Espelho, Espelho Meu

Espelho, Espelho Meu – Mirror Mirror

Direção: Tarsem Singh

Gênero: Conto de Fadas, Aventura, Comédia

EUA – 2012 – 106 min.

Esse é um filme para ser comentado por mim, de verdade. Eu adoro contos de fadas! Devo concordar, no entanto, que hoje em dia essa “inocência infantilizada” típica das histórias já não colam nem mesmo com as crianças. Embora o filme tenha “inocência” em seu contexto linear, Singh, o diretor, fez algumas modificações que deram certo!

  1. Não foi um caçador quem levou Branca de Neve à floresta negra para ser assassinada, mas sim o braço direito do Rei – que após a “morte” dele se tornou empregado da Rainha.
  2. O príncipe é dos mais atrapalhados! Isso é legal porque Branca de Neve não é tão topeira como na história, o que deu um ar bacana essa inversão, uma vez que quem salva o príncipe é a princesa! Ou seja, Branca de Neve deu um beijo no príncipe e não ao contrário.
  3. Branca de Neve não é mera serviçal dos anões (lembram que na história ela arruma os quartos, faz comida etc?), ela se torna a líder do bando, espécie de Robin Hood feminina. Rouba para devolver aos pobres aquilo que a Rainha tira deles.
  4. Branca de Neve não é uma donzela à espera do homem que vai protegê-la, ela sabe se virar! Isso é lindo!

Um ponto que achei negativo foi que em nenhum momento a Rainha fala a máxima: “Espelho, Espelho Meu,existe alguém mais bonita do que eu?”, daquele jeito que a historinha conta. Eu tinha o vinil desse conto, adorava. Tinha medo da voz da Rainha, porque era uma fala bruxesca, má intencionada. No filme, Julia Roberts está espetacular, mas esse tom de bruxa ela não conseguiu fazer.

Enfim, os feitiços são desfeitos e todos vivem felizes para sempre, menos a bruxa má, né?

Tenho uma teoria de que nas histórias de fadas as “má-drastas” são vistas como más porque competem com as filhas legítimas do reinado. Como se todas as mulheres competissem entre si, menos a mãe verdadeira. Grande bobagem, sem dúvida. Por um lado e por outro é uma besteira pensar assim. Primeiro, porque as mães também são mulheres. Segundo, porque as mulheres não competem entre si como se os homens também não fizessem o mesmo. Terceiro, porque madrastas não são más. A minha não é má. Quarto, que desde que me entendo por gente, a preocupação de qualquer reinado são os príncipes, os homens, e não as mulheres. Afinal, mulher não herda trono! Salvo se for a última hipótese.

Bom, o filme é bem inocente, infantil, linear, sem nenhuma novidade de técnica cinematográfica e no final o diretor, que é indiano, ainda costura um musical à la Bollywood que vou te contar… péssimo! Mas, mesmo assim é um filme que diverte. Eu adorei!

Por: Laís.

Quero Matar meu Chefe

Quero Matar meu Chefe – Horrible Bosses

Direção: Seth Gordon

Gênero: Comédia

EUA – 2011

O chefe é megalomaníaco e psicopata (só podia ser Kevin Spacey, né?) e seu empregado é um submisso que não sabe se impor. Parece par-perfeito. A chefe é tarada e ninfomaníaca (Jennifer Aniston), seu empregado é um soldadinho de chumbo que acredita em casamento e está noivo de uma garota-panqueca (não vou explicar esse termo, assistam ao filme). O chefe é um cheirador de pó (Colin Farrel), filhinho de papai que herdou uma fortuna e acha que todos estão ao seu dispor e o pior, estão! Pois seu empregado… o que mais combina com um cheirador de pó? Acertou quem respondeu: careta!

Esse filme é assim: pra cada tampa, uma panela oposta. Porém não é sacal, torna-se divertido perceber que, no fundo, o sádico só pode exercer o seu poder na dependência de ter um masoca que tope a empreitada.

Acontece que os empregados odeiam seus empregadores e decidem matá-los. Aqui começa a comédia, pois até então: excesso de humilhação não tem graça nenhuma. Mas, faço questão de não por os nomes dos atores que fizeram os papéis de empregados, por pura pirraça e sarcasmo momentâneo. Afinal, é possível perguntar: desde quando subordinado fala? Aff… isso dá um pano pra manga…

Claro que três patetas ao planejar matar seus algozes só podia dar em muita trapalhada e assim foi. Passei mal de rir da cena do pó, tanto do empregado que cheirou acidentalmente, quanto do chefe que foi treinar kung fu de madrugada. Uma energia que só vendo! :D

A tarada, claro, é outra que tem uma energia pra lá de intensa. Chega a ser caricatural. Mas confesso que ri litros da cena da noiva do bofe dopada… Ninguém merece!

E por falar em ninguém merecer, que tal ser empregado de um psicopata? ho ho ho ho! Estamos falando nada mais, nada menos que Spacey! O presidente que decidiu ser também vice-presidente apenas para não restar dúvidas quanto ao seu poder. Narcisista a tal ponto só poderia ser alguém que duvida de sua própria sombra, não? E lá vai a esposa entrar no barco… opa! Mas se bem que ela… já viram o filme?

Vejam! Comédia leve, caricatural, sem pretensões e, o mais legal, que diverte! Tem dias em que é preciso jogar tudo pra cima e rir de alguns quadros pintados. Bom, espero que não tenha ninguém por aí querendo me matar também. Se bem que sou uma chefe gente fina… pero no mucho! rsrsrs :P

:twisted:

Por: Guerra de Pipoca.

 

 

Assalto em Dose Dupla

Os reféns

Assalto em Dose Dupla – Flypaper

Direção: Paul Anderson

Gênero: Crime, Comédia

Alemanha – EUA – 2011

Métodico com os números, Tripp (Patrick Dempsey) decide ir ao Banco para trocar uma nota por várias moedas. Algo do tipo 100 dólares em moedas. Cada qual com suas manias… No contexto é engraçado, excêntrico, difícil é conviver com gente assim no cotidiano. A caixa que o atende (Ashley Judd) de cara percebe que ele é do tipo “esquisitão” e que bisbilhota tudo (melhor não diagnosticá-lo, não vem ao caso). Acontece que enquanto ele está trocando seu dinheiro cédula por moedas começa um assalto. Ou melhor, dois ao mesmo tempo. Bisbilhotar assaltante parece não ser boa ideia, mas aí mora a piada ou comédia do filme. Tripp banca o detetive justo no meio das operações!

A primeira coisa que percebe é que dois assaltos ao mesmo tempo não parece ser coincidência, afinal, elas não existem. Quem teria armado dois crimes no mesmo Banco e por que?

Todos se tornam suspeitos para Tripp, até mesmo a encantadora caixa, por quem ele descaradamente tem uma queda. Do lado de cá da tela, a primeira coisa que passa pela cabeça é que o próprio Tripp é o suspeito número um. Lógico! Como pode estar no local errado, na hora errada, com informações privilegiadas, gratuitamente? Novamente, coincidências não existem. Ainda mais com um cidadão metódico e cheio de manias com moedas…

Logo ele arruma confusão com os assaltantes, e vale a pena citar que um dos grupos é tão amador que é de morrer de rir. Aliás, a comédia é realmente divertida e nada forçada.

Quem tem mais assaltos? Grupo um? Grupo dois? Quem matou aquele estranho homem que entrou no Banco no momento do anúncio do assalto? O que ele representa? Tripp de lá, nós espectadores de cá, vamos em busca de desvendar todos os mistérios e assassinatos que se seguem, um a um morre… Por que? Como?

Preciso dizer que cada refém tem “uma culpinha no cartório?” Não, né?

Em termos técnicos, o filme se dá em um único cenário. O que confere, ao longo do tempo, intimidade com o ambiente, mas se não for bem explorado se torna cansativo. Algumas cenas deixam a desejar, porque se mostra fácil demais para serem interpretadas, o que um filme de mistério não pode se entregar jamais a este erro amador.

Ashley Judd dá um show de interpretação, o que deu saudades de bons filmes com ela, também de suspense e mistério, como por exemplo “Beijos que matam”. Dempsey também não deixa barato e a essa altura pode ter certeza que ele está desvendando mais um caso.

Gostei bastante do filme. Fica a dica!

Por: Morgana.

A Ocasião faz o Ladrão

A Ocasião faz o Ladrão – Henry’s Crime

Direção: Malcolm Venville

Gênero: Comédia

EUA – 2011

Lançado direto no DVD, a ocasião faz o ladrão me lembra outro ditado oportuno: a necessidade faz o sapo pular. Claro. Nenhum “sapo” quer sair de seu conforto para ter que suar a camisa para conseguir o que quer, só quando muito necessário. Necessidade é algo sumariamente relativo. O que é necessário pra uns, pode não ser necessário pra todos. Os sapos se diferem até mesmo na hora de tomar impulso.

“Enquanto todo mundo viaja, você permanece no mesmo lugar?” – Julie (Vera Farmiga) para Henry (Keanu Reeves), a propósito de seu trabalho: cobrador de pedágios.

Acontece que Henry cansou de permanecer no mesmo lugar e resolveu, por necessidade e influência de Max (James Caan – melhor ator do filme, excepcional), pular. Tal como o sapo do ditado. Depois de ser acusado de assaltar banco sem embolsar nenhum tostão, decidiu realmente assaltá-lo. Precisou parar na cadeia para ir ao encontro de seu sonho. Assaltar um banco? Nada! Sair do lugar; ou, por analogia, pular do lugar. Roubar dinheiro é o de menos, ele queria tão simplesmente fazer algo em sua pacata existência, além de ficar o dia todo cobrando pedágios enquanto as pessoas se movimentam.

