(Essa "tanga" mais se parece com um cinturão de castidade)
Nos anos 80, quando Conan foi lançado na pele de Arnold Schwarzenegger, a concepção ocidental sobre os bárbaros era de que eles antecediam a civilização. Ou seja, em uma perspectiva evolucionista social, os bárbaros estariam entre os primitivos e os civilizados, como se num futuro alcançassem a civilização. A civilização seria, no limite e a grossíssimo modo, a evolução desses dois estágios, como se substituísse as culturas de ambos. Felizmente, essa concepção oriunda do século XIX caiu. Porém, o Conan do ano 1982 foi o que se “entendia” por barbárie: violento, selvagem, pouco domínio da linguagem etc. Schwarzenegger fez muito bem esse papel. Pouco falou, muito matou.
Não se pode dizer que Conan é um clássico por ser um filme excepcional, porque não é. O original é super meia-boca e preconceituoso. Além de que se trata de uma história repetitiva de vingança de filho sobre a morte do pai, que morreu para salvá-lo. Algo que vimos em outros clássicos, como, por exemplo, Fúria de Titãs. Então, a questão principal não é se Conan atual alcançaria a obra enquanto clássico, mas sim se Jason Momoa conseguiria “substituir” Arnold Schwarzenegger. Contudo, essa substituição não eliminaria o que este fez e conquistou neste papel. Esta é a grande pergunta que me fiz antes de por pra rodar Conan 2011.
Seria Schwarzenegger substituível tal como a concepção do século XIX supunha aos bárbaros? Momoa conseguiria sair do “âmbito bárbaro” de Conan original e atingiria a pretensa “moral civilizatória”?
(Pra fazer a alegria da minha irmã Black rsrsrs)
Embora ninguém seja insubstituível, Momoa não substitui Arnold, PORÉM, deixou sua marca individualmente como se não representasse um papel outrora representado. Atuou de maneira autônoma. Não que isso lhe confira uma interpretação excepcional, ele como ator é bem “massudo”. Mas, pelo menos neste filme Conan fala, se expressa, proporcionando ao ator deixar seu traço, sua voz, por assim dizer. Só que falar, “ter bons princípios”, não significa que deixou de ser bárbaro e passou a ser civilizado, se me entendem. Conan é bárbaro independente se é rodado em 2011 e com todo acervo civilizatório ao seu dispor.
Outro ponto que é relevante acentuar é a repetição da fórmula bruxa boa x bruxa má que resulta numa disputa épica pelo poder, onde se a bruxa má vencer todos serão escravizados e se a bruxa do bem levar a vitória todos serão livres. “Nenhum homem merece algemas”, diz Conan. Mas, engraçado, as mulheres merecem? Parece que neste ponto a linguagem masculina para de ser universal (onde falar “os homens” significa dizer “os seres humanos” ) e o gênero se faz presente como o produto dessa relação de poder entre homens e mulheres: a feiticeira sangue puro é amarrada por Conan, mas é ela quem tem o poder de libertá-lo ou não. A feiticeira má é submissa ao pai, mas é ela quem tem o poder de lhe dar poder… Avançar mais um milímetro dessa ideia é contar o filme.
Antes de terminar, quero dizer que AMEI o efeito especial dos lutadores de areia. Caramba, que maravilha cinematográfica, não? Até em um filme arroz com feijão é possível sair de barriga cheia. Gostei também da cena de “séquisso” entre Conan e a Monja do bem. Não foi longa a cena e faltou umas pitadas mais animalescas, mas foi Magia e barbárie pura! Nessas horas a barbárie supera e muito a civilização, que trepa de maneira caretérrima e caretíssima. Melhor por nos dois tipos de superlativo para acentuar o besteirol que é achar que “fazer amor” é algo que tem que ser sempre cheio de mimimis! Tem horas que se amar como dois animais é muito mais prazeroso, já dizia Alceu Valença…
David Yates começou sua jornada com Harry Potter a partir do quinto filme, “Harry Potter e a Ordem da Fênix”. Até então, “Pedra Filosofal”, “Câmara Secreta”, “Prisioneiro de Azkaban” e “Cálice de Fogo” foram lançados por outras mãos. Yates não diminuiu a qualidade em nada. Ao contrário, conferiu legitimidade tanto ou mais do que os demais. Em vista disso, ficou de posse da sequência restante. Não fez feio, supriu as expectativas dos fãs e fez o filme mais difícil da série: “Enigma do Príncipe”: quando Dumbledore é assassinado. Foi o filme mais expressivo e, consequentemente, o mais dolorido da série. Afinal, Alvo Dumbledore, o mago amigo e protetor, saiu de cena.
Para manter a qualidade dos filmes com a ausência do mestre, suponhamos, deve ter sido difícil. Ainda assim, Yates chegou ao fim da saga com louvor. Ou melhor, chegou ao “Relíquias da Morte I” com louvor. Inclusive, vale relembrar este filme, pois foi o que mais se diferenciou dos demais, uma vez que está em jogo o processo psicológico e não as ações e aventuras de sempre. Relíquias da Morte I é mais lento, mais introspectivo. Harry Potter se comporta assim e é perceptível que, finalmente, Daniel Radcliffe cresceu junto com a história. Radcliffe passa para o espectador algo para além do filme: que está pronto para ser Harry Potter.
Sim, pois desde o início sabemos que Potter matará Voldemort, então, é preciso estar pronto para este momento. Radcliffe não passava confiança, é necessário reconhecer isto. Um menino novo, criança, matar um vilão bruxo que matou meio mundo? Chega a ser cretino. É o mesmo que atribuir a um moleque de 17 anos a derrota do Coringa, em Batman. Ou um pirralho adolescente que tira os méritos de Superman e põe fim a perseguição de Lex Luthor. Convenhamos! Coringa mata quem permanece em sua frente, alguém aqui acha que um pirralho é capaz de matá-lo, sendo que nem mesmo Batman consegue?
Pois é. Dumbledore não mata Voldemort, mas Harry matará. Então, façam o favor de fazer Harry crescer e ser capaz da missão, senão, é boçal demais. Até o filme “Enigma do Príncipe”, Potter não estava psicologicamente pronto. Agia feito um menino abandonado a própria sorte que queria por tudo beijar Gina (e quanto beijinho fraco, não? Infelizmente, não teve um GRANDE beijo desses dois… tsc tsc tsc… sem graçaaaaaa…). Parece que em “Relíquias da Morte I”, a trupe caiu na real: Opa! Pra terminar essa obra é preciso matar Voldemort, então, acabou a farra.
Estava tudo indo muito bem até que Yates resolveu chutar o balde. É o último filme mesmo, né? Que tem demais ferrar com quase tudo? Calma, calma, nós vamos explicar nosso comentário.
Aqui começa o texto sobre:
Harry Potter e as Relíquias da Morte II – Harry Potter and the Deathly Hallows – Part II
Direção: David Yates
Gênero: Fantasia, Suspense
EUA – Reino Unido – 2011
A primeira parte deste filme está impecável! Nota mil para a cena do assalto ao Banco de Gringotes. Hermione na pele de Belatrix somada ao Duende interesseiro… Foi tudo muito bem arquitetado, bem feito e magistralmente filmado. Os efeitos especiais do dragão superam e muito os dragões do “Cálice do Fogo”, na disputa do torneio Tribruxo. Palmas para Yates e todo o elenco. Por algum momento, Spielberg ficou pequeno nos efeitos especiais…
Quando os alunos se reúnem para deixar Potter, Hermione e Rony entrarem em Hogwarts também merece aplausos. Não apenas pelas boas cenas, diríamos. Mas, por trazer à tona o sentimento de irmandade, de união por uma causa. A reunião dos estudantes nos faz lembrar que nesses tempos de “marchas e protestos” o mais importante não é exatamente a conquista, mas a busca pela vitória. E quando Professora Minerva protege toda a escola, com a ajuda de outros professores, é de arrepiar. Sobretudo para quem já lutou ou luta por uma causa, seja ela qual for. “A união faz a força”, não é à toa…
Enfim: a guerra está declarada!
O momento mais esperado da saga está por vir…
Acontece que David Yates não soube conduzir as cenas mais esperadas: ele não é diretor para filme épico, simples assim… puxa, que pena. Realmente, é uma pena…
Além das cenas ficarem grotescas, mal feitas, com inúmeros erros de continuação, Yates ainda fez o imenso favor de por a narrativa no âmbito do deboche, do pastelão, da besteira. Parecia uma comédia de quinta categoria.Quem viu o filme sabe que Voldemort (Ralph Fiennes) nem de longe pode ser levado a sério em sua atuação, o que é decepcionante. Suas risadas imaturas, infantis, sua comemoração pela pequena vitória em cima de Harry, são tão tolas que não há palavra que alcance a decepção.
Fora que a parte “Nosso Lar” do filme é patética. Harry morre, mas na verdade, o que morre é a parte Voldemort em seu ser, e nisso tudo aparece Dumbledore num túnel branco… enfim… sem comentários. Isso detonou o filme.
Sem contar o final!!!!!! Céus, o final… Que sabíamos que iria ser cafona, isso é certo. A pieguice tem seu valor, sobretudo quando é bem feita. Já estávamos preparadas para pieguices: Potter vencer, ficar com Gina, Rony ficar com Hermione, o final ser feliz para sempre etc. Mas, o que não esperávamos é que David Yates fosse amarelar a obra de forma tão leviana.
Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson são novos demais para “19 anos depois”… Não colou e ficou Tosco!
Enfim, não foi um bom épico, não teve boa direção em cenas decisivas, não convenceu, infelizmente. Recomendamos por dois motivos: quando Rony diz que Hermione é sua namorada e porque é o fim da saga, pois se fosse um filme independente… não valeria a pena gastar dinheiro com o cinema.
Confesso que a primeira vez que o vi não criei muita sintonia com ele. Achei tudo muito idiota, sobretudo a maneira como os Anjos roubam as almas dos humanos. Porém, a segunda vez que o vi já achei melhor, encarei com mais naturalidade todas as tolices fantasiosas entre os Anjos do longa e, para um filme de comédia, cumpre com o combinado. Engraçado que agora, quando busquei a ficha técnica do filme na internet, vi que a maioria dos sites afirma que o gênero de Anjos Rebeldes é terror e outra leva afirma que é suspense. Sorry! Não é nem um, nem outro. É comédia, mesmo. Me explico.
Não há nada na técnica do filme que leve um/a cinéfilo/a a pensar que se trata de terror. Falta tudo, literalmente! A história, também, não é defensável para o gênero. Diz a sinopse: “Um policial, que ia se sagrar padre mas perdeu a fé, se depara com uma guerra entre anjos, pois alguns deles, liderados pelo arcanjo Gabriel, não se conformam de Deus ter dado alma aos seres humanos. Enquanto esta luta acontece as almas não podem deixar seus corpos e irem para o Paraíso, sendo que Gabriel procura na Terra almas que possa usar em seu exército, mas outro anjo tenta detê-lo”. WTF?
Bom, enfim. Não há lucro em tornar esse texto uma guerra religiosa x científica.Encaro, portanto, esse filme como uma comédia épica. Isto é, os anjos pra mim nada mais são do que soldados em campo de batalha. São eles:
Soldado Simon, interpretado por Eric Stoltz (sensacional em Parceiros de Crime). Este soldado luta para que os seres humanos tenham o direito de possuir alma. Ou seja, que evolua com seus próprios comportamentos.
Soldado Gabriel, interpretado pelo ma-ra-vi-lho-so Christopher Walken. Ele luta, em nome do ciúme que sente de seu chefe, para provar que os seres humanos não merecem o paraíso.
Soldado Diabo, interpretado por Viggo Mortensen. Incrivelmente, luta junto com Simon, para deter Gabriel.
Simon é um soldado mais fraco, e Gabriel rouba a cena. Aliás, a graça TODA do filme é Christophen Walken. Sobretudo quando convoca moribundos para dirigir o carro para ele. Sim, sim, Gabriel é um anjo, mas precisa de carro para se locomover para os locais mais distantes, rsrsrs. Estão vendo como a ideia de soldado cai muito melhor?
Deixo esse vídeo dizer, por mim, o restante do texto.
