plebe que o imita, jamais o nobre que não duvida de si. Não é necessário aparentar quando não há duvidas sobre sua “essência”. O intrínseco é dominado pelo extrínseco uma vez que a ideia de liberdade retira as “essências” dos seres ao postular que todos podem ser – ao menos aparentar – o que desejam.

Porém, é preciso antes alimentar o desejo de consumo para então gastar. O pódio não permanece eternamente. A morte não é mais a redenção salvadora cristã, o fim da vida torna-se necessariamente trágico.

O irmão de Anna Karenina, Oblonsky, é o perfeito estereotipo desse dandy. Janta nos melhores restaurantes. Conhece toda a Alta Sociedade de São Petersburgo e Moscou. É extremamente popular porque gosta de todos. Na verdade, é um ser sem senso crítico. Para ele, ter uma opinião própria é tão importante quanto ter um chapéu. Sua popularidade provém exatamente dessa flexibilidade, dessa ausência de personalidade, pois através dele pode-se falar de todos os assuntos (e “novos” assuntos é o que não faltam na modernidade!). É claro: Oblonsky possui somente status. É falido e seu casamento é uma desgraça. O livro começa com um adultério de sua parte e as lástimas de sua esposa Dolly. Ambos personagens mal aparecem no filme, o que é lamentável…

A dualidade entre tradição e progresso é visível na alternativa à concepção de Voltaire, na qual a educação surge da aristocracia. Adam Smith, por exemplo, afirma ser a cidade quem educa a aristocracia. Ao invés das qualidades intrínsecas oriundas de um nascimento sobre, de sangue azul, o aprendizado se dá pelo meio social. Eis aí o elo que diz que a Educação deve ser democrática. Ou seja, Oblonsky é um aristocrata precisamente por estar por dentro de todas as novidades deste nascente admirável mundo novo. Ao nascer, temos inúmeras potencialidades de devir; entretanto, tais potências são necessariamente limitadas por fatores biológicos e sociais, que influenciarão o psíquico e determinarão a ação do indivíduo. Nesta ação há uma escolha particular e, a cada decisão tomada, o número de potencialidades diminuem, delegadas ao estado de latência onírica. Em outras palavras: e se? E se eu fosse astronauta? E se eu fosse vendedor de pizza? Como seria minha vida se tivesse feito X ao invés de Y? A inconformidade diante a linearidade objetiva da vida em relação à pluralidade de opções imaginárias gera uma discrepância entre o desejo e sua possibilidade de realização. Essa é a base do suicídio de Anna Karenina: o suicídio anômalo, influenciado pelas múltiplas páthos externas.

O shopping é a submissão do indivíduo à mercadoria! O vício da imitação, do consumo! Compramos roupas novas para sujar ao invés de sujar as velhas (como, por exemplo, a galera super arrumada na academia de ginástica! É o fim! Literalmente o “fim” por se tratar de um “fim em si mesmo”, ainda que aparentemente voltado para o futuro) O vício é uma marca de inquietação psicológica. É inquietude e instabilidade. Uma marca do processo civilizatório enraizado no espaço urbano.

Trata-se de uma concepção da cidade, cujo resíduo provém da Idade Média, como espaço de civilização e ordem. O fortalecimento dos pequenos burgos, mais homogêneos e por isso fortes, pela coesão, erradica a “selvageria medieval”. A miscigenação das culturas nobres e burguesas contribui para decadência da autoridade senhorial, permitindo livre-circulação. Em outras palavras, maior a diferença entre as possibilidades e o possível. Existem mil possibilidades para me deslocar, mas é possível estar somente num lugar por vez. E se? E se aquele maldito restaurante com pizzas maravilhosas não existisse? Significaria que então eu passaria mais tempo praticando esportes durante a infância? Será que então eu, hoje, seria modelo nas passarelas de Milão?

Quando postulo que a culpa é do dono do restaurante por ter me distraído dos esportes, cometo homicídio. Quando limito a culpa a minha responsabilidade, cometo suicídio. É o domínio da páthos! O suicídio de Anna Karenina não termina aí. Também existe a questão do suicídio egoísta cuja causa é popularmente é atribuída à depressão. Acaso cometo homicídio, serei excluído da sociedade, se descobrem uma tentativa de suicídio, idem. A exclusão social quebra meus vínculos com a existência, o que a torna supérflua. Se não pertenço em grupo algum e ninguém sentirá minha falta, é melhor morrer, não?