A perspectiva do filme é ótima, porque soube unir a trama à arte pela arte, pois não é que o caminho plausível para se chegar no cofre é indo pelo teatro localizado ao lado do Banco? Enquanto se ensaia uma peça, outras peças são tiradas do lugar…

Por: Guerra de Pipoca.

Eu odeio o orkut

Eu odeio o Orkut

Direção: Rodrigo Castelhano e Evandro Berlesi

Gênero: Comédia

Brasil – 2011

Agora é oficial! Vamos falar sobre o filme ou seria sobre o orkut? Quem é que nos anos 2004/2005 acessava o site e não dava de cara com a mensagem tosca “Bad,bad server. No donut for you”? Ah! Isso era de dar ódio mesmo…

Bom, nós, Moiras, já passamos por poucas e boas nesse site “em manutenção”, tanto é que a Morgue pendurou as chuteiras e deletou a sua conta, mas Deusa Circe e Vampira Olímpia estão na ativa, mais toscas do que nunca, porque agora que o facebook tomou conta do pedaço, só os/as guerreiros/as ficaram no orkut. É necessário ser subversiva/o para estar no “mundo orkutiano”; que é um local “abrasileirado” de resistência perante a colonização!!!

E daí que a história do filme surge… pois, de cara aparece uma clínica psiquiátrica para viciados em orkut. Haja resistência!

CREDO (Clínica de reabilitação e dependência orkutiana) tem um jeito estranho de tratar seus pacientes: quase tudo liberado, menos o computador e a internet. Logo na atualidade com a onda wi-fi??? Sistema medieval, certamente. O quarto onde os hóspedes ficam hospedados tem as paredes rabiscadas toscamente. O mais escroto é que a letra das pichações é a mesma (o que não tem cara de “cadeia” de jeito nenhum) e para cada frase babaca tem uma cena porcaria fazendo semblante à ela. Como exemplo: cena em que os internos se descobrem viciados, a filmagem mostra a frase: “Bill Gates merece morrer”. Coisas assim…

Aliás, Steve Jobs morreu… e pra não perder a piada infame, foi porque ele mordeu a maçã! :P

Enfim, voltando ao kokut… quem é que não apelidou o orkut de merkut, kôkut, fuckut? Nós moiras já e como! É algo assim: “se é meu parente posso falar mal, mas ai de quem de fora falar um pio do desgraçado”. Vai entender… coisas que “as estruturas elementares do parentesco” explica(m).

No CREDO estão os dois personagens principais: Jader e o Escritor. Jader tem uma vida medonha e o Escritor… adivinhem? Escreve sobre isso. Acontece que a vidinha de Jader era pra lá de sem graça antes dele ter fuckut, depois que ele cria sua conta sua vida aumenta consideravelmente o nível de download: arruma amigos, conhece uma garota, começa a namorar, entra em centenas de comunidades, enfim, sua vida virtual é mais agitada que a real (esse é o mal de quem não sabe desligar o computador). Porém, ele decide trazer pro real sua vida virtual, até mesmo os fakes que criou para fazer ciúme em sua parceira. Vira uma bagunça, ele termina com todas, ou todas terminam com ele.

Culmina numa desesperada vontade de se suicidar, aí é que ele cai no CREDO… Enquanto isso, o Escritor come a revisora de texto da editora que decide publicar a obra. Ele come tudo, as letras, as piadas, o glossário, a revisora…

FUCKUT TOTAL!

Mas, é engraçado! Dá pra rir bastante, até porque as piadas brasileiras são íntimas do orkut e vice-versa e pra quem tem conta por lá sabe dos diversos perrengues do mundo azul. Aquelas figurinhas “Amar é” servem de metáfora para “Orkut é…”, ou seja, tem milhões de respostas cafonas para essa pergunta.

O que o filme diz é que orkut vicia e que sem orkut não tem internet que sobreviva. Bom, talvez isso seja uma verdade para muitas pessoas, mas pra nós não é, então o filme não foi lá grandes coisas. Valeu o momento-Moiras (3), que é sempre maravilhoso e que deu pra matar saudades de muitas aventuras orkutianas…

Por: Moiras.

The Closer

Seriado da TNT – EUA

Criador: James Duff

**

No Brasil, atende pela acunha de Divisão Criminal, The Closer é pouco popular. Até tinha aberto aqui no blog uma aba para esta série, mas percebendo que falaria sozinha nela preferi deletá-la. Porém, acho que mesmo que só eu (dos membros do Guerra) a assista e por estar no final do seriado, agora é importante ter um texto falando a respeito.

Particularmente, eu adoro a Detetive Brenda Johnson (Kyra Sedgwick – diversos prêmios e indicações em decorrência desse papel). Identifico-me demais com a personagem por ela  ser estabanada, avoada, por comandar uma equipe sozinha onde no início todos os colegas se voltavam contra ela por ser uma mulher no comando, por adorar doces e ter uma gaveta em seu escritório cheia de balinhas, chocolates, enfim, o que chamo de: emergência do dia. Os doces, sem dúvida, amenizam dias difíceis. Ademais, Brenda é delicada e criativa em seu trabalho, quase subversiva e transgressora de regras. O que faz sua equipe adorá-la e temê-la em seus métodos inusitados.

O seriado se refere ao dia a dia do Esquadrão de Crimes Prioritários, uma unidade especial do Departamento de Polícia de Los Angeles que desvenda casos bizarros, pero no mucho, de assassinatos. A vantagem do seriado é que cada caso apresentado no capítulo tem início, meio e fim no próprio episódio, o que é legal, pois não é necessário esperar mais capítulos para saber a identidade do/a assassino/a.  Como pano de fundo, e aqui sim é sequencial, apresenta-se as vidas particulares dos detetives da equipe, em especial, claro, a vida de Brenda. São os detetives: David Gabriel (adoro esse personagem, ele é dez!), Agente especial do FBI Fritz Howard (Namorado de Brenda, uma figura), Detetive Provenza (ele é um barato, até hoje não acostumou com as bizarrices de sua chefe Brenda rsrsrs), Detetive Julio Sanchez, Detetive Tao (é o analista de sistema da turma, muito comédia), Detetive Andy Flynn (fiel escudeiro de Povenza), Capitão Taylor (muito chatinho… mas sempre tem que ter um que é um porre, né?), Capitã Sharon (faz parte da Ouvidoria do Departamento de Polícia e hoje está investigando os comportamentos de Brenda) e Will Pope – que é chefe da Brenda. Morro de rir das inúmeras brigas dos dois. :D

Foram 7 temporadas, estamos na última. Entrando no décimo episódio (serão 15), mas já me sinto saudosa da série. Sentirei muita falta desses detetives, dos casos, da comédia inserida sutilmente na narrativa…  E torço para vê-los em alguma outra série no futuro, porque são atores muito bons…

Por: Guerra de Pipoca. 

Trair e Coçar é só começar

Trair e Coçar é só começar

Direção: Moacyr Góes

Gênero: Comédia

Brasil – 2006

Peça teatral encenada desde 1986 pela direção de Marcos Caruso virou cinema. Ou melhor, virou novela da Globo em um espaço de 1 h e meia. Pelo menos não somos obrigados a encarar 9 meses da mesma novela, né? Enfim, elenco Bobal reunido para contar a história de uma empregada doméstica que se atrapalha toda e arma uma senhora confusão depois de suspeitar que seus patrões são infiéis e tem vários casos amorosos.

Primeiro: e se tivessem casos, o que diabos ela tem a ver com isso? Então… é daí que nasce a comédia da vida privada, essa que o povo a-do-raaaaaaaa! Confusão pra todo lado, trapalhadas durante todo o filme, não é difícil imaginar o rolo que é esse longa, certo? Particularmente, não me sinto atraída por esse tipo de teatro e cinema; a comédia mediada pelo pastelão e trapalhadas pode ter seu valor, mas a mim não convence. Acho um saco e me dá um tédio gigantesco quando alguém fica rindo feito hiena de algo tão babaca como comédias com esse teor.

Assisti a esse filme em etapas. 1 h e meia dividido em 5 dias não-consecutivos. E agora quando fui buscar sua ficha técnica, me deparei com uma entrevista feita na época da estreia com Cássio Gabus Mendes, ator que fez o papel de Eduardo – o marido; um dos raros momentos em que é possível ver graça no longa. Pra quem quiser conferir:

clique aqui

Por: Guerra de Pipoca.

Super

Super

Direção: James Gunn

Gênero: Comédia

EUA – 2011

Cecília Meireles, a minha poetisa brasileira favorita, já dizia outrora que “(…)ou isto ou aquilo, e vivo escolhendo o dia inteiro… não sei se brinco ou não sei se estudo, se saio correndo, se fico tranquilo, mas não consegui entender ainda: se isto ou se aquilo”.

Eu escolhi ver esse filme (tinha outro que poderia ter visto) e me decepcionei porque ele não é nem isto e nem aquilo. Explico-me: ele não é um filme que se define. Não é sobre quadrinhos, mas fala de “super-heróis”. Não é comédia, mas tende a querer fazer rir. Não é Kick-Ass, mas é Super! :o

Repetindo: NÃO É KICK-ASS, OK?

