Eu odeio o orkut

Eu odeio o Orkut

Direção: Rodrigo Castelhano e Evandro Berlesi

Gênero: Comédia

Brasil – 2011

Agora é oficial! Vamos falar sobre o filme ou seria sobre o orkut? Quem é que nos anos 2004/2005 acessava o site e não dava de cara com a mensagem tosca “Bad,bad server. No donut for you”? Ah! Isso era de dar ódio mesmo…

Bom, nós, Moiras, já passamos por poucas e boas nesse site “em manutenção”, tanto é que a Morgue pendurou as chuteiras e deletou a sua conta, mas Deusa Circe e Vampira Olímpia estão na ativa, mais toscas do que nunca, porque agora que o facebook tomou conta do pedaço, só os/as guerreiros/as ficaram no orkut. É necessário ser subversiva/o para estar no “mundo orkutiano”; que é um local “abrasileirado” de resistência perante a colonização!!!

E daí que a história do filme surge… pois, de cara aparece uma clínica psiquiátrica para viciados em orkut. Haja resistência!

CREDO (Clínica de reabilitação e dependência orkutiana) tem um jeito estranho de tratar seus pacientes: quase tudo liberado, menos o computador e a internet. Logo na atualidade com a onda wi-fi??? Sistema medieval, certamente. O quarto onde os hóspedes ficam hospedados tem as paredes rabiscadas toscamente. O mais escroto é que a letra das pichações é a mesma (o que não tem cara de “cadeia” de jeito nenhum) e para cada frase babaca tem uma cena porcaria fazendo semblante à ela. Como exemplo: cena em que os internos se descobrem viciados, a filmagem mostra a frase: “Bill Gates merece morrer”. Coisas assim…

Aliás, Steve Jobs morreu… e pra não perder a piada infame, foi porque ele mordeu a maçã! :P

Enfim, voltando ao kokut… quem é que não apelidou o orkut de merkut, kôkut, fuckut? Nós moiras já e como! É algo assim: “se é meu parente posso falar mal, mas ai de quem de fora falar um pio do desgraçado”. Vai entender… coisas que “as estruturas elementares do parentesco” explica(m).

No CREDO estão os dois personagens principais: Jader e o Escritor. Jader tem uma vida medonha e o Escritor… adivinhem? Escreve sobre isso. Acontece que a vidinha de Jader era pra lá de sem graça antes dele ter fuckut, depois que ele cria sua conta sua vida aumenta consideravelmente o nível de download: arruma amigos, conhece uma garota, começa a namorar, entra em centenas de comunidades, enfim, sua vida virtual é mais agitada que a real (esse é o mal de quem não sabe desligar o computador). Porém, ele decide trazer pro real sua vida virtual, até mesmo os fakes que criou para fazer ciúme em sua parceira. Vira uma bagunça, ele termina com todas, ou todas terminam com ele.

Culmina numa desesperada vontade de se suicidar, aí é que ele cai no CREDO… Enquanto isso, o Escritor come a revisora de texto da editora que decide publicar a obra. Ele come tudo, as letras, as piadas, o glossário, a revisora…

FUCKUT TOTAL!

Mas, é engraçado! Dá pra rir bastante, até porque as piadas brasileiras são íntimas do orkut e vice-versa e pra quem tem conta por lá sabe dos diversos perrengues do mundo azul. Aquelas figurinhas “Amar é” servem de metáfora para “Orkut é…”, ou seja, tem milhões de respostas cafonas para essa pergunta.

O que o filme diz é que orkut vicia e que sem orkut não tem internet que sobreviva. Bom, talvez isso seja uma verdade para muitas pessoas, mas pra nós não é, então o filme não foi lá grandes coisas. Valeu o momento-Moiras (3), que é sempre maravilhoso e que deu pra matar saudades de muitas aventuras orkutianas…

Por: Moiras.

Nocturne

Nocturne

Direção: Lars von Trier

Gênero: Drama, Curta

Dinamarca – 1980

A escuridão está irada e os olhos já não aguentam a claridade da luz, que ilumina os medos da personagem. Alguém a encoraja por telefone, talvez ela mesma, uma vez que fabricou o ambiente, a janela estraçalhada e os pássaros voando.

Afinal, os pássaros são seres muito inteligentes. Quando o tempo muda, eles voam para o Sul…

Enfim, Lars von Trier.

p.s. vi que tem no youtube, só não sei se está legendado.

p.s.2. Essa postagem é mais uma da série: Moiras estamos sem tempo.

Por: Guerra de Pipoca.

Padre

Padre – Priest

Direção: Scott Charles Stewart

Gênero: Faroeste Vampiresco (WTF?)

EUA – 2011

Stewart matou a aula de artes quando estava tentando ser cineasta. Matou as aulas de literatura enquanto estava no colegial e nisso perdeu a chance de ouvir falar em poesia…  Quando Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa) nos leva a pensar, por meio do Poema V, que as coisas são o que são e seus devidos valores devem ser atribuídos enquanto seres que são sendo,  fico aqui a pensar que o mistério da palavra não é alcançado por todos. É uma pena, sem dúvidas.

Uma árvore tem a propriedade de ser qualquer coisa na metáfora, mas se no real das coisas ela deixar de ter as propriedades que lhe garantem o próprio conceito de árvore, simplesmente deixa de ser uma árvore. O mesmo vale para qualquer coisa. Uma flor não pode ter no real uma propriedade de um lápis, senão deixa de ser flor e passa a ser lápis. Um sapato não será um ovni de gnomos! Nem um papel será um tapete de elfos! Papel é papel e tapete de elfos é tapete de elfos!

Na arte, no entanto, um tapete de elfo pode facilmente ser um ovni de gnomos, e o melhor: sem sentir angústia de ser outra coisa que não o que se é.  (fui obrigada a fazer  uma analogia com a máxima sartreana de que o homem é condenado a ser livre e a obrigação de ser livre é a geradora e causadora da angústia, para este filósofo).

Padre, por sua vez, só pode ser um padre. Diz Caeiro que se Deus é uma árvore, uma flor, o Sol, por que deveríamos chamá-lo de Deus ao invés de árvore, flor, Sol, luar…? Enfim, Padre é padre e está condenado a sê-lo, ainda que seja livre para ser padre. Ainda que a existência seja definida primordialmente pelo não-ser.  Isto é, Padre (o filme) não pode ser padre na medida em que se subverte em metáforas e se torna um assassino de vampiros, contrariando a máxima de “não matar”. Ademais, vamos falar mais rasgado? WTF!!!!! Já vi de tudo neste mundo, mas faroeste vampírico protagonizado por um padre é novidade. Sigamos a lógica: padre é padre, faroeste é faroeste, vampiro é vampiro.

Certo?

Misturar tudo deu numa sopa tão bizarra e desarmônica que a própria Vampinha dispensou a  ideia de escrever sobre o filme, deixou pra mim. E na boa? Não dou conta do recado… porque pra mim, se vampiro é vampiro, se padre é padre e se faroeste é faroeste, então esse filme (adaptação de uma história em quadrinhos e jogo sul-coreano) é dos mais estranhos…

Por: Guerra de Pipoca.

 

Na Trilha do Assassino

Na Trilha do Assassino – Tenderness

Direção: John Polson

Gênero: Suspense Dramático

EUA – 2011

Já dizia o sábio ditado: “quem não aguenta bebe leite”. Traduzindo pro português do cinema: quem não sabe fazer filme, preciso continuar?

 

Dizem as más línguas midiáticas, e dessa vez só posso pensar que são más mesmo, que este era um filme que prometia. Assustada aqui com tanta promessa. Prometeu tanto que se esqueceu de cumprir em qualidade, consistência, enredo… e por falar nisto, a narrativa…

Eric é um estuprador serial killer menor de idade. É condenado a ficar no reformatório até completar 18 anos. Ou seja, um trombadinha psicopata que tem a seu favor o benefício da idade. Lori é uma desequilibrada que não sabe se é virgem por ter sido molestada pelos padrastos que sua mãe lhe arrumou no curto período de 16  longos anos. Eric sai do reformatório com o detetive Cristofouro (não tinha nome melhor, não?) em seu pé, pois este considera inevitável que aquele volte a matar. Lori, por sua vez, o aguarda para viver um romance… para tudo! Rebobinemos a fita. Lembram-se daquela discussão sobre “mulheres idiotas que se apaixonam por maníacos do parque”? Ok! Este filme é sobre elas… e eles…

Lori diz amar Eric… uia! E Eric se vê entre a cruz e a espada: matá-la ou não, eis a questão. Enquanto isso, no reino de Hollywood sabor mentolado, Cristofouro, que derrete-se na melancolia de ver sua esposa vegetar no hospital, não tem mais nada pra fazer a não ser perseguir o recém-liberto trombadinha.