Um aspecto da Marvel me agrada: eles tentam, com constância, embasar suas histórias na Ciência; por exemplo, os últimos marvelianos lançados ilustram minha afirmação, que são: Homem de Ferro 1 e 2, O Incrível Hulk. No entanto, a maneira como usam a Ciência para dar sustentação à história é, por vezes, deveras surreal. Desta vez, em Thor, a Ciência foi usada como suporte, mas em momento algum foi explicado o mínimo dos estudos de Jane Foster (Natalie Portman). Talvez isso dê ao filme mais graça, afinal, poucos vão ao cinema querendo estudar, mas ao mesmo tempo, deixou o enredo furado. Pois, por que Jane Foster e sua turma estavam às voltas com tais estudos?
A entrada de Thor na Terra funcionou, inclusive em palavras, para misturar a ciência com a magia. Afinal, Asgard não separa verdades, como ele mesmo disse para Jane. Deu ao filme um caráter fantástico e fantasioso promovendo graça. Um ser, literalmente, de outro planeta é lançado na Terra. É um ET dos mais diferentes do que dizem existir, afinal, não é verde, nem tem um cabeção enorme, não conversa por telepatia… ao contrário, Thor é um ogro bastante humano (e fala inglês), por assim dizer. Esse aspecto do filme é interessante, pois os costumes de Asgard – que é o Reino dos Deuses – são bastante rústicos; o que contrapõe o imaginário de encontrar tecnologia x extrema civilização. (Ri muito quando Thor quebra uma caneca no chão da lanchonete, que é um costume de viking e não de “Deuses”). A tecnologia não implica (diretamente) em povo civilizado.
Asgard é fantástica. Linda, bem feita, Branagh está de parabéns por sua elaboração. O guardião Heimdall foi muito bem feito, também. No entanto, sinto-me pesarosa por Odin, Anthony Hopkins. Desperdício absoluto neste filme, embora proporcione soberania ao enredo. Porém, tal ator não tem cara de quadrinhos… Muito embora ele arrase em qualquer papel, colocá-lo para dormir mais da metade do filme pegou mal. Não gostei. Outro ponto que não gostei foi de Thor na pele de ogro irracional que precisa apanhar bastante para adquirir sabedoria. Loki, seu irmão, lhe deu mais lições do que o inverso. E, convenhamos, Thor da Marvel que ensina Loki e não o contrário. Mas, enfim, as cenas engraçadas passaram maquiagem nessas diferenças, foi tragável.
Um ponto que não diz respeito somente ao filme, mas, quero comentar, é Natalie Portman no papel principal ao lado de Thor fazendo uma interpretação ridícula, aquém de sua última aparição que tanto emocionou: Cisne Negro. Juro que olhei pra Morgue no meio do longa e perguntei: Que aconteceu com essa atriz? Até agora não faço ideia do que houve, do motivo que a fez ser tão ruim como Jane Foster. Enfim, pelo menos, o filme não é exatamente uma comédia romântica, se me entendem.
A ideia conspiratória também não me agradou. Sei que está na moda e tal (vou deixar pra Vamp e Morgue falarem mais sobre esse aspecto, conforme o combinado), mas antes Thor ter sido elaborado em sua busca por paz, atrapalhando os planos sórdidos de Loki, do que um perdido no espaço (literalmente) preso por uma conspiração típica americana. Enfim.
Comentário de Vampira Olímpia:
A ideia de Thor é fazê-lo sofrer longe de sua terra para aprender ensinamentos altruístas básicos, como respeito ao outro e próximo (não tão próximo assim), paz etc. Seria ótimo se a vinda dele à Terra não fosse tão tragicômica. Primeiro que Asgard fala o mesmo inglês que os terráqueos. Talvez se a comunicação entre eles fosse, no mínimo, complicada, seria mais próximo aos propósitos da inserção da Ciência no filme: dar realidade ao enredo. É patético que até mesmo as piadas entre eles sejam iguais!
Ainda assim, gostei do filme pela grandiosidade fantástica do intercâmbio entre três planetas (não se pode esquecer dos Gigantes do Gelo). Sobre eles que irei falar. É óbvio que se o sentinela não conseguiu ver a entrada dos Gigantes do Gelo, então é porque há um traidor. E um traidor que conhece bem Asgard, do contrário não conseguiria burlar uma segurança tão forte. O que sugere de imediato que Loki tem seu dedinho nisso. Considero esse ponto do filme bastante atual, uma vez que novamente estamos (no sentido de mundo) retomando o assunto datado de 10 anos atrás: a invasão planejada da al-Qaeda nos EUA. Alguém teve que trair os EUA para isso acontecer. Quem?
Comentário de Morgana:
Que cidade perdida no nada é a do filme, não? Se tiver 5 ruas e uma avenida principal, é muito. E de repente, não mais do que de repente, a equipe tática da S.H.I.E.L.D. (Superintendência Humana de Intervenção, Espionagem, Logística e Dissuasão – criada pela Marvel) apareceu em peso por lá, montando toda a estrutura para estudarem um… machado… O machado não tinha uma cara de “instrumento extraterrestre”, só era grande e pesado, mesmo assim: “Pânico! Ameaça de invasão no ar!”
Eu também estou “panicada”, não nego. Não pelas “ameaças vindas do espaço”, mas pela loucura que estamos vivendo quanto às pseudos-ameaças que nada mais são do que frutos paranoicos de governos que insistem em pregar a paz, a democracia, o respeito ao próximo, mas que não fazem o que falam, posto que são eles quem promovem guerra, discórdia, violência que contradiz qualquer Estado Democrático etc. A paranoia da falsa-paranoia me deixa paranoica, por assim dizer.
Com isso, vi (também) em Thor algo muito atual, como Circe e Vamp já apontaram em seus comentários: Asgard vive o que estamos vivendo: qualquer coisa é motivo para ameaças. Que espécie de animais estamos nos tornando? Preocupo-me bastante com as queixas frequentes das pessoas: falta de confiança, fobia social, mania de perseguição etc. Claro! O mundo vive uma “perseguição” consentida por autoridades! Como esperar outro comportamento do ser humano?
Richard Burton é um ator hoje esquecido pela multidão. Talvez alguns lembrem-se dele como o sujeito que casou duas vezes com a mesma mulher, Elizabeth Taylor. Mas ele é mais do que isso, homem bonito, forte, de boa voz, na década de sessenta protagonizou os clássicos Cleópatra, A Noite do Iguana, Quem tem medo de Virginia Wolf? Em 56 aparece para o grande público pela primeira vez, fazendo o papel do maior general e conquistador de todos os tempos, Alexandre.
O filme mostra Felipe II, seu pai como um impiedoso guerreiro, muito prático, soldado de campanha. Ele fala, ele faz. Sua mãe a bela Olímpia, mítica e inteligente. Grega e adoradora de Dionísio. Entre mil intrigas palacianas ele cresce. E é orientado culturalmente por nada mais nada menos do que Aristóteles.
Diferente desde o início, mostra-se impulsivo e determinado. Recebe o governo da Macedônia – hoje é a região entre a Grécia continental e a Anatólia (Turquia) aos dezessete anos. Uma pena que não mostrem o seu cavalo, Bucéfalo, sendo conquistado por ele, nessa mesma época. Animal que temia a própria sombra, inequivocamente o melhor amigo de Alexandre durante toda sua vida.
O desempenho de Burton é hipnótico, apesar da sainha curta que usa e dos parcos recursos da época em termos de lutas. Contudo o sem número de coadjuvantes enobrece o filme. Além do que a conquista do império de Dario III é algo monumental. Alexandre cuida da família real e estimula o casamento de seus generais com mulheres persas.
Após o assassinato de seu pai, Alexandre torna-se mais frio, mais agressivo. Aqui vejo um erro tremendo no roteiro do filme. Em vez de mostrar as conquistas lendárias de Alexandre, suas campanhas homéricas, suas táticas inovadoras de guerra, o palco mais utilizado são fofoquinhas de bastidores. A luta pelo poder, o questionamento da capacidade dele em manter o seu reinado.
Aos trinta anos invade a Índia. Lugar mítico, e na volta, cansado, vem a falecer. Isso todo mundo sabe. Mas o que ouço se divulga é que ele não arrasa as culturas que conquista, mantém o ideal helênico de união dos povos e cria cidades homônimas com o nome de “Alexandria”, sendo que a egípcia torna-se a capital cultural do mundo por trezentos anos.
O filme não destaca a guerra e sim os conchaves, uma pena. Porém Richard Burton mantém-se acima de críticas com um desempenho impressionante, aos 31 anos, cabelo tingido de loiro e uma semelhança física ao homem com a biografia mais impressionante de todos os tempos.
O que há de bom: interpretação de Burton e alguns cenários da Grécia Antiga O que há de ruim: Alexandre pode render dezenas de filmes, mas não pode ser resumido por um só ponto de vista O que prestar atenção: ao acreditar que é um Deus, Alexandre morre, essa é a falha humana A cena do filme: gosto do diálogo entre mensageiros persas e macedônicos onde os persas subestimam o “garoto” Alexandre
O período chamado de Baixa Idade Média (séculos XII – XV) é popularmente conhecido por Cruzadas. Época importante para sustentar o que vivemos hoje, uma vez que foi nesse tempo que o capitalismo começou a nascer, pois já havia sistemas de trocas e espírito de lucro, ainda que a relação trabalhista passava longe de ser assalariada. Outro aspecto que sustenta tempos atuais é a interferência da Igreja em assuntos políticos. Porém, na Baixa Idade Média era “tudo junto e misturado”. A Nobreza também fazia parte do Clero e, consequentemente, o Clero era nobre no que tange à influência direta das decisões políticas.
O homem medieval era, antes de tudo, um servo de Deus. Com a desculpa sangrenta de combater o “infiel”, a Igreja avançou territórios e conquistou muitas terras sob o crivo de matar bruxas compactuadas com o diabo. Acontece que neste tempo de sangue e com objetivos claríssimos de conquistar terras, muitos inocentes foram mortos: crianças, mulheres idosas, homens idosos, enfim, pessoas do bem. Toda essa riqueza do Clero não vinha de graça e questionar sobre tanta violência era equivalente a estar compactuado/a com o diabo, também. Um tempo metaforicamente de “vinho tinto de sangue” – parafraseando Chico Buarque ao cantar Cálice (o que eu gosto de chamar de Cale-se) nos tempos áureos de Ditadura.
Neste filme alguém (Nicolas Cage) decidiu não se calar. Percebeu a injustiça óbvia das inúmeras mortes e questionou uma autoridade religiosa. A consequência é bastante óbvia, também: tornou-se um desertor procurado em nome de Deus! Engraçado como Deus tem tantos inimigos, rsrsrs. Será que ele tem amigos fiéis ou só aqueles que fazem de tudo para fugir da fogueira? Acho que daí que vem o sábio ditado popular para traições: Fulano jogou beltrano na fogueira…
Enfim, o início do filme trata-se desse período sangrento. Até começa bem, com ótima fotografia (gostei bastante desse ponto), lutas rápidas mas em clima épico (ponto para a cena dos lobos, adorei); depois que Cage é tido como traidor a história balança um pouco. Não se sustenta tão bem. Acontece que uma bruxa foi acusada de trazer a Peste Negra e a saga do filme é de levá-la para os monges, que tinham a missão de curar toda a peste. Agora, como que os monges curam uma peste que se iniciou (metaforicamente também) dentro da própria instituição é uma pergunta que não podia ser feita nessa época do século XIV. Tal como se suspeita, Nicolas Cage seguiu a saga sem fazer muitas perguntas, aí que ele se deparou com muitos enganos…
O longa é bom até o início do fim. Quando começa o fim… humm! Sabe aquela promessa de festa que terminaria magistralmente e de repente a luz acaba e o som é interrompido à força? É isso que acontece no filme. Estava indo bem! De repente… não mais do que de repente, o filme vira uma dresgrama total! Horrível o fim. Ave Czar! Falta de sentido, de senso, de nexo, de tudo.