James Gunn quis por tudo que fosse, mas não deu conta do recado em NADA. A começar pelo personagem principal que é um perdedor. Mas, Kick-Ass é um perdedor bacana. Frank, o Super, é um pé no saco delirante e religioso que quer ouvir o chamado de Deus por tudo depois que a esposa o abandonou. Mas, me digam com franqueza, quem aguenta um homem sem graça ao extremo?

Outra decepção é o elenco. Nomes de peso, tais como: Liv Tyler, Kevin Bacon, Ellen Page… e daí? Quem disse que camisa ainda vence jogo de futebol está inteiramente enganado. Decepcionada com a atuação fraca de Liv Tyler. Se fosse só ela, tudo bem, mas Bacon também não estava com nada. Vai ver faltaram os ovos, a salsicha, tudo…

E o que dizer de Ellen Page? Menina, volta pra Juno! Depois dessa besteira de filme (Juno) Ellen Page ainda vive como se estivesse 16 anos, grávida de um adolescente… Sem comentários para a cena em que ela… Bom, eu disse que não ia comentar? Então, não comento. :P

Impossível não lembrar da amada mestra anciã: “TRAGAM A PICHORRA” (by Vampinha). Esse longa merece levar umas porradas…. O pior é constatar que a mídia aprovou o que viu. WTF!?

Depois dessa aconselho, de coração, assistirem a um filme de um diretor bom e consagrado; de um clássico cineasta. Só a título de desentoxicação.

Por: Guerra de Pipoca.

O Suspeito Mora ao Lado

O Suspeito mora ao lado – Good Neighbours

Direção: Jacob Tierney

Gênero: Suspense, Policial, Comédia

Canadá – 2010

Montreal. Serial killer à solta, pânico na cidade e entre as mulheres. Sim, porque o índice de ataques às mulheres por parte dos assassinos em série é estatisticamente maior do que ataque aos homens. Os jornais não entram em detalhes, mas sabe-se que o(a) assassino(a) leva suas vítimas à morte de maneira muito cruel. Enforcamento e estupro.

Na vizinhança-foco temos três personagens principais:

Louisse (Emily Hampshire) – dona de dois gatos fofos e lindos (o filme começa com felinos, me ganhou de cara!), garçonete de restaurante chinês, vizinha de Spencer e Victor. O interessante é que ela mora no andar “do meio”. Entre os dois…

Spencer (Scott Speedman – pra quem não lembra, foi o lobisomem Michael de Underworld) – sofreu um acidente de carro,  do qual sua esposa faleceu imediatamente, e ficou aleijado. É cadeirante dotado de humor negro. Dono de aquários, é sempre observado pelos gatos que miram os peixes…

Victor (Jay Baruchel – atuou em Menina de Ouro) – Professor de ensino médio, dono de um gato, apaixonado por Louisse e alvo de deboches de Spencer. É o típico “Renato Russo” na versão bondade em pessoa. Gosta de se socializar, mas mente… mente que é noivo de Louisse, mente que nem sente…

A comédia se reserva à vida particular de cada um quando estão em grupo, isso inclui os gatos de Louisse e de Victor e os peixes de Spencer. Talvez o filme acentue o ditado de que “a curiosidade matou o gato”, porém, não esquece de que “os peixes morrem pela boca”… Neste ínterim, estão em pleno vapor: a síndica, a vizinha histérica e abandonada pelo marido e a vizinha fofoqueira. Esta tudo vê… Será?

Enquanto isso, a polícia rastreia o(a) assassino(a), que não poupa suas vítimas. Alguém duvida que os detetives vão parar no prédio dessa boa vizinhança?

Por: Morgana.

Minhas Mães e Meu Pai

Minhas Mães e Meu Pai – The Kids are all right

Direção: Lisa Cholodenko

Gênero: Comédia Dramática

EUA – 2010

Uma família de quatro pessoas, um casal de adolescentes, Califórnia ensolarada. Classe média-alta americana. Um é ginecologista, trabalha muito e é firme, retira 17 miomas por vídeo, coisa que nunca vi e nem fiz, e outro – apesar da sólida formação acadêmica – vai saltando de projeto em projeto, mas não consegue encontrar a si mesmo. Estão com mais de quarenta anos.

Por razões óbvias, não conseguem tem filhos. O pai doou esperma e sua identidade só é conhecida pelo casal. Um belo dia o rapaz, menino bom, esportista, que faz amizade – e é sempre assim – com o grandalhão paspalho do colégio, quer conhecer o pai biológico; mas não pode. Somente a irmã lindinha, romântica, estudiosa e a cara da mãe; pode fazer isso. Afinal ela está completando 18 anos…

Bom, a velha fórmula de colocar um elemento novo num meio familiar ou de trabalho, ou esportivo, ou o que seja, é aplicada. Surge então o pai, ator? Mark Rufallo. Faz o típico homem-descolado: barba por fazer, motociclista, saradão, dono de restaurante natural, namora uma gata e é tranqüilo com a vida. A moçada apaixona. E ele, que levava uma vida assim sossegada, agora é a ovelha negra da família.

O processo, mostrado com bom humor e excelentes vinhos – veja o Petit Sirah de Kalyra – dali mesmo, de envolvimento dos personagens é interessante. Uma mulher com mais de quarenta anos que nem sabe qual é a sua identificação sexual é digna de pena. E a outra que acha que manda, porque tem o dinheiro e fala grosso; é risível. Elas se merecem.

Contudo o crescimento emocional dos filhos me encanta. O título original “The Kids Are All right” é muito adequado. Eles discutem em alto nível, enfrentam suas descobertas sozinhos, e por isso sofrem.

O amadurecimento da menina é ainda mais intenso, pois ela – de uma hora para outra – está diante de uma figura masculina de modelo, coisa que nunca teve. E suas reações, marcantes. Ela chegando bêbada é uma cena memorável e ao mesmo tempo delicada como momentos antes.

Outra sequência de grande impacto é o jantar na casa do coitado, que nunca procurou saber que tinha filhos e é jogado nesse redemoinho e por ser agradável, constrói dentro de si uma imagem nova que o envaidece e também o faz mais seguro. De um momento para o outro ele é o máximo, devido à sólida identificação musical e enóloga, e de outro é um sujo, cão traidor.

O final é pequeno-burguês, mas bem certinho para o tom de comédia aplicado. E nas infinitas rugas de expressão de Annette Bennig posso perceber a sensação de alívio ao ver que a filha está bem e o filho também. Grande atriz.

O que há de bom: uma discussão bem humorada sobre as crises de meia-idade e envolvendo filhos

O que há de ruim: idéia requentada, quando surge o sujeito

O que prestar atenção: a melhor fala é a tentativa de explicação do comportamento e da sexualidade delas quando o menino descobre filmes pornô de homens homossexuais, em um quarto em que coabitam duas mulheres; realmente o ser humano é complexo

A cena do filme: Juliane Moore despedindo o imigrante trabalhador e de olhar simples e retilíneo, culpa é um negócio complicado

Cotação: filme bom(@@@)

Por: C.O.B.R.A.

Harry Potter e as Relíquias da Morte II

David Yates e os Potterianos

David Yates começou sua jornada com Harry Potter a partir do quinto filme, “Harry Potter e a Ordem da Fênix”. Até então, “Pedra Filosofal”,  “Câmara Secreta”, “Prisioneiro de Azkaban” e “Cálice de Fogo”  foram lançados por outras mãos. Yates não diminuiu a qualidade em nada. Ao contrário, conferiu legitimidade tanto ou mais do que os demais. Em vista disso, ficou de posse da sequência restante. Não fez feio, supriu as expectativas dos fãs e fez o filme mais difícil da série: “Enigma do Príncipe”: quando Dumbledore é assassinado. Foi o filme mais expressivo e, consequentemente, o mais dolorido da série. Afinal, Alvo Dumbledore, o mago amigo e protetor, saiu de cena.

Para manter a qualidade dos filmes com a ausência do mestre, suponhamos, deve ter sido difícil. Ainda assim, Yates chegou ao fim da saga com louvor. Ou melhor, chegou ao “Relíquias da Morte I” com louvor. Inclusive, vale relembrar este filme, pois foi o que mais se diferenciou dos demais, uma vez que está em jogo o processo psicológico e não as ações e aventuras de sempre. Relíquias da Morte I é mais lento, mais introspectivo. Harry Potter se comporta assim e é perceptível que, finalmente, Daniel Radcliffe cresceu junto com a história. Radcliffe passa para o espectador algo para além do filme: que está pronto para ser Harry Potter.

Sim, pois desde o início sabemos que Potter matará Voldemort, então, é preciso estar pronto para este momento. Radcliffe não passava confiança, é necessário reconhecer isto. Um menino novo, criança, matar um vilão bruxo que matou meio mundo? Chega  a ser cretino. É o mesmo que atribuir a um moleque de 17 anos a derrota do Coringa, em Batman. Ou um pirralho adolescente que tira os méritos de Superman e põe fim a perseguição de Lex Luthor. Convenhamos! Coringa mata quem permanece em sua frente, alguém aqui acha que um pirralho é capaz de matá-lo, sendo que nem mesmo Batman consegue?

Pois é. Dumbledore não mata Voldemort, mas Harry matará. Então, façam o favor de fazer Harry crescer e ser capaz da missão, senão, é boçal demais. Até o filme “Enigma do Príncipe”, Potter não estava psicologicamente pronto. Agia feito um menino abandonado a própria sorte  que queria por tudo beijar Gina (e quanto beijinho fraco, não? Infelizmente, não teve um GRANDE beijo desses dois… tsc tsc tsc… sem graçaaaaaa…). Parece que em “Relíquias da Morte I”, a trupe caiu na real: Opa! Pra terminar essa obra é preciso matar Voldemort, então, acabou a farra.