A particularidade idealizada, aquele famoso sentimento de mal-estar que começa a pairar no ar, só existe em eterna relação com o campo, símbolo do passado idealizado. Afinal, é justamente na Inglaterra, berço da Industrialização, onde a nostalgia do campo é maior. Do que trata esse “campo”, passado idealizado, senão o local de todas as virtudes, a preferência pela ética no lugar do lucro, a calma em oposição à pressa? O livro destaca perfeitamente essa dualidade nos personagens Vronsky e Lêvin. Esses pólos opositores encontram suas contrapartidas em Anna Karenina e Kitty, a irmã mais jovem de Dolly. Originalmente Anna seria calma, no lar de Karenin, um nobre oficial do governo. Kitty, no esplendor da juventude, é ansiosa para debutar nos bailes da Alta Sociedade russa. Lêvin é um bicho do mato, o Chico Bento da Rússia de 1880. Vronsky é o galã da novela das oito. Não é de surpreender como Oblonsky consegue ser amigo de ambos, certo?

Tanto Vronsky quanto Lêvin estão encantados por Kitty, a irmã da esposa de Oblonsky. Este, individualmente, garante ambos das grandes possibilidades. Vronsky, no entanto, é um Don Juan, seu objetivo maior não é o amor legítimo, mas a sedução. Tolstoi o fará “pagar” ao conhecer Anna…

Voltemos ao contexto histórico!

A condição de riqueza está na cidade, embora a cidade faça de tudo para empobrecer o indivíduo.

O contato desconfiado entre indivíduos é próprio do urbano! O padeiro deixa de ser o “Seu Manoel da Padaria”, transformado em tão-somente “padeiro”. Aliás, é por isso que o maior marco classificatório de identidade da contemporaneidade é “o que você faz?”. A profissão é a substituição da insígnia do sobrenome. Afora do corporativismo empresarial, os sujeitos dispersos na multidão personificam a figura do estrangeiro. A identificação do estrangeiro se dá de modo mais abstrato, mais (e “mas”) diferenciado do “nós”. O estrangeiro é avaliado e julgado por categorias e características abstratas. A referência às situações de estigma é explícita! É desconhecido, então avaliemos para baixo! Você pode ser a pessoa mais feliz possível, viver no universo dos Ursinhos Carinhosos, mas se porventura acordar de mau humor e eu te conhecer nesse dia, se você não fingir felicidade, eu automaticamente te rotularei como sujeito depressivo. Em outro caso, por mais humilde que goste de ser, te rotularei como “pobre” antes de cogitar a hipótese de modéstia. O sujeito submisso à aparência, à exterioridade, é obviamente receptivo às influências da páthos.

O estrangeiro é o “inimigo do interior”, a alteridade desafiadora de um grupo fechado, que edificou suas fronteiras. O “pobre” é um típico estrangeiro, além, obviamente, do gringo! O rico também é desconhecido, mas é o sonho, o mito. O rico e pobre encarnam Deus e o Diabo. A dimensão da vida urbana é típica na criação destes inimigos do interior. Não dá—não há tempo—para conhecer cada indivíduo profundamente, certo? Então é mais fácil criar estereótipos.

Essa construção da alteridade absoluta elabora a dicotomia entre “nós” e “eles”. O julgamento à distância atravessa à vida urbana constantemente. O tipo ideal weberiano consiste no agregado de conjunto de atribuições, mas isolado na multidão, o vislumbre panorâmico não permite a profundidade necessária para construir tais atributos. É preciso rotular brevemente.

O “outro” é abstraído de suas qualidades concretas, seja positiva ou negativamente. O genérico, distante, é uma figura bem-vinda, desde que não seja próximo. O estrangeiro, portanto, não é o distante, mas o “diferente” próximo (índio Bororo é legal desde que não seja meu vizinho. Podemos adorar a Funai, mas deixem os índios na Amazônia). O potencial de ruptura do urbano e a vida urbana coexistem e surgem simultaneamente do mesmo fenômeno. Trata-se da estabilidade instável. Um exemplo mais adequado? Preciso conceber uma imagem estável de Mamãe, para que haja permanência em minhas referências. Logo, o genérico distante é ótimo contanto que não seja próximo. Todas as mulheres deveriam ser biscates, exceto Mamãe—e claro, as mulheres que potencialmente podem ocupar o título de Mamãe, como a Filha e a Esposa.