Recomendo pela boa mensagem de questionar os dogmas cristãos e de onde veio tanta riqueza, território, poder. Mas, de resto, não me crucifiquem pela indicação, pois o filme termina mal. E é um filme com ótimo elenco e fotografia… Realmente, Dominic Sena não sabe finalizar suas obras, pois ele comete o mesmo vacilo em Kalifornia (1993). Direção firme e no fim desandou pro besteirol…
Superman e Batman – Apocalipse – Superman & Batman – Apocalypse
Direção: Lauren Montgomery
Gênero: Animação
EUA – 2010
Estou cada vez mais fã dessas animações da DC Comics. Muito boas! Dessa vez eles atacaram de Superman e Batman em altíssimo nível: mostra a vinda de Kara (Prima de Superman) para a Terra. Como ela não consegue ainda controlar seus poderes (e sempre sob a desconfiança de Batman), a Mulher-Maravilha interfere junto com suas amazonas na relação Kara e Superman. (inevitáveis piadas entre Superman e Batman rsrsrs).
Superman, nesta animação, demonstra colocar os sentimentos à frente da razão, mas não perde suas intuições. No entanto, isso não foi o suficiente para salvar Kara das garras de Darkseid (anagrama de Dark Side – inimigo e vilão das HQs do Super).
As cenas de lutas são realmente ótimas, sobretudo quando eles chegam em Smallville. Fantástico! Pra quem assiste o seriado, vai gostar muito. Eu assisti um tempo SmallVille, mas confesso que Superman não é meu herói favorito, de maneira que não demorou muito para abandonar a série, mas tenho pretensão de voltar a ver um dia, com mais tempo.
Batman está mais (iria escrever humano, mas essa não é a palavra certa) limitado. Considerei sua participação aquém, embora ele tenha sido o responsável por intuir o momento em que o forte vilão atacou a Ilha das Amazonas.
O fim é legal! Eu gostei! Apresenta ao mundo a Supergirl!
Gostei demais dessa animação e devo dizer que esta não deixou falhas de quem é quem no filme. Todos foram muito bem apresentados, independente se já sabemos quem são pelo bombardeio midiáticos etc. Eu recomendo, com certeza! Muito bom!
O mito de Perseu é narrado de diversas maneiras, a internet é fonte estéril de várias vertentes; abaixo conto de maneira resumida sobre o mito de acordo com os livros sobre Mitologia Grega, que são mais fiéis do que as reproduções internáuticas.
Perseu era filho de Zeus (Júpiter) e de Dânae. Seu avô, Acrísio, assustado com a predição do oráculo, que dizia que o filho de sua filha (ou seja, seu neto Perseu) seria o instrumento de sua morte, determinou que a filha (Dânae) e o neto (Perseu) fossem enterrados numa arca, e esta colocada no mar.
A arca flutuou, com a ajuda de Zeus, até Serifo, onde foi encontrada por um pescador, que levou Dânae e Perseu a Polidectes. Quando Perseu tornou-se homem adulto, Polidectes que era apaixonado por Dânae, quis tirá-lo do caminho e mandou-o combater medusa.
Perseu, com apoio de Atena (Minerva), que lhe enviou seu escudo, e de Hermes (Mercúrio), que lhe mandou suas sandálias aladas, aproximou-se de Medusa enquanto ela dormia e tomando cuidado de não olhar diretamente para o monstro, e sim guiado pela imagem refletida no brilhante escudo que trazia, cortou-lhe a cabeça e ofereceu à Atena, que passou a trazê-la presa no meio da égide (escudo).
De acordo com o filme Fúria de Titãs, regravação do original de 1981, Dânae morre ainda na arca e Perseu – que sobreviveu por ser um semideus – é criado pelo pescador. Bom… Então, vamos ao longa!
Zeus convenceu seu irmão Hades a criar um monstro capaz de matar o pai deles. Hades, então, de sua própria carne fez nascer o indestrutível Kraken. Zeus se tornou o Deus dos Deuses (Terra e Céu), seu irmão Poseidon, dos Mares e Hades, depois de enganado por Zeus, se tornou o Deus do Submundo dos Mortos.
Seguindo a lógica mitológica, os homens foram criados por Zeus, que com suas devoções alimentam os Deuses em suas imortalidades. Animais conscientes que os seres humanos são não é de se estranhar que começassem a questionar e ir contra os Deuses… humm…
Hades vê nisso uma oportunidade para se vingar de Zeus, afinal, suas criações se voltaram contra o Pai; imperdoável rsrsrs! Como que Zeus pode tolerar não ser bajulado pelos homens em suas preces? Obviamente que permite que Hades inflinja angústia, dor e morte nos meros mortais para fazê-los ajoelhar novamente perante ao Poderoso! Hades, em contrapartida, tem outros planos… mas cumpre, aparentemente, com as ordens de seu irmão Titã.
Destruição ou sacrifício? Após serem ofendidos pelo Rei e pela Rainha de Argos, Hades (maravilhoso Ralph Fiennes) determina que os homens tem 7 dias para decidirem: ou pela destruição total ou pelo sacrifício de Andrômeda dada ao monstro Kraken.
Só não contava com Perseu, semideus por ser filho de Zeus e protetor dos Homens! Quem vencerá essa batalha: Deuses ou Homens? Ou ainda, ambos?
Daí em diante é preciso assistir ao filme para ver como se dão os fatos. Pois, se me prolongar, posso contar novidades para quem não o assistiu.
Esse filme atual tem uma arte bem diferente do original de 81. Medusa se arrastava, era mais sedutora, amedrontava mais pelo aspecto sinistro, o seu templo era mais “grego”. A Medusa atual é tão computadorizada, tão rápida no que faz, que soa industrializada demais. Definitivamente, não gostei. Terem colocado Perseu de cabeça raspada também foi de uma falta de gosto tremendo. Enquanto todos os gregos têm cabelos compridos, me vem um guerreiro do tipo “exército americanizado”. Simplesmente ridículo. O ambiente como um todo soa muito atual – o que não é bom; em 81 souberam viajar mais no tempo. Por falar em tempo, 1 hora e 37 minutos é pouco demais pra toda narrativa épica, cortaram alguns detalhes. Não comprometeu o resultado final, porém enxugou a narrativa numa aceleração que corrompeu com a época retratada. Agora… o final foi uma corrupção total com o original! Enfim…
O lado positivo do filme se encontra às voltas de buscar resgatar uma mitologia que julgo belíssima e que é uma maneira bastante usada para explicar a existência dos homens e seus desdobramentos no Universo. Os mitos, método antigo, são o veículo de transmissão de conhecimento sempre atual. Então, eu recomendo o filme, ainda que recomende anteriormente o original de 81 e os livros sobre Mitologia Grega.
Por: Guerra de Pipoca.
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P.S. Ainda tem um agravante negativo: não mostrou Poseidon…
Algumas pessoas consideram sinônimos as palavras genocídio e etnocídio. São conceitos que se cruzam, mas há diferenças. No genocídio, a extinção é da raça, etnia. No etnocídio, a extinção é da cultura, o povo não necessariamente é exterminado.
Muito se fala do nazismo; estamos cansados de filmes a respeito da crueldade ariana, ao menos eu estou. Porém, genocídios e etnocídios maiores aconteceram aqui nas Américas. Os índios estão em extinção desde anos atrás. A cultura brasileira privilegia o mínimo de sua raiz indígena. Índio é artigo de luxo colocado em vitrine museal pela FUNAI. Brigas por terras, por direitos natos. Homem branco é bonzinho… dá 0,1% do que são deles e é visto quase como um favor, espécie de “décimo terceiro salário”. Realmente, as inversões são enormes. Mas, enfim, colonizados pelos Europeus – ou melhor, por todo Eurocentrismo vigente – os índios perderam suas nações, foram reduzidos ao conceito de “tribo”. E os samurais com isso? A dinâmica é a mesma. Encontramos samurais em templos japoneses, não mais caminhando pelas calçadas das cidades grandes; até mesmo porque a sua cultura é inversamente proporcional ao tempo acelerado de seus contemporâneos capitalistas. Afinal, a divisão Oriente x Ocidente está cada dia menos visível.
É um filme para se extrair dele algo além do que ele propõe. Talvez para ser pensado o quão é fascinante impregnar-se da cultura de um outro, prática comum entre os seres humanos. Conheço brasileiros que moram em frente a museus e acham que precisam atravessar o Atlântico pra conhecê-los na Europa rsrsrs. É divertido observar essas “contradições humanas“.
O único “inconveniente” do filme é que o Último Samurai é um norte-americano… rsrsrs. Por que será, né?
“O injusto perfeito recebe todos os louros do justo sem o sê-lo.”
Glaucon, em “A República”, livro II
“Ilari-la-li-ê! Ô, ô, ô! Ilalilariê; ô, ô, ô!”
Xuxa
Eu vos anuncio: o vencedor de qualquer Big Brother ou reality show será quem mais sofrer. Como assim, quem mais sofrer? É possível mensurar o sofrimento? Qualitativamente, não. A experiência individual do sofrimento é única, inerente da constituição psíquica do ser. Ao amante de chocolate, privar-se dos maravilhosos ovos de Páscoa é um imenso sofrimento. Não posso ter ciência da dor de um atropelamento se jamais passei por tal experiência. Quem sofre mais? Quasimodo por sua aparência ou Esmeralda por ser cigana? Não dá para estabelecer. Entretanto, é possível medir o sofrimento quantitativamente. Bastante foi dito sobre o totem e o tabu. Embora circunstâncias, dependentes do contexto histórico e estrutural, são absolutos enquanto existem. Logo, existe um sofrimento absoluto: aquele que todos da mesma sociedade concorda como tal. Ao perder seu ursinho de pelúcia favorito, há quem sinta solidariedade pela sua dor enquanto há quem deboche, alegando não passar de um vão capricho. Contudo, diante a morte da mãe, por exemplo, somos todos compreensíveis para quem sofre a perda. Quem sofre pelo denominador comum mais amplo tocará a sensibilidade geral. Logo, no caso do Brasil, onde todas as pesquisas de padrão de comportamento, gostos e afins tem por base a classe social e renda, é bastante óbvio que o sofrimento derivado da pobreza sensibilize as massas. Este é um dado a priori no Big Brother: há outros fatores em jogo.
A condição de pobreza do participante mais miserável é ponto favorável para conquistar a complacência pública. Não obstante, se este participante apelar excessivamente de sua condição, perderá a vantagem. Por que? Porque em tais circunstâncias, ele não sofre, mas aproveita-se da ideia de sofrimento para tirar benefícios. Outro fator importante é o sofrimento visível, plástico. O participante que for excluído socialmente da casa, isolado, sem justa causa (e nisto a edição do Big Brother pode alterar a realidade), naquela ocasião imediata da percepção pública, ele sofre mais que o pobre—se este se enturmar com os demais membro da casa. A vítima do complô adquire imensa vantagem sobre o manipulador, pois nossa visão maniqueísta tende a catalogar o opressor como mal e o oprimido como bom. Porém, caso se torne vísivel que o oprimido esteja tirando proveito da situação, ele deixa de sofrer e, nisto, perde o favoritismo. O sofrimento precisa ser legítimo. Não pode ser o pobre cachaceiro, mas aquele batalhador, que rala, pasta. E continua pobre. E o excluído precisa ser uma inocente vítima discriminada.
Por que tamanha admiração pelo sofrimento? O Homem insiste em negar sua condição egoísta; refuta ao menos compreender que tal egoísmo é somente necessário para assegurar a própria sobrevivência. O altruísmo supremo é o sacrifício. Por sacrifício compreende-se sofrer, sem ser em vão, em prol do benefício alheio, sem nada pedir em troca. Tanto a renúncia quanto a ambição retiram o aspecto sagrado do sacrifício. Somente um deus pode realmente exercer um sacrifício legítimo: os homens são incapazes de tamanho altruísmo. Ainda assim, por ser ideal e—justamente o que torna impossível—impulsionado pela vaidade de se aproximar dos deuses, o Homem tenta alçancar o pedestal do sacrifício.