Estava tudo indo muito bem até que Yates resolveu chutar o balde. É o último filme mesmo, né? Que tem demais ferrar com quase tudo? Calma, calma, nós vamos explicar nosso comentário.

Aqui começa o texto sobre:

Harry Potter e as Relíquias da Morte II – Harry Potter and the Deathly Hallows – Part II

Direção: David Yates

Gênero: Fantasia, Suspense

EUA – Reino Unido – 2011

A primeira parte deste filme está impecável! Nota mil para a cena do assalto ao Banco de Gringotes. Hermione na pele de Belatrix somada ao Duende interesseiro… Foi tudo muito bem arquitetado, bem feito e magistralmente filmado. Os efeitos especiais do dragão superam e muito os dragões do “Cálice do Fogo”, na disputa do torneio Tribruxo. Palmas para Yates e todo o elenco. Por algum momento, Spielberg ficou pequeno nos efeitos especiais…

Quando os alunos se reúnem para deixar Potter, Hermione e Rony entrarem em Hogwarts também merece aplausos. Não apenas pelas boas cenas, diríamos. Mas, por trazer à tona o sentimento de irmandade, de união por uma causa. A reunião dos estudantes nos faz lembrar que nesses tempos de “marchas e protestos” o mais importante não é exatamente a conquista, mas a busca pela vitória. E quando Professora Minerva protege toda a escola, com a ajuda de outros professores, é de arrepiar. Sobretudo para quem já lutou ou luta por uma causa, seja ela qual for. “A união faz a força”, não é à toa…

Enfim: a guerra está declarada!

O momento mais esperado da saga está por vir…

Acontece que David Yates não soube conduzir as cenas mais esperadas: ele não é diretor para filme épico, simples assim… puxa, que pena. Realmente, é uma pena…

 Além das cenas ficarem grotescas, mal feitas, com inúmeros erros de continuação, Yates ainda fez o imenso favor de por a narrativa no âmbito do deboche, do pastelão, da besteira. Parecia uma comédia de quinta categoria. Quem viu o filme sabe que Voldemort (Ralph Fiennes) nem de longe pode ser levado a sério em sua atuação, o que é decepcionante. Suas risadas imaturas, infantis, sua comemoração pela pequena vitória em cima de Harry, são tão tolas que não há palavra que alcance a decepção.

Fora que a parte “Nosso Lar” do filme é patética. Harry morre, mas na verdade, o que morre é a parte Voldemort em seu ser, e nisso tudo aparece Dumbledore num túnel branco… enfim… sem comentários. Isso detonou o filme.

Sem contar o final!!!!!! Céus, o final… Que sabíamos que iria ser cafona, isso é certo. A pieguice tem seu valor, sobretudo quando é bem feita. Já estávamos preparadas para pieguices: Potter vencer, ficar com Gina, Rony ficar com Hermione, o final ser feliz para sempre etc. Mas, o que não esperávamos é que David Yates fosse amarelar a obra de forma tão leviana.

Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson são novos demais para “19 anos depois”… Não colou e ficou Tosco!

Enfim, não foi um bom épico, não teve boa direção em cenas decisivas, não convenceu, infelizmente. Recomendamos por dois motivos: quando Rony diz que Hermione é sua namorada e porque é o fim da saga, pois se fosse um filme independente… não valeria a pena gastar dinheiro com o cinema.

Por: Guerra de Pipoca e Laís.

Nosso Lar

Nosso Lar

Direção: Wagner de Assis

Gênero: Fantasia

Brasil – 2010

 

A teologia é um ramo da literatura fantástica

                                        - Jorge Luís Borges

            Normalmente não me meto em assuntos religiosos. Tenho uma certeza praticamente absoluta sobre a inexistência do sobrenatural e, quando não em contexto de arguições antropológicas, considero obsoleto abordar o tema. Para ser sincero, o que penso das religiões em geral é bastante simples. Existe uma expressão, do sociólogo Erving Goffman, para instituições falidas que ainda pensam ter algum poder expressivo: acalmando o otário(não para as pessoas que acreditam, mas as Instituições em si!) No caso, as Igrejas não possuem poder significativo, mas é bom deixarmos acreditar que ainda tem relevância. Nada impede que, se algum dia de fato se sentirem ameaçadas, contra-ataquem e recuperem a influência social de outrora. Precisamente, para impedir que isto aconteça, a sociedade em geral confere certa voz à Igreja, fingindo dar importância às suas palavras. Na prática, pouco pode fazer. Se a Igreja se impõe contra o aborto, isto pode influenciar tão somente os próprios religiosos. Uma menina não-religiosa abortará de qualquer modo. E não sofrerá represálias morais por seus semelhantes, a princípio, seu grupo social. Se ela for religiosa, abortar e sofrer tais represálias pelos religiosos… bem, está na hora de se tornar atéia. E se argumentarmos sobre a constituição do Estado laico e das condições financeiras daquela que quer abortar; ipso facto, não muda muita coisa do que mencionei acima. No mais, certas leis serão eventualmente aceitas quer a Igreja tolere ou não. Sua voz é semelhante ao do velho patriarca gagá na discussão sobre os afazeres familiares. Todo mundo finge escutar por respeito. Entretanto, no fundo, os efeitos de suas palavras são inofensivos. É melhor deixar o velho patriarca iludido, sedado, do que provocá-lo. Vai que ele resolve deserdar todo mundo ou algo assim? Penso semelhante em relação às instituições religiosas.

            Portanto, não tinha a menor intenção em falar mal deste filme a priori. Infelizmente, ele é ruim demais! Ultrapassou todas as minhas expectativas! Recomendo para casos de insônia ou masoquismo. Diante o imenso sucesso do filme –o maior orçamento e a maior bilheteria do cinema nacional – é minha obrigação saber o que se passa nele já que meu trabalho é pensar as culturas e as sociedades. Tenho uma técnica para tornar o fardo menos torturante. Imagino tudo em termos de literatura fantástica. Portanto, quando São Tomas de Aquino, em sua Suma Teológica, revela os segredos da “Obra de Deus”, imediatamente penso na Terra Média, no Gandalf e no Sauraman erguendo seus cajados etc. A Bíblia, então, com a criação do mundo… leio como se fosse Tolkien.

Quando Aquino diz:

 ”Dizemos que Deus não tem nome ou está acima de qualquer denominação, porque a sua essência sobrepuja o que dele inteligimos e exprimimos pela palavra.

A verdade, considerada como virtude, não é a verdade comum, mas uma certa verdade, pela qual o homem se mostra como é, nas palavras e nas obras. A verdade da vida é aquela pela qual o homem, na sua vida, realiza o fim para o qual foi ordenado pelo intelecto divino…

Basta imaginar como se tais palavras fossem proferidas pela Khaleesi sobre a existência ou não de dragões, no Game of Thrones, para tudo se tornar mais interessante. Vão por mim que funciona!

Infelizmente, Nosso Lar é tão ruim que nem com essa capacidade de abstração consegui gostar do filme. Como? Como um filme tedioso, sem nenhum resquício de ação, repleto de lições moralistas simplórias auto-evidentes e pedantes conseguiu fazer tanto sucesso? Como isso foi possível? Se isso é o que brasileiro médio acredita e tem como valor, é de desanimar quaisquer perspectivas para o futuro do país.

A essência de qualquer religião, mais do que dizer qual será o destino dos homens após a morte, é estabelecer a Ordem do Universo para que os homens possam viver em harmonia. Cansamos de ouvir a velha história de que as Religiões pregam a paz fazendo guerra, certo? Não é exatamente uma hipocrisia, uma vez que a paz fundamental aqui é do próprio grupo. A Religião—seja lá qual for—mantém a coesão interna do grupo e justifica, legitima, a violência. Em outras palavras, ela controla e delimita qual segmento que deve morrer. Ao concentrar a violência da sociedade sobre infelizes determinados, ela garante a paz dos demais. Porém, para que isso seja possível, é preciso que a sociedade inteira concorde com as regras desse ordenamento. Junta-se o útil ao agradável em designar os hereges àqueles que devem morrer.

O termo “religião” provém do latim, religare. Há um duplo significado disto: religar os homens ao elo que possuem em comum, o fundamento do passado em comum que o fazem agora viverem juntos em sociedade. O outro significado é mais poético e talvez mais significativo. Religar/ delegar ao Outro aquilo que sou incapaz de fazer sozinho. Explico: a união dos homens é capaz de levantar prédios, pontes e mil maravilhas. Não obstante, é incapaz de, digamos, deter uma tsunami. Eis então como os homens elaboram seus pactos com os deuses, para que estes controlem a natureza em favor dos primeiros.

Portanto, a Religião é Política. Bispos na televisão não são algo recente. Digo, a televisão pode ser, mas os dedinhos santificados mexendo as cartas em nossos afazeres, não é. Sempre foi assim. E é por isso que falarei, neste texto, de Ciências Políticas. Evidentemente, das três irmãs das Ciências Sociais, este terreno é o que menos conheço. Vamos lá de qualquer forma, é sempre interessante brincar com São Tomas de Aquino e a concepção da cidade ideal na Idade Média. É surpreendentemente próxima daquela pregada em Nosso Lar, salvo pelo advento da mentalidade capitalista entre os setecentos anos de diferença das duas obras.