Logo, o principal agregado do Iluminismo, a liberdade, se torna negativa ao radicalizar o anonimato. Ou seja, a liberdade faz o indivíduo perder a Liberdade: em nome da massa! Antes fosse dependência química de lasanha. Lembrando William Blake, a perda de identidade elimina a liberdade e a própria democracia pela homogeneidade. A universalidade descaracteriza a especificidade do indivíduo. A razão epistemológica, técnica e padronizada, não permite a compreensão por dentro, de sua própria razão.

A liberdade, ademais, pode suscitar o nacionalismo xenófobo. A liberdade da globalização moderna é, evidentemente, de objetos! Não de pessoas!

A Rússia de 1880 não está isenta dessas rápidas transformações. Anna tem uma identidade social concreta e bem-estabelecida. Vale realmente arriscar tudo por amor?

Seguindo em frente…

A divisão do trabalho proporciona uniformidade das relações de trabalho. A sujeira é dignificada, posta ao pedestal. Essa é a lógica da ética protestante: a força matiz do capitalismo e inconscientemente louvada por Engels. Em nota: apesar dos banhos da Carlota Joaquina e do D. Pedro, a praia adquire seu sentido cultural no Brasil somente no início do século XX. Até então é reduto para pobres e escravos. O pressuposto máximo é que nobres não devem tomar banho. Por que? Porque quem toma banho é quem está sujo. E para estar sujo é preciso suar. Aristocratas não suam!

O Progresso, ao existir antes da Ordem, exige o suor numa primeira instância para então gerar a riqueza, na forma de recompensa! Eis uma total crítica da ordem aristocrática anterior (o “não tomo banho porque não suo” é substituído pelo “tomo banho porque suo”. Ideologicamente, o primeiro jamais se sujou enquanto o segundo se limpou por ter se sujado)! No período da trama Anna Karenina, as escolas religiosas francesas ensinavam Economia Doméstica visando o melhor aproveitamento do “tempo”: escasso no fenômeno urbano. Lêvin, apesar de ser da roça, incorpora todos esses valores iluministas (o Brasil possui uma lógica pregadora da Ordem antes do Progresso: deixemos para outros filmes).

É necessário estar sujo, ter miséria, para adquirir a legitimidade da recompensa e o desenvolvimento. Isto Lêvin entende. Porém, não é suficiente. Durante as propostas matrimoniais, Kitty escolhe Vronsky. Não é contraditório.

Justamente porque a distinção feita do ser é oriunda dos outros—os anônimos—pautada no olhar rápido, ser visto sujo denota precariedade, marginalidade. Logo, o medo da exclusão, do estigma, cresce. Afinal de contas, o sofrimento é valorizado. Porém, é valorizado quando compreendido: o que exige uma visão mais duradoura. O ser que sofre, sem que haja, não obstante, razão de seu sofrimento—quando aparenta ser “gratuito”, por desleixo—é estigmatizado e excluído. Estar “sujo” por ter trabalhado muito é diferente de estar “sujo” por ser mendigo, mas como discernir sem conhecimento prévio do contexto?  Logo, para destacar-se na multidão, o indivíduo almeja mostrar-se acima desta, mediante roupas, carros ou demais acessórios denotando sua exclusividade. Entretanto, ao ser visto por todos e manter sua visão em si (pois ele é indiferente aos outros), há o risco de ser visto por quem não se deve. O fenômeno é inverso. Se ele não pode aparentar “sofrido” aos anônimos, ele precisa sofrer para quem o conhece. Logo, há o medo constante em ser avistado pelo patrão. Basicamente, num exemplo mais contextualizado no século XIX e início do XX, o homem quer ser visto de charrete para sair do anonimato, exceto pelo patrão por conta da relação de dependência e subordinação. Acaso o empregado e o patrão se mostrem ao público iguais, o chefe não apenas julgará o sofrimento do servo como mentira, blefe, apologia etc., como também será compelido a reagir. Eles não podem coexistir em patamar de igualdade! Portanto, o patrão rebaixará o homem a fim de manter sua própria distinção! Até em livros best-sellers como as 48 Leis do Poder tal condição ao sucesso é salientada. Mostrar-se mais poderoso que o rei, ofuscar-lhe, ainda que em sua homenagem visando uma recompensa, é implorar para ser assassinado.