Lori, combinemos, é uma garota suicida! Alguém pensa o contrário? Alguém pensa que essas mulheres idiotas e masocas que decidem pelo casamento com assassinos em série são algo além de suicidas?

Pois muito bem…

Em resumo, o longa se justifica com a seguinte fala de Cristofouro (Russell Crowe):

“Minha esposa costumava dizer que existem dois tipos de pessoas. Aquelas que buscam o prazer e aquelas que fogem da dor. Se você me perguntar, ninguém pode escapar de sua dor. (…) O que realmente sei é isso: o prazer te ajuda a esquecer, mas a dor te obriga a ter esperança. Você diz a si mesmo ‘isso não vai durar para sempre’”.

O filme é um ciclo sintomático de pessoas que se atraem em seus sintomas: o garoto que faz sofrer, a garota que ama sofrer e o detetive que quer provar a tese de sua esposa de que só existem dois tipos de pessoas no mundo…

Um martírio! O filme não passa de um martírio. Até mesmo o psicopata, que se supõe isento de sofrimentos, sofre. :o

Talvez o filme agrade aqueles que gozam com entretenimentos de má qualidade, dramáticos e sofríveis. Pois, contrariando a esposa do detetive, há tipos e tipos de pessoas…

Por: Guerra de Pipoca.

Sobre Alice…

 

(Feita por mim do livro: Alice no País das Maravilhas)

Alice no País das Maravilhas  de Tim Burton – EUA / 2010

Por um motivo muito simples gosto bastante desta obra: toda a jornada de Alice é para conhecer aquilo que é desconhecido. Nada mais psicanalítico do que isto. Aliás, Alice é um incentivo para qualquer área desde que seja do saber ainda não sabido. Creio que pesquisadores, etnógrafos, analistas e até mesmo curiosos perguntadores sobre “por que o céu é azul” tem um pouco ou muito do “sangue” desta menina de belos cachos dourados. Não me resta dúvida: saber é um verbo que atinge o imaginário do país das maravilhas. Não importa se a dúvida é sobre “por que somos assim?” ou “por que Urano está tão longe do Sol?”, posto que – no fundo e no raso – qualquer pergunta que se faça é uma busca de sanar o  desconhecido de nós mesmos. “O que somos nós? Quem somos nós? Pra onde vamos nós?” –  O que Alice faz senão isto? Portanto, é uma obra literária que recomendo por, também, ser ancorada na fantasia. Aquilo que não damos conta de resolver, fantasiamos. Não esta fantasia consciente e que é dita de maneira racional, me refiro à fantasia inconsciente. Esta que não é conhecida… Ou seja, fantasiamos o tempo todo, ainda que não “saibamos” sobre isso.

A minha relutância em assistir a este filme diz respeito à repetição nos cinemas desta obra tão cara. Ora, se o assunto diz respeito ao desconhecido, por que repeti-la tantas vezes sob diversas máscaras a ponto de perder sua graça? Ou seja, a obra já está tão conhecida que a mensagem sobre buscar o desconhecido perdeu um pouco de seu valor no cinema. Será que não há mais nenhuma história de fantasia desconhecida que não possa ser retratada na telona? Só há a Alice? Tão limitante e limitado restringir a fantasia a apenas Alice no País das Maravilhas. Tendo a pensar que nós, seres humanos, estamos muito empobrecidos de criatividade…

Portanto, depois de um ano de seu lançamento, só agora que me dispus a assisti-lo. Espero que nenhum outro diretor tenha a falta de imaginação de por Alice mais uma vez nos cinemas. Já deu. Não há mais o que sugar desta obra. De maneira que imagino que esta Alice já se esgotou em possibilidades de mostrar sobre o desconhecido. Já se tornou conhecida demais e sob formas das mais variadas.

Falar deste filme, por conseguinte, é esmiuçar a pobreza da falta de criatividade desses diretores do Cinema. Deixo pra lá por respeito à obra literária, que é linda e instigante; e, sobretudo, não precisou ser feita em 3D para conquistar o mundo. Ao contrário, é uma trama muito simples.

Pra que complicá-la?

Por: Guerra de Pipoca.

Boas Festas, Feliz Aniversário, Feliz Ano Novo…

Mais um ano chegando ao fim… eu não vou ficar aqui desejando as mil maravilhas que escutamos quando se aproxima do Natal, porque acho tudo isso CAFOOOONNAAAAAAAAAAA!!!! rsrsrs

Que venha 2011!!! Um ano ímpar! E que seja ímpar para todos nós, sem igual, incomparável! Repleto de momentos gostosos, deliciosos, apoteóticos, orgásmicos, emocionantes! :)

Aproveito para deixar expresso os melhores desejos do mundo pelo aniversário de nossa Quelzita, que é dia 31.12. E parabéns para Tininha e Fernando, também, por seus aniversários, que não sei exatamente quando são… rsrsrs Mas tudo é festa e todo dia é dia de comemorar e brindar à vida!

Felicidades para todos nós, membros deste blog inadequado para sociedade comum!!!

:D

Por: Guerra de Pipoca.

2 anos de Guerra de Pipoca!!!

Enfim, se fechamos o ciclo de mais um ano, então, que venha mais! Somos gulosos!

:D

Parabéns para nós!

Beijos,

Guerra de Pipoca.

Harry Potter – As Relíquias da Morte Parte I

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Harry Potter and the Deathly Hallows – Part I

Direção: David Yates

Gênero: Fantasia, Suspense

EUA – 2010

Quando nos tornamos adolescentes e posteriormente adultos, nossas aventuras se tornam mais solitárias; é inevitável. Toda a magia da infância de estar recheado(a) de amiguinhos, brincadeiras e diversões cede lugar para responsabilidades outrora jamais vistas e sentidas. Claro que alguns de nossos amigos se tornam mais especiais do que outros e, de maneira rara, trilham conosco. É tentador puxar a prosa para o aspecto solitário de ser adulto, mas – após conversar longamente com Vamp e Circe sobre o assunto – decidi permanecer no roteiro do filme, embora visite essa ideia à distância, uma vez que Harry Potter agora cresceu e tem a dura responsabilidade de achar as horcruxes e matar Voldemort. Não é uma responsabilidade fácil e muito menos para ser cumprida por um garoto de 17 anos, ainda mais porque Dumbledore está morto, mas como é o único a permanecer vivo sob ataque do Mestre do Mal, então, é o único que conseguirá matá-lo, por lógica medieval. Será?

Sabemos antes de vermos o filme que será lançado em 2011 que sim, mas vamos fingir que não sabemos? Em “As Relíquias da Morte – Parte I”, Harry Potter se une ao Rony e Hermione para preencher o quebra-cabeça proposto anteriormente por Dumbledore. Cada horcrux que Voldemort criou para garantir sua imortalidade precisa ser encontrada e Harry só tem conhecimento de 2. Acontece que Dumbledore, sábio como tem que ser, deixa herança para os três em seu testamento. Com tais presentes é mais fácil achar uma luz no fim do túnel. Lumus Maximum!

Finalizo por aqui a curta sinopse sobre o filme, seria injusto prosseguir com ela já que não sei se este filme já foi visto por todos do blog. No entanto, quero seguir com minhas impressões pessoais sobre a obra e tomarei o cuidado de não liberar “spoiler”, os que detonam com a graça, obviamente.