Constitucio, na Idade Média, denota os aspectos de órgão; não somente jurídico, mas também de corpos, como o de um ser humano. Pode-se dizer de um sarado que ele tem “boa constituição”. Se para os homens existem condições de saúde e de doença, o mesmo é pensando em relação ao Estado (lembrando que o Estado Moderno só surge na, tcharan, Idade Moderna). Em Aristóteles, há três formas de bom governo para as correspondentes formas degeneradas: Monarquia e Tirania, Aristocracia e Oligarquia, Politéia e Democracia. A noção de “regime” não tem nada a ver com os Vigilantes do Peso. Ela advém da pastoral cristã, não necessariamente relacionada ao poder coercitivo. Trata-se do deslocamento de um pastor de almas ao governante, ao longo do tempo. O que um sacerdote não convence pela persuasão, cabe ao rei punir através da força.

Então, um belo dia às vésperas da Segunda Guerra Mundial, um médico chamado André Luiz bate as botas. Embora o filme insista em negar Kant dizendo que espaço e tempo não existem, André Luiz cai num lugar geograficamente bem semelhante ao nosso imaginário, senão do Inferno, do Purgatório. Se espaço e tempo não existissem, ele poderia cair em qualquer lugar, mas me parece que a queda especificamente no Purgatório foi proposital. Então o espaço existe e pronto! E se tempo não existe, existe a morte pra início de conversa? A vida transcorre, do nascimento à morte, no tempo, não? Bem, não vou entrar na Física e muito menos na metafísica, voltemos para Aquino.

De regimine principum (1265) foi escrito por Ptolomeu de Lucca, mas Aquino levou os créditos. Tanto faz. É um livro de aconselhamento ao governante, cujo representante mor deste estilo literário é Maquiavel com O Príncipe. A noção moderna de Estado não deve ser aplicada nem ao mundo Medieval, nem ao Nosso Lar, porque nessa cosmologia o que define a cidade-estado como organização política não é o território. Esses conceitos de Estado, Poder e dominação são inseparáveis na modernidade, mas não é necessariamente universal. Regimen é diferente de dominatioRegimen não é uma ideia política. Seu significado é ético, relacionado à atividade pastoral. A função de um rector é de regere, ou seja, conduzir. A coerção pela força tem papel secundário, pois a condução das almas à salvação se dá pela persuasão.

Bem, vou dar um pulinho rápido em Max Weber. Pessoas mais humildes tendem a desenvolver religiosidades de salvação. O mundo é maculado por uma injustiça original, um pecado, então acredita-se na vinda de um Vingador, digo, Salvador para corrigir isso. Pessoas de classes médias para cima—como no caso da maioria dos adeptos do espiritismo ou das versões ocidentais do budismo—desenvolvem religiões mais particulares, individualistas, com forte ênfase no desenvolvimento pessoal e que, portanto, legitimam as recompensas e privilégios que podem adquirir. Nosso Lar, desta perspectiva, enquadra-se perfeitamente na análise de Weber. André Luiz é um médico, não um favelado. E todos seus amiguinhos poltergeist são advogados, engenheiros etc… claro, duvido que haja um antropólogo! Voltemos para Tomas de Aquino.

Dentre as três formas de governo, a monarquia de Um só (o rei, o líder espiritual ou seja lá quem for) favorece a função pela qual o governo existe, que é conduzir a multidão à unidade. As almas que não são dobradas pelo convencimento da palavra serão dobradas pela coerção imposta ao corpo. Ir para o céu depende aparentemente do seu livre-arbítrio, mas se porventura você não seguir os ditames locais…é Inferno!

Juntando Weber e a idealização política de Aquino, torna-se fácil entender a apologia do sofrimento feito pelo líder religioso naquela comunidade astral louca do filme. “Todo merecimento se conquista através do trabalho”. Assim…

Tipo…

Vamos combinar…

Rameira que pariu! Você rala a vida inteira, pasta, sofre para ganhar o pão de cada dia e depois de morrer… tem que continuar trabalhando? Se isso é o Paraíso, imagina o Inferno? E não é qualquer trabalho, é praticamente escravo, a ver a condição socioeconômica aparente dos residentes daquele mundo astral. Parece bem próximo de bairros proletários do subúrbio das grandes cidades. Ou seja, em vida, para médicos, engenheiros e advogados, a mais-valia da sua mão de obra é mais lucrativa do que post-mortem. Novamente, isto é no Paraíso, imaginem o Inferno…

A estrutura jurídica dos direitos de soberania é um pressuposto da ideia de governo, como uma condição de governo na modernidade. Na modernidade, o reino é a condição de governo. Na Idade Média, pode-se dizer que o regimen é a condição do regnum. Logo, os preceitos são opostos. A condição para que haja rei e realeza é de que o indivíduo que governa o faça com retedição: rex recte “regendo”. Afinal, o princeps é o primeiro lugar na ordem republicana. Ao reger com retidão, o indivíduo tem direito para ser rei. O rei existe para fazer a justiça no seculuum—o tempo dos homens, a realidade mundana.

Para Marcel Gauchet, Cristo é a radical subversão (oposição) às expectativas do que se supõe ser um messias. É pobre, ferrado, só apanha e, no final, não consegue salvar ninguém. Não tem redenção mundana, não chega envolto de glória. Não significou nem um pouco da pompa esperada de um messias. A Igreja se constitui na tentativa do monopólio das interpretações sobre a existência e a função do Cristo.

Então, naquele mundo do Nosso Lar, André Luz não tem sequer o direito de fazer perguntas. Reparem nisso: cada vez que ele faz uma indagação, leva um fora dos mais experientes. “Não faça tantas perguntas, tudo tem seu tempo para as respostas” (o mais interessante é que, nós, telespectadores, jamais saberemos quais são essas respostas). Nosso Lar menospreza as faculdades do intelecto—afinal, o conhecimento médico de André Luiz tornou-se completamente inútil—e faz apologia da alienação. Exemplos de frases concretas do filme? Eis: “Diplomas na Terra não servem de nada”; “O que sabe sobre medicina espiritual?” (eu, Eduardo Cidade, particularmente sei que ela não funciona, mas enfim); “Tente não pensar em nada”; “Diplomas terrenos!”. Aliás, para que exista medicina espiritual no mundo astral, significa que é possível sentir dor após a morte. Logo, não há total desvinculação com o corpóreo o que significa que o filme se contradiz o tempo todo.

O mundo medieval é tão somente um vale de lágrimas em espera da salvação. Qual é a justificativa e a legitimidade do governo mundano para exigir a obediência do cristão? O governo dos homens pelos homens faz parte dos planos da Providência Divina. E de que maneira entram nesses planos? Deve-se obedecer César porque o governante garante uma vida calma, serena, piedosa e digna. Os governantes indiretamente ajudam os indivíduos na vida virtuosa, criando as condições—paz e ordem—para que a realização de tal vida seja possível. Seria mais difícil alcançar a Virtude se houvessem conflitos e guerra. É o disciplinador dos corpos que assegura a ordem gerando o terreno favorável à dedicação da vida virtuosa. O rei (regnum) obriga os indivíduos a seguir a ordem pública. O reino é umaecclesia universalis—uma comunidade de fiéis batizados em Cristo. Não devemos confundir com uma hierarquia de organização eclesiástica, onde pertence o sacerdotium.

Atualmente, só se pode falar de governo supondo a existência de Estado. A equação é inversa no pensamento medieval. Só existe um reino digno deste nome se o rei é bom. O verdadeiro rei deve ser um santo. Ele personifica as leis naturais: ou seja, a ordem objetiva do mundo que deve servir de conduta para o indivíduo. O regime vem antes do governo! Os direitos de governo não precedem o governo. O rei apenas chega a sê-lo se for justo. As leis fundamentais são baseadas na tradição e, neste sentido, um bom motivo para uma revolta seria “eu me rebelo porque ele não cumpre o que prescreve a lei de Deus. Ele não é justo”. Surreal, não? A concepção ministerial da realeza deriva do fato que o ministério originalmente significa um serviço. O rei desempenha uma função eclesiástica. E o pastor é um ministro! Sacerdotium e regnum estão ambos ao serviço de deus. Surreal ao quadrado.

Então, aquele velhinho que concede ou não o direito das almas penosas falarem com os vivos é rei e sacerdote simultaneamente. O engraçado é que mesmo morto você não encontra com Deus diretamente, mas com seus asseclas. Deus é VIP demais para encontrar com sua própria criação. Em termos marxistas, seria ele um alienado? Já dizia Nietzsche: o cristianismo é o platonismo das massas (e antes de qualquer crítica, as religiões ocidentais, por mais que reivindiquem singularidade, possuem forte influência cristã).

Na virada do primeiro ao segundo milênio, o Papa Gregório VII propôs em sua reforma uma tentativa em submeter os governantes seculares à autoridade do babado, digo, papado. O rei começava a se secularizar, mas ainda é cedo para falar de uma ruptura, em termos modernos, da política com religião. No mundo de Nosso Lar, elas andam de mão dadas. Se não fosse o pecado, os homens não precisariam de um rei. Um evento que minou a predominância católica foi o de São Bartolomeu, na França do século XVI (quem não souber o que foi isso, Google! Se eu explicar, me estenderei demais). Surgiu uma necessidade dos protestantes defenderem publicamente a rebeldia contra o rei da França. A disputa é entre duas casas reais, os Guise (católicos) e os Bourbons (protestante). Catherine de Médici tenta matar o futuro Henrique IV, o rei protestante que se converte ao catolicismo e redige um edito de tolerância. Isso vai subverter as imagéticas do propósito do Rei e do Reino, mas não vamos nos apressar.

