
Nosso Lar
Direção: Wagner de Assis
Gênero: Fantasia
Brasil – 2010
A teologia é um ramo da literatura fantástica
- Jorge Luís Borges
Normalmente não me meto em assuntos religiosos. Tenho uma certeza praticamente absoluta sobre a inexistência do sobrenatural e, quando não em contexto de arguições antropológicas, considero obsoleto abordar o tema. Para ser sincero, o que penso das religiões em geral é bastante simples. Existe uma expressão, do sociólogo Erving Goffman, para instituições falidas que ainda pensam ter algum poder expressivo: acalmando o otário(não para as pessoas que acreditam, mas as Instituições em si!) No caso, as Igrejas não possuem poder significativo, mas é bom deixarmos acreditar que ainda tem relevância. Nada impede que, se algum dia de fato se sentirem ameaçadas, contra-ataquem e recuperem a influência social de outrora. Precisamente, para impedir que isto aconteça, a sociedade em geral confere certa voz à Igreja, fingindo dar importância às suas palavras. Na prática, pouco pode fazer. Se a Igreja se impõe contra o aborto, isto pode influenciar tão somente os próprios religiosos. Uma menina não-religiosa abortará de qualquer modo. E não sofrerá represálias morais por seus semelhantes, a princípio, seu grupo social. Se ela for religiosa, abortar e sofrer tais represálias pelos religiosos… bem, está na hora de se tornar atéia. E se argumentarmos sobre a constituição do Estado laico e das condições financeiras daquela que quer abortar; ipso facto, não muda muita coisa do que mencionei acima. No mais, certas leis serão eventualmente aceitas quer a Igreja tolere ou não. Sua voz é semelhante ao do velho patriarca gagá na discussão sobre os afazeres familiares. Todo mundo finge escutar por respeito. Entretanto, no fundo, os efeitos de suas palavras são inofensivos. É melhor deixar o velho patriarca iludido, sedado, do que provocá-lo. Vai que ele resolve deserdar todo mundo ou algo assim? Penso semelhante em relação às instituições religiosas.
Portanto, não tinha a menor intenção em falar mal deste filme a priori. Infelizmente, ele é ruim demais! Ultrapassou todas as minhas expectativas! Recomendo para casos de insônia ou masoquismo. Diante o imenso sucesso do filme –o maior orçamento e a maior bilheteria do cinema nacional – é minha obrigação saber o que se passa nele já que meu trabalho é pensar as culturas e as sociedades. Tenho uma técnica para tornar o fardo menos torturante. Imagino tudo em termos de literatura fantástica. Portanto, quando São Tomas de Aquino, em sua Suma Teológica, revela os segredos da “Obra de Deus”, imediatamente penso na Terra Média, no Gandalf e no Sauraman erguendo seus cajados etc. A Bíblia, então, com a criação do mundo… leio como se fosse Tolkien.
Quando Aquino diz:
”Dizemos que Deus não tem nome ou está acima de qualquer denominação, porque a sua essência sobrepuja o que dele inteligimos e exprimimos pela palavra.“
“A verdade, considerada como virtude, não é a verdade comum, mas uma certa verdade, pela qual o homem se mostra como é, nas palavras e nas obras. A verdade da vida é aquela pela qual o homem, na sua vida, realiza o fim para o qual foi ordenado pelo intelecto divino…“
Basta imaginar como se tais palavras fossem proferidas pela Khaleesi sobre a existência ou não de dragões, no Game of Thrones, para tudo se tornar mais interessante. Vão por mim que funciona!
Infelizmente, Nosso Lar é tão ruim que nem com essa capacidade de abstração consegui gostar do filme. Como? Como um filme tedioso, sem nenhum resquício de ação, repleto de lições moralistas simplórias auto-evidentes e pedantes conseguiu fazer tanto sucesso? Como isso foi possível? Se isso é o que brasileiro médio acredita e tem como valor, é de desanimar quaisquer perspectivas para o futuro do país.
A essência de qualquer religião, mais do que dizer qual será o destino dos homens após a morte, é estabelecer a Ordem do Universo para que os homens possam viver em harmonia. Cansamos de ouvir a velha história de que as Religiões pregam a paz fazendo guerra, certo? Não é exatamente uma hipocrisia, uma vez que a paz fundamental aqui é do próprio grupo. A Religião—seja lá qual for—mantém a coesão interna do grupo e justifica, legitima, a violência. Em outras palavras, ela controla e delimita qual segmento que deve morrer. Ao concentrar a violência da sociedade sobre infelizes determinados, ela garante a paz dos demais. Porém, para que isso seja possível, é preciso que a sociedade inteira concorde com as regras desse ordenamento. Junta-se o útil ao agradável em designar os hereges àqueles que devem morrer.