Impressiona a qualidade do filme, muito bem feito – como de costume. Dessa vez usaram a dinâmica da “escuridão” para conferir tensão à narrativa, além de garantir uma nuvem negra e melancólica sobre os conflitos existenciais de nossos jovens bruxinhos. Em contrapartida a tal tom, o longa está mais elaborado em termos de recursos especiais e tecnológicos, além de que salta aos olhos a diferença entre os cenários: nos filmes anteriores, as ações ocorrem na escola de magia (Hogwarts ) e neste, as ações se dão em florestas, montanhas, tudo muito solitário e sombrio. Não nego que senti falta de ver a escola, mas concordo que ela não tem a mesma graça sem Dumbledore. Ele lembra aquele(a) antigo(a) e inesquecível professor(a) que um dia fez parte de nossas vidas escolares…

Não gostei da ideia roubada de “O Senhor dos Anéis”: de conferir poder negativo à horcrux – colar. Levando-se em conta que Tolkien escreveu antes de Rowling, me dou o direito de pensar que foi uma “cópia”, ainda que sofisticada, de algo consagrado com Frodo e Gandalf e não, Potter e Dumbledore. Mas, pode ser que para muitos não aparente desta forma, repito: opinião particular sustentada por impressões completamente subjetivas.  No entanto, não me convenceu as mudanças de humor repentinas de quem levava o colar no pescoço.

Dobby é uma gracinha de elfo e neste longa está fofíssimo, mas também não gostei das semelhanças dele com Gollum. A questão da mestria: de colocar Harry Potter no lugar de seu mestre forçou uma analogia com a mestria de Frodo. Contudo, Dobby não tem nem um terço da esquisitice de Gollum, o que o salva em carisma. È possível que os espectadores tenham saído do cinema bem mais solidários com esse mundo de bizarros seres. “Harry Potter”! Sem dúvida: os tênis de Dobby roubaram a cena. rss

No mais, feliz que tenham dado à Hermione o valor que ela merece por sua intelectualidade e brilhantismo enquanto bruxa. Até então pintaram sua personalidade como uma garota chatíssima e agora, a maturidade – ainda que parcial – a ajudou a por seu sintoma em seu favor. Rony está enorme, mas continua aquele menino de sempre, com pouco mais de coragem e firmeza, no entanto. Menos no que se refere “beijar a noiva”. Quando é que ele vai beijar Hermione, afinal? Santa lerdeza, Batman! Harry… bom, melhor ir ao cinema assisti-lo, não?

Ah! Não posso deixar de falar da entrada da casa de Lucius Malfoy. Lindo! Nuvens negras, tom nublado, aspecto medieval de quem pisoteia na masmorra…

Por: Morgana.

Karate Kid

Versão 1984

Karate Kid

Direção: Harald Zwart

Gênero: Ação

EUA – 2010

Em 1984, John Alvidsen fez um filme em que contava a história de um rapaz adolescente que se mudou com a mãe para Califórnia e sofreu, após se aproximar de uma garota, os tormentos ocasionados por “bullying”. O ex-namorado dela e sua gangue de karatecas apavoravam a vida de Daniel quando Senhor Miyagi decidiu não apenas ensiná-lo a lutar, mas também – através das artes marciais – valores importantes para sua vida.  Valores que exploram a questão: por que, afinal, lutar?

Vale dizer que o período geopolítico da época era delicado, a China fazia parte do “bloco Socialista” junto com antiga URSS e Cuba, sendo que no decorrer do século XIX sofreu dura exploração econômica por parte das nações europeias e EUA. A reação veio em 1912 quando foi proclamada a República e a partir de então, o jovem Mao Tse-tung uniu forças para fundar o que seria o Partido Comunista Chinês. Quem apanha não esquece, isso Daniel sabe. Pode ser que quem bata esqueça, o que é bem provável. Acontece que a China está no lugar de quem apanhou. Esta época dos anos 80 foi marcada por um começo sutil de abertura comercial, porém, marcada também pela queda do Muro de Berlim e Guerra Fria.

Difícil ignorar essa relação histórica com um filme tão “inocente”. A verdade é que por mais que seja “indiferente” aos olhos de muitos, as artes são marcadas pelos períodos sócio-culturais em que “(sobre)vivem”. Verdade esta que é impossível atropelar. Daniel, na arte, atropelou os fatos e lutou melhor do que lutadores de karatê. Tudo bem, todos eles eram americanos.

Versão 2010

“Sem fraqueza, sem dor, sem piedade”

Acontece que este “Karate Kid” versão 2010 feito por Harald Zwart, Dre (nova versão de Daniel) é um afro-descendente americano que se mudou para China com sua mãe, sofre na escola pelos mesmos problemas que Daniel, com um ‘porém’: os perseguidores são chineses e não americanos como na primeira versão e lutam Kung Fu e não Karatê, como sugere o nome do filme. Além do mais, Dre tem 12 anos, ainda é um “pré-adolescente”. Interessante. Negro (politicamente) “imaturo” que consegue driblar os chineses…

Enfim…

Bom, a garota que Dre gosta é até engraçada; à exceção daquele vestido verde que ela usou na comemoração chinesa do dia dos namorados… nada contra o vestido, o problema é que nela não ficou bom. A mãe dele faz o mesmo semblante que a mãe de Daniel: de nada sabe e de nada se interessa saber. Quanto mais sorvete toma, melhor.

Jackie Chan é o mestre Han. Bem que quis imitar alguns trejeitos do Senhor Miyagi, mas o original é quase impossível de ser imitado sem que soe falso. Talvez apenas Mestre Yoda consiga imitá-lo, ninguém mais e vice-versa.

O filme não é uma cópia idêntica do original, sofreu modificações até mesmo em como aprendeu a lutar. Agora de pintor de paredes e lavador de carros, o novo herói tira e põe a sua jaqueta. Um pouco mais fútil, porém, mais criativo. Quem iria imaginar que tirar e por um casaco ensinaria tanto a ponto de vencer um torneio de kung fu?

Karate Kid marcou época, criou clichês e frases feitas. Por conseguinte, recomendo inicialmente o original, de 1984.

Por: Guerra de Pipoca.

O Império das Raves

Documentário feito e produzido por Raves ponto com ponto br.

Já fui muito em raves e trances, sobretudo, no tempo em que estas estavam saindo (ou entrando) da marginalização citada no documentário. Estas festas são fenômenos com caráter de atitude, não devem ser vistas com juízo de valor do “melhor ou pior” tão característico das classificações que estamos acostumados. No entanto, essa característica é refletida no fenômeno enquanto atitude. Paradoxal, certamente.

Com a fetichização da diferença, que assenta na ideia de que, para reparar uma desigualdade, convém valorizar uma diferença em relação a outra diferença, todo mundo quer ter seu espaço no solo do individualismo. Isto é, se todos querem, logo, deixou de ter um caráter plenamente individual. Outro paradoxo, sem dúvida.

Acontece que, se é errôneo valorizar o universalismo em nome da recusa da diferença, então, é errôneo tanto quanto rejeitar o universalismo em nome da arbitrariedade da diferença.

Roudinesco, historiadora e psicanalista francesa, há muito já evocava aos quatro ventos o quanto o sujeito tem vivido num tempo em que as manifestações repousam em máscaras diversas. Assim, as expressões se tornam isoladas, exageradas indo de encontro aos limites. De acordo com ela, “a violência da calmaria, às vezes, é mais temível do que a travessia das tempestades”. (Seria o que chamamos de “Tempo Emo”?). Nas festas raves, percebe-se excesso de euforia, de “amizade”, de sociabilidade que destrói as diferenças, as classes, os problemas, todo mundo “é” igual momentaneamente. Todos querem exorcizar suas “infelicidades” festejando a céu aberto.

A questão duvidosa é quando o exorcismo se dá pela via da droga ilícita. Será que ocasiona mesmo um “exorcismo” das “infelicidades” e infortúnios? Não quero generalizar, em absoluto, pois sei que muitos vão nestas festas para outros “etc e afins”. Mas, fico tentada a continuar pensando o que tantos corpos dançantes nos dizem neste ambiente festivo e isolado do urbanismo, porém repleto de urbanização. Eles não dizem apenas que festejam ao dilúvio  da existência, mas dizem também que desaba-fam…

Por: Guerra de Pipoca.

O Rito

O Rito – Ritten

Direção: Ingmar Bergman

Gênero: Drama

Suécia – 1969

Decidi dividir o assunto deste filme em duas resenhas. A primeira, falarei sobre o filme sob a perspectiva da arte, resgatando pertinentes características do cinema de Bergman. A segunda, que não sei exatamente quando estará escrita para apreciação de vocês, pretendo isolar a última cena, o ato final, e pensar sobre os ritos totêmicos e religiosos a partir desse exemplo dado no filme. Será, portanto, uma escrita de livre interpretação com o suporte investigativo-psicanalítico.