Uma ressalva: o sacrifício precisa ser opcional. Se não houve outra opção, não é sacrifício: trata-se somente do necessário. Portanto, quando alguém disser “eu me sacrifiquei por você”, verifique se realmente houve alternativa. Ainda que fisicamente haja possibilidade de ações diversas, o peso da consciência constituinte da moral do indivíduo o impossibilita de agir de outra forma senão a do “sacrifício”. Porém, isto não é sacrifício. O que o indíviduo faz é evitar seu suicídio simbólico—ir contra os próprios princípios significa ir contra si mesmo: basta analisar a palavra “princípio”. E, novamente, o sacrifício legítimo não reclama ou exige trocas. Como somente um deus é capaz de realizar um verdadeiro sacrifício, o sofrimento humano consiste ou em Ananké (Necessidade. É a mãe das Moiras) ou, simplesmente, masoquismo. Ainda assim, quem mais sofre e, não obstante, encara o sofrimento, conquista nossa compaixão. Por isso o elegemos: para nos iludir em ideais transcendentais. E por isso a necessidade de sutileza, para não desvendar nem o aspecto egoísta ou masoquista do Homem.
Por que toquei neste assunto? Oras, para compreender Super Xuxa Contra o Baixo-Astral, precisamos analisar quem é Xuxa e o que a faz ser Super Xuxa? Certamente, o fato do shortinho de Super Xuxa ser menor que as ombreiras confere certas qualidades de “super”: assim como os herois masculinos vestem a cueca por cima das roupas colantes. Sempre interpretei isso como ausência de culpabilidade em se expôr! Superar esse sentimento de culpabilidade não é para qualquer um! Freud e as Moiras que o digam! Somos compelidos à falsa modéstia a fim de evitar testes. Afinal, quem se “garante” será constantemente testado até falhar. É um paradoxo. A ideia de sacrifício é altruísta, então o homem que deseja se tornar um deus deve tentar sê-lo sem ambição. O ambicioso é desprezado por evidenciar sua humanidade demasiadamente.
Xuxa é uma celebridade. As celebridades contemporâneas ocupam o panteão divino e recebem, do público/ súditos, todos os louros possíveis: beleza, fama, riqueza. Gostamos de debochar da inteligência das celebridades: sejam modelos, atores ou políticos. E não é para menos! Mesmo “intelectuais” como Pedro Bial e Paulo Coelho não podem superar excessivamente a média humana: do contrário não há elos de identificação, não há intercâmbio comunicativo. A celebridade atua como oposto de um profeta diante o totem e o tabu. O profeta é visto como louco por dizer assuntos percebidos por nós como incoerentes. Em seu tempo, era realmente um louco. Somente tomará o título de profeta post-mortem. Por isso o gênio é incompreendido ou, quando muito, adquire fama e sucesso restritos aos círculos acadêmicos. Não sei a validade dessa postulação, mas o patamar máximo do QI de um líder das massas não pode ser acima de trinta pontos da média humana. Se a média humana é cem, a Madonna não pode ultrapassar 130 (cuidado com as informações de Internet delegando QI de 150 à Britney Spears. Einstein possuia 160 no máximo). Faço tais referências de QI pois abaixo mostrarei como Super Xuxa consegue ultrapassar—talvez não em inteligência, mas em transcendência humana—Goethe e Wittgenstein. Goethe é considerado o maior gênio da humanidade, empatado com Leonardo DaVinci. Wittgenstein ocupa o humilde terceiro lugar, depois dos dois citados acima. Super Xuxa é demais! Ah, nota de curiosidade! Não posso confirmar a validade de tal afirmação, mas o diferencial de trinta pontos é o limite do esforço. Com tamanha diferença, jamais o esforçado ultrapassará o talentoso inato, mesmo que o primeiro tenha hemorróidas de tanto estudar e o último, cirrose hepática por conta das baladas. É aqui que a compaixão humana da sociedade inverte a lógica e coroa o esforçado em prol do talentoso, apesar do desempenho inferior. O mérito se torna mais importante que o feito.
Já Xuxa, como representante da sociedade, desempenha a função em repetir incessantemente que “o céu é azul”. O mártir é o último a morrer com a queda do tabu. Por se tratar precisamente daquele que anuncia que o tabu já fora rompido, sua posição é neutra. É morto e após redimido, quando compreende-se o que dissera. E, graças a ele, os profetas, outrora loucos, também são resgatados do baú (porém, os loucos que inspiraram os profetas permanecem esquecidos, como insanos). Aliás, essa suposta neutralidade confere a noção mais próxima de “sacrifício” possível, pois a ambivalência da posição do mártir o situa fora de uma dicotomia. As celebridades são quem ascendem socialmente diante a nova ordem do totem e do tabu, porém “sofrendo” os preconceitos do tabu já derrubados. Justamente pelo caráter absoluto, que sequer é ousado ser mencionado, as celebridades debatem e interagem com o público o tabu derrubado—mas acreditando que ainda persiste, o que gera a eterna ideia de progresso e liberalismo social—esquecendo, obviamente, o atual tabu. Faustão, ao dizer que uma menina do Big Brother pode beijar outras meninas, recebeu salvas de aplausos do público. Ele não faria a mesma afirmativa diante Oscar Wilde. Ou inclusive Xuxa, ao indagar indignada “quantas Isabellas precisarão morrer?”. Logo, as polêmicas debatidas nada mais são que tabus caídos. E quanto mais são debatidas em amplitude, mais distante estão do antigo tabu e próximas do novo, porém não percebemos dessa forma. Se há um século era tabu uma menina beijar outra; hoje, é praticamente tabu condenar tal atitude. Diga-se de passagem, após sentenças como o “céu é azul” for proferida exaustivamente, questionar tal afirmação torna-se tabu. Durante algum tempo ninguém mais falará do assunto, até que certo sujeito indagará, “é realmente azul?”. Assim segue o ciclo do louco, profeta e mártir.
Então analisemos o caso brasileiro em meados da década de 80. O poder do pater familias quebrara há tempos. O feminismo triunfará há décadas. Os mártires morreram gerações antes. Uma jovem briga com o pai e decide tentar a sorte na cidade grande. Minha nossa! Como é possível? Uma jovem brigar com o pai! Ousar enfrentar o poder do pater familias? E ainda por cima, na condição de mulher, tentar sozinha a sorte na cidade grande? Essa é Xuxa. Não retiro seu mérito. Do contrário; aplaudo. Ela foi a pessoa mais normal possível de sua época. Enfrentou as dificuldades que todos ao redor enxergavam como intransponíveis, mas, na verdade, torcíamos desde o início em seu favor: para ver a queda do tabu confirmada! Ou melhor, do que julgamos ser tabu…
“A mais normal possível”: é exatamente por isso que a coroamos. De tão normal, precisamos fazê-la anormal. Daí a enriquecemos, conferimos glamour e lhe providenciamos um imenso poder simbólico. Não adianta tentar, agora, repetir os passos de Xuxa. Ela o fez antes. Seu mérito é ser, como oposto do profeta e do gênio que “vivem no futuro”, incrivelmente apurada no olhar do presente. Tal habilidade de percepção a permitiu encontrar a kairos! Essa palavra grega significa a perfeita harmonia entre Virtude e Fortuna. Quer ser modelo? Não adianta se degolar na academia de ginástica sem frequentar as boates e as praias onde os caça-talentos perambulam. Tampouco faz sentido percorrer tais ambientes com banhas assassinas quicando em seu ventre a cada passo dado. A kairos é a união das duas condições.
Para enfim falar de Super Xuxa, gostaria de finalizar sobre Xuxa. É claro que ela enfrentou inúmeros desafios, assim como todos nós o fizemos. O seu desafio, entretanto, é aquele considerado como desafio por todos os membros da sociedade. Absoluto. E circunstancial. Não surtiria efeito nem décadas antes, nem posteriores. Por isso uma grande celebridade é a pessoa mais normal possível, convertida por nós em anormal. E por isso sempre dizem “o céu é azul”. Certamente Xuxa, durante sua ascensão, era David. Mil problemas, personificando Golias, a esperavam à frente. Nós, não obstante, apedrejamos o Golias, torcendo por Xuxa. Enfatizo: não retiro seu mérito; aliás, apenas o engrandeço. Outro simples exemplo? Pensemos em Titanic, filme para um público de 1997 contextualizado em 1912. Aplaudimos a coragem de Rose. Choramos com a morte de Jack. Realmente, Jack era o David. O noivo da Rose, o Golias. Rose agiu como uma heroína, “quebrou” o tabu. Mentira! Rose não quebrou o tabu coisa alguma. Se ela realmente quebrasse o tabu contemporâneo, e não o já quebrado, teria escolhido o noivo no lugar de Jack. Neste caso, sairíamos do cinema revoltados! Não é possível que uma jovem mulher escolha um cara velho, só porque é endinheirado, ao invés do bonitão pobrezinho! Que mulher vagabunda, prostituta, golpista do baú! Mais ou menos isso…
Então, se Xuxa é a pessoa mais normal possível, quem é Super Xuxa? Para elaborar melhor o enredo do filme, consideremos o vocábulo “super” em termos do Nietzsche. O Super-Homem, que, de fato, significa “Além do Humano”, conforme o original alemão Übermensch. Logo, temos a obra cinematográfica ÜberXuxa contra o Baixo-Astral.
Considero esse filme como o antecessor das séries do Discovery Channel sobre combates improváveis, nos moldes de um duelo entre o tubarão branco com o urso polar. Não obstante, esses documentários possuem um grau de interesse apesar da irrelavância. É improvável por se tratar de distintos habitats, mas os cálculos são feitos pautados na força de cada antagonista. ÜberXuxa e Baixo-Astral racionalizam o ilógico com sublime dinamismo: leia-se, é tão sutil que nosso tendencionismo ecumênico costuma catalogar essa obra como infantil!
Numa análise dos antagonistas, percebemos como o enredo do filme é centrado na ÜberXuxa difundindo o ateísmo niilista e desconstruindo as estruturas vigentes, moldando o mundo ao redor conforme sua vontade deliberada. A tolice de Baixo-Astral é sua intolerância, pois a dominação por completo tende à autodestruição. Ele deveria permitir que Xuxa seguisse com sua doutrina até que esta se enfraquecesse por si mesma. Uma alternativa pleonástica seria a manipulação dos sujeitos circundantes de Xuxa, para que estes entrem em conflito com ela, mas sem entrar em relação direta.
Com seu shortinho menor que as largas ombreiras – uma reformulação gramatical: o short que é pequeno demais ou a ombreira, excessivamente grande? – ÜberXuxa percorre o Rio de Janeiro de moto. A cada esquina perfaz atos de vandalismo, pintando muros do patrimônio público. Crianças rebelam-se contra a ordem panóptica do horário escolar e unem-se com ÜberXuxa na destruição da propriedade pública ou privada. Ela anuncia pomposamente seu intuito: pintar um arco-íris de energia!
Um arco-íris é um fenômeno da natureza! E de energia? Que tipo? Quântica? Mecânica? Termodinâmica? Ah, com tinta! ÜberXuxa vai contra as postulações de Wittgenstein. O filósofo austríaco pregava a falta de nexo em nomeações de sensações privadas sem consentimento público. Por exemplo, se quero denominar tal tom de vermelho como “alpha”, é necessário a concordância geral sobre o significado dessa designação. Xuxa deliberamente nomeia funções para cores, remodela o mundo conforme sua vontade. Afinal, ela decide, num estalar de dedos, que “toda cor tem poesia e magia. Emoções em forma de poesia”. Isso é ser ÜberXuxa, para além do bem e do mal da mera ética fenomenológica, castradora dos nossos impulsos e geradora do mal-estar individual em prol do processo civilizatório.
ÜberXuxa é além do humano no sentido em que pouco se importa com o mundo a seu redor; o que não implica numa submissão à regra ou pretensa superação, mas total indiferença sem, contudo, converter-se numa alienada. Podemos perceber isso claramente na atuação na personagem. ÜberXuxa é apática!
Páthos não é somente o mundo onde reina o Imperador Conde Pato. Com “p” minúsculo, trata-se de uma palavra grega cujo significado é paixão. Porém, essa paixão é pejorativa, pois implica na falta de controle do indivíduo de seus próprios impulsos, cedendo aos excessos, à catástrofe: uma passividade diante o efêmero, submissão sofrida e assujeitamento do fenomenológico. Desta palavra também deriva a atual “patologia”.