            Em primeiro lugar, o bem-comum é a paz. E o “um” (o rei) realiza melhor que dois, três ou quatro. Para São Tomas de Aquino, a monarquia realiza melhor a unidade e é de longe a melhor forma de governo. O papel do rei será tanto mais digno deste nome quanto mais virtuosamente ele cumprir sua função. A fácil definição de virtude é possível uma vez que operamos em princípios absolutos (o bom rei não tem muitos cavalos, não tem muitas mulheres e lê a Bíblia diariamente—que porre! Se é para ser rei assim, prefiro ser escravo).

Um senhor pode ser um tirano em sua casa. A tirania é um conceito independente de sua função pública. A Economia, originalmente, se refere às normais e leis da conduta da casa (oikos, em grego). Os missi são enviados do imperador encarregados de velar pela boa ordem do reino com fortes implicações morais. Não se trata somente de impostos, mas, por exemplo, verificar se as mulheres de dada aldeia são adúlteras ou não.

            Na década de 1260, a Política de Aristóteles é traduzida por um monge dominicano flamengo. Aristóteles fornece menos um corpo de doutrinas do que uma linguagem a partir da qual será uma vertente propagada. Há duas tipologias de regime na Idade Média: o regime político e o regime real. Nas monarquias reais, o rei governa segundo suas leis. No regime política, tais como nas cidades italianas, o sujeito que governa o faz segundo as leis da cidade.

            A Universidade é o local de produção intelectual dos séculos XII e XIII, com a expansão urbana e associação de pessoas. Uma universitas é composta pela pluralidade de um grupo humano; quase uma “pessoa jurídica” resultante da pluralidade de indivíduos. As diversas faculdades rivalizam entre si, buscam prevalecer um ramo do saber sobre os outros. As faculdades, por excelência, são: Direito, Medicina, Teologia e Artes Liberais.

            A escolástica é um método (é a cultura das universidades) de estruturação do pensamento, cujo patrono-mor é Aristóteles. Desenvolve-se então um rigoroso sistema de argumentação e retórica. A produção escolástica máxima são os comentários sobre uma cultura formada de livros cânones. O que se faz na Universidade é para aqueles que estão dentro destas, numa lógica coorporativa fechada. Não é muito diferente de hoje em dia.

            O que isso tem a ver com as aventuras de André Luiz no além?  Nada…digo, tudo! O não-questionamento e obediência cega à autoridade são típicos do pensamento escolástico. Aristóteles disse x, então é x. Pode-se, no máximo, tecer comentários. “Beba água e não fale nada” – o que é isso senão incitação à não-crítica, suprimento do pensamento crítico? “Toda forma de servir é uma benção”: não seria uma total defesa da hierarquia já dada no mundo, na qual devo me conformar com as estruturas tais como elas já são designadas por um artífice soberano e supremo, inquestionável?

            Agora, o mais surpreendente de tudo! Se você acha que, após a morte, baixar na cabeça do Chico Xavier ou qualquer outro médium é de graça, reles engano! Um morto não pode simplesmente sair entrando na mente de qualquer médium: é preciso trabalhar! Os vivos pagam a conta do celular; os mortos, para falar através dos médiuns. É justo, não? Na verdade acho uma palhaça. Em Nosso Lar, é preciso acumular bônus-horas para merecer serviço. É “trabalho, sempre trabalho”. Mas em prol de que os mortos trabalham para construir algo? Se é metafísico, se não está submetido às leis da física, simplesmente não há necessidade empírica alguma. É totalmente moralista. A generosidade jamais é gratuita e o exemplo do filme deixa isto nítido. Uma morta infeliz não consegue enviar mensagens para a família. Ela precisa fazer algo para merecer. Assim, se fosse entre os vivos, entenderia, mas por que diabos o Paraíso é tão infernal, tão humano, demasiadamente humano? Nem mesmo no Céu pode-se escapar da lógica da dádiva, da maldição do dom, do Marcel Mauss? E praticamente o dinheiro astral deles serve apenas para entrar em contato com os vivos, ainda assim, é desaconselhado. “Não vale a pena entrar em contato com os vivos, é preciso ter espiritualidade”. Tipo, eu não sou um espírito? Somente espírito, aliás? Como é que faço para ter ainda mais espiritualidade se já sou, integralmente, um espírito? Bem, provavelmente não sou tão espírito assim, uma vez que, para se ter uma casa, preciso merecer. E quem não merece? Vira mendigo no Paraíso? Ou é um pressuposto que há seleção prévia, no sentido que somente os já disciplinados na doutrina e aptos a aceitar qualquer palhaçada dita podem adentrar o grupinho?

            Tudo bem que a ideia de liberdade como isenção de regras é moderna, data de Hobbes (e, mesmo assim, em Kant liberdade é um tipo de ação isenta de influência sensível, pautada pela racionalidade e com fortes implicações morais). Para os Antigos, liberdade é poder participar da vida política da civitas, mas carambolas…

            Nesse mundo astral, os dirigentes dão o exemplo… aff! É praticamente um daqueles discursos clichês de mercado, que exigem do funcionário o mesmo padrão de excelência que o patrão, mas sem recompensá-lo igualmente. E se ousar exigir recompensa, é mesquinharia. Ou melhor, é aquele velho discurso que o excesso material é dialeticamente proporcional ao vazio espiritual. Discurso tal que funciona somente com os proletários, não com os dirigentes. O filme é explícito nisto. O mundo que valoriza o valor de troca da mercadoria cai na contradição de que, em última análise, não há valor em nada. Pensei que o Paraíso estivesse acima disto, mas me iludi…

            Bem, se não é para falar com os vivos na lan house (sim, os mortos se comunicam com os médiuns em lan houses astrais. Tem Internet e tudo no universo supostamente imaterial). Entrementes, se para além de morar num bairro proletário e falar com os vivos nalan house, qual a finalidade dessa pregação moral toda sobre a importância do trabalho? Teria Tomas de Aquino a resposta para o enigma?

O Homem tem um fim para o qual está destinado, a razão é o meio para alcançá-lo. Como os homens divergem sobre estes fins, é preciso que um dirigente defina e oriente os homens. Telos, em grego, significa fim. A concepção da Natureza em Aristóteles é teleológica. Só se conhece a Natureza de algo quando suas potencialidades estão plenamente desenvolvidas. A Natureza do homem é ser um animal político; o homem está destinado em viver na cidade. Somente na cidade o homem se realiza plenamente. Lá, sua situação será de suficiência (e as necessidades humanas não são apenas materiais).

            Neste contexto, o regente existe por fazer parte de uma ordem da Natureza. Se antes o rei existia pelo pecado, em Tomas de Aquino é um dado inevitável da Natureza, de caráter ontológico. O fim da comunidade é o bem da multidão: é a paz e a unidade. Logo, a finalidade do rei tem um quê de mundano, apesar de toda pregação sacerdotal. A Graça não contradiz a Natureza, mas a aperfeiçoa. Existe congruência entre a ordem do mundo e os planos da Providência.

A verdadeira natureza é a semelhança de Deus; no entanto, por conta do pecado, o homem nega sua própria essência. Se os homens não fossem pecadores, bastariam os sacerdotes. Os topos são pontos de passagem canônicos na formulação da retórica. Qual é o fim do homem? O homem possui a razão para reconhecer seus fins, entretanto, a razão não lhe basta. Acontece, porém, agirem os homens de modos diversos em vista do fim, o que a própria diversidade dos esforços e ações humanos patenteia. Portanto, precisa o homem de um dirigente para o fim. É a carência biológica dos homens que os impelem à associação. Neste sentido, é utilitário. Lembremos de Max Weber em sua distinção entre ação instrumental e ação baseada em valores (há outros dois tipos de ações para Weber, como a via afetos e a por tradição). Uma ação relativiza os valores em função de cálculo de fins e meios. Noutro, entra a questão dos valores e honra. A deficiência do homem é suprimida pela capacidade de associação política.

            Oras, é melhor ser dois juntos do que um; desta forma pode-se tirar proveito da mútua sociedade. A natureza é o fim e a natureza do homem é a cidade, por lá encontrar condições de plena suficiência. O atributo natural implica atualização de determinada potencialidade. Em Max Weber, na Ciência como Vocação, não nos é mais dado fazer como um cientista do Renascimento. Ao conhecer fatos, se descobre sentidos, como por exemplo se alguém desvendar a natureza do piolho por consequência prova-se a existência dos deuses (se o piolho é perfeito, então ele é necessariamente obra divina). É por isso que argumentos religiosos são tão evidentes para os crentes e simplórios para cientistas. Se o mundo é tão belo, então necessariamente foi criado por entidades supremas. Tenho certeza que todos aqui já ouviram tal argumento. Aff.