O termo “religião” provém do latim, religare. Há um duplo significado disto: religar os homens ao elo que possuem em comum, o fundamento do passado em comum que o fazem agora viverem juntos em sociedade. O outro significado é mais poético e talvez mais significativo. Religar/ delegar ao Outro aquilo que sou incapaz de fazer sozinho. Explico: a união dos homens é capaz de levantar prédios, pontes e mil maravilhas. Não obstante, é incapaz de, digamos, deter uma tsunami. Eis então como os homens elaboram seus pactos com os deuses, para que estes controlem a natureza em favor dos primeiros.
Portanto, a Religião é Política. Bispos na televisão não são algo recente. Digo, a televisão pode ser, mas os dedinhos santificados mexendo as cartas em nossos afazeres, não é. Sempre foi assim. E é por isso que falarei, neste texto, de Ciências Políticas. Evidentemente, das três irmãs das Ciências Sociais, este terreno é o que menos conheço. Vamos lá de qualquer forma, é sempre interessante brincar com São Tomas de Aquino e a concepção da cidade ideal na Idade Média. É surpreendentemente próxima daquela pregada em Nosso Lar, salvo pelo advento da mentalidade capitalista entre os setecentos anos de diferença das duas obras.
Constitucio, na Idade Média, denota os aspectos de órgão; não somente jurídico, mas também de corpos, como o de um ser humano. Pode-se dizer de um sarado que ele tem “boa constituição”. Se para os homens existem condições de saúde e de doença, o mesmo é pensando em relação ao Estado (lembrando que o Estado Moderno só surge na, tcharan, Idade Moderna). Em Aristóteles, há três formas de bom governo para as correspondentes formas degeneradas: Monarquia e Tirania, Aristocracia e Oligarquia, Politéia e Democracia. A noção de “regime” não tem nada a ver com os Vigilantes do Peso. Ela advém da pastoral cristã, não necessariamente relacionada ao poder coercitivo. Trata-se do deslocamento de um pastor de almas ao governante, ao longo do tempo. O que um sacerdote não convence pela persuasão, cabe ao rei punir através da força.
Então, um belo dia às vésperas da Segunda Guerra Mundial, um médico chamado André Luiz bate as botas. Embora o filme insista em negar Kant dizendo que espaço e tempo não existem, André Luiz cai num lugar geograficamente bem semelhante ao nosso imaginário, senão do Inferno, do Purgatório. Se espaço e tempo não existissem, ele poderia cair em qualquer lugar, mas me parece que a queda especificamente no Purgatório foi proposital. Então o espaço existe e pronto! E se tempo não existe, existe a morte pra início de conversa? A vida transcorre, do nascimento à morte, no tempo, não? Bem, não vou entrar na Física e muito menos na metafísica, voltemos para Aquino.
De regimine principum (1265) foi escrito por Ptolomeu de Lucca, mas Aquino levou os créditos. Tanto faz. É um livro de aconselhamento ao governante, cujo representante mor deste estilo literário é Maquiavel com O Príncipe. A noção moderna de Estado não deve ser aplicada nem ao mundo Medieval, nem ao Nosso Lar, porque nessa cosmologia o que define a cidade-estado como organização política não é o território. Esses conceitos de Estado, Poder e dominação são inseparáveis na modernidade, mas não é necessariamente universal. Regimen é diferente de dominatio. Regimen não é uma ideia política. Seu significado é ético, relacionado à atividade pastoral. A função de um rector é de regere, ou seja, conduzir. A coerção pela força tem papel secundário, pois a condução das almas à salvação se dá pela persuasão.
Bem, vou dar um pulinho rápido em Max Weber. Pessoas mais humildes tendem a desenvolver religiosidades de salvação. O mundo é maculado por uma injustiça original, um pecado, então acredita-se na vinda de um Vingador, digo, Salvador para corrigir isso. Pessoas de classes médias para cima—como no caso da maioria dos adeptos do espiritismo ou das versões ocidentais do budismo—desenvolvem religiões mais particulares, individualistas, com forte ênfase no desenvolvimento pessoal e que, portanto, legitimam as recompensas e privilégios que podem adquirir. Nosso Lar, desta perspectiva, enquadra-se perfeitamente na análise de Weber. André Luiz é um médico, não um favelado. E todos seus amiguinhos poltergeist são advogados, engenheiros etc… claro, duvido que haja um antropólogo! Voltemos para Tomas de Aquino.