O homem adquire então uma paranoia subterrânea. Ser indiferente é necessário. Ser avistado na multidão é imperativo. Contudo, o medo de ser reconhecido por quem não deve o obriga à vigilância esquizofrênica.

Não é mais o homem quem narra a cidade; é o inverso. A multidão amalgamada gera uma entidade irreconhecível e distante, quase que independente, ao indivíduo, e para se resguardar desta, ele precisa doutrinar sua postura. A Psicologia e a Sociologia nascem nessa época: Ciências nascem quando se torna claro que o novo Deus se chama Sociedade.

Reformas urbanas não retiram a cidade do vício, mas podem elevá-la para além do bem e do mal. Esse é o desejo supremo do homem, controlar a seu favor sua condição de “pessoa” e “individuo”, intercalando para sua maior potencialidade. É estar acima do bem e do mal: escolher quando lhe convém ora a distinção, ora o anonimato. Contudo, se cada homem almeja potencializar-se, não é possível que todos o façam simultaneamente. Nitidamente, diversos padrões de comportamento serão julgados como aberrações: a inserção da “loucura” só pode ser feita na cidade. E a cidade, o coletivo abstrato, torna-se importante, transformando-se numa personagem dotada de personalidade “aparentemente” independente de seus componentes.

Embora a identidade social seja o símbolo de segurança, ela também é sufocante. Anna Karenina reconhece isso. O dilema é conciliar as ocasiões segundo a kairos!

Pontes e ferrovias alargam a cidade (podemos interpretá-la como Sociedade, portanto, Deus). Isso aumenta a possibilidade de “fugir” do risco, de se reinventar. Os indivíduos podem extravasar seus vícios à distância, com a dádiva e a penalidade do anonimato. Enfatizo: é típico da modernidade prometer mais do que cumprir. O número de possibilidades aparentes é bem maior do que a realidade. Quer ser astronauta? Teoricamente é possível, mas na prática, há uma imensidão de empecilhos que dirão “não, não é possível ser astronauta! Tenho que estudar Física, depois me mudar para os EUA, então entrar na NASA e competir com mil pessoas lá dentro e…”. É importante considerar que esse papo de desassociar teoria da prática é balela. Se a prática não condiz com a teoria, então há duas possibilidades: ou a prática não seguiu rigorosamente os ditos da teoria ou a teoria é errônea. A segunda postulação é o que acontece com as promessas de ser quem você quiser da contemporaneidade. É tão impossível quanto alcançar o Reino dos Céus da Idade Média. Assim como a lógica medieval, se porventura o indivíduo fracassar, a culpa é inteiramente sua. Henry Ford conseguiu ser o self-made man mitológico da nossa Era? E daí? Jesus Cristo também alcançou o Reino dos Céus! Ah, não foi só o Ford, teve o Silvio Santos e tal… Bem, para cada mínima exceção posso enumerar um santo: São Francisco de Assis etc.

Anna Karenina é brilhante por conta disso! Ela serve de análise tanto sociológica quanto psicológica! Seu suicídio estava prescrito sociologicamente ou trata-se de um fruto de força psicológica? Qual o limite que discerne as “vítimas da sociedade” dos que se “fazem de vítima”?

Londres, a cidade da virtude, é presa ao passado pelo campo e pela monarquia. Paris é o vício, a subversão da boemia. Por mais que Londres tente exaustivamente mostrar-se festeira, jamais conseguirá. Na Inglaterra, até a subversão é regrada: é inevitavelmente conservadora. A farra jaz em Paris. O pub londrino é fechado, enxerga-se somente o “dentro”. O vício é necessário; embora não precisa ser extremamente egoísta, individualista. Assim torna-se mitificado, aumentando ainda mais o pavor em ser descoberto. E, já que se corre o risco, se porventura for flagrado, é melhor extrapolar ao máximo enquanto for possível. O café parisiense é aberto, pode-se ver o que se passa. O vício é compartilhado, compreendido.

