Harry Potter e as Relíquias da Morte II

David Yates e os Potterianos

David Yates começou sua jornada com Harry Potter a partir do quinto filme, “Harry Potter e a Ordem da Fênix”. Até então, “Pedra Filosofal”,  “Câmara Secreta”, “Prisioneiro de Azkaban” e “Cálice de Fogo”  foram lançados por outras mãos. Yates não diminuiu a qualidade em nada. Ao contrário, conferiu legitimidade tanto ou mais do que os demais. Em vista disso, ficou de posse da sequência restante. Não fez feio, supriu as expectativas dos fãs e fez o filme mais difícil da série: “Enigma do Príncipe”: quando Dumbledore é assassinado. Foi o filme mais expressivo e, consequentemente, o mais dolorido da série. Afinal, Alvo Dumbledore, o mago amigo e protetor, saiu de cena.

Para manter a qualidade dos filmes com a ausência do mestre, suponhamos, deve ter sido difícil. Ainda assim, Yates chegou ao fim da saga com louvor. Ou melhor, chegou ao “Relíquias da Morte I” com louvor. Inclusive, vale relembrar este filme, pois foi o que mais se diferenciou dos demais, uma vez que está em jogo o processo psicológico e não as ações e aventuras de sempre. Relíquias da Morte I é mais lento, mais introspectivo. Harry Potter se comporta assim e é perceptível que, finalmente, Daniel Radcliffe cresceu junto com a história. Radcliffe passa para o espectador algo para além do filme: que está pronto para ser Harry Potter.

Sim, pois desde o início sabemos que Potter matará Voldemort, então, é preciso estar pronto para este momento. Radcliffe não passava confiança, é necessário reconhecer isto. Um menino novo, criança, matar um vilão bruxo que matou meio mundo? Chega  a ser cretino. É o mesmo que atribuir a um moleque de 17 anos a derrota do Coringa, em Batman. Ou um pirralho adolescente que tira os méritos de Superman e põe fim a perseguição de Lex Luthor. Convenhamos! Coringa mata quem permanece em sua frente, alguém aqui acha que um pirralho é capaz de matá-lo, sendo que nem mesmo Batman consegue?

Pois é. Dumbledore não mata Voldemort, mas Harry matará. Então, façam o favor de fazer Harry crescer e ser capaz da missão, senão, é boçal demais. Até o filme “Enigma do Príncipe”, Potter não estava psicologicamente pronto. Agia feito um menino abandonado a própria sorte  que queria por tudo beijar Gina (e quanto beijinho fraco, não? Infelizmente, não teve um GRANDE beijo desses dois… tsc tsc tsc… sem graçaaaaaa…). Parece que em “Relíquias da Morte I”, a trupe caiu na real: Opa! Pra terminar essa obra é preciso matar Voldemort, então, acabou a farra.

Estava tudo indo muito bem até que Yates resolveu chutar o balde. É o último filme mesmo, né? Que tem demais ferrar com quase tudo? Calma, calma, nós vamos explicar nosso comentário.

Aqui começa o texto sobre:

Harry Potter e as Relíquias da Morte II – Harry Potter and the Deathly Hallows – Part II

Direção: David Yates

Gênero: Fantasia, Suspense

EUA – Reino Unido – 2011

A primeira parte deste filme está impecável! Nota mil para a cena do assalto ao Banco de Gringotes. Hermione na pele de Belatrix somada ao Duende interesseiro… Foi tudo muito bem arquitetado, bem feito e magistralmente filmado. Os efeitos especiais do dragão superam e muito os dragões do “Cálice do Fogo”, na disputa do torneio Tribruxo. Palmas para Yates e todo o elenco. Por algum momento, Spielberg ficou pequeno nos efeitos especiais…

Quando os alunos se reúnem para deixar Potter, Hermione e Rony entrarem em Hogwarts também merece aplausos. Não apenas pelas boas cenas, diríamos. Mas, por trazer à tona o sentimento de irmandade, de união por uma causa. A reunião dos estudantes nos faz lembrar que nesses tempos de “marchas e protestos” o mais importante não é exatamente a conquista, mas a busca pela vitória. E quando Professora Minerva protege toda a escola, com a ajuda de outros professores, é de arrepiar. Sobretudo para quem já lutou ou luta por uma causa, seja ela qual for. “A união faz a força”, não é à toa…

Enfim: a guerra está declarada!

O momento mais esperado da saga está por vir…

Acontece que David Yates não soube conduzir as cenas mais esperadas: ele não é diretor para filme épico, simples assim… puxa, que pena. Realmente, é uma pena…

 Além das cenas ficarem grotescas, mal feitas, com inúmeros erros de continuação, Yates ainda fez o imenso favor de por a narrativa no âmbito do deboche, do pastelão, da besteira. Parecia uma comédia de quinta categoria. Quem viu o filme sabe que Voldemort (Ralph Fiennes) nem de longe pode ser levado a sério em sua atuação, o que é decepcionante. Suas risadas imaturas, infantis, sua comemoração pela pequena vitória em cima de Harry, são tão tolas que não há palavra que alcance a decepção.

Fora que a parte “Nosso Lar” do filme é patética. Harry morre, mas na verdade, o que morre é a parte Voldemort em seu ser, e nisso tudo aparece Dumbledore num túnel branco… enfim… sem comentários. Isso detonou o filme.

Sem contar o final!!!!!! Céus, o final… Que sabíamos que iria ser cafona, isso é certo. A pieguice tem seu valor, sobretudo quando é bem feita. Já estávamos preparadas para pieguices: Potter vencer, ficar com Gina, Rony ficar com Hermione, o final ser feliz para sempre etc. Mas, o que não esperávamos é que David Yates fosse amarelar a obra de forma tão leviana.

Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson são novos demais para “19 anos depois”… Não colou e ficou Tosco!

Enfim, não foi um bom épico, não teve boa direção em cenas decisivas, não convenceu, infelizmente. Recomendamos por dois motivos: quando Rony diz que Hermione é sua namorada e porque é o fim da saga, pois se fosse um filme independente… não valeria a pena gastar dinheiro com o cinema.

Por: Guerra de Pipoca e Laís.

Nosso Lar

Nosso Lar

Direção: Wagner de Assis

Gênero: Fantasia

Brasil – 2010

 

A teologia é um ramo da literatura fantástica

                                        - Jorge Luís Borges

            Normalmente não me meto em assuntos religiosos. Tenho uma certeza praticamente absoluta sobre a inexistência do sobrenatural e, quando não em contexto de arguições antropológicas, considero obsoleto abordar o tema. Para ser sincero, o que penso das religiões em geral é bastante simples. Existe uma expressão, do sociólogo Erving Goffman, para instituições falidas que ainda pensam ter algum poder expressivo: acalmando o otário(não para as pessoas que acreditam, mas as Instituições em si!) No caso, as Igrejas não possuem poder significativo, mas é bom deixarmos acreditar que ainda tem relevância. Nada impede que, se algum dia de fato se sentirem ameaçadas, contra-ataquem e recuperem a influência social de outrora. Precisamente, para impedir que isto aconteça, a sociedade em geral confere certa voz à Igreja, fingindo dar importância às suas palavras. Na prática, pouco pode fazer. Se a Igreja se impõe contra o aborto, isto pode influenciar tão somente os próprios religiosos. Uma menina não-religiosa abortará de qualquer modo. E não sofrerá represálias morais por seus semelhantes, a princípio, seu grupo social. Se ela for religiosa, abortar e sofrer tais represálias pelos religiosos… bem, está na hora de se tornar atéia. E se argumentarmos sobre a constituição do Estado laico e das condições financeiras daquela que quer abortar; ipso facto, não muda muita coisa do que mencionei acima. No mais, certas leis serão eventualmente aceitas quer a Igreja tolere ou não. Sua voz é semelhante ao do velho patriarca gagá na discussão sobre os afazeres familiares. Todo mundo finge escutar por respeito. Entretanto, no fundo, os efeitos de suas palavras são inofensivos. É melhor deixar o velho patriarca iludido, sedado, do que provocá-lo. Vai que ele resolve deserdar todo mundo ou algo assim? Penso semelhante em relação às instituições religiosas.

            Portanto, não tinha a menor intenção em falar mal deste filme a priori. Infelizmente, ele é ruim demais! Ultrapassou todas as minhas expectativas! Recomendo para casos de insônia ou masoquismo. Diante o imenso sucesso do filme –o maior orçamento e a maior bilheteria do cinema nacional – é minha obrigação saber o que se passa nele já que meu trabalho é pensar as culturas e as sociedades. Tenho uma técnica para tornar o fardo menos torturante. Imagino tudo em termos de literatura fantástica. Portanto, quando São Tomas de Aquino, em sua Suma Teológica, revela os segredos da “Obra de Deus”, imediatamente penso na Terra Média, no Gandalf e no Sauraman erguendo seus cajados etc. A Bíblia, então, com a criação do mundo… leio como se fosse Tolkien.

Quando Aquino diz:

 ”Dizemos que Deus não tem nome ou está acima de qualquer denominação, porque a sua essência sobrepuja o que dele inteligimos e exprimimos pela palavra.

A verdade, considerada como virtude, não é a verdade comum, mas uma certa verdade, pela qual o homem se mostra como é, nas palavras e nas obras. A verdade da vida é aquela pela qual o homem, na sua vida, realiza o fim para o qual foi ordenado pelo intelecto divino…

Basta imaginar como se tais palavras fossem proferidas pela Khaleesi sobre a existência ou não de dragões, no Game of Thrones, para tudo se tornar mais interessante. Vão por mim que funciona!

Infelizmente, Nosso Lar é tão ruim que nem com essa capacidade de abstração consegui gostar do filme. Como? Como um filme tedioso, sem nenhum resquício de ação, repleto de lições moralistas simplórias auto-evidentes e pedantes conseguiu fazer tanto sucesso? Como isso foi possível? Se isso é o que brasileiro médio acredita e tem como valor, é de desanimar quaisquer perspectivas para o futuro do país.

A essência de qualquer religião, mais do que dizer qual será o destino dos homens após a morte, é estabelecer a Ordem do Universo para que os homens possam viver em harmonia. Cansamos de ouvir a velha história de que as Religiões pregam a paz fazendo guerra, certo? Não é exatamente uma hipocrisia, uma vez que a paz fundamental aqui é do próprio grupo. A Religião—seja lá qual for—mantém a coesão interna do grupo e justifica, legitima, a violência. Em outras palavras, ela controla e delimita qual segmento que deve morrer. Ao concentrar a violência da sociedade sobre infelizes determinados, ela garante a paz dos demais. Porém, para que isso seja possível, é preciso que a sociedade inteira concorde com as regras desse ordenamento. Junta-se o útil ao agradável em designar os hereges àqueles que devem morrer.

