
O Rito – Ritten
Direção: Ingmar Bergman
Gênero: Drama
Suécia – 1969
Decidi dividir o assunto deste filme em duas resenhas. A primeira, falarei sobre o filme sob a perspectiva da arte, resgatando pertinentes características do cinema de Bergman. A segunda, que não sei exatamente quando estará escrita para apreciação de vocês, pretendo isolar a última cena, o ato final, e pensar sobre os ritos totêmicos e religiosos a partir desse exemplo dado no filme. Será, portanto, uma escrita de livre interpretação com o suporte investigativo-psicanalítico.
Sabemos que Bergman foi quem inaugurou, por assim dizer, o que chamamos de “cinema Cult”; um cinema que se pretende profundo. Não é inédito em arte cinematográfica, não se utiliza de técnicas surpreendentes, mas é inédito em colocar a Filosofia Existencialista e a Psicanálise em pauta. Sim, ele era um grande estudioso do assunto. Não se interessou em ser filósofo e muito menos, psicanalista, no entanto. Mas quis diferenciar sua arte, que é o que ele verdadeiramente sabia fazer, com conteúdos filosóficos. Não era pretensioso, se sabia no lugar de artista, porém, suas obras vão além da proposta de entretenimento. E isso é proposital! Nada em seu cinema sobra. Eu o admiro muito, exatamente por ter dado conta de tornar a arte cinematográfica um canal possível de se pensar a existência, e até mesmo se emocionar com a Metafísica.
Aqui poderemos pensar na importância do entretenimento e do Cinema Cult. Claro que a arte dá espaço pra ambos, embora cinema seja entretenimento. É preciso tomar muito cuidado em proporcionar um momento artístico que traga na pele e no osso algo profundo e filosófico sem que caia nas armadilhas do discurso vazio. Vemos isso na maioria dos filmes. Cinema pretensioso, arrogante, boçal e que não diz nada com nada além de ser muito chato! Porém, o “Cult” de Bergman é realmente diferenciado, tem substancialmente suporte para tal.
Suporte que se dá de maneira bem anterior à obra, pois Bergman é um diretor que trabalhou com uma trupe de atores fixos que funcionava como uma companhia de teatro. Ou seja, os atores de seus filmes são sempre os mesmos, é uma equipe. E que equipe… Grandes nomes como Ingrid Bergman, Liv Ullmann, Gunnar Bjornstrand, Ingrid Thulin, Erik Hell etc.
Este filme O Rito, produzido em 1969, faz parte da fase experimental do diretor. Não é um de seus filmes mais conhecidos e divulgados, mas faz parte de uma época em que Bergman se encontrava bastante inspirado. Época em que foi lançado a Trilogia do Silêncio. São eles: Através de um Espelho, Luz de Inverno e O Silêncio. Em algum momento pretendo falar sobre estas obras, também. (Já deixo a dica para quem quiser saber mais desse diretor).
O Rito é um filme em formato de peça teatral de difícil compreensão, onde as falas são sumariamente importantes e que denunciam a perturbação dos personagens e do ambiente. Inclusive, o ambiente é claustrofóbico, pois o foco narrativo enquadra os personagens e não o cenário. Personagens de perfil, de frente, deitado, em pé, sentado etc, essas são as variáveis. O grande lance é que o espectador não se sente sufocado, mas se torna atento ao que está por vir. O objetivo dessa dinâmica se torna claro quando se sabe o momento de Bergman ao fazer esse filme: ele estava sofrendo perseguições políticas por causa de sua arte. Para ficar claro é preciso dispor de uma pequena sinopse da obra:
A história se passa em algum país que não é dito. Três atores, Hans Wikelman (Gunnar Bjornstrand), sua problemática esposa Thea Von Ritt (Ingrid Thulin) e Sebastian Fisher ( o maravilhoso e impecável Anders Ek), foram acusados de fazer um espetáculo que conteria cenas de indecência (questionar o que é indecente para essa época é irrelevante). Encaminhados para um Juiz (Erik Hell) para serem investigados.
Torna-se claro durante o decorrer do filme que Bergman critica a censura! Critica o conflito estabelecido entre a arte e a ordem social. Critica os pequenos burgueses que se prendem no ato de julgar a liberdade criativa da arte. Quem é o juiz? Quem são os atores?
Os atores não dão conta de explicar pro juiz o que eles fazem e por que são indecentes. Claro! Arte não se explica embora seja explicável. Paradoxo necessário para sua composição. Bergman se encontra neste lugar de acusado e fez desse filme uma excelente oportunidade de se pensar sobre o papel social da arte. O que esperar da arte? Quais respostas conclusivas a arte pode oferecer? E nisso, os atores rondam de cá, de lá e não sabem responder à demanda da inquisição. Não são quaisquer atores, obviamente. Perturbados ou artistas? Aqui valeria a pena diagnosticá-los por perversos, histéricos, neuróticos etc?
O filme se desenrola com os interrogatórios, a busca incessante por responder o irrespondível. Fisher é brutal! O juiz tem um problema de sudorese e Sebastian vai em sua jugular, não exatamente com essas palavras, mas o sentido é: Quem é você para falar de limpeza e decência se escorre e derrete em suor? Você, visivelmente imundo, aponta o dedo pra mim, por que? Maravilhosa metáfora! Qual o papel dos juízes? Onde eles se encontram? Em todas as partes… Tem sempre alguém para apontar dedos…
Chegamos ao ato final: o ritual. Embora todo o filme o seja. Estabelece-se como um rito. Aqui deixarei para me aprofundar na segunda resenha que farei sobre a obra.
Por agora, concluo que a sociedade se apresenta como um inferno de salvadores. Não faltam pessoas que sabem mais do outro de que de si mesmos. A maioria se esforça por remediar a vida alheia. A calçada do mundo sobra de boa-fé. E dizem que isto se configura em um vício nobre…
O filme termina – e isso não é spoiler – com legendas que afirmam que nunca mais aqueles atores apresentaram um espetáculo naquele tal país indefinido… Como terminar de outra maneira?
Por: Guerra de Pipoca.