Para combater o vício, cria-se um moralismo que não é nada revolucionário. É, inclusive, mais conservador do que o Vitoriano. Eis o nascimento do terceiro tipo de preconceito, o mais sublime e eficaz de todos, o ideológico.

O estranhamento da multidão confere insegurança às pessoas. Portanto, em épocas sem televisão, é a biblioteca (a sala é a transição entre o público e o privado) que relata a biografia de seu dono. A biblioteca passa a impressão de viagem, sobretudo ao passado. A “casa” gera equilíbrio, recupera a memória, revigora para enfrentar o anonimato da “rua”. A sala é o local de passagem entre a rua e as regiões mais íntimas do lar.

Ufa! Será que agora as razões do suicídio de Anna Karenina ficaram claras? Ela é uma mulher “que tem tudo” mas não se sente como tal. Sente que ainda lhe falta algo—e, na modernidade, sempre, inevitavelmente, faltará algo que impeça o sujeito de sua completa realização! Esse algo é uma coisa não definida previamente. O fetiche da mercadoria surge nas falsas promessas dos produtos preencherem o vazio deixado por este algo sem nome.

Como aristocrata, exige-se um comportamento digno de sua persona. Ainda assim, ela é constantemente atraída pelas novidades do admirável mundo novo moderno. A promessa do amor—símbolo contemporâneo de ausência de interesse, que o “amor é cego”, quem ama de verdade não se importa com nada que possa acontecer ao parceiro, a despeito de qualquer infortúnio e demais histórias para boi dormir—é maior do que sua real realização. Vronsky lhe promete o novo.

E para isso, é necessário abdicar de sua vida! De seu lar e de seu filho! Enquanto o adultério é sublime, discreto, Anna Karenina é rodeada de amigas biscates que a aplaudem. Entretanto, quando o affair é revelado, tais amigas se afastam. Karenin lhe nega o divórcio: a cartada fatal. Acima do adultério em si, o fardo de Anna é seu status indefinido. Ela não pode se casar com Vronsky porque Karenin lhe nega o divórcio. Ela perde sua posição na sociedade! Tudo o que acima descrevi revelam suas tentativas! Ela foge para o Campo e para a Itália, ela transita regularmente entre São Petesburgo e Moscou em busca de aceitação e sei lá o quê elevado ao cubo!

Confinada dentro de casa, sem saber o que ocorre no mundo exterior, começa a duvidar de tudo, dos afazeres de Vronsky. Teme que este pode se enjoar dela e conquistar uma nova amante menos problemática. E assim busca a própria ruína. Torna-se insuportável com Vrosnky e o Amor é destruído. Ele não a abandona, mas menciona que a situação beira o insuportável.

Eis, então, o significado da triunfal frase: a vingança é minha! Ao cometer suicídio, ela destrói Vronsky. Estraçalha sua memória, sua honra, sua vida. Vronsky é condenado a vagar o resto da vida se penalizando pela morte de Anna. A sociedade machista da Rússia de 1880 reprimiu Anna e não Vronsky. Anna revidou na esfera do íntimo, da pessoalidade. Entretanto, seria a culpa realmente de Vronky? Ou Anna simplesmente delegou um bode expiatório para punir alguém que, assim como ela, tão somente faz parte das mesmas regras deste mundo de promessas não cumpridas? E se Vronsky não é realmente o inimigo, então quem o é? Assim surgem as teorias da conspiração no mundo contemporâneo!

Por: Eduardo Cidade.

Finais Surpreendentes

O Jornal inglês The Guardian promoveu uma votação para listar os dez finais mais surpreendentes na história do Cinema. São eles (e não listarei os finais pra não estragar para quem não viu):

1. O Sexto Sentido.

Eu concordo com esse lugar no pódio, esse filme realmente tem um final muito surpreendente. Por mais que o menino tenha dito na metade do filme “I see dead people”, combinemos, ninguém imaginou o fim.