Sabemos que Bergman foi quem inaugurou, por assim dizer, o que chamamos de “cinema Cult”; um cinema que se pretende profundo. Não é inédito em arte cinematográfica, não se utiliza de técnicas surpreendentes, mas é inédito em colocar a Filosofia Existencialista e a Psicanálise em pauta. Sim, ele era um grande estudioso do assunto. Não se interessou em ser filósofo e muito menos, psicanalista, no entanto. Mas quis diferenciar sua arte, que é o que ele verdadeiramente sabia fazer, com conteúdos filosóficos. Não era pretensioso, se sabia no lugar de artista, porém, suas obras vão além da proposta de entretenimento. E isso é proposital! Nada em seu cinema sobra. Eu o admiro muito, exatamente por ter dado conta de tornar a arte cinematográfica um canal possível de se pensar a existência, e até mesmo se emocionar com a Metafísica.

Aqui poderemos pensar na importância do entretenimento e do Cinema Cult. Claro que a arte dá espaço pra ambos, embora cinema seja entretenimento. É preciso tomar muito cuidado em proporcionar um momento artístico que traga na pele e no osso algo profundo e filosófico sem que caia nas armadilhas do discurso vazio. Vemos isso na maioria dos filmes. Cinema pretensioso, arrogante, boçal e que não diz nada com nada além de ser muito chato! Porém, o “Cult” de Bergman é realmente diferenciado, tem substancialmente suporte para tal.

Suporte que se dá de maneira bem anterior à obra, pois Bergman é um diretor que trabalhou com uma trupe de atores fixos que funcionava como uma companhia de teatro. Ou seja, os atores de seus filmes são sempre os mesmos, é uma equipe. E que equipe… Grandes nomes como Ingrid Bergman, Liv Ullmann, Gunnar Bjornstrand, Ingrid Thulin, Erik Hell etc.

Este filme O Rito, produzido em 1969, faz parte da fase experimental do diretor. Não é um de seus filmes mais conhecidos e divulgados, mas faz parte de uma época em que Bergman se encontrava bastante inspirado. Época em que foi lançado a Trilogia do Silêncio. São eles: Através de um Espelho, Luz de Inverno e O Silêncio. Em algum momento pretendo falar sobre estas obras, também. (Já deixo a dica para quem quiser saber mais desse diretor).

O Rito é um filme em formato de peça teatral de difícil compreensão, onde as falas são sumariamente importantes e que denunciam a perturbação dos personagens e do ambiente. Inclusive, o ambiente é claustrofóbico, pois o foco narrativo enquadra os personagens e não o cenário. Personagens de perfil, de frente, deitado, em pé, sentado etc, essas são as variáveis. O grande lance é que o espectador não se sente sufocado, mas se torna atento ao que está por vir.  O objetivo dessa dinâmica se torna claro quando se sabe o momento de Bergman ao fazer esse filme: ele estava sofrendo perseguições políticas por causa de sua arte. Para ficar claro é preciso dispor de uma pequena sinopse da obra:

A história se passa em algum país que não é dito. Três atores, Hans Wikelman (Gunnar Bjornstrand), sua problemática esposa Thea Von Ritt (Ingrid Thulin) e Sebastian Fisher ( o maravilhoso e impecável Anders Ek), foram acusados de fazer um espetáculo que conteria cenas de indecência (questionar o que é indecente para essa época é irrelevante). Encaminhados para um Juiz (Erik Hell) para serem investigados.

Torna-se claro durante o decorrer do filme que Bergman critica a censura! Critica o conflito estabelecido entre a arte e a ordem social. Critica os pequenos burgueses que se prendem no ato de julgar a liberdade criativa da arte. Quem é o juiz? Quem são os atores?

Os atores não dão conta de explicar pro juiz o que eles fazem e por que são indecentes. Claro! Arte não se explica embora seja explicável. Paradoxo necessário para sua composição. Bergman se encontra neste lugar de acusado e fez desse filme uma excelente oportunidade de se pensar sobre o papel social da arte. O que esperar da arte? Quais respostas conclusivas a arte pode oferecer? E nisso, os atores rondam de cá, de lá e não sabem responder à demanda da inquisição. Não são quaisquer atores, obviamente. Perturbados ou artistas? Aqui valeria a pena diagnosticá-los por perversos, histéricos, neuróticos etc?

O filme se desenrola com os interrogatórios, a busca incessante por responder o irrespondível. Fisher é brutal! O juiz tem um problema de sudorese e Sebastian vai em sua jugular, não exatamente com essas palavras, mas o sentido é: Quem é você para falar de limpeza e decência se escorre e derrete em suor? Você, visivelmente imundo, aponta o dedo pra mim, por que? Maravilhosa metáfora! Qual o papel dos juízes? Onde eles se encontram? Em todas as partes… Tem sempre alguém para apontar dedos…

Chegamos ao ato final: o ritual. Embora todo o filme o seja. Estabelece-se como um rito. Aqui deixarei para me aprofundar na segunda resenha que farei sobre a obra.

Por agora, concluo que a sociedade se apresenta como um inferno de salvadores. Não faltam pessoas que sabem mais do outro de que de si mesmos. A maioria se esforça por remediar a vida alheia. A calçada do mundo sobra de boa-fé. E dizem que isto se configura em um vício nobre…

O filme termina – e isso não é spoiler – com legendas que afirmam que nunca mais aqueles atores apresentaram um espetáculo naquele tal país indefinido… Como terminar de outra maneira?

Por: Guerra de Pipoca.

Anna Karenina

Anna Karenina

Direção: Bernard Rose

Gênero: Drama

EUA – Rússia – 1997

Eis um filme dúbio; não sei se recomendo. Como assim, não recomendar Tolstoi? Entre a multidão prolifera de vampiros emos e comédias românticas, Anna Karenina é oposto do “E viveram felizes para sempre”. O magistral da obra é a subversão da ideologia de que, em nome do amor, é válido abdicar de qualquer rédea. Afinal, estamos diante um dos suicídios mais célebres da literatura! Para compreender a pertinência desta obra, enfatizo que foi publicada cerca de uma década antes do famoso estudo sociológico O Suicídio, do Émile Durkheim (é ótimo andar com esse livro na rua. Preste atenção no modo como as pessoas te encaram, com uma certa piedade. Sempre acham que você está deprimido querendo se matar, nunca confabulam a hipótese de que esteja simplesmente estudando Sociologia). Tudo bem! Elogiar Tolstoi é pedante. Não obstante, como ignorar uma das mais notáveis introduções?

“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”.

De modo bem simples! O livro não começa assim! Antes desse início, jaz ainda “A vingança é minha. Eu revidarei”. A Wiképedia errou! Infelizmente os erros são inevitáveis quando se quer resumir algo, não dá para selecionar a esmo o que destacar. Anna Karenina possui cerca de oitocentas páginas, qualquer filme necessariamente descartaria o essencial da narrativa: sua lentidão. É importante frisar que essa lentidão confere o aspecto melancólico da obra; apreendemos com ela o tédio dos personagens diante suas espectativas—não o tédio do leitor!

Não obstante, é possível destacar nessa relação entre cinema e literatura algo além do estilo da linguagem. A adaptação cinematográfica possui menos de duas horas. Sequer meia-hora de filme e voilá: Anna já está pelada na cama com Vronsky. O livro requer duzentas páginas…

Não se trata em comparar a capacidade superior ou inferior de uma Arte sobre a outra no tocante profundidade, mas sobretudo na prioridade atribuída à narração. Por que Avatar e Titanic podem durar mais de três horas enquanto Anna Karenina é limitado em uma hora e meia? Aqui jaz o brilhantismo de Tolstoi em seguir na contramão de seu tempo, ao abusar da monotonia enquanto narra a trajetória de um suicídio anômico-egoísta, típico das sociedades contemporâneas. O Cinema, por mais Arte que seja, depende da Indústria. E a Indústria limita o devaneio da Arte pelo pressuposto de que ela precisa agradar o máximo de pessoas possível pelo maior denominador comum. Já em 1828 um poema narra o espírito da época:

“As mágicas colunas desses palácios

mostram ao amador, por todos os lados,

nos objetos que expõem seus portais:

a indústria, rival das artes mortais”.