Dentre as três formas de governo, a monarquia de Um só (o rei, o líder espiritual ou seja lá quem for) favorece a função pela qual o governo existe, que é conduzir a multidão à unidade. As almas que não são dobradas pelo convencimento da palavra serão dobradas pela coerção imposta ao corpo. Ir para o céu depende aparentemente do seu livre-arbítrio, mas se porventura você não seguir os ditames locais…é Inferno!
Juntando Weber e a idealização política de Aquino, torna-se fácil entender a apologia do sofrimento feito pelo líder religioso naquela comunidade astral louca do filme. “Todo merecimento se conquista através do trabalho”. Assim…
Tipo…
Vamos combinar…
Rameira que pariu! Você rala a vida inteira, pasta, sofre para ganhar o pão de cada dia e depois de morrer… tem que continuar trabalhando? Se isso é o Paraíso, imagina o Inferno? E não é qualquer trabalho, é praticamente escravo, a ver a condição socioeconômica aparente dos residentes daquele mundo astral. Parece bem próximo de bairros proletários do subúrbio das grandes cidades. Ou seja, em vida, para médicos, engenheiros e advogados, a mais-valia da sua mão de obra é mais lucrativa do que post-mortem. Novamente, isto é no Paraíso, imaginem o Inferno…
A estrutura jurídica dos direitos de soberania é um pressuposto da ideia de governo, como uma condição de governo na modernidade. Na modernidade, o reino é a condição de governo. Na Idade Média, pode-se dizer que o regimen é a condição do regnum. Logo, os preceitos são opostos. A condição para que haja rei e realeza é de que o indivíduo que governa o faça com retedição: rex recte “regendo”. Afinal, o princeps é o primeiro lugar na ordem republicana. Ao reger com retidão, o indivíduo tem direito para ser rei. O rei existe para fazer a justiça no seculuum—o tempo dos homens, a realidade mundana.
Para Marcel Gauchet, Cristo é a radical subversão (oposição) às expectativas do que se supõe ser um messias. É pobre, ferrado, só apanha e, no final, não consegue salvar ninguém. Não tem redenção mundana, não chega envolto de glória. Não significou nem um pouco da pompa esperada de um messias. A Igreja se constitui na tentativa do monopólio das interpretações sobre a existência e a função do Cristo.
Então, naquele mundo do Nosso Lar, André Luz não tem sequer o direito de fazer perguntas. Reparem nisso: cada vez que ele faz uma indagação, leva um fora dos mais experientes. “Não faça tantas perguntas, tudo tem seu tempo para as respostas” (o mais interessante é que, nós, telespectadores, jamais saberemos quais são essas respostas). Nosso Lar menospreza as faculdades do intelecto—afinal, o conhecimento médico de André Luiz tornou-se completamente inútil—e faz apologia da alienação. Exemplos de frases concretas do filme? Eis: “Diplomas na Terra não servem de nada”; “O que sabe sobre medicina espiritual?” (eu, Eduardo Cidade, particularmente sei que ela não funciona, mas enfim); “Tente não pensar em nada”; “Diplomas terrenos!”. Aliás, para que exista medicina espiritual no mundo astral, significa que é possível sentir dor após a morte. Logo, não há total desvinculação com o corpóreo o que significa que o filme se contradiz o tempo todo.
O mundo medieval é tão somente um vale de lágrimas em espera da salvação. Qual é a justificativa e a legitimidade do governo mundano para exigir a obediência do cristão? O governo dos homens pelos homens faz parte dos planos da Providência Divina. E de que maneira entram nesses planos? Deve-se obedecer César porque o governante garante uma vida calma, serena, piedosa e digna. Os governantes indiretamente ajudam os indivíduos na vida virtuosa, criando as condições—paz e ordem—para que a realização de tal vida seja possível. Seria mais difícil alcançar a Virtude se houvessem conflitos e guerra. É o disciplinador dos corpos que assegura a ordem gerando o terreno favorável à dedicação da vida virtuosa. O rei (regnum) obriga os indivíduos a seguir a ordem pública. O reino é umaecclesia universalis—uma comunidade de fiéis batizados em Cristo. Não devemos confundir com uma hierarquia de organização eclesiástica, onde pertence o sacerdotium.