2. Psicose.

Embora Hitchcoch seja um espetáculo à parte, não colocaria esse filme na lista e nem mesmo em segundo lugar. A justificativa pro final ser surpreendente é imatura, pois na verdade o fim é extremamente didático, em minha opinião. Hitchcoch quis dar uma aula sobre esquizofrenia e ao final ilustrou o caso de Bates com a explicação do delegado e  psiquiatra.

Eu escolheria para esta posição o filme: Os Amantes do Círculo Polar.

Quem imaginaria que Anna  e Otto terminariam daquela maneira?

3. Os Suspeitos.

Ah! Aqui eu concordo em gênero, número e grau! Kevin Spacey está simplesmente soberbo!

4. Star Wars: O Império Contra-Ataca.

Esse aqui eu vou dizer o final porque até quem não viu já sabe: foi escolhido porque Darth Vader é o pai de Luke Skywalker. Para tudo! Nem de longe isso pode ser considerado surpreendente quando comparado à HISTÓRIA DO CINEMA.

Honestamente? O final de O Grande Truque é mais surpreendente do que a filiação do lado negro da força.

5. Jogos Mortais.

É… pode não ser lá uma grande obra digna de Oscar, mas é de se considerar que o joguete de Jigsaw e Amanda traz surpresas.

6. Clube da Luta.

Ah sim… eu também acho surpreendente Tyler ser Tyler rsrsrs. Mas mais surpreendente ainda é o fato da maioria considerá-lo “de luta” sendo que na verdade não é disso que se trata, embora a metáfora passe por aí. Enfim…

7. O Homem de Palha.

Eu colocaria aqui com muito mais acerto o filme de Lars von Trier: O Anticristo. O final é muito mais surpreendente.

8. Os Outros.

Ainda vou falar sobre ele aqui no Blog, mas acho bobo listar 10 filmes somente porque no fim todos estão mortos ou vivos… Isso pro “O Sexto Sentido” vá lá, mas para quase todos da lista? Besteira ou falta de imaginação desse pessoal que votou pra esse jornal?

Pois aqui eu ponho sem medo de ser feliz: “Estrada Perdida” de David Lynch, ou até mesmo “Cidade dos Sonhos”, também deste diretor. Não há como comparar os finais destes três filmes, a superioridade de Lynch é GRITANTE!!!

9. Seven – Os Sete Pecados Capitais

Sim, sim. Concordo.

10. O Planeta dos Macacos.

O que há de surpreendente neste filme, que mal lhe pergunte, The Guardian?

Tal escolha se dá pelo simples fato dos macacos serem os humanos e vice-versa?

Bom, ao menos não listaram a Saga Crepúsculo…

***

E você, concorda com essa lista?

Por: Guerra de Pipoca.

Os Doze Macacos

2035 - Bruce e a Diretoria do Presídio

Os Doze Macacos – Twelve Monkeys

Direção: Terry Gilliam

Gênero: Ficção Científica

EUA – 1995

Doze Macacos é, pra mim, um filme inteligente, mesmo nos dias de hoje, por abordar pertinentes questões de maneira multidimensional. Obra que não vai envelhecer tão cedo.  Raramente surge filme em que a possibilidade científica, o fanatismo, a psicose e o misticismo se encontram num mesmo pilar. O filme constrói com este ponto uma teia de aranha tão bem arquitetada que deixo expressa minha recomendação: nada se perde ao vê-lo.

Como Gilliam conseguiu unir no mesmo ponto quatro polaridades tão diferentes? Pra mim é muito simples vislumbrar esse abismo imaginário na medida em que percebo que os conceitos que utilizamos para descrever a natureza são limitados, e por muitas vezes, não são características da realidade, como tendemos a supor. Traçar um mapa e conferi-lo no território ainda são duas coisas diferentes para nós seres humanos, talvez não sejam para os macacos, mas desta realidade não saberemos, pois esbarraremos no impeditivo natural do Ser.

Cole se encontra em um presídio no ano de 2035; é um sociopata bastante perigoso e tem ao seu favor (além de ser interpretado por Bruce Willis) força física e a capacidade de observação e de memória acima do normal. O presídio funciona de maneira diferente, porém nem tanto, acontece que a diretoria reside também no local. Em 2035, o território terrestre é inabitável devido a liberação de um vírus letal no ano de 1996 que matou 5 bilhões de pessoas.  Cole é convocado como “voluntário” a pisar em solo terrestre (muito bem protegido) afim de buscar por modos de vidas. Ele percebe que não há humanos, mas se depara com ursos, aranhas etc. A diretoria do local, portanto, lhe oferece a possibilidade de se redimir desde que tope viajar no tempo e evitar que o vírus letal se espalhe a ponto de dizimar a vida humana na Terra. Ele, claro, aceita. Teria outra escolha?