Pode parecer surreal, mas o poema acima descreve o protótipo do shopping center! A partir deste momento Edgar Allan Poe e Charles Baudelaire descreveram a modernidade e desta advém o peculiar sentimento de solidão em plena multidão. O olhar panorâmico e o vislumbre da síntese substituem a profundidade. A crônica é mais prática que o romance. Em tempos industriais, não há como desperdiçar horas lendo oitocentas páginas, ainda por cima se já sabemos o final: Anna Karenina vai se suicidar atirando-se nos trilhos do trem. Isso não é spoiler: afinal, não há spoiler em clássicos literários! Partimos do pressuposto que todo mundo leu todos os grandes clássicos—é o básico do básico na acirrada competição dessa era de informação e suposta popularização conhecimento. O irônico é o resultado oposto. O Google serve para pincelar a trama. O filme narra alguns detalhes deixando escapar o essencial: a lenta degeneração psíquica de Anna causada pelo ostracismo social. Aliás, nem apenas isso. Os epítetos do livro sequer surgem no filme. Ao invés, temos Lêvin, numa cena inicial lunática, caindo num abismo, relatando seu mal-estar e correlacionando-o ao de Anna: os dois personagens mal se conhecem no romance!

Após a Comuna de Paris em 1870 até o início da Primeira Guerra Mundial, ou melhor, no caso da Rússia, até 1905 com o grande discurso de Trotsky, aflora o período histórico conhecido como Belle Époque. Anna Karenina é uma aristocrata da Rússia dos czares. Ela é bela, rica e admirada por seu charme e inteligência.

E incrivelmente infeliz! Para compreender melhor sua infelicidade, voltemos alguns passos na História. Duas cidades, Londres e Paris, marcarão definitivamente o estilo de vida de nosso tempo, seja no Brasil ou na Rússia.

Na época de Voltaire, ele idealizou Londres por suas virtudes; a citar, liberdade, comércio e arte. Tais virtudes, não obstante, não poderiam existir se ignorarmos a própria história londrina e seus valores econômicos sociais e políticos. A cidade imaginária de Voltaire precisa possuir indústria e prazer. Pode-se então constatar o óbvio camuflado!

A base da consciência cosmopolita advém da exclusão da cidade! A miséria é o índice do progresso! Para perceber progresso tem que se ver miséria! Através da miséria dos pobres, a valorização do padrão dos ricos domina o ideal de todas as classes. Nisto consiste a homogenia social e, embora citem a racionalização e o desencantamento do mundo, vemos o quão próximas são as ideologias iluminista e cristã na apologia do sofrimento! O fluxo de “progresso” advém da confabulação de um sonho: a possibilidade do pobre se tornar rico.

Evidentemente, para que isso exista, é necessário movimentar capital. Portanto, o tradicional nobre parasita é combatido. Afinal, a nobreza é acumuladora, a personificação do “rico perdulário”. A tradição está paralela ao progresso de maneira explícita. Um século antes, Molière, em O burguês fidalgo, salientou que para ser nobre, o burguês gasta todo o seu dinheiro. Essa é a lógica: é preciso gastar constantemente para manter-se no pódio da hierarquia social. Não basta ser rico, é preciso aparentar riqueza! Trata-se do oposto da ideologia aristocrática: afinal, aristoi, em grego, significa melhor. Quem é melhor se garante e não precisa competir—quem compete o faz seja por necessidade, para ganhar o pão de cada dia, seja por duvidar da própria capacidade. Quem compete é o burguês e a plebe que o imita, jamais o nobre que não duvida de si. Não é necessário aparentar quando não há duvidas sobre sua “essência”. O intrínseco é dominado pelo extrínseco uma vez que a ideia de liberdade retira as “essências” dos seres ao postular que todos podem ser – ao menos aparentar – o que desejam.

Porém, é preciso antes alimentar o desejo de consumo para então gastar. O pódio não permanece eternamente. A morte não é mais a redenção salvadora cristã, o fim da vida torna-se necessariamente trágico.

O irmão de Anna Karenina, Oblonsky, é o perfeito estereotipo desse dandy. Janta nos melhores restaurantes. Conhece toda a Alta Sociedade de São Petersburgo e Moscou. É extremamente popular porque gosta de todos. Na verdade, é um ser sem senso crítico. Para ele, ter uma opinião própria é tão importante quanto ter um chapéu. Sua popularidade provém exatamente dessa flexibilidade, dessa ausência de personalidade, pois através dele pode-se falar de todos os assuntos (e “novos” assuntos é o que não faltam na modernidade!). É claro: Oblonsky possui somente status. É falido e seu casamento é uma desgraça. O livro começa com um adultério de sua parte e as lástimas de sua esposa Dolly. Ambos personagens mal aparecem no filme, o que é lamentável…

A dualidade entre tradição e progresso é visível na alternativa à concepção de Voltaire, na qual a educação surge da aristocracia. Adam Smith, por exemplo, afirma ser a cidade quem educa a aristocracia. Ao invés das qualidades intrínsecas oriundas de um nascimento sobre, de sangue azul, o aprendizado se dá pelo meio social. Eis aí o elo que diz que a Educação deve ser democrática. Ou seja, Oblonsky é um aristocrata precisamente por estar por dentro de todas as novidades deste nascente admirável mundo novo. Ao nascer, temos inúmeras potencialidades de devir; entretanto, tais potências são necessariamente limitadas por fatores biológicos e sociais, que influenciarão o psíquico e determinarão a ação do indivíduo. Nesta ação há uma escolha particular e, a cada decisão tomada, o número de potencialidades diminuem, delegadas ao estado de latência onírica. Em outras palavras: e se? E se eu fosse astronauta? E se eu fosse vendedor de pizza? Como seria minha vida se tivesse feito X ao invés de Y? A inconformidade diante a linearidade objetiva da vida em relação à pluralidade de opções imaginárias gera uma discrepância entre o desejo e sua possibilidade de realização. Essa é a base do suicídio de Anna Karenina: o suicídio anômalo, influenciado pelas múltiplas páthos externas.

O shopping é a submissão do indivíduo à mercadoria! O vício da imitação, do consumo! Compramos roupas novas para sujar ao invés de sujar as velhas (como, por exemplo, a galera super arrumada na academia de ginástica! É o fim! Literalmente o “fim” por se tratar de um “fim em si mesmo”, ainda que aparentemente voltado para o futuro) O vício é uma marca de inquietação psicológica. É inquietude e instabilidade. Uma marca do processo civilizatório enraizado no espaço urbano.

Trata-se de uma concepção da cidade, cujo resíduo provém da Idade Média, como espaço de civilização e ordem. O fortalecimento dos pequenos burgos, mais homogêneos e por isso fortes, pela coesão, erradica a “selvageria medieval”. A miscigenação das culturas nobres e burguesas contribui para decadência da autoridade senhorial, permitindo livre-circulação. Em outras palavras, maior a diferença entre as possibilidades e o possível. Existem mil possibilidades para me deslocar, mas é possível estar somente num lugar por vez. E se? E se aquele maldito restaurante com pizzas maravilhosas não existisse? Significaria que então eu passaria mais tempo praticando esportes durante a infância? Será que então eu, hoje, seria modelo nas passarelas de Milão?

Quando postulo que a culpa é do dono do restaurante por ter me distraído dos esportes, cometo homicídio. Quando limito a culpa a minha responsabilidade, cometo suicídio. É o domínio da páthos! O suicídio de Anna Karenina não termina aí. Também existe a questão do suicídio egoísta cuja causa é popularmente é atribuída à depressão. Acaso cometo homicídio, serei excluído da sociedade, se descobrem uma tentativa de suicídio, idem. A exclusão social quebra meus vínculos com a existência, o que a torna supérflua. Se não pertenço em grupo algum e ninguém sentirá minha falta, é melhor morrer, não?