Atualmente, só se pode falar de governo supondo a existência de Estado. A equação é inversa no pensamento medieval. Só existe um reino digno deste nome se o rei é bom. O verdadeiro rei deve ser um santo. Ele personifica as leis naturais: ou seja, a ordem objetiva do mundo que deve servir de conduta para o indivíduo. O regime vem antes do governo! Os direitos de governo não precedem o governo. O rei apenas chega a sê-lo se for justo. As leis fundamentais são baseadas na tradição e, neste sentido, um bom motivo para uma revolta seria “eu me rebelo porque ele não cumpre o que prescreve a lei de Deus. Ele não é justo”. Surreal, não? A concepção ministerial da realeza deriva do fato que o ministério originalmente significa um serviço. O rei desempenha uma função eclesiástica. E o pastor é um ministro! Sacerdotium e regnum estão ambos ao serviço de deus. Surreal ao quadrado.
Então, aquele velhinho que concede ou não o direito das almas penosas falarem com os vivos é rei e sacerdote simultaneamente. O engraçado é que mesmo morto você não encontra com Deus diretamente, mas com seus asseclas. Deus é VIP demais para encontrar com sua própria criação. Em termos marxistas, seria ele um alienado? Já dizia Nietzsche: o cristianismo é o platonismo das massas (e antes de qualquer crítica, as religiões ocidentais, por mais que reivindiquem singularidade, possuem forte influência cristã).
Na virada do primeiro ao segundo milênio, o Papa Gregório VII propôs em sua reforma uma tentativa em submeter os governantes seculares à autoridade do babado, digo, papado. O rei começava a se secularizar, mas ainda é cedo para falar de uma ruptura, em termos modernos, da política com religião. No mundo de Nosso Lar, elas andam de mão dadas. Se não fosse o pecado, os homens não precisariam de um rei. Um evento que minou a predominância católica foi o de São Bartolomeu, na França do século XVI (quem não souber o que foi isso, Google! Se eu explicar, me estenderei demais). Surgiu uma necessidade dos protestantes defenderem publicamente a rebeldia contra o rei da França. A disputa é entre duas casas reais, os Guise (católicos) e os Bourbons (protestante). Catherine de Médici tenta matar o futuro Henrique IV, o rei protestante que se converte ao catolicismo e redige um edito de tolerância. Isso vai subverter as imagéticas do propósito do Rei e do Reino, mas não vamos nos apressar.
Em primeiro lugar, o bem-comum é a paz. E o “um” (o rei) realiza melhor que dois, três ou quatro. Para São Tomas de Aquino, a monarquia realiza melhor a unidade e é de longe a melhor forma de governo. O papel do rei será tanto mais digno deste nome quanto mais virtuosamente ele cumprir sua função. A fácil definição de virtude é possível uma vez que operamos em princípios absolutos (o bom rei não tem muitos cavalos, não tem muitas mulheres e lê a Bíblia diariamente—que porre! Se é para ser rei assim, prefiro ser escravo).
Um senhor pode ser um tirano em sua casa. A tirania é um conceito independente de sua função pública. A Economia, originalmente, se refere às normais e leis da conduta da casa (oikos, em grego). Os missi são enviados do imperador encarregados de velar pela boa ordem do reino com fortes implicações morais. Não se trata somente de impostos, mas, por exemplo, verificar se as mulheres de dada aldeia são adúlteras ou não.
Na década de 1260, a Política de Aristóteles é traduzida por um monge dominicano flamengo. Aristóteles fornece menos um corpo de doutrinas do que uma linguagem a partir da qual será uma vertente propagada. Há duas tipologias de regime na Idade Média: o regime político e o regime real. Nas monarquias reais, o rei governa segundo suas leis. No regime política, tais como nas cidades italianas, o sujeito que governa o faz segundo as leis da cidade.
A Universidade é o local de produção intelectual dos séculos XII e XIII, com a expansão urbana e associação de pessoas. Uma universitas é composta pela pluralidade de um grupo humano; quase uma “pessoa jurídica” resultante da pluralidade de indivíduos. As diversas faculdades rivalizam entre si, buscam prevalecer um ramo do saber sobre os outros. As faculdades, por excelência, são: Direito, Medicina, Teologia e Artes Liberais.
