
2035 - Bruce e a Diretoria do Presídio
Os Doze Macacos – Twelve Monkeys
Direção: Terry Gilliam
Gênero: Ficção Científica
EUA – 1995
Doze Macacos é, pra mim, um filme inteligente, mesmo nos dias de hoje, por abordar pertinentes questões de maneira multidimensional. Obra que não vai envelhecer tão cedo. Raramente surge filme em que a possibilidade científica, o fanatismo, a psicose e o misticismo se encontram num mesmo pilar. O filme constrói com este ponto uma teia de aranha tão bem arquitetada que deixo expressa minha recomendação: nada se perde ao vê-lo.
Como Gilliam conseguiu unir no mesmo ponto quatro polaridades tão diferentes? Pra mim é muito simples vislumbrar esse abismo imaginário na medida em que percebo que os conceitos que utilizamos para descrever a natureza são limitados, e por muitas vezes, não são características da realidade, como tendemos a supor. Traçar um mapa e conferi-lo no território ainda são duas coisas diferentes para nós seres humanos, talvez não sejam para os macacos, mas desta realidade não saberemos, pois esbarraremos no impeditivo natural do Ser.
Cole se encontra em um presídio no ano de 2035; é um sociopata bastante perigoso e tem ao seu favor (além de ser interpretado por Bruce Willis) força física e a capacidade de observação e de memória acima do normal. O presídio funciona de maneira diferente, porém nem tanto, acontece que a diretoria reside também no local. Em 2035, o território terrestre é inabitável devido a liberação de um vírus letal no ano de 1996 que matou 5 bilhões de pessoas. Cole é convocado como “voluntário” a pisar em solo terrestre (muito bem protegido) afim de buscar por modos de vidas. Ele percebe que não há humanos, mas se depara com ursos, aranhas etc. A diretoria do local, portanto, lhe oferece a possibilidade de se redimir desde que tope viajar no tempo e evitar que o vírus letal se espalhe a ponto de dizimar a vida humana na Terra. Ele, claro, aceita. Teria outra escolha?
Acontece que a viagem no tempo dá errada e ele ao invés de voltar ao ano de 1996, volta no ano de 1990. Gilliam conseguiu com esse simples detalhe a confusão necessária: ao voltar para o ano de 1990, onde nada ainda tinha acontecido por estar 6 anos antes do previsto, as pessoas o consideraram como um louco e então, foi preso em um sanatório estadual. Maravilhoso! Acontece que a loucura não se dá somente pelo sujeito estar fora da normalidade social de sua época, a psicose consiste – independente dos parâmetros culturais – no embasamento delirante e alucinatório. Chega a ser engraçado Willis explicando para a diretoria deste novo sanatório que em 1996 5 bilhões de pessoas morrerão. Delírio e alucinação? A sociedade suporta o dom da profecia com seus profetas dando-lhes cartaz de tudo que dizem?

Neste local ele consegue o apoio de duas importantes pessoas no cenário do futuro: a médica psiquiatra (Madeleine Stowe – excelente atuação) e o apocalíptico interno (Brad Pitt). Em minha opinião, é a melhor atuação de Pitt no cinema. Ele consegue encantar o espectador com seu personagem totalmente biruta. A cena em que Pitt ajuda Willis a fugir do sanatório é uma das melhores que já vi com essa temática. Opa! Cole foi preso durante a tentativa de fuga, no entanto… sumiu da sala em que foi amarrado!
Acontece que a diretoria do outro presídio o levou de volta sob a perspectiva da viagem no tempo. Não vale questionar a possibilidade desta viagem aqui no filme, pois somente através dela que toda essa loucura é possível. Assim, é desnecessário gastar cartuchos da lei da Física, em minha opinião. Finalmente após corrigirem o erro inicial, James é mandado de volta em 1996 e encontra com a psiquiatra. Esse encontro já é outro encontro, pois aquilo que ele dizia em 1990 de repente passa a ser confirmado no presente. Fabulosa maneira de constatar o real. Ou seja, Cole deixa de ser louco e suas profecias apocalípticas passam a ter voz. Nada como a relatividade do Tempo… aqui, possível por sua viagem.
Neste sentido, os questionamentos não param de pipocar: o ser humano consegue relativizar temporalmente o momento sócio-cultural-histórico em que vive? Pelas propriedades de todas as “partes que compõe o Todo”, nenhuma parte é fundamental; isso é óbvio, mas as partes são determinadas e determinantes? O que fazemos o tempo todo é o isolamento de certos padrões e a interpretação de objetos seguindo estes parâmetros. Capturamos, com isso, o real em sua plenitude? Damos importância seletiva para o que chamamos de “compreensão da realidade”, porém, a distinção entre observador e observado é completamente demolível? O universo material é visto como uma teia dinâmica de eventos interrelacionados, a consistência global determina a estrutura de toda teia?
Por fim, o arcabouço conceitual que o homem constrói tem a importância de fazê-lo entender os fenômenos interconectados, portanto, quaisquer olhares constituem padrões relativamente estáveis ou não. De maneira correspondente, a ciência nunca poderá proporcionar um entendimento completo e definitivo. Eterna limitação pela busca de verdades que me faz ousar dizer que o homem ainda não aprendeu a relativizar o espaço-tempo em que vive (estou achando que no lugar de Bruce Willis, quem vai levar porrada sou eu rssss…).

O Todo e suas partes
Pedi para a Caríssima Guerreira Predadora escolher as imagens do filme e fazer aquele quadrinho que ela costuma produzir em seus textos, mas com um detalhe: tinha que ter o Bruce nu, porque essa é a melhor parte do filme, com certeza rsss.
Não posso deixar de dizer que o vencedor do Oscar de 1996 foi ‘Coração Valente’. Pode? Chega a ser cretino…
Por: Morgana.