O termo “religião” provém do latim, religare. Há um duplo significado disto: religar os homens ao elo que possuem em comum, o fundamento do passado em comum que o fazem agora viverem juntos em sociedade. O outro significado é mais poético e talvez mais significativo. Religar/ delegar ao Outro aquilo que sou incapaz de fazer sozinho. Explico: a união dos homens é capaz de levantar prédios, pontes e mil maravilhas. Não obstante, é incapaz de, digamos, deter uma tsunami. Eis então como os homens elaboram seus pactos com os deuses, para que estes controlem a natureza em favor dos primeiros.

Portanto, a Religião é Política. Bispos na televisão não são algo recente. Digo, a televisão pode ser, mas os dedinhos santificados mexendo as cartas em nossos afazeres, não é. Sempre foi assim. E é por isso que falarei, neste texto, de Ciências Políticas. Evidentemente, das três irmãs das Ciências Sociais, este terreno é o que menos conheço. Vamos lá de qualquer forma, é sempre interessante brincar com São Tomas de Aquino e a concepção da cidade ideal na Idade Média. É surpreendentemente próxima daquela pregada em Nosso Lar, salvo pelo advento da mentalidade capitalista entre os setecentos anos de diferença das duas obras.

Constitucio, na Idade Média, denota os aspectos de órgão; não somente jurídico, mas também de corpos, como o de um ser humano. Pode-se dizer de um sarado que ele tem “boa constituição”. Se para os homens existem condições de saúde e de doença, o mesmo é pensando em relação ao Estado (lembrando que o Estado Moderno só surge na, tcharan, Idade Moderna). Em Aristóteles, há três formas de bom governo para as correspondentes formas degeneradas: Monarquia e Tirania, Aristocracia e Oligarquia, Politéia e Democracia. A noção de “regime” não tem nada a ver com os Vigilantes do Peso. Ela advém da pastoral cristã, não necessariamente relacionada ao poder coercitivo. Trata-se do deslocamento de um pastor de almas ao governante, ao longo do tempo. O que um sacerdote não convence pela persuasão, cabe ao rei punir através da força.

Então, um belo dia às vésperas da Segunda Guerra Mundial, um médico chamado André Luiz bate as botas. Embora o filme insista em negar Kant dizendo que espaço e tempo não existem, André Luiz cai num lugar geograficamente bem semelhante ao nosso imaginário, senão do Inferno, do Purgatório. Se espaço e tempo não existissem, ele poderia cair em qualquer lugar, mas me parece que a queda especificamente no Purgatório foi proposital. Então o espaço existe e pronto! E se tempo não existe, existe a morte pra início de conversa? A vida transcorre, do nascimento à morte, no tempo, não? Bem, não vou entrar na Física e muito menos na metafísica, voltemos para Aquino.

De regimine principum (1265) foi escrito por Ptolomeu de Lucca, mas Aquino levou os créditos. Tanto faz. É um livro de aconselhamento ao governante, cujo representante mor deste estilo literário é Maquiavel com O Príncipe. A noção moderna de Estado não deve ser aplicada nem ao mundo Medieval, nem ao Nosso Lar, porque nessa cosmologia o que define a cidade-estado como organização política não é o território. Esses conceitos de Estado, Poder e dominação são inseparáveis na modernidade, mas não é necessariamente universal. Regimen é diferente de dominatioRegimen não é uma ideia política. Seu significado é ético, relacionado à atividade pastoral. A função de um rector é de regere, ou seja, conduzir. A coerção pela força tem papel secundário, pois a condução das almas à salvação se dá pela persuasão.

Bem, vou dar um pulinho rápido em Max Weber. Pessoas mais humildes tendem a desenvolver religiosidades de salvação. O mundo é maculado por uma injustiça original, um pecado, então acredita-se na vinda de um Vingador, digo, Salvador para corrigir isso. Pessoas de classes médias para cima—como no caso da maioria dos adeptos do espiritismo ou das versões ocidentais do budismo—desenvolvem religiões mais particulares, individualistas, com forte ênfase no desenvolvimento pessoal e que, portanto, legitimam as recompensas e privilégios que podem adquirir. Nosso Lar, desta perspectiva, enquadra-se perfeitamente na análise de Weber. André Luiz é um médico, não um favelado. E todos seus amiguinhos poltergeist são advogados, engenheiros etc… claro, duvido que haja um antropólogo! Voltemos para Tomas de Aquino.

Dentre as três formas de governo, a monarquia de Um só (o rei, o líder espiritual ou seja lá quem for) favorece a função pela qual o governo existe, que é conduzir a multidão à unidade. As almas que não são dobradas pelo convencimento da palavra serão dobradas pela coerção imposta ao corpo. Ir para o céu depende aparentemente do seu livre-arbítrio, mas se porventura você não seguir os ditames locais…é Inferno!

Juntando Weber e a idealização política de Aquino, torna-se fácil entender a apologia do sofrimento feito pelo líder religioso naquela comunidade astral louca do filme. “Todo merecimento se conquista através do trabalho”. Assim…

Tipo…

Vamos combinar…

Rameira que pariu! Você rala a vida inteira, pasta, sofre para ganhar o pão de cada dia e depois de morrer… tem que continuar trabalhando? Se isso é o Paraíso, imagina o Inferno? E não é qualquer trabalho, é praticamente escravo, a ver a condição socioeconômica aparente dos residentes daquele mundo astral. Parece bem próximo de bairros proletários do subúrbio das grandes cidades. Ou seja, em vida, para médicos, engenheiros e advogados, a mais-valia da sua mão de obra é mais lucrativa do que post-mortem. Novamente, isto é no Paraíso, imaginem o Inferno…

A estrutura jurídica dos direitos de soberania é um pressuposto da ideia de governo, como uma condição de governo na modernidade. Na modernidade, o reino é a condição de governo. Na Idade Média, pode-se dizer que o regimen é a condição do regnum. Logo, os preceitos são opostos. A condição para que haja rei e realeza é de que o indivíduo que governa o faça com retedição: rex recte “regendo”. Afinal, o princeps é o primeiro lugar na ordem republicana. Ao reger com retidão, o indivíduo tem direito para ser rei. O rei existe para fazer a justiça no seculuum—o tempo dos homens, a realidade mundana.

Para Marcel Gauchet, Cristo é a radical subversão (oposição) às expectativas do que se supõe ser um messias. É pobre, ferrado, só apanha e, no final, não consegue salvar ninguém. Não tem redenção mundana, não chega envolto de glória. Não significou nem um pouco da pompa esperada de um messias. A Igreja se constitui na tentativa do monopólio das interpretações sobre a existência e a função do Cristo.

Então, naquele mundo do Nosso Lar, André Luz não tem sequer o direito de fazer perguntas. Reparem nisso: cada vez que ele faz uma indagação, leva um fora dos mais experientes. “Não faça tantas perguntas, tudo tem seu tempo para as respostas” (o mais interessante é que, nós, telespectadores, jamais saberemos quais são essas respostas). Nosso Lar menospreza as faculdades do intelecto—afinal, o conhecimento médico de André Luiz tornou-se completamente inútil—e faz apologia da alienação. Exemplos de frases concretas do filme? Eis: “Diplomas na Terra não servem de nada”; “O que sabe sobre medicina espiritual?” (eu, Eduardo Cidade, particularmente sei que ela não funciona, mas enfim); “Tente não pensar em nada”; “Diplomas terrenos!”. Aliás, para que exista medicina espiritual no mundo astral, significa que é possível sentir dor após a morte. Logo, não há total desvinculação com o corpóreo o que significa que o filme se contradiz o tempo todo.

O mundo medieval é tão somente um vale de lágrimas em espera da salvação. Qual é a justificativa e a legitimidade do governo mundano para exigir a obediência do cristão? O governo dos homens pelos homens faz parte dos planos da Providência Divina. E de que maneira entram nesses planos? Deve-se obedecer César porque o governante garante uma vida calma, serena, piedosa e digna. Os governantes indiretamente ajudam os indivíduos na vida virtuosa, criando as condições—paz e ordem—para que a realização de tal vida seja possível. Seria mais difícil alcançar a Virtude se houvessem conflitos e guerra. É o disciplinador dos corpos que assegura a ordem gerando o terreno favorável à dedicação da vida virtuosa. O rei (regnum) obriga os indivíduos a seguir a ordem pública. O reino é umaecclesia universalis—uma comunidade de fiéis batizados em Cristo. Não devemos confundir com uma hierarquia de organização eclesiástica, onde pertence o sacerdotium.

Atualmente, só se pode falar de governo supondo a existência de Estado. A equação é inversa no pensamento medieval. Só existe um reino digno deste nome se o rei é bom. O verdadeiro rei deve ser um santo. Ele personifica as leis naturais: ou seja, a ordem objetiva do mundo que deve servir de conduta para o indivíduo. O regime vem antes do governo! Os direitos de governo não precedem o governo. O rei apenas chega a sê-lo se for justo. As leis fundamentais são baseadas na tradição e, neste sentido, um bom motivo para uma revolta seria “eu me rebelo porque ele não cumpre o que prescreve a lei de Deus. Ele não é justo”. Surreal, não? A concepção ministerial da realeza deriva do fato que o ministério originalmente significa um serviço. O rei desempenha uma função eclesiástica. E o pastor é um ministro! Sacerdotium e regnum estão ambos ao serviço de deus. Surreal ao quadrado.

Então, aquele velhinho que concede ou não o direito das almas penosas falarem com os vivos é rei e sacerdote simultaneamente. O engraçado é que mesmo morto você não encontra com Deus diretamente, mas com seus asseclas. Deus é VIP demais para encontrar com sua própria criação. Em termos marxistas, seria ele um alienado? Já dizia Nietzsche: o cristianismo é o platonismo das massas (e antes de qualquer crítica, as religiões ocidentais, por mais que reivindiquem singularidade, possuem forte influência cristã).

Na virada do primeiro ao segundo milênio, o Papa Gregório VII propôs em sua reforma uma tentativa em submeter os governantes seculares à autoridade do babado, digo, papado. O rei começava a se secularizar, mas ainda é cedo para falar de uma ruptura, em termos modernos, da política com religião. No mundo de Nosso Lar, elas andam de mão dadas. Se não fosse o pecado, os homens não precisariam de um rei. Um evento que minou a predominância católica foi o de São Bartolomeu, na França do século XVI (quem não souber o que foi isso, Google! Se eu explicar, me estenderei demais). Surgiu uma necessidade dos protestantes defenderem publicamente a rebeldia contra o rei da França. A disputa é entre duas casas reais, os Guise (católicos) e os Bourbons (protestante). Catherine de Médici tenta matar o futuro Henrique IV, o rei protestante que se converte ao catolicismo e redige um edito de tolerância. Isso vai subverter as imagéticas do propósito do Rei e do Reino, mas não vamos nos apressar.