Logo, o ideal grego é o da pessoa apática: aquela que não cede diante as tentações da páthos. A pessoa apática, segundo o pensamento grego, possui controle de sua thymòs (humor). Nisto, ela mais ou menos consegue manter o equilibrío psíquico diante a eudamonia dos deuses. Eudamonia é frequentemente traduzido como “felicidade”, mas o conceito grego é bem diferente do nosso. Nós seguimos uma postura teoricamente utilitarista, proposta por Stuart Mill, em tentar controlar o destino. Na nossa ação, pensamos de antemão a prevenção de possíveis infortúnios e, assim, mantemos o mundo externo sob nosso controle. Os gregos não possuiam essa prepotência (mas eram prepotentes em outros quesitos). Sabiam que nada podiam fazer diante a Vontade dos deuses: controlar o mundo externo é em vão. Portanto, o controle deve ser, sobretudo, interno. Essa é a ideia de eudamonia. O que os deuses dão, seja glória ou fortuna, eles podem facilmente retirar conforme seus caprichos. Cabe ao indivíduo manter-se emocionalmente equilibrado, apático, e não sucumbir aos prantos da incerteza. O sujeito para além do bem e do mal é apático. E quem é apático desafia os deuses!
Das profundezas de Hades (ou do esgoto. Não dá para discernir), Baixo-Astral não pode tolerar os feitos ÜberXuxa. Sua reforma niilista põe em xeque a existência de Baixo-Astral. Quem é, afinal, Baixo-Astral?
Baixo-Astral é um totem em si, do mesmo modo como Helena de Tróia é o totem da Beleza. Ainda que nenhuma mulher possa ser mais bela que Helena de Tróia pela simples relação gramatical entre substantivos e adjetivos –se quiser, o que Aristóteles denominava como qualidades primárias, ela permanece circundada numa ordem prévia. É verdade: qualquer mulher bela terá a ideia de “mulher” como substantivo e “bela” como adjetivo, ou seja, um simples anexo. Isso jamais poderá se igualar com Helena, a Beleza em si, pois neste caso, “beleza” é o substantivo enquanto “mulher”, o adjetivo. Por obséquio, precisamente o caráter absoluto e totalitário da Beleza de Helena revela uma pequena fragilidade. Existe uma entidade capaz de ser mais bela que Helena. Uau, quem? A deusa Afrodite. Helena permanece inferior diante Afrodite. Por mais que seja a personificação da Beleza, é Afrodite quem dita o que é a Beleza. Só então essa pode enfim ter uma essência e se revistir na forma de Helena. Minha lógica persiste pois Afrodite não é uma mulher, mas uma deusa. Então, Helena é a favorita da deusa Afrodite. Apesar de tudo, está sujeita à eudamonia. Afrodite pode mudar de ideia e delegar a dádiva da Beleza suprema à Preta Gil ou Vovó Mafalda quando bem entender. Acaso Afrodite escolha Dercy Gonçalvez, nenhum homem poderá resistir aos encantos desta última. E Helena cairá no ostracismo.
Essa noção grega de eudamonia como felicidade é contraditória ao nosso conceito de sacrifício. Nós valorizamos o sofrimento a ponto de privilegiar o esforçado empenhado no lugar do talentoso inerte. Os deuses são indiferentes às emoções—afinal, são apáticos—e, ao contrário dos homens, escolherão o melhor, independente da intenção ou da vontade. O conceito do mundo schopenhauriano como Vontade e Representação é eudemonístico precisamente nesse aspecto de “necessário”. Não se trata de uma crueldade pessimista qualitativa, mas de uma ordem onde a mais-valia da Natureza é o que importa, indiferente do desejo humano.
Com Baixo-Astral se passa algo semelhante. Sua existência ameaçada, ele precisa se livrar, de uma vez por todas, de ÜberXuxa!
Quem vence esse duelo? Um totem dos deuses ou um humano além de si, indiferente dos deuses (o que não quer dizer superior)? É o que veremos abaixo!
O mundo de ÜberXuxa é perfeito até um incidente primevo: o sequestro de Xuxo! Xuxo, o cachorro de Xuxa, é capturado pelos capangas de Baixo-Astral. No mais, como Xuxo conseguiu ser capturado tão facilmente? Oras, ele não alcançou o patamar de ÜberXuxo; sujeito, portanto, às influências totêmicas do Mundo. Possuído pelo Baixo-Astral, tornou-se vítima fácil.
ÜberXuxa vai ao seu resgate! Vale salientar: ser apático, nos termos gregos, não é pejorativo como nós compreendemos. O niilismo é a crença no Nada, não em nada. Isto significa que ÜberXuxa não se sujeita aos caprichos dos deuses, é indiferente destes, mas de modo algum quer dizer que caiu na inércia. Do contrário, se tal apatia fosse traduzida por contentação, frustração ou depressão, seria páthos de qualquer modo. Seu desapego por questões mundanas não significa renúncia da vida, mas transfigura-se em seu exato oposto: em resolução e determinação constantes. Só assim, como na Pandéia, ÜberXuxa pode ultrapassar as ambições de Baixo-Astral, um totem dos deuses!
ÜberXuxa confronta-se com um muro repleto de hieróglifos egípcios. Ao menos, reconheci alguns destes. Não sei se os outros são signos babilônicos ou escrita cuneiforme. Lá, encontra Marlene Mattos, digo, a minhoca Xixa. Ultrapassam o muro e começam, juntas, uma imensa viagem astral.
Até nisso Xuxa se revela ÜberXuxa! Ela penetra no mundo astral sem necessidade de romper a simbiose corpo e alma! É além das capacidades humanas! É pura Vontade!
Durante toda a viagem, é interessante focalizar a apatia na atuação de ÜberXuxa. Ela não demonstra qualquer sinal de emoção. É perfeito! Não há escalas de expressividade em afirmativas díspares como “aquele tubarão branco vem me atacar” e “o céu é azul”. Somente um indivíduo com total controle de si é capaz de manter tamanha harmonia psíquica. Sua resolução pela busca de Xuxo afasta possibilidades de interpretarmos essa apatia como resignação ou ausência de vida.
Ainda mais fascinante é sua simplicidade e humildade em perguntar. Sabemos que a sabedoria não jaz nas respostas oferecidas, mas na capacidade de perguntar. Uma visão presa às entropias profanas poderia considerar ÜberXuxa como alienada, pois são frequentes as perguntas do gênero “onde estou?”, “o que é isso?”, “o que preciso fazer”, “o que é você?”, “o que está acontecendo?” etc; mera ilusão. Trata-se do mais minucioso metódo socrático, a indagação da questão até delimitá-la em seu axioma, se existir. E, para isso, para questionar tantas coisas, muita sabedoria é necessária.
Através das imensas planíces daquele mundo astral, ÜberXuxa depare-se com constantes barreiras aparentemente intransponíveis. O acesso à morada dos deuses é vedado aos homens. Isso é algo que mesmo Gilgamesh, o mais antigo relato mitológico da humanidade sobre o rei sumério com um-terço de divinidade, precisou compreender às duras custas. A prepotência de Gilgamesh em proclamar-se deus absoluto o levou ao combate com Enkidu, até então enviado dos deuses para deter o arrogante rei. Ao se tornarem amigos, ambos desafiaram criaturas sagradas e despertaram a fúria de Inana. Esta é a deusa do amor e do ódio, ancestral da Ishtar babilônica. Eventualmente a Afrodite grega. Inana destribui as tábuas do destino, as me. Cada homem recebe diversas me, mas a última é sempre idêntica: a morte! Enkidu e Gilgamesh fracassaram na tentativa de vencer a morte ao penetrarem a morada dos deuses. O que acontecerá com ÜberXuxa no mundo astral?
O erro de Gilgamesh foi tentar superar os deuses pela força. Após vencer temíveis monstros, remar, nadar, correr, lutar e sei lá o quê ao quadrado, ele não foi capaz de vencer o teste final: depois de tantos exercícios, deitar-se numa cama confortável e não dormir! ÜberXuxa não é tão ingênua. Ela tem soluções schopenhaurianas na manga!
A música, na visão de Schopenhauer, consegue por vezes ir além da tragédia como arte suprema. Ao esboçar emoção em estado puro capaz de anteceder a palavra, trata-se de uma linguagem capaz de gerar sentimento sem que haja sentido a priori. É como uma beleza desprovida de forma. Enquanto os totens absolutos da Natureza eudemonística são coisas em si, ding an sich kantianas. Enquanto sujeitos à Natureza, eles nos afetam inexoravelmente. O Übermensch de Nietzsche seria capaz, através da Arte, de revelar sua total indiferença com a Natureza, invertendo a lógica e tornando os esforços desta estéreis diante a pura resolução do Übermensch perfeito. ÜberXuxa, sempre que diante um problema aparentemente sem solução, começa a cantar. Sua música converte em pura emoção sobrepujando as forças da Natureza e, assim, transfigurando o mundo ao seu redor conforme sua vontade. Os golfinhos, as plantas e os animais passam a ajudá-la. O que era aparentemente impossível torna-se possível diante uma nova perspectiva: mas isto é algo que somente alguém no patamar de ÜberXuxa é capaz de realizar. A música de ÜberXuxa a eleva em todos as ramificações do mundo astral, inclusive o Alto-Astral.
Estamos à beira do conflito direto entre ÜberXuxa e Baixo-Astral. Preciso antes assinalar outro ponto. Thymós é “humor” em grego. Aqui existe uma divergência entre Platão e Aristóteles com Sêneca. Sêneca é romano, então dane-se para ele. Seguirei a visão platônica-aristotélica. Thymós seria a minha constância: ou seja, minha apatia. Porém—e isto pode tornar-se um pouco confuso, pois os conceitos gregos não são sempre compatíveis com os nossos—trata-se de outro assunto, diferente da relação do homem com a páthos. Lembram do velho ditado “a virtude está no meio”? Pois bem, a mediocridade também, como todos sabemos. Para Platão e Aristóteles, a vasta maioria dos homens seria susceptíveis à páthos sem, contudo, alterar a thymós. Do contrário, a constante recaída nos estados proporcionados pela páthos seria a própria thymós do indivíduo. A experiência limitada pela própria thymós resulta numa entropia e incapacidade de compreensão do Outro. O gênio e o louco (em Aristóteles analisado pelos casos de melancolia) compartilham uma extraordinária habilidade: a de conseguir oscilar entre a euthymia e a disthymia. Euthymia, para Sêneca, trata-se somente da ausência de inquietação. Vamos por Aristóteles e Platão!
A euthymia é o gozo de ser si mesmo, uma espécie de euforia por adorar-se. É o ser em sua completa auto-realização. A disthymia é a repugnância de si, o não-conhecimento do próprio indivíduo como tal. Enquanto um é entrar ao máximo dentro de si, o outro é afastar-se mais quanto possível. Quando um indivíduo é capaz de alcançar a euthymia e a disthymia, ele torna-se capacitado para compreender o Outro. Platão sugere a experiência alcóolica (o que poderíamos facilmente traduzir como ácidos lisérgicos ou drogas afins) como uma possibilidade primeva de oscilar pela euthymia e a disthymia. O alcóol, o estar embriagado, serveria como um fogo inicial para a experiência total da thymós. Porém, ele adverte: esse fogo serve apenas como pontapé inicial. Ele é útil para a compreensão da thymós, ou melhor, do reconhecimento desta de seus estados alterados, o eutímico e o distímico. Então o trabalho do gênio seria de conseguir reproduzir tais estados enquanto sóbrio. Em hipótese alguma Platão sugere o alcoolismo, pois ele adverte: se a chama do fogo externo (o alcóol) for mais intesa que o fogo interno (a thymós do indivíduo), o resultado será que a chama maior terminará por consumir totalmente a menor. Ou seja, a produção da melancolia. Trocando em miúdos, Platão aconselha experimentar de tudo, mas não se viciar. E o brilhantismo do gênio, através da kairos, é saber a dose perfeita deste equilíbrio.