A particularidade idealizada, aquele famoso sentimento de mal-estar que começa a pairar no ar, só existe em eterna relação com o campo, símbolo do passado idealizado. Afinal, é justamente na Inglaterra, berço da Industrialização, onde a nostalgia do campo é maior. Do que trata esse “campo”, passado idealizado, senão o local de todas as virtudes, a preferência pela ética no lugar do lucro, a calma em oposição à pressa? O livro destaca perfeitamente essa dualidade nos personagens Vronsky e Lêvin. Esses pólos opositores encontram suas contrapartidas em Anna Karenina e Kitty, a irmã mais jovem de Dolly. Originalmente Anna seria calma, no lar de Karenin, um nobre oficial do governo. Kitty, no esplendor da juventude, é ansiosa para debutar nos bailes da Alta Sociedade russa. Lêvin é um bicho do mato, o Chico Bento da Rússia de 1880. Vronsky é o galã da novela das oito. Não é de surpreender como Oblonsky consegue ser amigo de ambos, certo?

Tanto Vronsky quanto Lêvin estão encantados por Kitty, a irmã da esposa de Oblonsky. Este, individualmente, garante ambos das grandes possibilidades. Vronsky, no entanto, é um Don Juan, seu objetivo maior não é o amor legítimo, mas a sedução. Tolstoi o fará “pagar” ao conhecer Anna…

Voltemos ao contexto histórico!

A condição de riqueza está na cidade, embora a cidade faça de tudo para empobrecer o indivíduo.

O contato desconfiado entre indivíduos é próprio do urbano! O padeiro deixa de ser o “Seu Manoel da Padaria”, transformado em tão-somente “padeiro”. Aliás, é por isso que o maior marco classificatório de identidade da contemporaneidade é “o que você faz?”. A profissão é a substituição da insígnia do sobrenome. Afora do corporativismo empresarial, os sujeitos dispersos na multidão personificam a figura do estrangeiro. A identificação do estrangeiro se dá de modo mais abstrato, mais (e “mas”) diferenciado do “nós”. O estrangeiro é avaliado e julgado por categorias e características abstratas. A referência às situações de estigma é explícita! É desconhecido, então avaliemos para baixo! Você pode ser a pessoa mais feliz possível, viver no universo dos Ursinhos Carinhosos, mas se porventura acordar de mau humor e eu te conhecer nesse dia, se você não fingir felicidade, eu automaticamente te rotularei como sujeito depressivo. Em outro caso, por mais humilde que goste de ser, te rotularei como “pobre” antes de cogitar a hipótese de modéstia. O sujeito submisso à aparência, à exterioridade, é obviamente receptivo às influências da páthos.

O estrangeiro é o “inimigo do interior”, a alteridade desafiadora de um grupo fechado, que edificou suas fronteiras. O “pobre” é um típico estrangeiro, além, obviamente, do gringo! O rico também é desconhecido, mas é o sonho, o mito. O rico e pobre encarnam Deus e o Diabo. A dimensão da vida urbana é típica na criação destes inimigos do interior. Não dá—não há tempo—para conhecer cada indivíduo profundamente, certo? Então é mais fácil criar estereótipos.

Essa construção da alteridade absoluta elabora a dicotomia entre “nós” e “eles”. O julgamento à distância atravessa à vida urbana constantemente. O tipo ideal weberiano consiste no agregado de conjunto de atribuições, mas isolado na multidão, o vislumbre panorâmico não permite a profundidade necessária para construir tais atributos. É preciso rotular brevemente.

O “outro” é abstraído de suas qualidades concretas, seja positiva ou negativamente. O genérico, distante, é uma figura bem-vinda, desde que não seja próximo. O estrangeiro, portanto, não é o distante, mas o “diferente” próximo (índio Bororo é legal desde que não seja meu vizinho. Podemos adorar a Funai, mas deixem os índios na Amazônia). O potencial de ruptura do urbano e a vida urbana coexistem e surgem simultaneamente do mesmo fenômeno. Trata-se da estabilidade instável. Um exemplo mais adequado? Preciso conceber uma imagem estável de Mamãe, para que haja permanência em minhas referências. Logo, o genérico distante é ótimo contanto que não seja próximo. Todas as mulheres deveriam ser biscates, exceto Mamãe—e claro, as mulheres que potencialmente podem ocupar o título de Mamãe, como a Filha e a Esposa.

Logo, o principal agregado do Iluminismo, a liberdade, se torna negativa ao radicalizar o anonimato. Ou seja, a liberdade faz o indivíduo perder a Liberdade: em nome da massa! Antes fosse dependência química de lasanha. Lembrando William Blake, a perda de identidade elimina a liberdade e a própria democracia pela homogeneidade. A universalidade descaracteriza a especificidade do indivíduo. A razão epistemológica, técnica e padronizada, não permite a compreensão por dentro, de sua própria razão.

A liberdade, ademais, pode suscitar o nacionalismo xenófobo. A liberdade da globalização moderna é, evidentemente, de objetos! Não de pessoas!

A Rússia de 1880 não está isenta dessas rápidas transformações. Anna tem uma identidade social concreta e bem-estabelecida. Vale realmente arriscar tudo por amor?

Seguindo em frente…

A divisão do trabalho proporciona uniformidade das relações de trabalho. A sujeira é dignificada, posta ao pedestal. Essa é a lógica da ética protestante: a força matiz do capitalismo e inconscientemente louvada por Engels. Em nota: apesar dos banhos da Carlota Joaquina e do D. Pedro, a praia adquire seu sentido cultural no Brasil somente no início do século XX. Até então é reduto para pobres e escravos. O pressuposto máximo é que nobres não devem tomar banho. Por que? Porque quem toma banho é quem está sujo. E para estar sujo é preciso suar. Aristocratas não suam!

O Progresso, ao existir antes da Ordem, exige o suor numa primeira instância para então gerar a riqueza, na forma de recompensa! Eis uma total crítica da ordem aristocrática anterior (o “não tomo banho porque não suo” é substituído pelo “tomo banho porque suo”. Ideologicamente, o primeiro jamais se sujou enquanto o segundo se limpou por ter se sujado)! No período da trama Anna Karenina, as escolas religiosas francesas ensinavam Economia Doméstica visando o melhor aproveitamento do “tempo”: escasso no fenômeno urbano. Lêvin, apesar de ser da roça, incorpora todos esses valores iluministas (o Brasil possui uma lógica pregadora da Ordem antes do Progresso: deixemos para outros filmes).

É necessário estar sujo, ter miséria, para adquirir a legitimidade da recompensa e o desenvolvimento. Isto Lêvin entende. Porém, não é suficiente. Durante as propostas matrimoniais, Kitty escolhe Vronsky. Não é contraditório.

Justamente porque a distinção feita do ser é oriunda dos outros—os anônimos—pautada no olhar rápido, ser visto sujo denota precariedade, marginalidade. Logo, o medo da exclusão, do estigma, cresce. Afinal de contas, o sofrimento é valorizado. Porém, é valorizado quando compreendido: o que exige uma visão mais duradoura. O ser que sofre, sem que haja, não obstante, razão de seu sofrimento—quando aparenta ser “gratuito”, por desleixo—é estigmatizado e excluído. Estar “sujo” por ter trabalhado muito é diferente de estar “sujo” por ser mendigo, mas como discernir sem conhecimento prévio do contexto?  Logo, para destacar-se na multidão, o indivíduo almeja mostrar-se acima desta, mediante roupas, carros ou demais acessórios denotando sua exclusividade. Entretanto, ao ser visto por todos e manter sua visão em si (pois ele é indiferente aos outros), há o risco de ser visto por quem não se deve. O fenômeno é inverso. Se ele não pode aparentar “sofrido” aos anônimos, ele precisa sofrer para quem o conhece. Logo, há o medo constante em ser avistado pelo patrão. Basicamente, num exemplo mais contextualizado no século XIX e início do XX, o homem quer ser visto de charrete para sair do anonimato, exceto pelo patrão por conta da relação de dependência e subordinação. Acaso o empregado e o patrão se mostrem ao público iguais, o chefe não apenas julgará o sofrimento do servo como mentira, blefe, apologia etc., como também será compelido a reagir. Eles não podem coexistir em patamar de igualdade! Portanto, o patrão rebaixará o homem a fim de manter sua própria distinção! Até em livros best-sellers como as 48 Leis do Poder tal condição ao sucesso é salientada. Mostrar-se mais poderoso que o rei, ofuscar-lhe, ainda que em sua homenagem visando uma recompensa, é implorar para ser assassinado.