Acontece que a viagem no tempo dá errada e ele ao invés de voltar ao ano de 1996, volta no ano de 1990. Gilliam conseguiu com esse simples detalhe a confusão necessária: ao voltar para o ano de 1990, onde nada ainda tinha acontecido por estar 6 anos antes do previsto, as pessoas o consideraram como um louco e então, foi preso em um sanatório estadual. Maravilhoso! Acontece que a loucura não se dá somente pelo sujeito estar fora da normalidade social de sua época, a psicose consiste – independente dos parâmetros culturais – no embasamento delirante e alucinatório. Chega a ser engraçado Willis explicando para a diretoria deste novo sanatório que em 1996 5 bilhões de pessoas morrerão. Delírio e alucinação? A sociedade suporta o dom da profecia com seus profetas dando-lhes cartaz de tudo que dizem?

Neste local ele consegue o apoio de duas importantes pessoas no cenário do futuro: a médica psiquiatra (Madeleine Stowe – excelente atuação) e o apocalíptico interno (Brad Pitt).  Em minha opinião, é a melhor atuação de Pitt no cinema. Ele consegue encantar o espectador com seu personagem totalmente biruta. A cena em que Pitt ajuda Willis a fugir do sanatório é uma das melhores que já vi com essa temática. Opa! Cole foi preso durante a tentativa de fuga, no entanto… sumiu da sala em que foi amarrado!

Acontece que a diretoria do outro presídio o levou de volta sob a perspectiva da viagem no tempo. Não vale questionar a possibilidade desta viagem aqui no filme, pois somente através dela que toda essa loucura é possível. Assim, é desnecessário gastar cartuchos da lei da Física, em minha opinião. Finalmente após corrigirem o erro inicial, James é mandado de volta em 1996 e encontra com a psiquiatra. Esse encontro já é outro encontro, pois aquilo que ele dizia em 1990 de repente passa a ser confirmado no presente. Fabulosa maneira de constatar o real. Ou seja, Cole deixa de ser louco e suas profecias apocalípticas passam a ter voz. Nada como a relatividade do Tempo… aqui, possível por sua viagem.

Neste sentido, os questionamentos não param de pipocar: o ser humano consegue relativizar temporalmente o momento sócio-cultural-histórico em que vive? Pelas propriedades de todas as “partes que compõe o Todo”, nenhuma parte é fundamental; isso é óbvio, mas as partes são determinadas e determinantes? O que fazemos o tempo todo é o isolamento de certos padrões e a interpretação de objetos seguindo estes parâmetros. Capturamos, com isso, o real em sua plenitude? Damos importância seletiva para o que chamamos de “compreensão da realidade”, porém, a distinção entre observador e observado é completamente demolível? O universo material é visto como uma teia dinâmica de eventos interrelacionados, a consistência global determina a estrutura de toda teia?

Por fim, o arcabouço conceitual que o homem constrói tem a importância de fazê-lo entender os fenômenos interconectados, portanto, quaisquer olhares constituem padrões relativamente estáveis ou não. De maneira correspondente, a ciência nunca poderá proporcionar um entendimento completo e definitivo. Eterna limitação pela busca de verdades que me faz ousar dizer que o homem ainda não aprendeu a relativizar o espaço-tempo em que vive (estou achando que no lugar de Bruce Willis, quem vai levar porrada sou eu rssss…).

O Todo e suas partes

Pedi para a Caríssima Guerreira Predadora escolher as imagens do filme e fazer aquele quadrinho que ela costuma produzir em seus textos, mas com um detalhe: tinha que ter o Bruce nu, porque essa é a melhor parte do filme, com certeza rsss.

Não posso deixar de dizer que o vencedor do Oscar de 1996 foi ‘Coração Valente’. Pode? Chega a ser cretino…

Por: Morgana.