            Em primeiro lugar, o bem-comum é a paz. E o “um” (o rei) realiza melhor que dois, três ou quatro. Para São Tomas de Aquino, a monarquia realiza melhor a unidade e é de longe a melhor forma de governo. O papel do rei será tanto mais digno deste nome quanto mais virtuosamente ele cumprir sua função. A fácil definição de virtude é possível uma vez que operamos em princípios absolutos (o bom rei não tem muitos cavalos, não tem muitas mulheres e lê a Bíblia diariamente—que porre! Se é para ser rei assim, prefiro ser escravo).

Um senhor pode ser um tirano em sua casa. A tirania é um conceito independente de sua função pública. A Economia, originalmente, se refere às normais e leis da conduta da casa (oikos, em grego). Os missi são enviados do imperador encarregados de velar pela boa ordem do reino com fortes implicações morais. Não se trata somente de impostos, mas, por exemplo, verificar se as mulheres de dada aldeia são adúlteras ou não.

            Na década de 1260, a Política de Aristóteles é traduzida por um monge dominicano flamengo. Aristóteles fornece menos um corpo de doutrinas do que uma linguagem a partir da qual será uma vertente propagada. Há duas tipologias de regime na Idade Média: o regime político e o regime real. Nas monarquias reais, o rei governa segundo suas leis. No regime política, tais como nas cidades italianas, o sujeito que governa o faz segundo as leis da cidade.

            A Universidade é o local de produção intelectual dos séculos XII e XIII, com a expansão urbana e associação de pessoas. Uma universitas é composta pela pluralidade de um grupo humano; quase uma “pessoa jurídica” resultante da pluralidade de indivíduos. As diversas faculdades rivalizam entre si, buscam prevalecer um ramo do saber sobre os outros. As faculdades, por excelência, são: Direito, Medicina, Teologia e Artes Liberais.

            A escolástica é um método (é a cultura das universidades) de estruturação do pensamento, cujo patrono-mor é Aristóteles. Desenvolve-se então um rigoroso sistema de argumentação e retórica. A produção escolástica máxima são os comentários sobre uma cultura formada de livros cânones. O que se faz na Universidade é para aqueles que estão dentro destas, numa lógica coorporativa fechada. Não é muito diferente de hoje em dia.

            O que isso tem a ver com as aventuras de André Luiz no além?  Nada…digo, tudo! O não-questionamento e obediência cega à autoridade são típicos do pensamento escolástico. Aristóteles disse x, então é x. Pode-se, no máximo, tecer comentários. “Beba água e não fale nada” – o que é isso senão incitação à não-crítica, suprimento do pensamento crítico? “Toda forma de servir é uma benção”: não seria uma total defesa da hierarquia já dada no mundo, na qual devo me conformar com as estruturas tais como elas já são designadas por um artífice soberano e supremo, inquestionável?

            Agora, o mais surpreendente de tudo! Se você acha que, após a morte, baixar na cabeça do Chico Xavier ou qualquer outro médium é de graça, reles engano! Um morto não pode simplesmente sair entrando na mente de qualquer médium: é preciso trabalhar! Os vivos pagam a conta do celular; os mortos, para falar através dos médiuns. É justo, não? Na verdade acho uma palhaça. Em Nosso Lar, é preciso acumular bônus-horas para merecer serviço. É “trabalho, sempre trabalho”. Mas em prol de que os mortos trabalham para construir algo? Se é metafísico, se não está submetido às leis da física, simplesmente não há necessidade empírica alguma. É totalmente moralista. A generosidade jamais é gratuita e o exemplo do filme deixa isto nítido. Uma morta infeliz não consegue enviar mensagens para a família. Ela precisa fazer algo para merecer. Assim, se fosse entre os vivos, entenderia, mas por que diabos o Paraíso é tão infernal, tão humano, demasiadamente humano? Nem mesmo no Céu pode-se escapar da lógica da dádiva, da maldição do dom, do Marcel Mauss? E praticamente o dinheiro astral deles serve apenas para entrar em contato com os vivos, ainda assim, é desaconselhado. “Não vale a pena entrar em contato com os vivos, é preciso ter espiritualidade”. Tipo, eu não sou um espírito? Somente espírito, aliás? Como é que faço para ter ainda mais espiritualidade se já sou, integralmente, um espírito? Bem, provavelmente não sou tão espírito assim, uma vez que, para se ter uma casa, preciso merecer. E quem não merece? Vira mendigo no Paraíso? Ou é um pressuposto que há seleção prévia, no sentido que somente os já disciplinados na doutrina e aptos a aceitar qualquer palhaçada dita podem adentrar o grupinho?

            Tudo bem que a ideia de liberdade como isenção de regras é moderna, data de Hobbes (e, mesmo assim, em Kant liberdade é um tipo de ação isenta de influência sensível, pautada pela racionalidade e com fortes implicações morais). Para os Antigos, liberdade é poder participar da vida política da civitas, mas carambolas…

            Nesse mundo astral, os dirigentes dão o exemplo… aff! É praticamente um daqueles discursos clichês de mercado, que exigem do funcionário o mesmo padrão de excelência que o patrão, mas sem recompensá-lo igualmente. E se ousar exigir recompensa, é mesquinharia. Ou melhor, é aquele velho discurso que o excesso material é dialeticamente proporcional ao vazio espiritual. Discurso tal que funciona somente com os proletários, não com os dirigentes. O filme é explícito nisto. O mundo que valoriza o valor de troca da mercadoria cai na contradição de que, em última análise, não há valor em nada. Pensei que o Paraíso estivesse acima disto, mas me iludi…

            Bem, se não é para falar com os vivos na lan house (sim, os mortos se comunicam com os médiuns em lan houses astrais. Tem Internet e tudo no universo supostamente imaterial). Entrementes, se para além de morar num bairro proletário e falar com os vivos nalan house, qual a finalidade dessa pregação moral toda sobre a importância do trabalho? Teria Tomas de Aquino a resposta para o enigma?

O Homem tem um fim para o qual está destinado, a razão é o meio para alcançá-lo. Como os homens divergem sobre estes fins, é preciso que um dirigente defina e oriente os homens. Telos, em grego, significa fim. A concepção da Natureza em Aristóteles é teleológica. Só se conhece a Natureza de algo quando suas potencialidades estão plenamente desenvolvidas. A Natureza do homem é ser um animal político; o homem está destinado em viver na cidade. Somente na cidade o homem se realiza plenamente. Lá, sua situação será de suficiência (e as necessidades humanas não são apenas materiais).

            Neste contexto, o regente existe por fazer parte de uma ordem da Natureza. Se antes o rei existia pelo pecado, em Tomas de Aquino é um dado inevitável da Natureza, de caráter ontológico. O fim da comunidade é o bem da multidão: é a paz e a unidade. Logo, a finalidade do rei tem um quê de mundano, apesar de toda pregação sacerdotal. A Graça não contradiz a Natureza, mas a aperfeiçoa. Existe congruência entre a ordem do mundo e os planos da Providência.

A verdadeira natureza é a semelhança de Deus; no entanto, por conta do pecado, o homem nega sua própria essência. Se os homens não fossem pecadores, bastariam os sacerdotes. Os topos são pontos de passagem canônicos na formulação da retórica. Qual é o fim do homem? O homem possui a razão para reconhecer seus fins, entretanto, a razão não lhe basta. Acontece, porém, agirem os homens de modos diversos em vista do fim, o que a própria diversidade dos esforços e ações humanos patenteia. Portanto, precisa o homem de um dirigente para o fim. É a carência biológica dos homens que os impelem à associação. Neste sentido, é utilitário. Lembremos de Max Weber em sua distinção entre ação instrumental e ação baseada em valores (há outros dois tipos de ações para Weber, como a via afetos e a por tradição). Uma ação relativiza os valores em função de cálculo de fins e meios. Noutro, entra a questão dos valores e honra. A deficiência do homem é suprimida pela capacidade de associação política.

            Oras, é melhor ser dois juntos do que um; desta forma pode-se tirar proveito da mútua sociedade. A natureza é o fim e a natureza do homem é a cidade, por lá encontrar condições de plena suficiência. O atributo natural implica atualização de determinada potencialidade. Em Max Weber, na Ciência como Vocação, não nos é mais dado fazer como um cientista do Renascimento. Ao conhecer fatos, se descobre sentidos, como por exemplo se alguém desvendar a natureza do piolho por consequência prova-se a existência dos deuses (se o piolho é perfeito, então ele é necessariamente obra divina). É por isso que argumentos religiosos são tão evidentes para os crentes e simplórios para cientistas. Se o mundo é tão belo, então necessariamente foi criado por entidades supremas. Tenho certeza que todos aqui já ouviram tal argumento. Aff.

            A cidade visa a vida boa e a virtude daqueles que nela vivem; é para além das meras segurança e manutenção utilitária das condições de vida. A linguagem em sua essência exige a cidade! Antonomasticamente (por analogia, por identidade raiz), o despotes—ou seja, déspota—, é o nome grego para o senhor de uma casa. O senhor concebe, o escravo realiza. A casa surge em condição de falta originária de cada um dos componentes. De uma associação de casas, surge a aldeia, que suprirá as carências da casa. De várias aldeias unidas, emerge a cidade. A cidade basta em si mesma, é o ponto de chegada. Aquilo que é suficiente é plenamente. A cidade é o ponto de chegada por ser suficiência e plenitude em termos ontológicos. A falta de tal plenitude é uma falha, uma falta da própria identidade. Afinal, o corpo que não muda é idêntico a si mesmo—e isso é o ideal na Antiguidade e na Idade Média.  O movimento na Física aristotélica é impulsionado por uma lógica de identidade, de essencialidade. Para Kant, a Natureza é o conhecimento de fenômenos, daquilo que é observável. O ideal é buscar conexões factuais. Em Aristóteles, fatos e sentidos são categorias inseparáveis. Falar da natureza do homem é ponderar do próprio sentido da existência humana. Ou melhor, arethé—virtude, excelência, aquilo que é bom e belo. O bom é associado ao reconhecimento dos outros de sua excelência. Lembram do Banquete do Platão? Alcebíades e Ágathon? Então, ágathos significa bom. O Cristianismo reverte essa concepção, uma vez que, quanto melhor for o indivíduo, menos este deve aparecer para os outros.

            Enfatizo que, para São Tomas de Aquino, o bem comum é a unidade, ou seja, a paz.Politeia pode, além da forma adequada da democracia, com cautela, ser traduzido comoconstituição ou regime. O regime bem organizado está em sintonia para com a finalidade ele mesmo existe, em harmonia com a natureza. Como o mundo é imperfeito, há espaço para a ação humana uma vez que a natureza não realiza por si só. Se muitos governarem a cidade, todos estes sujeitos precisarão submeter suas vontades a uma única vontade. Adiante, a natureza também funciona deste modo, realizando a unidade de modo mais eficaz. Porém, se um realiza o bem melhor, também realiza o mal pior vide ser uma vontade única na direção ruim; no caso dos muitos ruins, os interesses maus se neutralizam. A tirania absoluta é a pior forma de governo; não obstante, só um tiquinho de tirania ainda é melhor que a democracia. Melhor uma tirania light, com poucas calorias, do que a democracia. Se o importante é a unidade da cidade; neste aspecto o argumento é mundano. Os fins que dizem respeito à salvação dos homens não necessariamente coincidem com a salvação da cidade. E a salvação da cidade é a suprema lei.