A escolástica é um método (é a cultura das universidades) de estruturação do pensamento, cujo patrono-mor é Aristóteles. Desenvolve-se então um rigoroso sistema de argumentação e retórica. A produção escolástica máxima são os comentários sobre uma cultura formada de livros cânones. O que se faz na Universidade é para aqueles que estão dentro destas, numa lógica coorporativa fechada. Não é muito diferente de hoje em dia.
O que isso tem a ver com as aventuras de André Luiz no além? Nada…digo, tudo! O não-questionamento e obediência cega à autoridade são típicos do pensamento escolástico. Aristóteles disse x, então é x. Pode-se, no máximo, tecer comentários. “Beba água e não fale nada” – o que é isso senão incitação à não-crítica, suprimento do pensamento crítico? “Toda forma de servir é uma benção”: não seria uma total defesa da hierarquia já dada no mundo, na qual devo me conformar com as estruturas tais como elas já são designadas por um artífice soberano e supremo, inquestionável?
Agora, o mais surpreendente de tudo! Se você acha que, após a morte, baixar na cabeça do Chico Xavier ou qualquer outro médium é de graça, reles engano! Um morto não pode simplesmente sair entrando na mente de qualquer médium: é preciso trabalhar! Os vivos pagam a conta do celular; os mortos, para falar através dos médiuns. É justo, não? Na verdade acho uma palhaça. Em Nosso Lar, é preciso acumular bônus-horas para merecer serviço. É “trabalho, sempre trabalho”. Mas em prol de que os mortos trabalham para construir algo? Se é metafísico, se não está submetido às leis da física, simplesmente não há necessidade empírica alguma. É totalmente moralista. A generosidade jamais é gratuita e o exemplo do filme deixa isto nítido. Uma morta infeliz não consegue enviar mensagens para a família. Ela precisa fazer algo para merecer. Assim, se fosse entre os vivos, entenderia, mas por que diabos o Paraíso é tão infernal, tão humano, demasiadamente humano? Nem mesmo no Céu pode-se escapar da lógica da dádiva, da maldição do dom, do Marcel Mauss? E praticamente o dinheiro astral deles serve apenas para entrar em contato com os vivos, ainda assim, é desaconselhado. “Não vale a pena entrar em contato com os vivos, é preciso ter espiritualidade”. Tipo, eu não sou um espírito? Somente espírito, aliás? Como é que faço para ter ainda mais espiritualidade se já sou, integralmente, um espírito? Bem, provavelmente não sou tão espírito assim, uma vez que, para se ter uma casa, preciso merecer. E quem não merece? Vira mendigo no Paraíso? Ou é um pressuposto que há seleção prévia, no sentido que somente os já disciplinados na doutrina e aptos a aceitar qualquer palhaçada dita podem adentrar o grupinho?
Tudo bem que a ideia de liberdade como isenção de regras é moderna, data de Hobbes (e, mesmo assim, em Kant liberdade é um tipo de ação isenta de influência sensível, pautada pela racionalidade e com fortes implicações morais). Para os Antigos, liberdade é poder participar da vida política da civitas, mas carambolas…
Nesse mundo astral, os dirigentes dão o exemplo… aff! É praticamente um daqueles discursos clichês de mercado, que exigem do funcionário o mesmo padrão de excelência que o patrão, mas sem recompensá-lo igualmente. E se ousar exigir recompensa, é mesquinharia. Ou melhor, é aquele velho discurso que o excesso material é dialeticamente proporcional ao vazio espiritual. Discurso tal que funciona somente com os proletários, não com os dirigentes. O filme é explícito nisto. O mundo que valoriza o valor de troca da mercadoria cai na contradição de que, em última análise, não há valor em nada. Pensei que o Paraíso estivesse acima disto, mas me iludi…
Bem, se não é para falar com os vivos na lan house (sim, os mortos se comunicam com os médiuns em lan houses astrais. Tem Internet e tudo no universo supostamente imaterial). Entrementes, se para além de morar num bairro proletário e falar com os vivos nalan house, qual a finalidade dessa pregação moral toda sobre a importância do trabalho? Teria Tomas de Aquino a resposta para o enigma?