ÜberXuxa, no Alto-Astral, alcançou a euthymia! E não foi através do vinho ou da embriaguez, mas da Arte! É a dádiva suprema da genialidade! Novamente, trata-se de uma equivalência parcialmente eficaz, mas é quase possível afirmar que ÜberXuxa atingiu a poèsis, a contemplação dos deuses, o poder heurístico de criação, de conferir existência onde outrora era inexistência. Essa contemplação dos deuses consiste num vislumbre rápido, porém profundo, da perfeição das formas divinas. Goethe descreveu em termos típicamente faustianos a tentativa de Fausto em desvendar o Absoluto. Fausto fita os olhos diretamente para o Sol. Mefistófeles relembra a existência de poderes que ultrapassam seu próprio e Fausto queima os olhos. Não se trata de resignação, mas Fausto vira de costas e compreende que o Absoluto é apreendido somente sob a forma de reflexos da luz solar. A poèsis grega é parcialmente análoga.
ÜberXuxa: totalmente apática, conforme denota sua atuação, é blindada contra as influências da páthos! E agora conseguiu, através da música e da Arte, diante um problema original –quem sabe uma disthymia?—alcançar a euthymia e a poèsis! Para alguém assim, os deuses não são necessários.
O contrário se passa com Baixo-Astral. Como totem, não obstante, sem ser o emblema totêmico máximo, é totalmente dependente da benevolência divina. Agora, ÜberXuxa está pronta para enfrentar Baixo-Astral. Uma nota sobre o enredo: Baixo-Astral não apenas sequestrou Xuxo, mas também um rapaz. Foi um grande erro, pois este rapaz é humano e, portanto, condicionado aos apelos da páthos.
Baixo-Astral tenta humanizar ÜberXuxa, transformá-la em tão somente Xuxa! Logo, é apelativo na esfera das emoções. Diz que Xuxo não suportou tamanha demora e culpabiliza Xuxa pelo fracasso da empreitada e morte de Xuxo!
A hermenêutica nos permite várias interpretações da seguinte cena. Uma visão ingênua diria que ÜberXuxa humanizou-se e, degradada como somente Xuxa, incorporou o sentimento de culpabilidade de um superego extremamente sádico. É a cena em que Xuxa apresenta-se como Bruxa. Baixo-Astral diz que sua única saída é o pacto de aliança. Porém, nossa investigação minuciosa não é enganada por diálogos levianos, certo? Sabemos que tudo não passou de uma estratégia de ÜberXuxa para enganar o próprio Baixo-Astral, tanto que ela não mudou seu estado apático na atuação. Um golpe de mestre! Pura maiêutica socrática: conferir credibilidade ao argumento do opositor para depois refutá-lo. Ao fingir-se humana—o que ela, agora ciente das variantes da thymós, pode fazer conforme sua vontade—seduziu pela compaixão o garoto perdido por perto. Foi ele quem se aventurou, comovido pelo aparente sofrimento de ÜberXuxa, e libertou Xuxo.
Assim, cão e dona se unem novamente! Porém, Baixo-Astral não se dá por vencido. Um totem não se dá por vencido até que seja derrubado por outro—neste caso, alguém indiferente à ordem dos deuses—por isso não pode jamais ser redimido, somente destruído.
Munido de seus asseclas Titica e Morcegão, ele lança raios de puro Baixo-Astral, coisa em si, contra ÜberXuxa. E também agarra Marlene Mattos, digo, a minhoca Xixa.
Lembram do que foi dito em Nárnia? Um totem possui imenso poder, porém somente se acreditam nele? ÜberXuxa compreende essa lógica perfeitamente. Fenomelógica, husserliana, ela soluciona o impasse mediante a Einfuhlung (“sentir dentro”, “empatia”. Indica um modo de conhecimento que procura penetrar na experiência de outro ser humano e saber e sentir o mundo como ele faz) com Titica e Morcegão.
Com isso, ela oferece o benefício do perdão. Diante o público, claro, para surtir maior efeito. Sobretudo, diante Baixo-Astral exatamente no momento em que as forças estão equilibradas. É pela emoção, com ajuda da kairos, portanto, que ela vence. Ela, apática, que nada sente, consegue manipular os outros pela emoção. Não consigo deixar de me impressionar diante tamanha genialidade, além da possibilidade humana! Afinal, para quem nada sente, é extremamente fácil perdoar. Não apenas o ser não fora afetado como implanta culpabilidade naquele que julga ter conseguido provocar sofrimento. Assim como o sacrifício, somente um deus pode perdoar legítimamente. Ou ÜberXuxa.
Com a música, desconfigurando a gramática, num verdadeiro amalgama sensorial, ÜberXuxa lança seu raio de arco-íris, aniquilando Baixo-Astral de vez!
É muita emoção e poesia numa cena só!
Naturalmente, não posso deixar de observar: seja lá qual for o deus protetor do Baixo-Astral, este o havia abandonado. É como se Helena de Tróia decidisse participar num concurso de miss num momento em que Afrodite já escolhera outra “coisa”, seja uma zebra ou ser humano, para totem máximo de beleza. Helena de Tróia perde para Mulher Melancia se Afrodite assim desejar.
Dois cenários se desfecham, portanto. Primeiro, ÜberXuxa, unida de seu cão Xuxo, segue no comando de crianças vândalas pintando patrimônio público e propriedade privada, na difusão de caóticos ideais niilistas.
Noutro…
Os deuses sumérios compreendiam muito melhor que os deuses gregos ou das tradições judaico-cristã a essência da própria divindade. Anu e Enlil eram os deuses do firmamento, da ordem. Pai e filho em perpétua transmutação. Não suportavam um ao outro e, como deuses, não são obrigados a tolerar a companhia. São auto-suficientes. Enquanto um reinava supremo, envelhecia. O outro, afastado da assembléia divina, rejuvenescia. E assim eles revezam o trono do deus supremo. Enquanto Enki, o deus da sabedoria, ria de Enkidu e Gilgamesh. A última tábua do destino, as me, é sempre a mesma: morte. Enki sabia que nem mesmo ele e os demais deuses poderiam escapar da última tábua. Porém, eram diferentes de Gilgamesh ou do Baixo-Astral. Apesar de outros nomes, sempre renascerão enquanto o homem for homo sapiens. ÜberXuxa deve, portanto, jamais baixar a vigilância!
Abaixo deixo um vídeo de ÜberXuxa, além do bem e do mal, desconsiderando os círculos da crítica de cinema, em alusão ao seu poder totêmico superior. Afinal, ela comanda crianças. O que os críticos podem fazer?
O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei – Lord of the Rings – The Return os the King
Direção: Peter Jackson
Gênero: Épico
EUA – 2003
A novidade desse livro de Tolkien não foi mostrado no cinema, ficou reservado aos leitores dessa obra. Ao final, Tolkien expõe a gramática e ortografia da Língua Élfica que inventou. Como dizia em A Sociedade do Anel, sua intenção com a obra era sumariamente linguística.
“O Westron, ou Língua Geral, foi inteiramente traduzida para equivalentes ingleses. Todos os nomes de hobbits e palavras especiais deverão ser pronunciados de acordo”. (Tolkien)
Tolkien tentou representar os sons originais com precisão na medida em que isso poderia ser possível. Dessa maneira, enquanto a Língua Geral foi baseada no inglês, a Língua Eldarin (Élfica) foi grafada no Latim.
De acordo com a Gramática bem detalhada e exposta nos Apêndices do livro, posso dizer que a língua soa bonita e conta com elegante pronúncia, por ter uma sonoridade arcaica. A língua inglesa é o ponto mais forte da sonoridade das palavras, e o brilhantismo é devido ao fato do latim não ter sido deixado de lado. Realmente, lindo!
O inconveniente que impossibilitou, em minha opinião, a aderência de tal língua inventada nas diversas culturas disponíveis no mundo é a composição do alfabeto. Tolkien fez questão de usar de diversas maneiras as letras do alfabeto sob o modelo arcaico. De forma que a substituição do que já se encontra padronizado para a regressão da escrita praticamente desenhada é inviável.
Por exemplo, uma das regras gramaticais da Língua Élfica explicada por seu criador:
“O sistema continha vinte e quatro letras primárias, 1 – 24, ordenadas em quatro témar (séries), cada uma com seis tyeller (graus). (…) As letras primárias compunham-se cada uma de um telco (haste) e um lúva (arco). AS formas vistas em 1- 4 eram consideradas normais. A haste podia ser elevada, como em 9 – 16; ou reduzidas, como em 17 – 24. O arco podia ser aberto e cada um dos casos podia ser duplo (como duplicar a letra L na palavra. LL).”
Tantos arcos, hastes, é preciso saber desenhar pra assinar o próprio nome em Élfico!
Já imaginaram como seria difícil abandonar o inglês, que é uma língua simples se comparado ao latim, para formalizar a Língua Élfica, que é a somatória erudita das duas, para, então, ser falada por todos os homens?
Ambicioso, meu caro Tolkien… Ambicioso. E por isso, restrito aos elfos.
As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian – The Chronicles of Narnia: Prince Caspian
Direção: Andrew Adamson
Gênero: Fantasia, Aventura
EUA – 2008
Dizem por aí que a Terra é azul com formato oval e ligeira inclinação angular provocadas por forças gravitacionais. Prefiro definir o mundo como “totêmico”. Uma vez que o mundo externo é filtrado pelo homem mediante representações simbólicas, é possível dizer que “tudo é totêmico”. Eis então a necessidade em distinguir totemismo de “enrolação”, ou sofismo em sua conotação pejorativa: “Tudo é Nada”, “Nada é Tudo”, “O Universo e o Ser formam o Único”, “Tao Te Ching” etc. O mundo mágico de Nárnia é um campo extremamente fértil para realizar tal distinção. Primeiramente falarei “brevemente” sobre o totemismo. Em seguida, o filme As Crônicas de Nárnia—Príncipe Caspian em si, para, finalmente, averiguar os elementos totêmicos neste.
Escolhi o mundo de Nárnia pra realizar tal análise justamente por ser explícito, fugindo da possível embromação, uma vez que, basicamente, qualquer coisa é totêmica. Mais do que uma crítica do filme, meu intuito é desnudar certas curiosidades para quem não o assistiu ou deseja revê-lo.
A Religião e a Ciência são irmãs, ambas filhas da Magia. Esta se trata da primeira tentativa do Homem em catalogar relações de causalidade. Seguindo o exemplo do primeiro filme da série, suponhamos o despotismo da Feiticeira Branca. Uma análise científica diria que ela está fadada ao fracasso por abusar deliberadamente do poder. Sob o viés religioso, elabora-se uma profecia. No final, o resultado é o mesmo. O totem e o tabu estão intrinsecamente relacionados; determinam-se mutuamente. Mais do que seu poder mágico, a verdadeira força da Feiticeira é totêmica—sua representação como ser temível. Afinal, aquele cetro não é poderoso o suficiente para destruir toda Nárnia. Ela, sozinha, contra meia-dúzia de centauros, certamente morreria. A crença no poder do cetro, sim, faz com que ela possa manipular exércitos imensos. Tal crença é tão forte cujo resultado é simples: na prática, jamais meia-dúzia de centauros ousariam enfrentá-la. Como não ousam, o poder simbólico do cetro aumenta. Entretanto, existe o sutil equilíbrio. O poder simbólico nela conferido a permite realizar diversas ações, mas se extrapolar: já era! Transferindo essa situação para o mundo contemporâneo, podemos concluir: não só a Madonna, mas sequer governos e mídias, por mais poderosos que sejam, podem ir contra o tabu. O tabu e o totem são a força máxima que guiam nossa ação. Ou melhor: guiam nossas crenças máximas e destas derivam a ação. Sem eles, nossos pontos cardeais existenciais sucumbem e instaura-se o Kháos. O abuso da Feiticeira rompeu o tabu, deslocando o poder totêmico do cetro ao leão Aslam. Este é o poder absoluto do tabu! Nem a Rede Globo, nem Bush com todo seu arsenal bélico podem ir contra o tabu! Se ousarem, transfeririam seus poderes totêmicos para outras esferas e estariam fadados ao fracasso! Em outras palavras, se a Rede Globo e o presidente dos Estados Unidos são poderosos: é porque nós permitimos, tal como o caso dos centauros. Isto não implica em dizer que somos covardes. Na verdade, é além da soma de vontades individuais, mas não deixa de ser provocado por nós. Afinal, tampouco nós podemos infringir o tabu. Seria necessário destruir o totem, daí significa o auto-aniquilamento (ou o extermínio do ahamkara, a “fabricação do eu”, em sânscrito védico, para homenagear a Raquel!). Não é o intuito desse texto aprofundar nisto, mas talvez fique mais claro abaixo.