            Até porque, se fosse só eclesiástico, os termos seriam incompreensíveis. De certo modo, isso justifica a lan house e as casas proletárias em Nosso Lar (sem contar os trens futurísticos estilo parque de diversões da Disney).

            As monarquias medievais são frequentemente eletivas. A eleição não é popular, mas o resultado da escolha de indivíduos de posição privilegiada. Não é por voto individual, mas fruto de consenso unânime. Um poder que limita o soberano é a negação do direito de matar e a possibilidade de resistência ao tirano. As autoridades são, então, aqueles que cumprem funções públicas, podendo destituir o tirano (e de qual país e século falamos).

            A resposta para o risco de tirania é simples. O governo misto. Neste arranjo, as virtudes não são dos governantes, mas das instituições. Elas não necessariamente produzem virtude, mas elaboram limites e restrições. No pensamento grego havia um ciclo vital básico das sociedades humanas. A monarquia se estabelece diante o caos do suposto Estado de Natureza. Os sucessores do primeiro rei esquecem da situação original de conflito e pensam mais em si mesmos do que no interesse público, culminando em tirania. Eventualmente são depostos pelos aristocratas que, caídos no vício, se entregam à oligarquia. É, então, novamente deposta: eis o surgimento da democracia. No governo misto, cada tipo de órgão encontra o contra-peso com os demais. Encontra-se uma ordem os diferentes regimes se equilibram mutuamente. É cheia de freios e contrapesos (checks and balances, no pensamento político anglo-saxão). Tal mecanismo evita o abuso de poder.

            Como garantir a estabilidade, a permanência—ou seja, a durabilidade—na vida da cidade? São Tomas de Aquino recupera a reflexão de Políbio. O regime é condição do reino, então Aquino aplica a ideia da linguagem da constituição do governo misto nesta. Não é uma descrição, mas uma afirmação normativa. O pressuposto do Rei é a justiça daquele que governa. O arranjo do governo misto permite uma realeza política. Logo, o rei é limitado pelas leis, assegurando que o rei governe com retidão e justiça. Não se trata da preocupação com a comunidade de cidadãos, mas a importância de assegurar que o monarca não se torne um tirano. A constituição mista, para Aquino, é a possibilidade da monarquia limitada. Se o rei for extremamente virtuoso, ele não estará submetido à lei vide que sua própria lei é a Justiça. Esta seria a monarquia real, mas não é “plausível”. Tempera-se o rei: a melhor forma de limitar o poder do rei e garantir a Justiça. Para Políbio, é mais importante a estabilidade e a paz. Na lógica de Aquino, não há Estado.

Em nota: governo misto é um protótipo da divisão dos poderes de Montesquieu. É uma tentativa de combinar monarquia com aristocracia e democracia, mas não planejo me estender muito nisto. Na minha humilde opinião, qual a forma de governo em Nosso Lar?

            Oras, trata-se de um governo oligofrênico (tal palavra significa, literalmente, débil mental). No Leviatã, de Hobbes, o estado de natureza é de homens segmentados. A instituição do governante transforma a multidão em pessoa pública. A realização da unidade da multidão envolve o conceito de finalidade uma vez que a ordem pública não é apenas a delegação de disciplinas. Ela envolve alguma concepção teleológica da vida coletiva: a sociabilidade dos homens tem determinado fim. No Leviatã, o homem não é social e tampouco tem um bem supremo. No mundo do Hobbes, não há finalidade objetivamente dada na vida política. Nossas percepções sensoriais recebem impressões que desempenham pressões por todo o corpo. Onde não há movimento, não há vida. Os valores são resultados dos nossos apetites que consideramos bons e ruins. O Bom depende dos apetites, daquilo que dá prazer. O mau é seu avesso. O desejo e a aversão não existem fora do Homem: existem apenas movimentos internos do corpo produzindo valores.

            Em São Tomas de Aquino, a ordem do mundo está objetivamente dada. Alguém lembra de como é a capa do Leviatã? Há um sujeito segurando um báculo—espécie de cetro episcopal—em uma das mãos e uma espada, na outra. A cabeça dá unidade ao corpo, que é composto por múltiplos bonequinhos—digo—súditos. O poder é um artífice e, sem um poder público, a unidade seria impossível. Os homens são dissidentes. Em Aquino, o poder não é um artifício, mas uma exigência lógica para alcançar os tais fins da Natureza. Se não há poder, então temos uma aberração. A comunidade perfeita, por natureza, exige a existência do poder. Entretanto, isto é pela lógica. Empiricamente, dada a imperfeição do mundo, é possível que o poder não exista (o que é, ressalto, uma aberração). A tirania em excesso é o pior dos regimes, porém a tirania moderada é melhor que o mau governo de muitos. A democracia permite que cada um busque seus próprios interesses, rompendo a unicidade do bem-comum.

            Religião não é qualquer Política. É monarquia absoluta!

            Para finalizar, não posso deixar de falar da Eloísa, uma jovem morta que chega no além quando André Luiz começa a se adaptar com todo aquele esoterismo. Ela é rebelde, acha aquelas casas proletárias muita pobreza, detesta as lições de morais chatas e sei lá o que ao quadrado. Portanto, ela é categórica ao afirmar que tem direito sobre a própria vida. Eu também pensaria isso, mas André Luiz refuta, diz que não. Ele explica sobre a Lei da Ação e Reação, no melhor estilo de livros de auto-ajuda. Pode-se pensar que é o momento mais emocionante do filme, que enfim vai acontecer algo em torno de todo aquele sermão. E acontece. Mal Eloísa tenta fugir do Paraíso que ela se dá mal. O Céu é um cárcere privado. ÉLeviatã. Ao menos Hobbes é mais pragmático do que moralista.

            Regimem Bene Commixtum: regime adequadamente misturado. A representação não é algo resultante de uma designação eletiva. No melhor regime, há um que preside, alguns homens virtuosos exercem funções no principado e muitos elegem o príncipe. O melhor regime combina elementos de três formas constitucionais—a monarquia, a aristocracia e a democracia. É na questão da constituição mista em relação à monarquia absoluta que Aquino e Nosso Lar começam a divergir. Porém, na parte da virtude e do auto-convencimento da doutrina dominante, são quase idênticos.

Não troco nosso planeta azul por nenhum outro lugar na galáxia, nem pelos mundos felizes”. É preciso ser masoquista para dizer isso. Se o Homem não busca a felicidade e nem mesmo no Paraíso ela é encontra, o que é que ele busca? Ah, não caio nessas. O Homem moderno busca a felicidade. O Homem medieval, a salvação, mesmo que isso implique em preferir deliberadamente o sofrimento ao invés da boa-venturança.

Vamos combinar que os Vikings, estes sim, sabiam o que é realmente o Paraíso!

Não vou estragar a surpresa para quem não viu o filme, mas estas cenas, embora não realmente relevantes para o texto, não podem ser ignoradas!

*Depois de tanto discurso de superação e desapego de questões mundanas, André Luiz sentiu ciúmes ao saber que a mulher arrumou outro. Ah, francamente, que superação fajuta!

*O final do filme fala do André Luiz como se ele fosse uma pessoa de verdade, “André Luiz continua a trabalhar em Nosso Lar até os dias de hoje”. Ele não quis reencarnar de 1930 até a atualidade. Gostou mesmo de morrer. Será que o IDH é alto em Nosso Lar pra valer tanto a pena? Bem, só pode ser, porque night e diversão são inexistentes. A única coisa que compensa são os concertos de música clássica ao ar livre naqueles belos jardins, mas acho que não pode beber, então fica sem graça…

Por: Eduardo Cidade.

A Viagem de Chihiro

A Viagem de Chihiro – Sen to Chihiro no Kamikakushi

Direção: Hayao Miyazaki

Gênero: Animação

Japão – 2001

Olhos redondos e expressivos. Mundo mágico dentro de outros mundos. Desenho prestimoso e detalhado. Um anime de alta classe. Este filme é isso e muito mais.
Se sua visão ocidental de sonho ainda é presa a reles flashes do subconsciente, prepare-se. Vai adentrar em outro nível de realidade!

Dispa-se das dificuldades de assimilação do adulto. Viaje. Entrando num túnel e comendo até virar porco, assim é o destino dos pais de Chihiro. Ela está sozinha. Pode interpretar como rito de passagem da idade infantil para a adolescência. Ou como devaneios de um habilidoso desenhista.

Mas absolutamente ninguém fica alheio ao belíssimo trabalho de Hayao Miyazaki. Estamos em um gigantesco hotel que recebe deuses de inúmeras origens. Eles vão para relaxar e se divertir. O gerente é uma velha que desumaniza seus funcionários, transformando-os apenas em nomes sem origem.

Como sobreviver no universo adulto? Arranjando um trabalho. Claro. Encaixando-se na sociedade. Óbvio. Mas não é bem assim. Chihiro vira Sen. Obtém ajuda cúmplice do misterioso Haku, menino esperto e aprendiz de feiticeiro. Mas rala bastante. Indescritíveis as cenas do vai-e-vem dos hóspedes. Todos diferentes de tudo que já vi.

Adoro o multi-homem da manutenção. Coração puro em um lugar insalubre. Outro personagem incrivelmente forte é o fantasma que entra no hotel. Dá e recebe. Nem bom nem mau. Apenas vive. A Yubaba apesar de sua mão de ferro, cria o filho com mimos exagerados e amor superprotetor. Isso dá vazão a mil interpretações psicanalíticas.

Chihiro vai se destacando em suas funções e deseja reverter o quadro suinesco de seus pais. Alguns segredos haverão de surgir. Afinal? Quem é Haku, além de ótimo amigo? E a irmã gêmea da Yubaba, que é boazinha? Se você possui a alma leve e infantil logo perceberá que Haku é um animal mágico, especial. Se for apenas um adulto babaca, saia do cinema, pois já se passaram mais de 90 minutos para um filme de “desenho animado”. Tempo demasiado. Principalmente para os fracos de imaginação.

Enfrentamentos, desenhos poéticos como o trem, por exemplo.  As gaivotas de papel. Ou até mesmo o dragão, com sua beleza feroz. As cores são destaque, o requinte dos movimentos rivaliza com a Disney. Mas ninguém canta. É mais profundo.

A menina consegue salvar o dragão e resgata os pais. Mas jamais será a mesma. Suas aventuras fazem-na crescer e entender que o mundo real é pior do que o imaginário. Mas a vida sempre reserva surpresas positivas para quem sonha.

O que há de bom: desenho riquíssimo e idéias absolutamente originais
O que há de ruim: trilha sonora fraca
O que prestar atenção: a identidade é o segundo mais precioso bem que temos, somente perdendo para a liberdade
A cena do filme: ela cavalgando o dragão, lindo!