O Homem tem um fim para o qual está destinado, a razão é o meio para alcançá-lo. Como os homens divergem sobre estes fins, é preciso que um dirigente defina e oriente os homens. Telos, em grego, significa fim. A concepção da Natureza em Aristóteles é teleológica. Só se conhece a Natureza de algo quando suas potencialidades estão plenamente desenvolvidas. A Natureza do homem é ser um animal político; o homem está destinado em viver na cidade. Somente na cidade o homem se realiza plenamente. Lá, sua situação será de suficiência (e as necessidades humanas não são apenas materiais).
Neste contexto, o regente existe por fazer parte de uma ordem da Natureza. Se antes o rei existia pelo pecado, em Tomas de Aquino é um dado inevitável da Natureza, de caráter ontológico. O fim da comunidade é o bem da multidão: é a paz e a unidade. Logo, a finalidade do rei tem um quê de mundano, apesar de toda pregação sacerdotal. A Graça não contradiz a Natureza, mas a aperfeiçoa. Existe congruência entre a ordem do mundo e os planos da Providência.
A verdadeira natureza é a semelhança de Deus; no entanto, por conta do pecado, o homem nega sua própria essência. Se os homens não fossem pecadores, bastariam os sacerdotes. Os topos são pontos de passagem canônicos na formulação da retórica. Qual é o fim do homem? O homem possui a razão para reconhecer seus fins, entretanto, a razão não lhe basta. Acontece, porém, agirem os homens de modos diversos em vista do fim, o que a própria diversidade dos esforços e ações humanos patenteia. Portanto, precisa o homem de um dirigente para o fim. É a carência biológica dos homens que os impelem à associação. Neste sentido, é utilitário. Lembremos de Max Weber em sua distinção entre ação instrumental e ação baseada em valores (há outros dois tipos de ações para Weber, como a via afetos e a por tradição). Uma ação relativiza os valores em função de cálculo de fins e meios. Noutro, entra a questão dos valores e honra. A deficiência do homem é suprimida pela capacidade de associação política.
Oras, é melhor ser dois juntos do que um; desta forma pode-se tirar proveito da mútua sociedade. A natureza é o fim e a natureza do homem é a cidade, por lá encontrar condições de plena suficiência. O atributo natural implica atualização de determinada potencialidade. Em Max Weber, na Ciência como Vocação, não nos é mais dado fazer como um cientista do Renascimento. Ao conhecer fatos, se descobre sentidos, como por exemplo se alguém desvendar a natureza do piolho por consequência prova-se a existência dos deuses (se o piolho é perfeito, então ele é necessariamente obra divina). É por isso que argumentos religiosos são tão evidentes para os crentes e simplórios para cientistas. Se o mundo é tão belo, então necessariamente foi criado por entidades supremas. Tenho certeza que todos aqui já ouviram tal argumento. Aff.
A cidade visa a vida boa e a virtude daqueles que nela vivem; é para além das meras segurança e manutenção utilitária das condições de vida. A linguagem em sua essência exige a cidade! Antonomasticamente (por analogia, por identidade raiz), o despotes—ou seja, déspota—, é o nome grego para o senhor de uma casa. O senhor concebe, o escravo realiza. A casa surge em condição de falta originária de cada um dos componentes. De uma associação de casas, surge a aldeia, que suprirá as carências da casa. De várias aldeias unidas, emerge a cidade. A cidade basta em si mesma, é o ponto de chegada. Aquilo que é suficiente é plenamente. A cidade é o ponto de chegada por ser suficiência e plenitude em termos ontológicos. A falta de tal plenitude é uma falha, uma falta da própria identidade. Afinal, o corpo que não muda é idêntico a si mesmo—e isso é o ideal na Antiguidade e na Idade Média. O movimento na Física aristotélica é impulsionado por uma lógica de identidade, de essencialidade. Para Kant, a Natureza é o conhecimento de fenômenos, daquilo que é observável. O ideal é buscar conexões factuais. Em Aristóteles, fatos e sentidos são categorias inseparáveis. Falar da natureza do homem é ponderar do próprio sentido da existência humana. Ou melhor, arethé—virtude, excelência, aquilo que é bom e belo. O bom é associado ao reconhecimento dos outros de sua excelência. Lembram do Banquete do Platão? Alcebíades e Ágathon? Então, ágathos significa bom. O Cristianismo reverte essa concepção, uma vez que, quanto melhor for o indivíduo, menos este deve aparecer para os outros.