Adiante, o objeto realmente poderoso é o cetro, não a Feiticeira em si. Entretanto, digamos que somente ela sabe manuseá-lo. O que é o cetro sem a Feiticeira? Um pedaço de metal. Quem é a Feiticeira sem o cetro? Uma magrela pálida. Poder-se-á afirmar que o cetro é o totem, enquanto o questionamento do poder da Feiticeira, o tabu. Seu poder é totêmico; enfrentá-la é tabu. Aqui caímos diretamente numa das mais clássicas lamúrias da contemporaneidade: “Ó, que lástima é o tempo em que vivemos, onde TER é mais importante do que SER”. Quem nunca reclamou disso? Eu já. E você? Acontece que ser e ter são a mesma coisa! Essência e aparência se determinam mutuamente! Ser rico é o mesmo que ter riqueza. Ser belo é o mesmo que ter beleza. Ser bom significa ter bondade. Ser espiritual é idêntico a ter espiritualidade e assim por diante. Nós apenas reclamamos dos nossos valores por conta da proximidade espaço-temporal. O pior inimigo é aquele na minha frente! Evidentemente, sempre foi assim. Afinal de contas, não posso ser jogador de futebol sem uma bola ou ser médico sem equipamento cirúrgico. Imagine um cantor sem uma bela voz? Ah, mas a voz não é posse material! Sim, é! São cordas vocais. O que altera é a legitimidade da posse. Nossa reclamação do materialismo contemporâneo deriva do fato que a relação de legitimidade entre o objeto e o indivíduo—o que somos hoje—se aproxima mais do dramatis personae totêmico do que da persona e da pessoa históricas. Para o dramatis personae, o clã é mais importante que ele próprio e seus próximos. Para o indivíduo contemporâneo, a cidadania é mais importante que instituições intermediárias como família, irmandades etc; por isso a necessidade de inúmeros objetos como afirmação da existência. A persona e a pessoa convertem objetos em símbolos como sobrenome, brasões ou insígnias. Se o poder simbólico do sobrenome perde sua utilidade diante um Estado igualitário, então as formas de reivindicação de identidade se alteram. Reparem na semelhança entre os vocábulos “utilidade” e “utensílios”…
Num período arcaico, antes da divisão entre Exatas e Humanas ou objetivo e subjetivo, é tudo igual (esse “arcaico” não é apenas temporal, mas também geográfico: aplica-se nas “sociedades sem história”. Interferindo no debate entre Parmênides e Heráclito se existem mudanças ou não, destaco um detalhe. O extremamente diferente aparenta ser imutável. Ao analisar dois textos em português com um lapso temporal de duzentos anos, percebo numerosas alterações gramaticais. Caso faça o mesmo com textos em coreano, não vejo a menor diferença. É igual porque não sei reconhecer o desconhecido). Adjetivos abstratos exigem uma complexidade linguística suscetíveis, num primeiro instante (provavelmente mais por quesitos léxicos e onomásticos que gramaticais), à substituição por substantivos: se não existe a palavra “coragem”, existe “leão”. Daí surgem os totens. Não é que um leão seja o símbolo de coragem. O Leão é a própria coragem. A serpente é a sagacidade, a raposa significa a agilidade etc. Misture isto com a ideia ainda confusa da definição do humano. Homens e animais se tornam o mesmo. E se sou ágil, sou uma raposa. Essa é a noção utilizada pelos clãs tribais ao denominarem um indivíduo como “Olho-de-Águia”, por exemplo. Portanto, ao invés de criticar, aplaudo o etnocentrismo em Nárnia. O idioma oficial é o inglês! Não poderia ser de outra forma, uma vez que o totemismo humaniza—em meus parâmetros—o mundo circundante. Se porventura sou uma raposa, ela também é humana. Nada mais natural que os animais, portanto, também falem! Em inglês, lógico! Falam minha língua porque eu também sou eles (no caso, a língua do autor das Crônicas de Nárnia). De passagem, isso explica porque nenhuma atriz jamais conseguirá ser tão bela para interpretar Helena de Tróia. Helena não é uma mulher bonita. É a própria Beleza, que porventura tomou forma de mulher, tais como as Ideias Perfeitas platônicas. Aliás, essa forma humana é relativamente recente. Ou, ao menos, formas “reais”—estatuas de “Vênus obesas” existem há quase 30 mil anos, indicando fertilidade. Finalizando a respeito da raposa, eu e ela somos o mesmo. Então, para tornar essa identificação mais acessível aos outros, uso uma pequena escultura ou máscara no formato de raposa. E algum outro adorno indicando quais das características da raposa me refiro: seja colar ou pulseira. Eis a origem da Louis Vuitton. Igualmente, da crença em centauros e minotauros. O Homem e a Raposa amalgamados formam o Homem-Raposa!
Outrossim, se sequer existe distinção entre homens e demais animais, imagine entre os homens em si e a capacidade de se reconhecerem como indivíduos? Um clã, em geral, forma um todo quase que “orgânico”. Cada homem funciona como uma célula cujo conjunto resulta num único organismo (diferente da atualidade, na qual a soma dos indivíduos não gera um todo, mas uma totalidade). Então temos o “Olho-de-Águia” junto ao “Pé-de-Elefante” ao lado do “Boca-de-Tartaruga”—eles formam uma única entidade “orgânica”. O que é isso? Uma besta mitológica! Ou seja, as bestas mitológicas, de fato, existiram! Existiram porque era assim que os homens interpretavam o mundo! No mais, suponhamos um canguru. Digamos que eu e você jamais poderíamos conceber um animal desse gênero. Então avisto um e tento descrevê-lo: cabeça de cachorro, com uma outra cabeça em seu ventre, onde jaz uma fenda aberta. As mãos são como patas de pássaro e a cauda, de lagarto. E tem pelos. Voilá. Outra besta mitológica (sobre isso, recomendo o capítulo IX da História da Feiúra, do Umberto Eco: physica curiosa). Diversos animais da mega fauna entraram em extinção a partir do final da última Era glacial, mas vários sobreviveram até às vésperas da História. Descreva um animal que não mais existe ao seu filho. Seu filho fará o mesmo aos seus descendentes, mas filtrado pela sua interpretação, como um telefone sem fio. E se acaso houve um incêndio durante a batalha com um lagarto gigante, induzir que ele cospe fogo é um pulo! A noção de entidade única do clã sofreu alterações com a percepção do homem como ser individual. A palavra “Hércules” significa, originalmente, general de uma tropa. Com o passar dos anos, ao enfim gerar um registro histórico dos feitos de Hércules, temos um único indivíduo realizando feitos grandiosos, quando, na “realidade” (ou melhor, nossa realidade), foram vários. Diante um relato mitológico, nossa tentativa não deve ser de interpretá-lo, mas traduzi-lo. É outra linguagem; contudo, registrou igualmente a “realidade” como fazem nossos atuais historiadores. Isso é importante para entender porque temas como a perda da imortalidade do homem, Eras de Ouro, deuses e herois entre mortais etc, são temas tão recorrentes em diversas mitologias. O homem não perdeu a imortalidade; o dramatis personae sofreu uma metamorfose e virou persona. Os diversos atores que representam os grandes clássicos do teatro morrem; os personagens, não.
Aqui é necessário enfatizar a distinção entre totemismo e “enrolação”. A árvore fala e pronto! Fala tão claro e compreensivelmente quanto outro homem. Não é uma interpretação—aliás, qualquer interpretação é uma distorção—mas uma comunicação baseada numa lógica de padrões determinados, como em qualquer linguagem. Se um índio da tribo Bororo alega conversar com árvores, é totemismo. Se minha vizinha diz o mesmo, é “enrolação”, loucura. Simplesmente porque o índio segue outros sistemas de totens e tabus. Minha vizinha segue o mesmo que o meu. Aqui vale a noção “semelhantes o suficiente para competirem, mas distantes o bastante para não poderem co-existir”. Eu posso coexistir com o Bororo porque ele não compete comigo pelos mesmos recursos. Minha vizinha, sim! E a alegação dela de conversar com árvores é distante demais da minha percepção de realidade. Nosso conflito é inevitável, pois nele reside a liberdade geradora de mudanças, impedindo uma hegemonia ideológica estagnada. A paz com os índios opera com mecanismos semelhantes. Vamos converter os índios Bororos nos animais de Nárnia; a vizinha, nos Telmarinos. Esse é o enredo de As Crônicas de Nárnia—Príncipe Caspian! Antes, outro detalhe: se a FUNAI existe para proteger os Bororos, os Nambiquaras e os Tupi-Cavaiba, não é porque nos tornamos mais bonzinhos e tolerantes. O nosso estilo de vida diferenciou-se drasticamente ao dos índios e não mais competimos pelos mesmos recursos: por isso os protegemos! Por outro lado, a inclusão social daqueles que competem conosco não é nada mais do que o extermínio de suas singularidades culturais para converter no padrão social. Espero ter sido claro sobre a urgência do conflito com um e o pacto de paz com outro.
E mil e trezentos anos passam desde o cumprimento da profecia. Peter, Susan, Edmund e Lucy regressam ao nosso mundo. Durante esse período, em Nárnia, eles se tornam os dois reis e duas rainhas das lendas mitológicas. Entretanto, surge um novo clã, dos Telmarinos, e derrotam os seres mágicos de Nárnia, instaurando o processo civilizador. Poderes simbólicos díspares não podem coexistir. Ou a representação máxima de autoridade jaz na forma de um leão, ou no título e nas vestes de um “rei”. “Rei”, aliás, nestas condições, funciona como complemento do nome. É indissociável. Aliás, os 18 Louis da dinastia Bourbon não significa que o nome original destes era o mesmo. O nome do príncipe podia ser Asdrúbal, mas diante a morte de seu pai, ele assume o nome Louis, como uma vestimenta, e acrescenta X ou XVIII somente por referências históricas. O intuito é a manutenção do continuum, ou ele pode adotar o nome de outro ancestral se visa a restauração de um período mais próspero, assim como se proclamar “Asdrúbal I” inaugurando um período sem precedentes. A linguagem muda, então os animais de Nárnia não podem mais falar. O poder régio reside no rei e nem mesmo Aslam pode ir contra. Sua batalha contra a Feiticeira desenrolou-se no mesmo Weltanschauung (sempre quis usar essa expressão num texto! É como o totem da erudição; o ápice do cult!). Contra os Telmarinos, a situação complica. Aslam tornou-se obsoleto. Você não pode seduzir meus ouvidos tocando noturnos de Chopin se estes estão condicionados às músicas da Xuxa!
O distanciamento da natureza característico do processo civilizador segue conforme dito anteriormente. As “mascaradas” totêmicas exigiam um dispêndio de tempo enorme. Com a proliferação de atividades seguindo a complexidade da estrutura social, a economia temporal foi necessária. A estratificação destas atividades modificou o Todo da Totalidade, logo, instituições intermediárias adquiriam predominância diante a relação direta do “eu” com o “clã”, tais como classes ou grupos sociais. Uma societas é composta por diversas communitas, por isso a tal fórmula Z=q/p jamais resultará em absolutos como Um ou Zero. As leis proibindo o infanticídio, parricídio, matricídio, incesto etc, permitiram a concentração de uma “máscara” (origem do brasão familiar e do sobrenome, uma vez que o objeto—máscara—fora eventualmente substituído por uma palavra—sobrenome) numa residência onde certos indivíduos se aglomeram. Aqui a mitologia é complexa. Como vimos, os relatos são reais, históricos! Ou seja, para nós, esses parricídios eram metáforas ou verdadeiros? Ambos, dependendo da situação. Porém, para eles, não havia distinção…
Obviamente o mundo contemporâneo lembra o totemismo no aspecto de “propriedade”, vide essa, hoje, ser considerada como “física”. Entretanto, preciso enfatizar: não havia diferença entre categorias nas relações de posse! A abstração das palavras estabelece diferenças, no meu caso, entre ter dois olhos, ter um Nintendo Wii e ter a habilidade de desenhar. Ad hoc, é a mesma coisa. Seja para desenhar ou deleitar-me com The Legend of Zelda, preciso de minhas mãos e meus olhos! Fiz um enfoque grande disso para reverter o dilema. Se até então falamos que ter é ser, então ser é ter! O poder de um rei, apesar da coroa, é metafísico, abstrato. A coroa somente garante a legitimidade do ser rei. Para não empacarmos na eterna “enrolação” do “Tudo é Nada” e “Nada é Tudo”, é preciso definir o que é ser e o que não é! Eis a complexidade do conflito em Nárnia 2! É Xuxa contra Chopin!