Cotação: filme ótimo (@@@@)

Por: C.O.B.R.A.

A Garota da Capa Vermelha

A Garota da Capa Vermelha – Red Riding Hood

Direção: Catherine Hardwicke

Gênero: Suspense, Romance

EUA – 2011

Para inaugurar, em definitivo, o ciclo de textos temáticos – visando comemorar o Dia dos Namorados – trago a Chapeuzinho Vermelho, que é comida pelo Lobo Mau. Dizer isso é como dizer tudo, ainda mais quando os olhos (“pra ver melhor”) se deparam com o título e com a direção do filme. 1. Quem conhece a Chapeuzinho Vermelho sabe como a história começa e termina; 2. Quem sabe que Hardwicke fez Crepúsculo também sabe que no filme a mocinha será disputada por dois e que o assunto virgindade poderá compor a pauta. Ok. Sem surpresas até aí.

Acontece que felizmente a diretora inseriu um elemento na trama e no suspense que julgo muito interessante: quem é o assassino/lobo mau já que todos são suspeitos? Bingo! A partir de então, o enredo se cria em outro clima (mais atraente, vale dizer) e que me fez ficar atenta aos detalhes da história. Pois, de possível chateação “crepusculiana” me vi imersa numa narrativa detetivesca! Porém, contudo, entretanto e todavia, não é por isso que o filme seja bom ou espetacular…

Bem, comecemos pelo o início.

Valerie (Amanda Seyfrield), a Chapeuzinho, desde criança se mostra “má”. Isso se tomarmos o parâmetro de matar animais como um ato de maldade. Pra mim é. Pra mim é extrema crueldade matar qualquer ser que seja pelo simples gozo de matar. Bom, independente dos juízos de valor, Hardwicke inaugura uma novidade na história: de que Chapeuzinho não é tão do bem como muitos pensam. Na verdade, nenhuma criança é pura, como dizem por aí. Elas são, sim, indefesas. Claro. Não tem força, nem experiência, para se defenderem do que o mundo pode fazer com elas. Mas, dizer que são inocentes… convenhamos! Felizmente, Freud acabou com esse mito… o parceiro da Chapeuzinho também não é lá tão do bem assim. E como é esperado pra não fugir tanto da história original, ele se torna um lenhador/caçador.

São apaixonados um pelo outro desde crianças e sonham em ficar juntos por toda vida. Muito bonito. Acontece que Peter Falk (Shiloh Fernandez) é pobre e na aldeia em que vivem, como em qualquer outra “aldeia”, o dinheiro determina ‘certas’ visões de mundo. Amanda tem um outro pretendente (Henry – Max Irons), que ela não o ama, mas que é rico. Então, sua família deseja que ela se case com o moço rico. Vale ressaltar que o pai de Valerie é o mesmo ator que faz o pai de Bella da saga Crepúsculo (Billy Burke). Não é preciso dizer que Valerie se encontra às escondidas com Peter etc, certo? Afinal, há uma grande contradição na sociedade: as pessoas afirmam categoricamente que o amor é lindo, porém, determinam que a pobreza é horrorosa. Então, na luta braçal entre o amor ser lindo e a pobreza ser horrível, o/a rico/a é sempre melhor pretendente para aqueles/as que desejam ter um “bom” futuro pela frente. O futuro, afirma a maioria, é pautado no “ter” e não no “ser”.

Em meio a toda essa questão, surge na aldeia um lobo mau. Ocorre que esse lobo não é um lobo comum, é um lobisomem e quer levar Valerie embora a qualquer custo. Quem pode ser esse lobisomem que já fez algumas vítimas?

Nos papéis de detetives da história, se encontram o padre Solomon (maravilhoso Gary Oldman) e, nas entrelinhas, a vovozinha de Valerie (Julie Christie). Sim, sim, a vovozinha do filme quem deu à Chapeuzinho a capa vermelha com capuz! :D Também não é preciso dizer o fim da Vovozinha, certo?

Uma curiosidade particular: lembro-me que meu pai lia historinhas para mim antes de dormir e num rompante de curiosidade latente, questionei: pai, como que o lobo come a vovozinha e ela permanece viva? Bom, convenhamos que se trata de uma pergunta óbvia e que deveria ser feita por todas as crianças que escutam essa narrativa…

Retornando ao filme, acredito que o grande erro de sua estrutura foi ter instaurado uma inquisição ao lobisomem sob a égide do catolicismo. Ainda que seja preciso reconhecer que a Igreja Católica modelava os costumes e a moral da sociedade ocidental em alguns séculos atrás, a maneira como a diretora inseriu o contexto religioso na história não ficou bom. Definitivamente, ficou horrível e detonou com metade do longa.

Então temos: um triângulo (forçado) amoroso, um lobisomem que deseja fazer vítimas e comer geral e a Igreja Católica condenando (ao colocar tudo no pacote de “bestialidades”) o amor, o tesão e o sexo livre. Em resumo é isso, só que conta com a vestimenta da fantasia, do tempo… o que faz parecer que o filme está numa época muito distante de nós. Será?

O lobo mau, neste filme, “se deu bem”. Será que Jacob se dará mal ao fim da saga de Crepúsculo? Cenas dos próximos capítulos…

Por: Guerra de Pipoca.

Trailer Harry Potter

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 estreia nos cinemas em 15 de julho, em 2-D, 3-D e IMAX. É o fim da saga e, pelo jeito, o tão esperado confronto vai acontecer.

E o beijo da Hermione e Ronie? Sai ou não sai?

Por: Vampira Olímpia.

Sobre Alice…

 

(Feita por mim do livro: Alice no País das Maravilhas)

Alice no País das Maravilhas  de Tim Burton – EUA / 2010

Por um motivo muito simples gosto bastante desta obra: toda a jornada de Alice é para conhecer aquilo que é desconhecido. Nada mais psicanalítico do que isto. Aliás, Alice é um incentivo para qualquer área desde que seja do saber ainda não sabido. Creio que pesquisadores, etnógrafos, analistas e até mesmo curiosos perguntadores sobre “por que o céu é azul” tem um pouco ou muito do “sangue” desta menina de belos cachos dourados. Não me resta dúvida: saber é um verbo que atinge o imaginário do país das maravilhas. Não importa se a dúvida é sobre “por que somos assim?” ou “por que Urano está tão longe do Sol?”, posto que – no fundo e no raso – qualquer pergunta que se faça é uma busca de sanar o  desconhecido de nós mesmos. “O que somos nós? Quem somos nós? Pra onde vamos nós?” –  O que Alice faz senão isto? Portanto, é uma obra literária que recomendo por, também, ser ancorada na fantasia. Aquilo que não damos conta de resolver, fantasiamos. Não esta fantasia consciente e que é dita de maneira racional, me refiro à fantasia inconsciente. Esta que não é conhecida… Ou seja, fantasiamos o tempo todo, ainda que não “saibamos” sobre isso.

A minha relutância em assistir a este filme diz respeito à repetição nos cinemas desta obra tão cara. Ora, se o assunto diz respeito ao desconhecido, por que repeti-la tantas vezes sob diversas máscaras a ponto de perder sua graça? Ou seja, a obra já está tão conhecida que a mensagem sobre buscar o desconhecido perdeu um pouco de seu valor no cinema. Será que não há mais nenhuma história de fantasia desconhecida que não possa ser retratada na telona? Só há a Alice? Tão limitante e limitado restringir a fantasia a apenas Alice no País das Maravilhas. Tendo a pensar que nós, seres humanos, estamos muito empobrecidos de criatividade…

Portanto, depois de um ano de seu lançamento, só agora que me dispus a assisti-lo. Espero que nenhum outro diretor tenha a falta de imaginação de por Alice mais uma vez nos cinemas. Já deu. Não há mais o que sugar desta obra. De maneira que imagino que esta Alice já se esgotou em possibilidades de mostrar sobre o desconhecido. Já se tornou conhecida demais e sob formas das mais variadas.

Falar deste filme, por conseguinte, é esmiuçar a pobreza da falta de criatividade desses diretores do Cinema. Deixo pra lá por respeito à obra literária, que é linda e instigante; e, sobretudo, não precisou ser feita em 3D para conquistar o mundo. Ao contrário, é uma trama muito simples.

Pra que complicá-la?

Por: Guerra de Pipoca.

2 anos de Guerra de Pipoca!!!

Enfim, se fechamos o ciclo de mais um ano, então, que venha mais! Somos gulosos!

:D

Parabéns para nós!

Beijos,

Guerra de Pipoca.

Harry Potter – As Relíquias da Morte Parte I

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Harry Potter and the Deathly Hallows – Part I

Direção: David Yates

Gênero: Fantasia, Suspense

EUA – 2010

Quando nos tornamos adolescentes e posteriormente adultos, nossas aventuras se tornam mais solitárias; é inevitável. Toda a magia da infância de estar recheado(a) de amiguinhos, brincadeiras e diversões cede lugar para responsabilidades outrora jamais vistas e sentidas. Claro que alguns de nossos amigos se tornam mais especiais do que outros e, de maneira rara, trilham conosco. É tentador puxar a prosa para o aspecto solitário de ser adulto, mas – após conversar longamente com Vamp e Circe sobre o assunto – decidi permanecer no roteiro do filme, embora visite essa ideia à distância, uma vez que Harry Potter agora cresceu e tem a dura responsabilidade de achar as horcruxes e matar Voldemort. Não é uma responsabilidade fácil e muito menos para ser cumprida por um garoto de 17 anos, ainda mais porque Dumbledore está morto, mas como é o único a permanecer vivo sob ataque do Mestre do Mal, então, é o único que conseguirá matá-lo, por lógica medieval. Será?

Sabemos antes de vermos o filme que será lançado em 2011 que sim, mas vamos fingir que não sabemos? Em “As Relíquias da Morte – Parte I”, Harry Potter se une ao Rony e Hermione para preencher o quebra-cabeça proposto anteriormente por Dumbledore. Cada horcrux que Voldemort criou para garantir sua imortalidade precisa ser encontrada e Harry só tem conhecimento de 2. Acontece que Dumbledore, sábio como tem que ser, deixa herança para os três em seu testamento. Com tais presentes é mais fácil achar uma luz no fim do túnel. Lumus Maximum!

Finalizo por aqui a curta sinopse sobre o filme, seria injusto prosseguir com ela já que não sei se este filme já foi visto por todos do blog. No entanto, quero seguir com minhas impressões pessoais sobre a obra e tomarei o cuidado de não liberar “spoiler”, os que detonam com a graça, obviamente.