O homem adquire então uma paranoia subterrânea. Ser indiferente é necessário. Ser avistado na multidão é imperativo. Contudo, o medo de ser reconhecido por quem não deve o obriga à vigilância esquizofrênica.

Não é mais o homem quem narra a cidade; é o inverso. A multidão amalgamada gera uma entidade irreconhecível e distante, quase que independente, ao indivíduo, e para se resguardar desta, ele precisa doutrinar sua postura. A Psicologia e a Sociologia nascem nessa época: Ciências nascem quando se torna claro que o novo Deus se chama Sociedade.

Reformas urbanas não retiram a cidade do vício, mas podem elevá-la para além do bem e do mal. Esse é o desejo supremo do homem, controlar a seu favor sua condição de “pessoa” e “individuo”, intercalando para sua maior potencialidade. É estar acima do bem e do mal: escolher quando lhe convém ora a distinção, ora o anonimato. Contudo, se cada homem almeja potencializar-se, não é possível que todos o façam simultaneamente. Nitidamente, diversos padrões de comportamento serão julgados como aberrações: a inserção da “loucura” só pode ser feita na cidade. E a cidade, o coletivo abstrato, torna-se importante, transformando-se numa personagem dotada de personalidade “aparentemente” independente de seus componentes.

Embora a identidade social seja o símbolo de segurança, ela também é sufocante. Anna Karenina reconhece isso. O dilema é conciliar as ocasiões segundo a kairos!

Pontes e ferrovias alargam a cidade (podemos interpretá-la como Sociedade, portanto, Deus). Isso aumenta a possibilidade de “fugir” do risco, de se reinventar. Os indivíduos podem extravasar seus vícios à distância, com a dádiva e a penalidade do anonimato. Enfatizo: é típico da modernidade prometer mais do que cumprir. O número de possibilidades aparentes é bem maior do que a realidade. Quer ser astronauta? Teoricamente é possível, mas na prática, há uma imensidão de empecilhos que dirão “não, não é possível ser astronauta! Tenho que estudar Física, depois me mudar para os EUA, então entrar na NASA e competir com mil pessoas lá dentro e…”. É importante considerar que esse papo de desassociar teoria da prática é balela. Se a prática não condiz com a teoria, então há duas possibilidades: ou a prática não seguiu rigorosamente os ditos da teoria ou a teoria é errônea. A segunda postulação é o que acontece com as promessas de ser quem você quiser da contemporaneidade. É tão impossível quanto alcançar o Reino dos Céus da Idade Média. Assim como a lógica medieval, se porventura o indivíduo fracassar, a culpa é inteiramente sua. Henry Ford conseguiu ser o self-made man mitológico da nossa Era? E daí? Jesus Cristo também alcançou o Reino dos Céus! Ah, não foi só o Ford, teve o Silvio Santos e tal… Bem, para cada mínima exceção posso enumerar um santo: São Francisco de Assis etc.

Anna Karenina é brilhante por conta disso! Ela serve de análise tanto sociológica quanto psicológica! Seu suicídio estava prescrito sociologicamente ou trata-se de um fruto de força psicológica? Qual o limite que discerne as “vítimas da sociedade” dos que se “fazem de vítima”?

Londres, a cidade da virtude, é presa ao passado pelo campo e pela monarquia. Paris é o vício, a subversão da boemia. Por mais que Londres tente exaustivamente mostrar-se festeira, jamais conseguirá. Na Inglaterra, até a subversão é regrada: é inevitavelmente conservadora. A farra jaz em Paris. O pub londrino é fechado, enxerga-se somente o “dentro”. O vício é necessário; embora não precisa ser extremamente egoísta, individualista. Assim torna-se mitificado, aumentando ainda mais o pavor em ser descoberto. E, já que se corre o risco, se porventura for flagrado, é melhor extrapolar ao máximo enquanto for possível. O café parisiense é aberto, pode-se ver o que se passa. O vício é compartilhado, compreendido.

Para combater o vício, cria-se um moralismo que não é nada revolucionário. É, inclusive, mais conservador do que o Vitoriano. Eis o nascimento do terceiro tipo de preconceito, o mais sublime e eficaz de todos, o ideológico.

O estranhamento da multidão confere insegurança às pessoas. Portanto, em épocas sem televisão, é a biblioteca (a sala é a transição entre o público e o privado) que relata a biografia de seu dono. A biblioteca passa a impressão de viagem, sobretudo ao passado. A “casa” gera equilíbrio, recupera a memória, revigora para enfrentar o anonimato da “rua”. A sala é o local de passagem entre a rua e as regiões mais íntimas do lar.

Ufa! Será que agora as razões do suicídio de Anna Karenina ficaram claras? Ela é uma mulher “que tem tudo” mas não se sente como tal. Sente que ainda lhe falta algo—e, na modernidade, sempre, inevitavelmente, faltará algo que impeça o sujeito de sua completa realização! Esse algo é uma coisa não definida previamente. O fetiche da mercadoria surge nas falsas promessas dos produtos preencherem o vazio deixado por este algo sem nome.

Como aristocrata, exige-se um comportamento digno de sua persona. Ainda assim, ela é constantemente atraída pelas novidades do admirável mundo novo moderno. A promessa do amor—símbolo contemporâneo de ausência de interesse, que o “amor é cego”, quem ama de verdade não se importa com nada que possa acontecer ao parceiro, a despeito de qualquer infortúnio e demais histórias para boi dormir—é maior do que sua real realização. Vronsky lhe promete o novo.

E para isso, é necessário abdicar de sua vida! De seu lar e de seu filho! Enquanto o adultério é sublime, discreto, Anna Karenina é rodeada de amigas biscates que a aplaudem. Entretanto, quando o affair é revelado, tais amigas se afastam. Karenin lhe nega o divórcio: a cartada fatal. Acima do adultério em si, o fardo de Anna é seu status indefinido. Ela não pode se casar com Vronsky porque Karenin lhe nega o divórcio. Ela perde sua posição na sociedade! Tudo o que acima descrevi revelam suas tentativas! Ela foge para o Campo e para a Itália, ela transita regularmente entre São Petesburgo e Moscou em busca de aceitação e sei lá o quê elevado ao cubo!

Confinada dentro de casa, sem saber o que ocorre no mundo exterior, começa a duvidar de tudo, dos afazeres de Vronsky. Teme que este pode se enjoar dela e conquistar uma nova amante menos problemática. E assim busca a própria ruína. Torna-se insuportável com Vrosnky e o Amor é destruído. Ele não a abandona, mas menciona que a situação beira o insuportável.

Eis, então, o significado da triunfal frase: a vingança é minha! Ao cometer suicídio, ela destrói Vronsky. Estraçalha sua memória, sua honra, sua vida. Vronsky é condenado a vagar o resto da vida se penalizando pela morte de Anna. A sociedade machista da Rússia de 1880 reprimiu Anna e não Vronsky. Anna revidou na esfera do íntimo, da pessoalidade. Entretanto, seria a culpa realmente de Vronky? Ou Anna simplesmente delegou um bode expiatório para punir alguém que, assim como ela, tão somente faz parte das mesmas regras deste mundo de promessas não cumpridas? E se Vronsky não é realmente o inimigo, então quem o é? Assim surgem as teorias da conspiração no mundo contemporâneo!

Por: Eduardo Cidade.

Julie & Julia

Julie & Julia

Direção: Nora Ephron

Gênero: Drama

EUA – 2009

A simples menção do nome de Meryl Streep é sinônimo de qualidade. E muito me surpreende um filme sobre Julia Child. Ela foi a primeira mulher estrangeira a fazer um curso de culinária avançada “Le Cordon Bleu”, território masculino por excelência e quando chegou à América, com o seu calhamaço “Mastering the Art of French Cooking” e um programa hilário de TV, em que sua estatura e voz incomuns mudaram a vida da norte-americana comum.

Essa figura é interpretada por Meryl de maneira esplendorosa. Leve, bem-humorada, e com uma disposição infatigável para aprender e vencer. Paralelamente, a vida da Julie, uma jovem mulher entrando nos trinta e totalmente insatisfeita com sua vida. Ela trabalha assim: recebe telefonemas das vítimas do ataque as torres gêmeas e só. Então decide cumprir uma meta rigorosa e ambiciosa: em 365 dias, confeccionar as 524 receitas do livro de Julia.