            A cidade visa a vida boa e a virtude daqueles que nela vivem; é para além das meras segurança e manutenção utilitária das condições de vida. A linguagem em sua essência exige a cidade! Antonomasticamente (por analogia, por identidade raiz), o despotes—ou seja, déspota—, é o nome grego para o senhor de uma casa. O senhor concebe, o escravo realiza. A casa surge em condição de falta originária de cada um dos componentes. De uma associação de casas, surge a aldeia, que suprirá as carências da casa. De várias aldeias unidas, emerge a cidade. A cidade basta em si mesma, é o ponto de chegada. Aquilo que é suficiente é plenamente. A cidade é o ponto de chegada por ser suficiência e plenitude em termos ontológicos. A falta de tal plenitude é uma falha, uma falta da própria identidade. Afinal, o corpo que não muda é idêntico a si mesmo—e isso é o ideal na Antiguidade e na Idade Média.  O movimento na Física aristotélica é impulsionado por uma lógica de identidade, de essencialidade. Para Kant, a Natureza é o conhecimento de fenômenos, daquilo que é observável. O ideal é buscar conexões factuais. Em Aristóteles, fatos e sentidos são categorias inseparáveis. Falar da natureza do homem é ponderar do próprio sentido da existência humana. Ou melhor, arethé—virtude, excelência, aquilo que é bom e belo. O bom é associado ao reconhecimento dos outros de sua excelência. Lembram do Banquete do Platão? Alcebíades e Ágathon? Então, ágathos significa bom. O Cristianismo reverte essa concepção, uma vez que, quanto melhor for o indivíduo, menos este deve aparecer para os outros.

            Enfatizo que, para São Tomas de Aquino, o bem comum é a unidade, ou seja, a paz.Politeia pode, além da forma adequada da democracia, com cautela, ser traduzido comoconstituição ou regime. O regime bem organizado está em sintonia para com a finalidade ele mesmo existe, em harmonia com a natureza. Como o mundo é imperfeito, há espaço para a ação humana uma vez que a natureza não realiza por si só. Se muitos governarem a cidade, todos estes sujeitos precisarão submeter suas vontades a uma única vontade. Adiante, a natureza também funciona deste modo, realizando a unidade de modo mais eficaz. Porém, se um realiza o bem melhor, também realiza o mal pior vide ser uma vontade única na direção ruim; no caso dos muitos ruins, os interesses maus se neutralizam. A tirania absoluta é a pior forma de governo; não obstante, só um tiquinho de tirania ainda é melhor que a democracia. Melhor uma tirania light, com poucas calorias, do que a democracia. Se o importante é a unidade da cidade; neste aspecto o argumento é mundano. Os fins que dizem respeito à salvação dos homens não necessariamente coincidem com a salvação da cidade. E a salvação da cidade é a suprema lei.

            Até porque, se fosse só eclesiástico, os termos seriam incompreensíveis. De certo modo, isso justifica a lan house e as casas proletárias em Nosso Lar (sem contar os trens futurísticos estilo parque de diversões da Disney).

            As monarquias medievais são frequentemente eletivas. A eleição não é popular, mas o resultado da escolha de indivíduos de posição privilegiada. Não é por voto individual, mas fruto de consenso unânime. Um poder que limita o soberano é a negação do direito de matar e a possibilidade de resistência ao tirano. As autoridades são, então, aqueles que cumprem funções públicas, podendo destituir o tirano (e de qual país e século falamos).

            A resposta para o risco de tirania é simples. O governo misto. Neste arranjo, as virtudes não são dos governantes, mas das instituições. Elas não necessariamente produzem virtude, mas elaboram limites e restrições. No pensamento grego havia um ciclo vital básico das sociedades humanas. A monarquia se estabelece diante o caos do suposto Estado de Natureza. Os sucessores do primeiro rei esquecem da situação original de conflito e pensam mais em si mesmos do que no interesse público, culminando em tirania. Eventualmente são depostos pelos aristocratas que, caídos no vício, se entregam à oligarquia. É, então, novamente deposta: eis o surgimento da democracia. No governo misto, cada tipo de órgão encontra o contra-peso com os demais. Encontra-se uma ordem os diferentes regimes se equilibram mutuamente. É cheia de freios e contrapesos (checks and balances, no pensamento político anglo-saxão). Tal mecanismo evita o abuso de poder.

            Como garantir a estabilidade, a permanência—ou seja, a durabilidade—na vida da cidade? São Tomas de Aquino recupera a reflexão de Políbio. O regime é condição do reino, então Aquino aplica a ideia da linguagem da constituição do governo misto nesta. Não é uma descrição, mas uma afirmação normativa. O pressuposto do Rei é a justiça daquele que governa. O arranjo do governo misto permite uma realeza política. Logo, o rei é limitado pelas leis, assegurando que o rei governe com retidão e justiça. Não se trata da preocupação com a comunidade de cidadãos, mas a importância de assegurar que o monarca não se torne um tirano. A constituição mista, para Aquino, é a possibilidade da monarquia limitada. Se o rei for extremamente virtuoso, ele não estará submetido à lei vide que sua própria lei é a Justiça. Esta seria a monarquia real, mas não é “plausível”. Tempera-se o rei: a melhor forma de limitar o poder do rei e garantir a Justiça. Para Políbio, é mais importante a estabilidade e a paz. Na lógica de Aquino, não há Estado.

Em nota: governo misto é um protótipo da divisão dos poderes de Montesquieu. É uma tentativa de combinar monarquia com aristocracia e democracia, mas não planejo me estender muito nisto. Na minha humilde opinião, qual a forma de governo em Nosso Lar?

            Oras, trata-se de um governo oligofrênico (tal palavra significa, literalmente, débil mental). No Leviatã, de Hobbes, o estado de natureza é de homens segmentados. A instituição do governante transforma a multidão em pessoa pública. A realização da unidade da multidão envolve o conceito de finalidade uma vez que a ordem pública não é apenas a delegação de disciplinas. Ela envolve alguma concepção teleológica da vida coletiva: a sociabilidade dos homens tem determinado fim. No Leviatã, o homem não é social e tampouco tem um bem supremo. No mundo do Hobbes, não há finalidade objetivamente dada na vida política. Nossas percepções sensoriais recebem impressões que desempenham pressões por todo o corpo. Onde não há movimento, não há vida. Os valores são resultados dos nossos apetites que consideramos bons e ruins. O Bom depende dos apetites, daquilo que dá prazer. O mau é seu avesso. O desejo e a aversão não existem fora do Homem: existem apenas movimentos internos do corpo produzindo valores.

            Em São Tomas de Aquino, a ordem do mundo está objetivamente dada. Alguém lembra de como é a capa do Leviatã? Há um sujeito segurando um báculo—espécie de cetro episcopal—em uma das mãos e uma espada, na outra. A cabeça dá unidade ao corpo, que é composto por múltiplos bonequinhos—digo—súditos. O poder é um artífice e, sem um poder público, a unidade seria impossível. Os homens são dissidentes. Em Aquino, o poder não é um artifício, mas uma exigência lógica para alcançar os tais fins da Natureza. Se não há poder, então temos uma aberração. A comunidade perfeita, por natureza, exige a existência do poder. Entretanto, isto é pela lógica. Empiricamente, dada a imperfeição do mundo, é possível que o poder não exista (o que é, ressalto, uma aberração). A tirania em excesso é o pior dos regimes, porém a tirania moderada é melhor que o mau governo de muitos. A democracia permite que cada um busque seus próprios interesses, rompendo a unicidade do bem-comum.

            Religião não é qualquer Política. É monarquia absoluta!

            Para finalizar, não posso deixar de falar da Eloísa, uma jovem morta que chega no além quando André Luiz começa a se adaptar com todo aquele esoterismo. Ela é rebelde, acha aquelas casas proletárias muita pobreza, detesta as lições de morais chatas e sei lá o que ao quadrado. Portanto, ela é categórica ao afirmar que tem direito sobre a própria vida. Eu também pensaria isso, mas André Luiz refuta, diz que não. Ele explica sobre a Lei da Ação e Reação, no melhor estilo de livros de auto-ajuda. Pode-se pensar que é o momento mais emocionante do filme, que enfim vai acontecer algo em torno de todo aquele sermão. E acontece. Mal Eloísa tenta fugir do Paraíso que ela se dá mal. O Céu é um cárcere privado. ÉLeviatã. Ao menos Hobbes é mais pragmático do que moralista.

            Regimem Bene Commixtum: regime adequadamente misturado. A representação não é algo resultante de uma designação eletiva. No melhor regime, há um que preside, alguns homens virtuosos exercem funções no principado e muitos elegem o príncipe. O melhor regime combina elementos de três formas constitucionais—a monarquia, a aristocracia e a democracia. É na questão da constituição mista em relação à monarquia absoluta que Aquino e Nosso Lar começam a divergir. Porém, na parte da virtude e do auto-convencimento da doutrina dominante, são quase idênticos.

Não troco nosso planeta azul por nenhum outro lugar na galáxia, nem pelos mundos felizes”. É preciso ser masoquista para dizer isso. Se o Homem não busca a felicidade e nem mesmo no Paraíso ela é encontra, o que é que ele busca? Ah, não caio nessas. O Homem moderno busca a felicidade. O Homem medieval, a salvação, mesmo que isso implique em preferir deliberadamente o sofrimento ao invés da boa-venturança.

Vamos combinar que os Vikings, estes sim, sabiam o que é realmente o Paraíso!

Não vou estragar a surpresa para quem não viu o filme, mas estas cenas, embora não realmente relevantes para o texto, não podem ser ignoradas!

*Depois de tanto discurso de superação e desapego de questões mundanas, André Luiz sentiu ciúmes ao saber que a mulher arrumou outro. Ah, francamente, que superação fajuta!