Impressiona a qualidade do filme, muito bem feito – como de costume. Dessa vez usaram a dinâmica da “escuridão” para conferir tensão à narrativa, além de garantir uma nuvem negra e melancólica sobre os conflitos existenciais de nossos jovens bruxinhos. Em contrapartida a tal tom, o longa está mais elaborado em termos de recursos especiais e tecnológicos, além de que salta aos olhos a diferença entre os cenários: nos filmes anteriores, as ações ocorrem na escola de magia (Hogwarts ) e neste, as ações se dão em florestas, montanhas, tudo muito solitário e sombrio. Não nego que senti falta de ver a escola, mas concordo que ela não tem a mesma graça sem Dumbledore. Ele lembra aquele(a) antigo(a) e inesquecível professor(a) que um dia fez parte de nossas vidas escolares…

Não gostei da ideia roubada de “O Senhor dos Anéis”: de conferir poder negativo à horcrux – colar. Levando-se em conta que Tolkien escreveu antes de Rowling, me dou o direito de pensar que foi uma “cópia”, ainda que sofisticada, de algo consagrado com Frodo e Gandalf e não, Potter e Dumbledore. Mas, pode ser que para muitos não aparente desta forma, repito: opinião particular sustentada por impressões completamente subjetivas.  No entanto, não me convenceu as mudanças de humor repentinas de quem levava o colar no pescoço.

Dobby é uma gracinha de elfo e neste longa está fofíssimo, mas também não gostei das semelhanças dele com Gollum. A questão da mestria: de colocar Harry Potter no lugar de seu mestre forçou uma analogia com a mestria de Frodo. Contudo, Dobby não tem nem um terço da esquisitice de Gollum, o que o salva em carisma. È possível que os espectadores tenham saído do cinema bem mais solidários com esse mundo de bizarros seres. “Harry Potter”! Sem dúvida: os tênis de Dobby roubaram a cena. rss

No mais, feliz que tenham dado à Hermione o valor que ela merece por sua intelectualidade e brilhantismo enquanto bruxa. Até então pintaram sua personalidade como uma garota chatíssima e agora, a maturidade – ainda que parcial – a ajudou a por seu sintoma em seu favor. Rony está enorme, mas continua aquele menino de sempre, com pouco mais de coragem e firmeza, no entanto. Menos no que se refere “beijar a noiva”. Quando é que ele vai beijar Hermione, afinal? Santa lerdeza, Batman! Harry… bom, melhor ir ao cinema assisti-lo, não?

Ah! Não posso deixar de falar da entrada da casa de Lucius Malfoy. Lindo! Nuvens negras, tom nublado, aspecto medieval de quem pisoteia na masmorra…

Por: Morgana.

O Auto da Compadecida

O Auto da Compadecida.

Direção: Guel Arraes

Gênero: Comédia

Brasil – 2000

“Não sei, só sei que foi assim”.

Talvez dizer isso seja o suficiente para quem viu. É motivo de rir e de lembrar de uma sucessão de jargões hilários e expressões inesquecíveis deste filme que mostra, sim, a miséria nordestina – uma das marcas do cinema brasileiro-, mas com o diferencial de ser com muita graça e bom humor.

“Passei 3 dias deitado numa cama e nem um copo d´água me mandaram.  Enquanto a cachorra comia bife passado na manteiga!”

Há várias maneiras de se contar uma história e O Auto da Compadecida, quando busca na comédia a base de seu enredo, conta a dinâmica interiorana brasileira cheia de graça. O fato do filme ser no nordeste é só um “detalhe”. Toda cidade do interior do Brasil tem uma praça, uma igreja (com missa sendo rezada se duvidar exatamente agora), um mercado que o dono é conhecido de e por todos,  um senhor de idade andando a pé puxando seu cavalo na corda, vários cachorros correndo no meio da rua, alguns dormindo na calçada e um Banco do Brasil. Sul, Leste, Oeste e Norte! É assim a estrutura interiorana brasileira. Contar miséria? Ah! Pode ter certeza absoluta que a cada janela aberta com duas mulheres observando os andarilhos são vinte fofocas lançadas na cidade. Fazer disso uma história cheia de tristeza, como em alguns filmes brasileiros, pra que?

“Cidadezinha tá muito parada! Minha mão ta coçando prá dá uns bufete!”

Na verdade, o interior nunca está realmente parado, mesmo quando a inércia é visível aos olhos. Tem alguns interiores que são mais ‘interior’ que outros interiores, que, por total falta do que fazer, há sempre algo para ser feito. Nessas minhas andaças por aí em vilarejos, já ouvi de um senhor a seguinte sabedoria: – “Senhora, a gente num tem teatro, cinema, uma coisa diferente para passear, o jeito é os homi beber cachaça, as mulher falar da vida alheia e as beata rezá por nós”. O Auto da Compadecida é quase isso. No lugar das “beata” tem um padre que entra em desavença justo com a mulher do padeiro, que promete pegar a vaquinha de volta caso o mesmo não reze o enterro da cachorra em latim!

Ah! Tem mais isso no interior: enterro. Aliás, qualquer enterro é motivo de certa “festa” no interior. Tudo para, a fofoca é geral e todos se preparam para o grande momento. As melhores roupas são tiradas do armário, claro. Por pouca coisa para fazer, poucos eventos importantes acontecem, e o enterro é um acontecimento! Pouca gente, todo mundo sabe da vida dos outros e aquele morto é sempre um conhecido. Mesmo quando é conhecido do conhecido do conhecido do conhecido. Não importa, importa que é um conhecido de alguém conhecida!

“Taí duas coisas que eu não sabia: uma que eu era corno e outra que morto falava!”

As traições, no interior, também são grandes acontecimentos. A mulher fica mal falada ad eternum e o homem, a vítima – coitado, um corno pelas costas e um homem de bem na frente dos parceiros, um pai de família decente que não merecia isso! Ah! Se a traição vem do homem? Nem merece comentários, as fofoqueiras não alardeiam muito, afinal, “homem trai mesmo e a mulher que é burra de tolerar um homem desses”. No fim, a culpa é sempre da mulher. Porque a estrutura interiorana é mais machista do que se imagina.  A diferença do filme O Auto da Compadecida é que quem sapateia no improvável é a mulher do padeiro!

Enquanto a filha do fazendeiro coronel da cidade é uma mocinha virgem, a donzela puritana que foi pedida em casamento pela dupla Chicó e João Grilo, a Dora, mulher do padeiro, pinta, borda e manda em todo mundo, desde o Bispo e Padre até no valentão da cidade, o Vicentão.

E por falar em “oxi”… quem é que não queria ter um gato que “descome” dinheiro? Imagine você ter uma mina de dinheiro que é produzida pelo fiofó do bichano? Ah! Cada cultura tem seu folclore, suas fantasias mitológicas, o gato que descome dinheiro é, no mínimo, uma invenção sensacional! Para esta história, o valor do dinheiro é o mesmo do local onde ele nasce! O Auto da Compadecida deixa isso claro o tempo todo, seja quando  João Grilo é maltratado pelos patrões até quando o coronel decide tirar uma tira do “côro” de Chicó por ele não ser um rico pretendente à mão de sua filha. Sem contar que o padre, pela vaca e dinheiro do padeiro, reza a missa em latim e depois tem consentimento do bispo. Ah! o gato que descome dinheiro é uma linda metáfora “interiorana mitológica”.

“‘I love you’, que é morena em francês.”

Isto eu nem preciso comentar, né? Melhor falarmos do cangaceiro Marco Nanini! Espetacular!

Cangaceiro: – Qual a sua graça?

João Grilo: – Pobre não tem graça, pobre tem desgraça.

E o cangaceiro: – Então qual é a sua Vossa Desgracença?

hahahahahahaha! Muito bom!

E aqui vem uma das partes mais surreais do filme: a gaita!

Realmente, não precisa dizer mais nada, a não ser que recomendo, claro! Pois como dizia Ariano Suassuna, quem escreveu essa história, “não troco o meu ‘Oxente’ pelo ‘Ok’ de ninguém”. :D

rsrsrs

Por: Guerra de Pipoca.

O Último Mestre do Ar

 

O garotinho Avatar chamado Aang

 

O Último Mestre do Ar – The Last Airbender

Direção: M. Night Shyamalan

Gênero: Fantasia, Desenho, Seriado, Animação

EUA – 2010

A minha decepção com o filme e direção passou. Não de maneira gratuita, foi preciso eu assistir um capítulo do seriado “Avatar: As Lendas de Aang” para perceber que o filme é uma adaptação do mesmo e que não é uma grande loucura da cabeça de Shyamalan, mas prefiro não me referir à direção dele. Depois disso, revi o filme para poder falar melhor sobre o tema, mas minha opinião de que “O Sexto Sentido” e “A Vila” são os melhores e que as obras feitas posteriormente por este diretor sofreram um claro declínio de produção permanece de pé.

O Último Mestre do Ar é uma adaptação de um desenho produzido pela Nickelodeon Animation Studios. Trata-se de um seriado sobre um mundo fantasioso pautado nas artes marciais e ideologias chinesas. De acordo com o desenho, e agora com o filme, a humanidade é regida pelos 4 elementos: ar, fogo, terra e água, dividindo-se em 4 nações respectivas. O Avatar é aquele que não só tem a capacidade de unir os 4 elementais, como também consegue dialogar com o mundo espiritual. Ele é a ponte entre a matéria e o espírito. E também o último mestre do ar. (Ao menos os atores não são absolutamente “americanizáveis”, porque de último guerreiro a insultar a cultura oriental, já basta o Tom Cruise com o último samurai).

No filme, o Avatar  (Aang) é um garotinho de seus 12 anos, que atuou até direitinho. Como era o último mestre do ar, foi perseguido pela Nação do Fogo. Reino dividido pelo poder e ambição. De um lado, um rei ambicioso que deserdou o próprio filho em nome do poder. De outro, o príncipe deserdado (Zuko) que busca, com a ajuda de seu tio (General Iroh), pela limpeza de seu nome e honra. De outro, o ‘fiel escudeiro’ do rei, que não favorece nem um, nem outro, quer saber do seu. Enfim… o poder corrompe, já dizia algum ótimo observador da índole humana. E o poder aqui é para ter as mesmas condições dos deuses, se entendi o babado forte do filme.

Digo dessa maneira porque as coisas acontecem de maneira bem rápida, Shyamalan disse em entrevista que precisou tirar 40 minutos de filme por ordens superiores. Eu entendo o motivo que os superiores deram essa ordem! Fico imaginando mais 40 minutos de kung fu misturado com poderes surreais dos 4 elementos e penso: Ufa! Que bom que são só 1:35h de filme!

As fórmulas são conhecidas, a ideia é clichê e os atores são ruins demais. Não dá liga! Sabe quando não há sintonia e por mais que se force uma situação é notório que os atores se sentem presos nos diálogos e não se deixam “dançar” pelo momento? Não há insight, o aspecto “decorado” é visível… e risível. São ruins demais.

Até que Katara, a Dobradora da Tribo da Água, atuou  mais ou menos sintonizada com Aang. Mas seu irmão Sooka e a Princesa Yue não convenceram mesmo!!!

No fim, a Princesa Azula e o Rei da Nação do Fogo dão a deixa de que terá continuação… Céus! Como será isso, a saber!