O paralelismo das vida de ambas, em que os maridos amorosos e compreensivos são âncoras discretas e necessárias é mostrado de forma rica e carinhosa. As cenas de picar cebola são sensacionais. As receitas escolhidas estão entre os grandes clássicos da comida francesa são todas ótimas.

Deliciem-se com as cenas de mortandade das lagostas. E o elogio e elegia à manteiga? Que gostoso… E o omelete? Seria assim tão simples? As compras, como escolher os ingredientes. Tudo mostrados com intensa alegria e sinceridade. Mesmo as crises do casal moderno e os textos criativos do blog são bem estruturados. E a séria discussão entre as sócias? Seriam as mulheres verdadeiras amigas?

O filme e Meryl tornam-se indissociáveis, pois a interpretação é solar. Tudo parece fácil, até desossar um pato e depois recheá-lo e colocá-lo no forno. E o mais importante e sublime de ver é que a vida pode ser mais simples do que aparenta ser. Uma maneira positiva de encarar os desafios, manter sempre em alto astral quaisquer atividades. E mesmo numa noite de chuva, em que a convidada principal não chega nunca, comer com satisfação o prato elaborado.

O filme transcorre alegre e de bom tom. Inúmeras nuances do relacionamento humano e muita comida, feita com amor e dedicação. O final é tranqüilo, entretanto todo o desenrolar do filme foi me encantando. As lições sutis. A liberdade de escolha de ambas, o sucesso após o afinco. Tocante e belo. Adorei.

O que há de bom: enredo e pratos perfeitos, além de uma Meryl Streep afiadíssima

O que há de ruim: cinema não tem cheiro

O que prestar atenção: escrever um livro não é só ter idéias, mas testá-las, encontrar alguém que acredite e; principalmente, que distribua

A cena do filme: tenho duas, uma de cada Jujú… o primeiro prato a gente nunca esquece…

Cotação: filme excelente (@@@@@)

Por: C.O.B.R.A.

A Hora da Estrela

Macabea

A Hora da Estrela

Direção: Suzana Amaral

Gênero: Drama

Brasil – 1985

Este é um dos filmes brasileiros que mais gosto e tive a oportunidade de vê-lo novamente hoje. Adaptação do último livro de Clarice Lispector, A Hora da Estrela conta a história de Macabea, “datilógrafa, virgem e que ama Coca-Cola”. Simplória na autodefinição e em sua existência: maus hábitos de higiene, pede desculpas para todos e para tudo, divide um quarto miserável com mais 3 colegas até então desconhecidas, não cumpre com seu trabalho direito, nunca namorou etc. Ela traduz a miséria de não-Ser sendo Ser que simplesmente É.

Macabea não sabe quem ela é e passa o dia todo questionando sobre o que são as coisas, como uma forma de conseguir se responder. “Será que eu sou eu mesma?” – pergunta dirigida a Olímpico de Jesus, seu primeiro namorado – que ambiciona ser famoso na vida. Enquanto Macabea se anula por não se saber, Olímpico se exalta, por se saber demais, porém, como era de se prever, não responde a nada, nem mesmo à demanda dela. Os semelhantes se atraem.

Nossa personagem trabalha com Glória, mulher de muitos homens e que deseja casar, ponto em comum com Macabea. Enquanto Glória busca respostas até mesmo em cartomantes, Macabea parece deixar o tempo correr frouxo, é extremamente conformada com seu mau destino. Enquanto tem um emprego e um namorado, ousa se manter inerte. Porém, perde o namorado, se é que um dia o teve, e a dor se torna maior do que ela consegue carregar. Momento em que pede para que Glória lhe dê aspirina e lhe diz que não sabe localizar onde dói. Geralmente, é assim que funciona… e, geralmente, é a hora em que as pessoas buscam ajuda, seja qual fonte for. “Cada um sabe sua maneira de ser salvo” – Freud.

Macabea, seguindo o conselho de Glória, foi na mesma cartomante que deu um jeito na vida de sua amiga. Único momento do filme em que ela sorri. Sorri com o corpo todo! Pois, escuta da cartomante (Fernanda Montenegro) que enfim chegou sua hora de brilhar como uma estrela. E de fato, depois de  sair de sua consulta com o astral e comprar um vestido novo, sua hora chega.

Recomendo.

Por: Guerra de Pipoca.

88 Minutos

88 Minutos – 88 Minutes

Direção: Jon Avnet

Gênero: Suspense

EUA – 2007

De vez em quando me dá saudade de Al Pacino e revisito alguma atuação dele; hoje foi assim. Revisitei 88 Minutos. Obra de acesso rápido e fácil, sem complicações e temas difíceis; é possível pensar sobre ele por diversos caminhos.

Cena número um, o Bar:

Comemoração do julgamento do Serial Killer.

(Só um parênteses “fora” do filme: não conheço um país que o linchamento social a um criminoso seja crime de fato e de direito. Já pensou nisso? Via de regra, as delegacias nem abrem ocorrência. Botam todos da rua pra correr e fica por isso mesmo.)

Todos os suspeitos estão no bar! O Psiquiatra (Dr. Gramm – Al Pacino), seus alunos, seus assistentes, sua colega de trabalho… Bebem, riem, divertem-se e depois cada um toma seu rumo. O que fazem, afinal?

Serial Killer:

Interessante a manobra do filme de colocar em cena um assassino que continua matando mesmo depois de preso. Não é sempre que isso dá certo, geralmente a segurança é enorme. E aqui não faço brincadeira com isso.

É bizarro ler certas notícias em jornais de assassinos em séries que se casam nas penitenciárias. A exemplo: Maníaco do Parque.

O comum é pensarmos: “esse morre sozinho”. Sim, depois de estuprar, estrangular, matar, o normal seria qualquer mulher querer distância dele, mas ao contrário do que se espera, há uma minoria que nutre admiração por esse tipo de pessoas doentias. Concluo que são bem mais doentes ainda.

Este filme toca nesse ponto sem adentrar com profundidade nele. Deveriam ter chafurdado mais, assim como acontece com Amanda em Saw II, III, sucessivamente.

Papel do Psiquiatra:

Psiquiatra (e todos os profissionais “Psis”) não é adivinho, ele não tem bola de cristal, mas tratando-se de patologias clínicas, deve ter um sensor que capta sinais de fumaça a longa distância. Isso fora das telas cinematográficas, né? Pois aqui neste filme, o psiquiatra é um astro, literalmente! Não é por ser somente Al Pacino (o nome já diz tudo), mas o papel que entregaram nas mãos dele é de qualquer coisa, menos de um psiquiatra. Holofotes! Holofotes! Holofotes!!!

E tanta luz fabricada, atraiu o olhar perverso de alguém que deseja seu lugar e que o ameaça: em 88 minutos, morrerá… tic tac tic tac tic tac…

Aproveitando a deixa “superstar”, nas entrelinhas do longa, a direção põe em questionamento os métodos da(s) Psi(s) o tempo todo. “Até que ponto um diagnóstico psiquiátrico serve como prova judicial?”

Crítica covarde e leviana… enfim…

Pena de Morte:

Certo momento do filme, Al Pacino pergunta para uma de suas alunas:

“Justiça e verdade. Onde elas se cruzam?”

Tenho consciência que agora entro num terreno bem mais baldio e polêmico, mesmo assim quero apontar algumas questões sobre o assunto.

Sou a favor da vida, quase sempre. Existem sujeitos com nível de comprometimento psíquico sem retornos e sem possibilidades de fazer mediação que seja suficiente para o reingresso do sujeito no meio social. Ou seja, essas pessoas estão fadadas ao isolamento social sob pena de cometerem novamente atos bizarros e hediondos. O que fazer com elas?

Perguntando dessa forma, soa muito cru, mas sem hipocrisia: o que fazer com esse resto que não serve, que não é produtivo, que é um peso doentio para a comunidade? O pensamento que serve de guia, sem utopias, platonismos e romantismos, deve ser exatamente este. Cabe a nós pagarmos impostos para deixá-los vivos e isolados à espera da misericórdia do tempo ou a ideia do “olho por olho, dente por dente” é o melhor a ser feito?

Não vou ficar em cima do muro: neste caso exclusivamente, sou inteiramente a favor da pena de morte.

Por: Guerra de Pipoca.