*O final do filme fala do André Luiz como se ele fosse uma pessoa de verdade, “André Luiz continua a trabalhar em Nosso Lar até os dias de hoje”. Ele não quis reencarnar de 1930 até a atualidade. Gostou mesmo de morrer. Será que o IDH é alto em Nosso Lar pra valer tanto a pena? Bem, só pode ser, porque night e diversão são inexistentes. A única coisa que compensa são os concertos de música clássica ao ar livre naqueles belos jardins, mas acho que não pode beber, então fica sem graça…

Por: Eduardo Cidade.

Clube dos Pervertidos

Clube dos Pervertidos – A Dirty Shame

Direção: John Waters

Gênero: Comédia, Sexo

EUA – 2004

Ok!

Amor é muito gostoso, mas ninguém vive de flores e declarações de amor, correto? Então, como amanhã é dia dos namorados, que tal falarmos do verdadeiro tempero de qualquer relação amorosa, a saber, o sexo? Não venham com a ideia de que sexo é secundário, porque NÃO É. Alguém aceita namorar uma pessoa que o beijo não combina? Ou que é muito ruim de cama? Pois é… Sexo não é secundário.

Eu não conhecia esse filme até bem pouco tempo – quando a Dudark gravou um DVD pra mim, me presenteando com ele, seguido das seguintes palavras: “Vampinha, é uma comédia muito mais ou menos, mas é interessante pensar a luta entre a sociedade que julga ‘doente’ seres sexuados X os seres sexuados que mostram como o sexo é natural e saudável”.

É isso aí, Dudark! Concordo em gênero, número e grau que é disso que se trata. Mas, antes de falar do filme, quero dizer sobre uma experiência que fizemos (Moiras)durante essa semana.

Depois que assistimos ao filme, propus de usarmos o facebook da Morgue para uma experiência muito simples. Todos sabemos que a Morgue é uma pessoa de caráter firme, delicadeza inquestionável, educação soberana. Ninguém vê a Morgue ser ‘vulgar’, certo?

Pois bem. Então que escrevemos (Moiras) na página (facebook) dela (Morgue), como se fossemos ela: ‘EITA VONTADE DE TREPAAARRRRR GOSTOSO’.

Eu já sabia que iríamos receber represálias, fazia parte do experimento. Mas, não sabia que um grande amigo da Morgue iria parar de falar com ela. Isso me surpreendeu. Até que ponto o recalque  vai…

Tínhamos noção de que os mais puritanos do pau ôco iriam dar um pito e sabíamos que os mais livres clicariam no “curtir” do comentário. E foi o que aconteceu. Claro que com algumas ofensas as coisas sairam do controle, pois todos sabemos que não levamos desaforo pra casa… Teve gente que, inclusive, deletou a Morgue de sua página/contato. :o

Por que sexo tem sempre que ser associado à vulgaridade? Por que não se pode concebê-lo de maneira normal? Será que as pessoas que criticaram o “trepar gostoso” acham que vieram ao mundo pela graça divina? Que seus pais não se chupam até dizer chega? Que seus pais não se comem em todos os buracos competentes para isso?

**

Eu não me iludo: meus pais transam pra caramba! Felizmente, não nasci pelo método “in vitro”. Nasci como tem que ser: na base do sexo e da gozada. E tomara que a gozada tenha sido das boas. O que eu acredito muito que seja, porque eu gozo demais na vida. Aliás, se tem algo que eu gosto de fazer é gozar!

Sou pervertida por pensar assim? Vulgar? Ou sou NORMAL?

E agora podemos falar do filme, pois é disso que se trata, só que em doses nada, nada homeopáticas.

Muitos são os que criticam o BDSM ou qualquer forma distinta de se fazer sexo. Já vi muito homossexual criticar algumas posições e técnicas, mas não se tocam que se reúnem na Avenida Paulista, p. ex., para exigir respeito e igualdade de tratamento… Que coisa, não? Pessoas que deveriam, no mínimo, não criticar a forma como outros gozam, por vezes, são as mais intolerantes. Enfim, já vi também muito heterossexual normaloide insistindo em criticar tudo: os homossexuais, os bissexuais, os bdsmistas etc. Acho tudo isso um saco, pois o que importa é fazer sexo como gosta e goza. Não importam os rótulos, importa que o sexo seja: SÃO, SEGURO E CONSENSUAL.

No filme, que é comédia, tudo (fetiches, fantasias, homossexualidade, BDSMistas, Bissexualidade etc) se apresenta satirizado e caricatural. Concordo com a Dudark, pois chega um ponto em que as piadas são até bem bobinhas, mas dá pra rir adoidado. Porém, é soberano notar o grupo de pessoas que se unem contra as pessoas que se tornaram viciadas em sexo depois que levaram uma paulada na cabeça. Aliás, dá pano pra manga até mesmo a maneira como se viciaram em sexo: levando uma porrada na cachola. Ou seja, como se bater com a cabeça enlouquecesse os indivíduos. Percebem?

A sociedade normativa cria um grupo de ajuda para pessoas viciadas em sexo e tudo vira uma baderna. De tão ridículo que é a comunidade pastoral que acha um horror uma boa trepada (como o experimento no facebook da Morgue), o filme passa a ser engraçado. Não é cult, não é altruísta, mas vale muito a pena dar boas gozadas, ops, risadas, com essa sociedade cristã chata e careta; que julga o sexo como algo impuro… decerto, nasceram pela cegonha. Uia! Que coisa patética.

Abaixo a caretice, o recalque e as idiotices preconceituosas! Viva o amor livre, o sexooooooooooooooooooooooooooooooooooooo seja como for!

Foda-se a ignorância, literalmente. SÓ QUERO SABER DE GOZAR NO FINAL…

Por: Vampira Olímpia.

O Virgem de 40 Anos

O Virgem de 40 Anos – The 40 Years-Old Virgin

Direção: Judd Apatow

Gênero: Comédia

EUA – 2005

O título já nos adianta o que vem lá, uma comédia para adolescentes. Já vi milhares. Gosto das antigas, tipo “Porky’s” onde o escracho e o politicamente incorreto é o tom maior. Essas mais recentes são infantilizantes e imbecilóides. Porém, desta feita não é bem assim. Um homem de quarenta já é crescidinho. Sabe o que quer e infelizmente o que vemos na tela também ocorre na vida real. Muitos nascidos no início década de sessenta, recusam-se a amadurecer.

Mas a pergunta é: quem é mais bobo? Os amigos com valores superados e chavões machistas acerca das mulheres – até o “romântico” da turma- ou ele, o virgem que ao que parece simplesmente, não pintou alguém? Será que as pessoas não podem optar na vida? O sonhar com um encontro pessoal de alto nível?

Essas reflexões são até meio esquisitas em um filme raso. Mas são válidas na vida que levamos. Piadas e mais piadas sobre quem sofre. Nem todo mundo é extrovertido e consegue mijar no meio da rua. Ou pegar uma vagaba bêbada na boate… Nem todo mundo é vulgar…

Começo a torcer pelo casal se ajustar. Ah, ele consegue o telefone de uma gata. Avó, já. Mas muito linda e interessante. Ele vai negando fogo, algumas horas as coisas não dão bem certo. E a gente morre de rir. O filme, diga-se de passagem, é realmente engraçado. A cena inicial da casa dele, o eterno adolescente acordando com uma ereção, é muito boa. E a da depilação? E quando um amigo quer provar que o outro é gay?

Cada pessoa tem um palpite infeliz e a sociedade americana transforma a conquista e as relações humanas em meros jogos. Mas é engraçado ver a moçada contando histórias sexuais e ele “confessando” que é virgem. De um lado eu fico racionalizando tudo e de outro, morro de rir.

A obsessão “em dar a primeira” dá uma guinada no meio pro fim do filme. Agora ele adia a idéia, pois o enamoramento torna-o inseguro. Resolve testar numa dessas vadias de plantão.

O roteiro então nos surpreende com uma armação final absolutamente divertida. Além da música escolhida ser “hors-concur”. Sei que daqui a pouco irei esquecer o filme e jamais revê-lo. Mas enquanto durou, eu ri muito. Se era pra isso que foi feito, serviu.

O que há de bom: um ator perfeito para o papel, sem exageros e parecido com muita gente que conheço
O que há de ruim: algumas traduções ficaram aquém da capacidade de nos dar mais graça do que já é, principalmente quando o negrão (sempre estereotipado) fala
O que prestar atenção: a música final é a abertura do mítico filme e peça “Hair”
A cena do filme: a revolta da filha em não poder ser plena como a mãe, típico de aborrecente

Cotação: filme regular (@@)

Por: C.O.B.R.A

Encontro às Escuras

Encontro às Escuras – Blind Date

Direção: Blake Edwards

Gênero: Comédia

EUA – 1987

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Postagem Automática

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O filme é de comédia. Além do mais, o humor dos anos 80 é bem diferente do humor dos anos 2000 e lá vai década. Então, não compensa falar das cenas que foram feitas para rir. O motivo é óbvio: perde a graça.

Deste modo, trago apenas uma  das mensagens que o filme transmite. Pensando na comemoração próxima do dia dos namorados, acho que o mais pertinente a ser ressaltado é: não desista de quem você ama. A não ser que haja uma situação insuportável, algo que não exista possibilidade de ajustamento de uma adversidade.

O filme mostra que é preferível ser honesto/a, jogar a merda toda no ventilador  e ser feliz com quem se ama (ou ao menos tentar ser) do que casar-se com alguém sem amor, por pura conveniência e satisfação familiar. Dar satisfação à sociedade não implica  em estar satisfeito/a…

Por: Guerra de Pipoca.