Pontos altos do filme são: Tai chi chuan feito pelos membros da Tribo da Água, o aspecto zen e os super poderes surreais que eles tem. De resto, eu pulo.

Até agora não sei o que diabos é esse animal. Sei que ele faz um som muito estranho e é um bom amiguinho de Aang… Não sei se eu queria um desse pra mim, embora ele seja o Bombril do filme, tem mil e uma (in)utilidades…

Por: Guerra de Pipoca.

O Aprendiz de Feiticeiro

Bruxo Balthazar Blake - Nicolas Cage. O único que se salva no filme.

O Aprendiz de Feiticeiro – The Sorcerer’s Apprentice

Direção: Jon Turteltaub

Gênero: Fantasia, Aventura

EUA – 2010

Vou dizer logo pra não criar suspense demais: o filme tem dois pontos que não são “engolíveis”.

  • Bruxa Morgana é inimiga de Merlin;
  • O primeiro merliano (discípulo direto de Merlin) é um estudante de Física do ano de 2010… Poupe-me de tanta blasfêmia!

Diante deste disparate, não recomendo este filme!!!

O longa começa narrando o momento em que Morgana se volta contra Merlin por pura ambição. Obviamente, guerra entre bruxos começou. De um lado, discípulo de Merlin – vai entender porque não é o primeiro merliano, o filme não explica tamanha discrepância, embora finja que explique -, Balthazar Blake (Nicolas Cage)  – atuou bem, gosto dele. De outro lado, discípulo de Morgana, o morganiano Maxim Horvath (Alfred Molina).

A impressão que tenho é que Molina não deu conta de despachar antigas atuações. Está a cara do vilão Dr. Octopus do Homem-Aranha, só que sem tentáculos. Em compensação, usa uma varinha mágica. Um pouco decepcionante no filme, confesso sem grandes pudores. Esperava mais, sobretudo em nome da experiência de palco. Em minha opinião, Cage se apresentou bem melhor. Abandonou os resquícios do anjo Seth em Cidade dos Anjos, mas nem tudo. Em alguns momentos “o vi” lamentar a ausência da Bruxa Verônica (Monica Bellucci) da mesma maneira em que lamentava o amor pela médica Meg Ryan. Ainda assim, gostei da atuação.

De volta à narrativa, Balthazar prende Morgana e Verônica num “receptáculo” e somente o primeiro merliano terá força suficiente para matá-la… (sem comentários).

Bom, o primeiro merliano, como disse acima, é um nerd estudante de física, apaixonado desde tempos primários por uma menina e vê seus planos com ela irem por água abaixo quando encontra Blake pela primeira vez na vida – onde ganhou seu anel de bruxo -, aos 10 anos. Encontro traumático, diga-se de passagem.

De uma possível história de bruxos, feitiçarias e afins, temos uma história que se pauta na comédia romântica, num caso mal resolvido de infância, num amor que dura esse tempo. Sinceramente, tive meus romancezinhos de infância, mas nem me lembro da força desses sentimentos! Qual criança, que se apaixona na escola, passa a vida desejando ardentemente esse amor infantil? Quanta bobagem! Mas, dá certo nesse enredo! É o que sustenta e dá graça em toda narrativa! Pois, 10 anos depois, com seus 20 anos de idade, encontra novamente com a garota e com o Balthazar. Como conciliá-los é a graça do filme, por incrível que pareça. Lamentável.

Por fim, é o que tenho a dizer de todo o filme: Lamentável. Poderia ter sido ótimo se não fosse a pequenez do roteiro…

Por: Morgana.

Homem de Ferro 2

Homem de Ferro 2 – Iron Man 2

Direção: Jon Favreau

Gênero: Besteirol Agudíssimo, HQ, Ação

EUA – 2010

Cada época tem o herói que merece. Em momento de superexposição midiática, numa sociedade consumista ao extremo, ególatra e emocionalmente instável, eis aí o Homem de Ferro. Um super ser que se funde com a identidade secreta, tornando-se público.

A diferença entre homens e meninos é o preço de seus brinquedos. Ditado popular norte-americano. A comunidade militar deseja a armadura de Stark e o rival infantilóide, Sr. Hammer, idem. Seu embate contra Stark no tribunal e nas TVs é digno de pena. Não sei quem é mais besta, se Stark com seu narcisismo premente ou Hammer com a sua carinha de Bambi querendo chamar a mamãe!

Vamos para o Grande Prêmio de Mônaco, que por sinal é o mais seguro e vigiado de todos da Fórmula 1. Um sujeito vindo não se sabe de onde invade as pistas, na contra-mão, brincando de chicotinho queimado! Ele é um sub-vilão chamado Ivan Vanko, um russo filho de gênio e que cria uma cacatua.

Logico que o bobinho do Hammer se une ao tatuadíssimo Vanko, vivido por Mickey Rourke, num personagem estrebuchante de feio. Enquanto isso Tony/Homem de Ferro sofre com a contaminação de vanádio em níveis altíssimos na sua corrente circulatória.

Devo dizer que até gosto dos diálogos rasteiros e piadinhas engraçadas de Tony. Mas o personagem tem muito mais destaque do que o herói. Como se o ator Robert Downey Jr. eclipsasse o mesmo. Assim fica aquela imagem de sujeito malandro, boa pinta, meninão que a galera adora. Igualzinho ao Sherlock, ao outro Homem de Ferro e papéis anteriores dele?

Eis que surge a Viúva Negra. Bom visual rebolativo e cabelos vermelhos. Mas mulher para ser gostosa precisa de mais carne e aquela sensação de que você pode pegar ela, de acessibilidade. Se não, vira uma Gisele da vida. Linda, mas inalcançável. Homens comuns não gostam. Para mim ele luta bem melhor do que o próprio Homem de Ferro, que tem suas ações ofuscadas pelo amigo-rival coronel James Rhodes, único que parece levar a sério a fita e o seu papel.

Quase morrendo com o vanádio no peito. Metal que nem existe puro na Natureza, deveria ter analisado melhor a liga formada com alumínio e titânio, inócuos ao ser humano, e utilizados em próteses ortopédicas. Mas tudo bem, a descoberta do novo composto, com direito a herança paterna e visão trimidimensional “hi-tech” é legal.

O embate final é fraco, aliás para um filme de ação ele está cheio de diálogos desnecessários e uma inversão de papéis principais. Robert Downey é bom ator, mas o personagem ficou muito maniqueísta, pueril e superficial. Igualzinha as “celebridades” de hoje.

O que há de bom: ferros rangindo, trilha sonora criativa e cheia de style e algumas “voadeiras” esteticamente bonitas e eficazes da Natasha

O que há de ruim: repetição de uma fórmula anterior de sucesso elevada ao cubo, que acabou ficando quadrada

O que prestar atenção: pelo menos as tatuagens do Vanko seguem o padrão das prisões russas e seu rígido código identificador

A cena do filme: ele chegando no palco e agachando, atlético e urinando na armadura; patético

Cotação: filme regular (@@)

Por: C.O.B.R.A.

Sobre o Homem-Aranha

Sobre o Homem-Aranha

Homem-Aranha 1, 2, 3 – Spider-Man 1, 2, 3

Direção: Sam Raimi

Gênero: Ação, Aventura, HQ

EUA – 2002 – 2004 – 2007

Queria ter escrito um texto que mesclasse a história com as curiosidades nas HQs e filmes, mas somente quando comecei a escrevê-lo que percebi que se eu fizesse isso iria colaborar bem mais com o aspecto da arte e propaganda midiática do que com que mais valorizamos aqui: debate sobre conteúdo.

Criado por Stan Lee, Homem-Aranha é um dos heróis mais populares do mundo das HQs e Marvel Comics. Talvez tal popularidade se deva ao modo de vida de Peter Parker. O personagem se iguala à média da maioria promovendo identificações das mais variadas. Não mora com os pais e, sim, com seus tios Ben e May, num ambiente classe média com algumas dificuldades acentuadas, como hipoteca vencida. Inclusive, Peter vende ao jornal local as fotos do Homem-Aranha, é o único heroi que se beneficia financeiramente de seu alterego. Pra pagar as contas de sua tia sozinha e viúva vale essa postura. Para Nietzsche, a Genealogia da Moral tem sua origem no social. O sujeito que se desenvolve “bom” é aquele que se desenvolveu “espiritualmente nobre”. (logo à frente ficará mais claro).

As identificações com a maioria não param por aí; afinal, Parker está longe de ser o garoto popular da escola, mesmo com sua inteligência. É um nerd avacalhado (bullying) pela maioria dos estudantes. Esse mundinho é sádico, sabemos, e Peter não revida ao que recebe no colégio. Ele deixa passar também por não ter meios para fazer o contrário a isso. Ao menos enquanto não se transformou ainda em Aranha. Além disso, é um heroi apaixonado… pronto! Homem-Aranha tem todas as fontes primárias para angariar solidariedade e compaixão, afinal, há heroi mais humano que ele neste mercado de quadrinhos?

Nas HQs, ele se apaixona primeiramente por Gwen Stacy, morta pelo Duende Verde (o primeiro e original Norman Osborn). No cinema, não sei por que, ela nem aparece. Somos apresentados para Mary Jane Watson, sua vizinha, por quem Peter também foi apaixonado depois que Stacy faleceu.

O primeiro filme, com direção de Sam Raimi, se desenvolve de maneira coerente à história em quadrinho, salvo a ausência de Gwen. Peter Parker (Tobey Maguire) é fotógrafo e estudante colegial quando vê numa visita ao laboratório de estudos científicos com aracnídeos a sua primeira chance real em se aproximar de Mary Jane (Kirsten Dunst) e, também, de seu mais novo destino. Picado por uma aranha geneticamente alterada seu corpo sofre diversas transformações. Inicialmente não tem consciência de seus poderes, se sente mal , mas não sabe exatamente por que. Não tarda para seu físico se alterar em consonância com as possibilidades estratégicas dos aracnídeos.

Seus tios percebem essas mudanças comportamentais e Ben decide conversar com o sobrinho. Eles discutem durante o percurso para a Biblioteca local. Essa é a última conversa que eles tem e seu tio finaliza seu discurso dizendo que “grandes poderes geram grandes responsabilidades”. Neste mesmo dia seu tio morre (assassinado) e Peter entende que poderia ter evitado sua morte se tivesse agido de maneira certa. Eis o prato cheio para o uso de seus poderes ao cumprimento do bem. O homem designa-se como o ser que mede valores, valora e mede; mede-se à outra pessoa, também. Além de comparar-se à coisa. E cada coisa tem seu preço real ou simbólico. O dano imediato é entendido como uma “quebra de palavra”, daí que as palavras são caras… Quanto elas valem? No caso em questão, o preço é impagável: o valor foi a vida de seu tio Ben. É preciso acertar as contas com seus fantasmas, Peter…

E então, Peter usa seus novos poderes para praticar o Bem. Vale o esforço de circunscrever a inquietação do sentimento de culpa; sobretudo, a vontade de considerar todo seu ato resgatável de algum modo.