Enfatizo que, para São Tomas de Aquino, o bem comum é a unidade, ou seja, a paz.Politeia pode, além da forma adequada da democracia, com cautela, ser traduzido comoconstituição ou regime. O regime bem organizado está em sintonia para com a finalidade ele mesmo existe, em harmonia com a natureza. Como o mundo é imperfeito, há espaço para a ação humana uma vez que a natureza não realiza por si só. Se muitos governarem a cidade, todos estes sujeitos precisarão submeter suas vontades a uma única vontade. Adiante, a natureza também funciona deste modo, realizando a unidade de modo mais eficaz. Porém, se um realiza o bem melhor, também realiza o mal pior vide ser uma vontade única na direção ruim; no caso dos muitos ruins, os interesses maus se neutralizam. A tirania absoluta é a pior forma de governo; não obstante, só um tiquinho de tirania ainda é melhor que a democracia. Melhor uma tirania light, com poucas calorias, do que a democracia. Se o importante é a unidade da cidade; neste aspecto o argumento é mundano. Os fins que dizem respeito à salvação dos homens não necessariamente coincidem com a salvação da cidade. E a salvação da cidade é a suprema lei.
Até porque, se fosse só eclesiástico, os termos seriam incompreensíveis. De certo modo, isso justifica a lan house e as casas proletárias em Nosso Lar (sem contar os trens futurísticos estilo parque de diversões da Disney).
As monarquias medievais são frequentemente eletivas. A eleição não é popular, mas o resultado da escolha de indivíduos de posição privilegiada. Não é por voto individual, mas fruto de consenso unânime. Um poder que limita o soberano é a negação do direito de matar e a possibilidade de resistência ao tirano. As autoridades são, então, aqueles que cumprem funções públicas, podendo destituir o tirano (e de qual país e século falamos).
A resposta para o risco de tirania é simples. O governo misto. Neste arranjo, as virtudes não são dos governantes, mas das instituições. Elas não necessariamente produzem virtude, mas elaboram limites e restrições. No pensamento grego havia um ciclo vital básico das sociedades humanas. A monarquia se estabelece diante o caos do suposto Estado de Natureza. Os sucessores do primeiro rei esquecem da situação original de conflito e pensam mais em si mesmos do que no interesse público, culminando em tirania. Eventualmente são depostos pelos aristocratas que, caídos no vício, se entregam à oligarquia. É, então, novamente deposta: eis o surgimento da democracia. No governo misto, cada tipo de órgão encontra o contra-peso com os demais. Encontra-se uma ordem os diferentes regimes se equilibram mutuamente. É cheia de freios e contrapesos (checks and balances, no pensamento político anglo-saxão). Tal mecanismo evita o abuso de poder.
Como garantir a estabilidade, a permanência—ou seja, a durabilidade—na vida da cidade? São Tomas de Aquino recupera a reflexão de Políbio. O regime é condição do reino, então Aquino aplica a ideia da linguagem da constituição do governo misto nesta. Não é uma descrição, mas uma afirmação normativa. O pressuposto do Rei é a justiça daquele que governa. O arranjo do governo misto permite uma realeza política. Logo, o rei é limitado pelas leis, assegurando que o rei governe com retidão e justiça. Não se trata da preocupação com a comunidade de cidadãos, mas a importância de assegurar que o monarca não se torne um tirano. A constituição mista, para Aquino, é a possibilidade da monarquia limitada. Se o rei for extremamente virtuoso, ele não estará submetido à lei vide que sua própria lei é a Justiça. Esta seria a monarquia real, mas não é “plausível”. Tempera-se o rei: a melhor forma de limitar o poder do rei e garantir a Justiça. Para Políbio, é mais importante a estabilidade e a paz. Na lógica de Aquino, não há Estado.
Em nota: governo misto é um protótipo da divisão dos poderes de Montesquieu. É uma tentativa de combinar monarquia com aristocracia e democracia, mas não planejo me estender muito nisto. Na minha humilde opinião, qual a forma de governo em Nosso Lar?
