
Eletrodoméstica
Direção: Kleber Mendonça Filho
Gênero: Curta, Conteúdo Adulto
Brasil – 2005
Somos acostumadas/os, por vezes e pela maioria – sem nem mesmo perguntarmos o por que – a ouvir que o espaço da mulher é o doméstico e o espaço do homem é o público. Para as mães é dado de presente artigos de casa e cozinha, para os pais, gravatas e afins. Ou alguém já viu propaganda do dia dos pais anunciando um jogo de panelas novíssimo em folha? Também não são todos que se questionam sobre a subalternidade feminina e dominação masculina. O que mais me espanta é que muitas mulheres também não o fazem. Não é raro ouvirmos que “lugar de mulher é em casa”. Bom, nem precisamos dizer onde é o lugar do homem, né? Até porque se falássemos seríamos sumariamente ignoradas.
De cara o curta me chamou atenção; exclusivamente pelo nome. Gostei da provocação no feminino: eletrodoméstica. Dizem que os eletrônicos de uma casa são chamados de eletrodomésticOS, mas usados por mulheres, no feminino. Talvez seja um eficaz modo do masculino manter o feminino no doméstico.
O início do curta, de 20 minutos, começa instigante: uma rua em que cada portão da garagem tem estacionado um fiat uno. Vale fazer uma ressalva a esse cenário, ele não pode passar batido, ainda que a cena tenha se desenvolvido em segundos, talvez um minuto.
7 Unos do modelo dos anos 90 estacionados. Provocador, não? Onde estão os carros que dizem “ser de homens”? Não estão estacionados, né? “Uno é carro de mulher”, portanto, é ruim que arde. Alguém por acaso pensa em comprar um Uno quando pensa em adquirir um carro? Aliás, os carros pequenos, de passeio doméstico, são “de mulher”. Pra vender é mais fácil, porque dizer que é “de mulher” denota zelo, mas pra circular na cidade sempre chama a atenção pro volante: “mulher no volante, perigo constante”.
Depois desse início bárbaro, a mãe aparece com cara de tédio, fumando um cigarro na janela gradeada de sua casa. Aliás, a casa é toda cheia de grades. Já não basta por as mulheres dentro do lar (d0ce lar), precisa ainda gradeá-la? Ah, precisa! Dizem que é por medo de ladrões…
Um rasante da filmagem passa por todos os eletrodomésticos da casa, inclusive os dois filhos, um menino e uma menina. A menina, claro, está fazendo coisa de mulher. O menino está no computador fazendo um dever de casa. De casa? Na verdade, é da e para a escola, mas é feito em casa. Vai entender?
Relógio no pulso, cronômetro ligado, sexo acontecendo na garagem de outra casa, e a mãe super entendiada controlando os eletrodomésticos. Olha a comida no forno, a roupa na máquina, a sujeira nos cômodos… Chega o aspirador de pó. Ela começa a pensar no quanto o aspirador de pó pode ser mais útil que aspirar sujeira. Pensaram besteira? Ainda bem. Porque não está com nada essa dominação eletrônica.
Tédio aqui, tédio acolá e a roupa na máquina de lavar vai entrar em ação. Não deu outra: a mãe descobriu o quanto é útil a máquina vibrar enquanto lava a roupa de seu macho que está no trabalho…
Recomendadíssimo, até porque é preciso dizer que esse curta é uma mensagem sobre a melhor maneira que nós mulheres devemos usar os utensílios domésticos.
Por: Guerra de Pipoca.