Atualmente, alegamos sentenças totêmicas como “comer peixe deixa a pessoa mais inteligente” e “comer cenoura faz bem aos olhos”! Embora existam óbvias necessidades fisiológicas, muito do “comer” é simbólico (ver Cru e Cozido, do Lévi-Strauss, quem quiser). O canibalismo, exceto em casos extremos—e isolados—de desespero fisiológico, é ritualístico. É tabu porque implica numa espécie de suicídio, uma vez que aniquilo o semelhante, aquele que poderia ser “eu”. É totem porque significa a posse das características do vencido, como uma prestação de homenagem. Claro, o inimigo sempre é honroso—quando já derrotado! Do contrário, como celebrar uma vitória se o inimigo sequer tinha valor? Aliás, a distorção inicial gera os círculos viciosos do totem e do tabu. O círculo vicioso precisa de uma consequência a priori para gerar a causa a posteriori! Davi é relatado como mais fraco do que deveras era; Golias, mais forte do que a realidade. Isso funcionou para a Feiticeira Branca, Aslam, Caspian e Miraz!
A alimentação simboliza a posse de certas características, seja das proteínas e dos carboidratos nas revistas Dietas Já do mundo atual, seja da “força” do inimigo vencido na antropofagia. A definição do ser separa o comestível do não-comestível. Nem preciso falar como esse vocábulo, na língua portuguesa, adquire conotações de posse sexuais, certo? A expressão “comer” empregada ao ato fálico também existe em outros idiomas como espanhol, inglês e francês, mas raramente são utilizadas. Seria herança de nossos índios?
Se os animais em Nárnia voltam a falar—e em inglês—eles se tornam tão humanos quanto os Telmarinos e comê-los converte-se em canibalismo! É uma mudança de realidade estrondosa!
A vaca é sagrada aos hindus precisamente por ser a sacrificada nos rituais de agricultura e pastoragem! As rezas em famílias religiosas antes de jantar derivam de rituais homenageando os animais: as entidades totêmicas que providenciam os alimentos! Vou além! A tendência vegetariana do mundo contemporâneo é oriunda da expansão da noção de ser, da humanização estendida aos animais! O processo civilizador inicial não apenas separou o homem dos demais animais, mas entre si. Outros homens eram tão animais quanto uma zebra (daí a persistência da crença em lobisomens, centauros etc). Eventualmente, a assertiva do que é ser encobriu todos os homens, porém hierarquizando-os. Essas noções permitiam a escravidão. Naturalmente, com a noção do ser abrangendo animais, ser vegetariano é resultado previsível. Isso está em jogo em Nárnia!
Elevar um leão, outrora um bicho de zoológico, ao altar de um deus não é pouca coisa! Convidar um boi, ao invés de comê-lo, pra jantar é mudança radical! Chamar a polícia para denunciar um rato por invasão de propriedade privada é bem diferente de sacar a vassoura e esmagá-lo! Um gato cortejador elogiando uma gata de gata é redundante? O desencantamento do mundo iniciado pelos Telmarinos retirou a humanidade destes seres e Nárnia, agora, vive sob um regime monárquico.
O Rei Caspian IX é assassinado por seu irmão Miraz. O legítimo herdeiro do trono é Dorian Gray, digo, Caspian X. Não obstante, Miraz almeja apoderar-se do trono e sua mulher dá a luz a um menino. Ele agora possui um herdeiro e pode reclamar uma renovação dinástica legítima. Infelizmente para Miraz, o pior cenário que ele poderia vislumbrar é uma guerra. O conflito bélico contra uma ameaça externa tende a apaziguar tensões sociais internas. Contudo, ele não é querido entre seus conselheiros e a usurpação do trono é gritante. Tão gritante que sua legitimidade como rei é duvidosa e ele opta pelo conflito como válvula de escape das atenções, esperando adquirir o direito régio com a vitória. A faca é de dois gumes. Por um lado, é solução imediata pra aglomerar o dissipado. Noutro, ele não possui poder simbólico forte o bastante para que seus súditos lutem “em seu nome”.
Dorian Gray, digo, príncipe Caspian consegue escapar do atentado contra sua vida. É capturado pelos animais falantes de Nárnia: os originais Narnians. Uma luva! Benção! Não poderia ser melhor! Caspian tem a legitimidade do trono, mas falta-lhe o poder bélico de Miraz. Qualquer lado beligerante de uma guerra pode ser interpretado como destrutivo ou institucional com belos objetivos conciliadores. A legitimidade de Caspian lhe dá tal vantagem contra Miraz e, graças aos Narnians, ele agora possui um exército! Adiante, um guaxinim lhe entrega um objeto—o lendário trombone de Susan. O assobio “suga” até Nárnia os 4 monarcas mitológicos! Apesar da superioridade bélica de Miraz, é fácil concluir sua nítida desvantagem. O mito é um denominador comum entre os Telmarinos e os Narnians, sobretudo, representa justiça, bondade e esplendor dos tempos áureos. Com o mito do seu lado, Caspian brada por toda Nárnia graças ao denominador comum; Miraz, por um segmento. De um lado, a violência em nome da paz. Noutro, a mera chacina vaidosa. O ideal em si pouco importa, mas a consciência deste surte efeitos em ambos lados! Talvez Golias fora somente mais forte que Davi num quesito, contudo, no geral, a superioridade de Davi era nítida desde o princípio, não? O mito em comum unifica o Weltanschauung entre Narnians e Telmarinos. Com isso, o totem e o tabu. Não é possível derrubá-los…
Saliento outra vez o poder do mito. Em certa tribo Onde-Judas-Perdeu-As-Botas, acreditava-se que o chefe era capaz de matar um súdito rebelde somente pela palavra. Ou seja, bastava o chefe anunciar “você me traiu e morrerá” para o súdito morrer. Na prática, quando o chefe pronunciava a sentença de morte, o condenado tornava-se “impuro”. Com isso, toda a tribo, inclusive parentes, temiam contato com o infeliz. Expulso de casa e impedido de trabalhar, o condenado obviamente morria de fome, sede ou doença. Para nós, trata-se de uma sinapse cerebral evidente. Para eles, não. A causa mortis é a palavra do chefe! É o poder do totem! E Miraz lutará contra isso! Quais suas chances? Uma! A entidade mitológica mor, Aslam, ainda não renasceu!
Edmund não é mais emo. Lucy ficou menos dentuça. Peter não se conforma por ter deixado de ser “o magnífico”. Susan “embarangou” desde o primeiro filme, mas se acha bonita e se faz de difícil aos meninos. A beleza de Helena de Tróia sempre decepcionará porque o mito transcende o possível (Páris e Helena renascem em O Fausto, de Goethe. Os homens conseguem observar defeitos em Páris; as mulheres, na Helena). Tal é a reação de Caspian diante os 4 herois mitológicos—e a disputa de ego entre ele e Peter quase eclode!
Paira a dúvida por que Aslam abandonou Nárnia com a rápida resposta de Lucy: talvez Nárnia o tenha abandonado antes. E ela está certa. Sem ele, o mito é incompleto e isso confere uma chance às tropas Miraz! Uma derrota inicial leva Caspian e os 4 monarcas mitológicos ao desespero.
Ele e Peter são seduzidos pelo poder da Feiticeira Branca, que clama sua liberdade em troca da vitória. Edmund quebra o gelo que a aprisiona e faz bem! A Feiticeira Branca remitiria não ao passado glorioso, mas ao das trevas. Apesar de seu poder, o mal provocado seria maior!
Esta é minha cena favorita do filme! Circundam adjacentes da Feiticeira certas entidades totêmicas representantes do que ambicionei desnudar em Helena de Tróia. Ela não é uma mulher bonita. É a Beleza! Porventura, em forma de mulher. No caso, as personificações da “Morte” e do “Ódio”. Emoções e adjetivos transfigurados em seres antropomórficos! O subjetivo traduzido em objeto!
“Eu sou a fome. Eu sou a sede. Posso jejuar por mais de cem anos e não morrer”.
“O que você odeia, nós odiamos ainda mais”.
Não obstante, a Feiticeira desempenha uma função de suma importância. Se ela foi capaz de readquirir existência, então Aslam também pode! Lucy, a mais crente de seu poder totêmico, vai buscá-lo! Para ganhar tempo, Caspian faz sua única participação útil no filme ao sugerir, “Miraz pode ser rei, mas nem mesmo um rei pode transgredir as tradições de seu povo”. É tautológico dizer que ele está correto?
Miraz é delicadamente forçado a aceitar o desafio. É intrigante o fato de seu adversário ser Peter ao invés de Caspian. Não é o último quem reivindica o trono? Ele inclusive aparenta ser fisicamente mais forte! Ah, deveras, seu poder simbólico é bem mais fraco em relação ao do magnífico rei mitológico. Por mais altruísta que alguém possa ser, a necessidade de garantir a própria existência gera uma parcialidade maniqueísta. O “bom para todos” não existe, mas se me julgo bondoso, faço “o melhor possível” e nisto implica vantagens pessoais. Se me julgo maldoso, tenho motivos para sê-lo e, dependendo do grau de intimidade de quem me conhece, posso até ser redimido!
Miraz e Caspian não podem escapar destes julgamentos por viverem a realidade presente. Peter adquire, aos olhos alheios, o caráter da imparcialidade graças à sua condição atemporal. Enquanto somente “ação”, ainda por cima em nome de algo tão abstrato e abrangente como “for Narnia”, ele é emblema da justiça. Pobre Miraz! Não luta somente contra um rapaz mais jovem e ágil, mas contra a lenda denominada “o magnífico” e emblemática da justiça! Não há como vencer!
Lucy encontra Aslam. O leão, em tom de Heráclito, diz que duas coisas nunca acontecem do mesmo jeito. O Deus-Leão renasce! O Todo-Poderoso! Ele é Todo-Poderoso porque todos lhe obedecem! Esse poder imenso não é próprio, mas da obediência que ele gera, conferindo posse sobre os elementos. Uai! Ser e Ter não são a mesma coisa? Então ele é Todo-Poderoso, sim! O único “porém” é sua dependência da crença para ser Todo-Poderoso…
A situação “fica preta” aos Telmarinos! As árvores resolvem lutar! Em todos os filmes com árvores guerreiras, elas sempre causam um estrago desproporcional! O rio também serve Aslam e luta! Dá pra enfrentar um rio?
A força de Aslam não é própria; deriva da capacidade de fazer com que tudo lute em seu nome! Como totem máximo, é indestrutível. Por esses motivos, reafirmo: não importa o que ou quem seja, se o presidente dos Estados Unidos ou a Rede Globo. Nada pode ir contra o totem e o tabu! Tudo luta em nome de Aslam. E Aslam em nome de Caspian…
Esse filme é espetacular por gritar isso tão explicitamente! Numa última análise entre os dois antagonistas, veremos: Caspian nada fez, praticamente não lutou, mas com o poder simbólico da lenda, do mito, dos herois mitológicos e da entidade mor do seu lado, venceu! Sequer é necessário lutar quando lutam por você! Miraz esforçou-se ao máximo, fez tudo ao seu alcance. Calculou, manipulou, liderou exércitos. Combateu pessoalmente, elaborou artimanhas e golpes de Estado. Faltou-lhe o totem. Por isso perdeu.
E eu, que ao assistir o trailer do primeiro filme no cinema, julguei como pura chatice por detestar enredos com crianças prodígios etc, fui tragado ao mundo de Nárnia ao me deparar com o jogo do Nintendo Wii à venda por somente 10 dólares! É o poder do totem!