Oras, trata-se de um governo oligofrênico (tal palavra significa, literalmente, débil mental). No Leviatã, de Hobbes, o estado de natureza é de homens segmentados. A instituição do governante transforma a multidão em pessoa pública. A realização da unidade da multidão envolve o conceito de finalidade uma vez que a ordem pública não é apenas a delegação de disciplinas. Ela envolve alguma concepção teleológica da vida coletiva: a sociabilidade dos homens tem determinado fim. No Leviatã, o homem não é social e tampouco tem um bem supremo. No mundo do Hobbes, não há finalidade objetivamente dada na vida política. Nossas percepções sensoriais recebem impressões que desempenham pressões por todo o corpo. Onde não há movimento, não há vida. Os valores são resultados dos nossos apetites que consideramos bons e ruins. O Bom depende dos apetites, daquilo que dá prazer. O mau é seu avesso. O desejo e a aversão não existem fora do Homem: existem apenas movimentos internos do corpo produzindo valores.
Em São Tomas de Aquino, a ordem do mundo está objetivamente dada. Alguém lembra de como é a capa do Leviatã? Há um sujeito segurando um báculo—espécie de cetro episcopal—em uma das mãos e uma espada, na outra. A cabeça dá unidade ao corpo, que é composto por múltiplos bonequinhos—digo—súditos. O poder é um artífice e, sem um poder público, a unidade seria impossível. Os homens são dissidentes. Em Aquino, o poder não é um artifício, mas uma exigência lógica para alcançar os tais fins da Natureza. Se não há poder, então temos uma aberração. A comunidade perfeita, por natureza, exige a existência do poder. Entretanto, isto é pela lógica. Empiricamente, dada a imperfeição do mundo, é possível que o poder não exista (o que é, ressalto, uma aberração). A tirania em excesso é o pior dos regimes, porém a tirania moderada é melhor que o mau governo de muitos. A democracia permite que cada um busque seus próprios interesses, rompendo a unicidade do bem-comum.
Religião não é qualquer Política. É monarquia absoluta!
Para finalizar, não posso deixar de falar da Eloísa, uma jovem morta que chega no além quando André Luiz começa a se adaptar com todo aquele esoterismo. Ela é rebelde, acha aquelas casas proletárias muita pobreza, detesta as lições de morais chatas e sei lá o que ao quadrado. Portanto, ela é categórica ao afirmar que tem direito sobre a própria vida. Eu também pensaria isso, mas André Luiz refuta, diz que não. Ele explica sobre a Lei da Ação e Reação, no melhor estilo de livros de auto-ajuda. Pode-se pensar que é o momento mais emocionante do filme, que enfim vai acontecer algo em torno de todo aquele sermão. E acontece. Mal Eloísa tenta fugir do Paraíso que ela se dá mal. O Céu é um cárcere privado. ÉLeviatã. Ao menos Hobbes é mais pragmático do que moralista.
Regimem Bene Commixtum: regime adequadamente misturado. A representação não é algo resultante de uma designação eletiva. No melhor regime, há um que preside, alguns homens virtuosos exercem funções no principado e muitos elegem o príncipe. O melhor regime combina elementos de três formas constitucionais—a monarquia, a aristocracia e a democracia. É na questão da constituição mista em relação à monarquia absoluta que Aquino e Nosso Lar começam a divergir. Porém, na parte da virtude e do auto-convencimento da doutrina dominante, são quase idênticos.
“Não troco nosso planeta azul por nenhum outro lugar na galáxia, nem pelos mundos felizes”. É preciso ser masoquista para dizer isso. Se o Homem não busca a felicidade e nem mesmo no Paraíso ela é encontra, o que é que ele busca? Ah, não caio nessas. O Homem moderno busca a felicidade. O Homem medieval, a salvação, mesmo que isso implique em preferir deliberadamente o sofrimento ao invés da boa-venturança.
Vamos combinar que os Vikings, estes sim, sabiam o que é realmente o Paraíso!
Não vou estragar a surpresa para quem não viu o filme, mas estas cenas, embora não realmente relevantes para o texto, não podem ser ignoradas!
*Depois de tanto discurso de superação e desapego de questões mundanas, André Luiz sentiu ciúmes ao saber que a mulher arrumou outro. Ah, francamente, que superação fajuta!
*O final do filme fala do André Luiz como se ele fosse uma pessoa de verdade, “André Luiz continua a trabalhar em Nosso Lar até os dias de hoje”. Ele não quis reencarnar de 1930 até a atualidade. Gostou mesmo de morrer. Será que o IDH é alto em Nosso Lar pra valer tanto a pena? Bem, só pode ser, porque night e diversão são inexistentes. A única coisa que compensa são os concertos de música clássica ao ar livre naqueles belos jardins, mas acho que não pode beber, então fica sem graça…
Por: Eduardo Cidade.