Enquanto isso, seu melhor amigo Harry Osborn  (James Franco) investe em Mary Jane, sua amada. E quem disse que Peter interfere? Com seu novo destino impossível de ser ignorado que importa mais essa punição? O espectador (quase) sente pena de tamanha cruz que deve ser carregada. Aumenta, óbvio e consideravelmente, sua popularidade em nome das identificações – aquelas que me referia no início do texto.

Vamos e venhamos! Peter sabe seu lugar… Harry não é um bom aluno. Ou melhor, não é tão brilhante como Parker. Talvez por isso seu pai Norman Osborn tenha um forte apreço pelo amigo do filho. Vê em Aranha uma parceria científica, coisa esta que nem de longe pode esperar de Harry, e Peter sabe disso. Norman é o ambicioso e milionário dono da Oscorp. Quer sempre mais e mais. Desenvolve um experimento bélico que beira o fracasso e o ameaça a perder seu patrocínio governamental. Então, na falta de cobaias competentes, experimenta em si a nova invenção. Nasce Duende Verde, um dos principais vilões da Marvel. Sua ambição cede espaço para a insanidade que deseja ter o controle do mundo.  Descobre, porventura, a identidade de seu estraga-prazeres.  O jeito é eliminá-lo. Ou melhor, tentar eliminá-lo.

Não é tão simples assim. A não ser que… bom, Mary Jane está na trama, também, pra isso… E mais uma vez Peter terá de salvá-la, até por que carregar mais essa culpa nas costas será pesado demais. Não daria conta. Seriam duas caras vidas colocadas em sua conta. Quanto ficaria, desta vez, o valor da “hipoteca”? Daria para parcelar o prejuízo?

Entre Mary Jane e o pai do melhor amigo, Peter escolhe o óbvio.

O segundo filme mostra Peter ainda mais afundado em seus infortúnios: não tem emprego fixo, não está com Mary Jane, não tem a amizade de Harry porque este deseja saber a identidade de Aranha e Peter, obviamente, nega-lhe a informação. Puxa! Que fardo! O peso da fantasia é a tecla batida que Sam Raimi encontra para escamotear os furos do(s) filme(s). Aliás, o peso da existência é comum entre os “salvadores do mundo”. Sofrer é um verbo caro para tais herois, pois não existe ato heroico se não for trágico. O exagero faz parte do show. Daí que é comum propagarem histórias como “passou o dia todo apanhando, carregou nas costas e sozinho uma cruz e ainda deu conta de salvar o mundo” e o ser humano se convencer com as faces pálidas por tamanha desgraça e altruísmo. Peter Parker não é diferente disso – nenhum outro heroi o é; pois, segundo Nietzsche, “do que é igual sempre brotarão os iguais” -, só que o peso de sua cruz é uma roupa até bem interessante para o mundo das festas à fantasia. Confesso que vejo mais charme nas vestimentas de Batman.

A magnitude consiste no valor daquilo que teve ou deve ser sacrificado. Parker, como todos os outros herois da Marvel Comics, DC Comics, Bíblia etc, tenta evitar que a massa sacrificada seja justamente a humanidade. O e no fundo, há de se ter nobreza nas finalidades! A relação de nobreza (espiritualmente bons) e aristocracia faz semblante aos “espiritualmente bem-nascidos”. Em contrapartida, o plebeísmo é entendido como o semblante do “ruim”, “comum”, “baixo”.  É fácil supor as condições egoístas dos bandidos, né?

Por falar nisso,  o vilão do filme II é o Dr. Octopus. Que coisa… Aqui vale a pena pensarmos sobre a vilania deste doutor. Debatíamos AQUI a respeito disso. Eu dizia que ele tem uma clara motivação construída: a morte de sua esposa logo após a falha de um experimento. Os tentáculos ficaram presos ao seu corpo comandando seu cérebro. Vale perguntar: se ele fosse sumariamente bom, os tentáculos conseguiriam fazê-lo cometer o mal? Porém, existe alguém suficiente e inteiramente bom? Nos herois americanos é visível a condição de ser bom – inteiramente bom – não há espaço nem mesmo para um deslize ingênuo, característico da Tragédia grega. Tenho notado imensa diferença neste ponto entre americanos e japoneses. Pelo pouco que vi, nas animações japonesas fica claro que o heroi perambula nas duas instâncias; o que torna mais atraente a animação. Pois não há ninguém, que seja antes de tudo humano, inteiramente bom. As motivações dos mocinhos e bandidos são imutáveis?

Mais uma vez, o alvo foi Mary Jane… Tremenda falta de criatividade Raimi colocá-la novamente como isca.

No terceiro filme, o vilão é o Homem-Areia. No longa,  ele sofreu uma modificação se comparada à HQ. Na HQ, Homem-Areia sempre foi do mal. No filme, era um pai de família que se viu falido e com uma filha beirando à morte; assalto a banco se tornou uma solução. Raimi não estava satisfeito com a apresentação de um vilão por filme, então ele colocou mais dois: Venon e Duende Verde, o retorno. Duende Verde é Harry, que deseja vingar seu pai, e nas HQ pipocam Duendes Verdes pós-original.

Neste filme algo interessante acontece: Mary Jane é a fracassada do momento. Os infortúnios chegaram para essa moça como um meteoro particular. Seu relacionamento com Aranha não dá certo, sua carreira também… Em contrapartida, Peter está no auge de sua glória, deixou de ser aquele paspalho bobo e pamonha! O mais curioso é que Parker se permite estar por cima porque por um momento ele usou o poder de Venon. Ou seja, do mal rsrsrs. Cartas marcadas. Bom, eu vou preferir não me aprofundar sobre Venon porque sei que ferraram demais com esse vilão no filme, porém, prefiro que os mais inteirados da HQ comentem a respeito.

E sabe do que mais? Adivinhem… Mary Jane, claro, foi mais uma vez alvo rsrsrs… Grandes poderes geram grandes responsabilidades, né Mary Jane? :D

Por: Guerra de Pipoca.

Sobre o Tiro em Babel

Na verdade, não ambiciono falar do filme e de seus detalhes. Faço um recorte de uma cena, a primeira e principal, quando os dois garotos decidem testar a arma. Bom, um testa a arma e o outro se masturba; os dois armados, literalmente.

Eu estou com preguiça de fazer as contas, então estabelecerei um raciocínio simples. Vejam, um fuzil pode atingir até 2km de distância em tiro na horizontal. Se a massa da bala tem 20g a 40g imaginem o momento total. Vocês podem calcular o tempo de queda para uma altura de 2m e com isso inferir a velocidade inicial. A bala atingiria o alvo, ou seja, o ônibus e ainda assim teria força e velocidade para atingir a mulher? Ou melhor, o tiro alcançaria tal distância? Não estava lá para medir com precisão, mas algo me diz que o filme todo foi baseado numa inverdade (neste caso não posso chamar de mentira, já que se trata de arte)! rss

Percebam que um único evento transforma a perspectiva do filme e da relação com a realidade: quem é a vítima, a mulher que levou o tiro ou o garoto que acreditou ser possível atingir um alvo qualquer naquela distância? Ou ainda, VOCÊ?

Sem pretensões de criar um tribunal do júri aqui no adorável Guerra de Pipoca, mas é preciso compreender que a comoção gerada no público se desdobra por algo improvável de acontecer. Cabe o questionamento: você chora num filme que é improvável de ser real por que? Seria você mais uma vítima desse tiro que não houve?

A comoção ou a catarse é amparada na ideia prévia de poder acontecer não só com o vizinho, por isso o homem sente a compaixão, porque pode ser com ele amanhã. Mas num caso em que não vai ser com ele amanhã por total impossibilidade, por que deste sentimento? As respostas são claras, mas não tenho vontade de respondê-las, queria apenas plantar uma pequena sementinha para ser pensada e regada rsss.

Beijos meus!

Por: Morgana.

Meu Primeiro Amor

Meu primeiro amor – My Girl

Direção: Howard Zieff

Gênero: Drama

EUA – 1991

Fiz um vídeo, até tinham outros com a mesma música, mas eles estavam com um ar muito desleixado, daí fiz um meu rs:

Thomas J. : Vada, você pensaria em mim?

Vada: Para que?

Thomas J. : Se não casar com o Sr. Bixler…

Vada: Acho que sim!

Assisti esse filme quando pequena e o significado foi um, e hoje com alguns anos a mais o significado foi outro, mas ainda sim, não deixei de me emocionar e de pensar: malditas abelhas =/

Bom, o filme nos apresenta Vada, uma garotinha de 11 anos que tem mania de doença e faz de tudo para chamar a atenção de seu pai, um dono de uma funerária que funciona na casa em que eles moram e isso traz uma certa confusão para cabeça da menina. Num futuro não muito distante, o pai dela volta a se apaixonar por uma maquiadora profissional, que tem muito carinho pela garota, mas a garotinha não consegue lidar com a situação e tenta por tudo separar os dois.

Paralelo a isso que contei, Vada encontra força e amizade em Thomas J., um garotinho medroso de tudo, mas amigo pra todas as situações, até mesmo nas diárias visitas ao médico que Vada faz para ver se o mesmo encontrou o tal do osso de galinha que insiste em ficar preso na sua garganta! Juntos eles pescam, andam de bicicleta, tentam fugir de casa rs, espionam o pai de Vada com a nova namorada e porque não se beijar pela primeira vez rs?!?! U lá lá rs!

Eles estão sempre juntos e ela o defende com todas as forças, não deixa barato pra pessoa que tira alguma brincadeira com ele. Uma amizade linda de se ver!

E é por ela que ele se apaixona. Uma paixão bonitinha, pura e que encanta! E ela, por sua vez, está com borboletas no estômago por causa de seu professor!

Quem nunca se viu numa situação dessas? Vem aquela sensação de não saber como agir, como falar que gosta, como se comportar, chegar perto da pessoa e se tremer todinha rs, sentir o estômago revirar de emoção, suar frio, se embananar com as palavras! Ai, ai, o amor rs!

Mas numa de suas aventuras, Thomas J. acaba sendo picado por um enxame de abelhas, não resiste e morre, trazendo muita tristeza  para Vada. E aí, entra a sensação do sentimento de perda. Em determinada parte do filme, ela diz “eu deveria ter dito que ele era meu melhor amigo”. Eu digo e a Shelly também disse rs que ele sabia.

Com certeza ele sabia, a gente sente essas coisas!

Palmas para a dupla central do filme: deram conta do recado direitinho!!!

Enfim, nesse filme, tomamos conhecimentos de algumas confusões, do sentimento de perda, de algumas frustrações, de alguns desejos, de algumas tristezas, de coisas surpreendentes e boas que podemos sentir. É lindo e encantador, além de ser ingenuamente belo!

E viva, viva de forma intensa todos os momentos da vida, pois apesar de alguns obstáculos que a vida nos apresenta, é preciso viver e sentir. E guardem os momentos mágicos num lugar especial do coração!

Por: Bel.