(Feita por mim do livro: Alice no País das Maravilhas)
Alice no País das Maravilhas de Tim Burton – EUA / 2010
Por um motivo muito simples gosto bastante desta obra: toda a jornada de Alice é para conhecer aquilo que é desconhecido. Nada mais psicanalítico do que isto. Aliás, Alice é um incentivo para qualquer área desde que seja do saber ainda não sabido. Creio que pesquisadores, etnógrafos, analistas e até mesmo curiosos perguntadores sobre “por que o céu é azul” tem um pouco ou muito do “sangue” desta menina de belos cachos dourados. Não me resta dúvida: saber é um verbo que atinge o imaginário do país das maravilhas. Não importa se a dúvida é sobre “por que somos assim?” ou “por que Urano está tão longe do Sol?”, posto que – no fundo e no raso – qualquer pergunta que se faça é uma busca de sanar o desconhecido de nós mesmos. “O que somos nós? Quem somos nós? Pra onde vamos nós?” – O que Alice faz senão isto? Portanto, é uma obra literária que recomendo por, também, ser ancorada na fantasia. Aquilo que não damos conta de resolver, fantasiamos. Não esta fantasia consciente e que é dita de maneira racional, me refiro à fantasia inconsciente. Esta que não é conhecida… Ou seja, fantasiamos o tempo todo, ainda que não “saibamos” sobre isso.
A minha relutância em assistir a este filme diz respeito à repetição nos cinemas desta obra tão cara. Ora, se o assunto diz respeito ao desconhecido, por que repeti-la tantas vezes sob diversas máscaras a ponto de perder sua graça? Ou seja, a obra já está tão conhecida que a mensagem sobre buscar o desconhecido perdeu um pouco de seu valor no cinema. Será que não há mais nenhuma história de fantasia desconhecida que não possa ser retratada na telona? Só há a Alice? Tão limitante e limitado restringir a fantasia a apenas Alice no País das Maravilhas. Tendo a pensar que nós, seres humanos, estamos muito empobrecidos de criatividade…
Portanto, depois de um ano de seu lançamento, só agora que me dispus a assisti-lo. Espero que nenhum outro diretor tenha a falta de imaginação de por Alice mais uma vez nos cinemas. Já deu. Não há mais o que sugar desta obra. De maneira que imagino que esta Alice já se esgotou em possibilidades de mostrar sobre o desconhecido. Já se tornou conhecida demais e sob formas das mais variadas.
Falar deste filme, por conseguinte, é esmiuçar a pobreza da falta de criatividade desses diretores do Cinema. Deixo pra lá por respeito à obra literária, que é linda e instigante; e, sobretudo, não precisou ser feita em 3D para conquistar o mundo. Ao contrário, é uma trama muito simples.
Infelizmente, não achei um youtube com legenda em português, que alcançasse a todos. Mas vale a pena conferi-lo ou buscá-lo numa linguagem mais acessível.
Por falar em linguagem, a condição do inconsciente é esta, pois se estrutura como tal. O inconsciente, nos alerta Freud e Lacan, fala. Ao contrário do que pensava Aristóteles, que o homem pensa com a alma, o sujeito do inconsciente só toca na alma por meio do corpo. O corpo é um texto que se estrutura como uma linguagem sem pontuações.
Baudrillard nos lembra em Senhas que as palavras são temporais. Estabelecem-se por um jogo poético de morte e renascimento, por serem geradoras de ideias, operadoras de encanto. Em Freud, ao contrário, as palavras são atemporais, pois seus efeitos atingidos pelo inconsciente mostram que a linguagem pensa, nos pensa e pensa por nós.
David Lynch, mais uma vez, nadou em águas profundas, conseguiu tornar estranho o que é familiar. Pos em questionamento a estranheza do absurdo. O coração humano tem a odiosa tendência a chamar de destino aquilo que o esmaga e o atravessa; como fazem as Moiras: tece, fia e corta… Todo esforço do drama consiste em mostrar seu sistema lógico, e aqui o drama é surreal. O absurdo é muito claro: lucidez que abdica de si mesma.
Kafka e Camus instituíram um sóbrio buraco no solo terrestre quando lançaram as ideias sobre o Absurdo (filosófico), que consiste em um processo de estranhamento do mundo tendo em vista a falta de sentido da vida. Com efeito, a vida não ter sentido faz mudar o questionamento “de onde viemos” para “afinal, o que diabos estamos fazendo aqui?”.
É na exigência de familiaridade com o universo que o homem se pauta, exatamente por saber que este mundo não o pertence. Ainda que compreender o mundo signifique reduzi-lo ao humano, claro. Não há outro meio de vislumbrar o universo se não for por este olhar, ao menos quando se é Homo sapiens. Este é o drama humano, para a filosofia do Absurdo de Camus.
No cinema, cuja estrutura se dá através do imaginário, fabrica-se dramas e romances em cadeias. A nostalgia humana que compõe seu drama de ser animal consciente é revertida por uma ordenação de sonhos, que foi levada a cabo através da subversão quando a arte cinematográfica abandonou a grande tradição do heroísmo enquanto dotado de sacrifícios. O heroi grego, que vive uma vida de provações, apaziguamentos e reconciliações com sua existência, não existe mais. Pra não ser tão radical, não é mais cotidianamente retratado na arte cinematográfica. Obviamente que os clássicos da literatura ainda são preservados no cinema. Imagine um filme sobre Édipo-Rei de Sófocles onde no fim ele se reconcilia plenamente com seu destino? Ou que não mata seu pai e nem fura seus olhos quando se descobre filho de Jocasta? Nem tanta subversão, não é? O primeiro diretor de cinema que fizer isso com um clássico da literatura escreverá seu próprio nome na cruz.
O cinema, como dizia, subverteu a ordem natural dos fatores. Para apaziguar o caminho natural do absurdo de viver uma vida totalmente sem sentido, a arte (que dizem que imita a vida, será?) instituiu o filme “Happy End” (nome dado por Edgar Morin). Segundo Morin, o “Happy End” não busca uma reparação, como nos clássicos dos herois do passado, mas a irrupção da felicidade. Ou seja, o filme mostra desde a felicidade total ou a esperança de felicidade, pois é necessário que haja algum sentido nisso tudo. É necessário? Necessário pra quem?
O heroi da atualidade não morre, não fracassa, não sofre. Faz mil e uma acrobacias com tom quase cômico (que diverge solenemente do tom trágico de outrora) e obtém sucesso e êxito não só no final, mas em todo o filme, pra tentar provar que a felicidade é possível. “E foram felizes para sempre”. A arte imita a vida? Repito.
Talvez para entretenimento, que por vezes se pauta no divertimento ilusório, o cinema “Happy End” tenha alguma importância até mesmo terapêutica. Mas é preciso que se diga que tal arte não responde ao absurdo da vida e não aplaca a estranha familiaridade do verbo existir.
Provocações, pra quem não sabe, é um programa de entrevistas com o maravilhoso Antônio Abujamra. Pra mim, é o melhor da linha dual no cara-a-cara. Entrevistar alguém não é tão simples. Pra ser bem feito é preciso um estudo prévio do que vai ser perguntado, até para haver interlocução. E o mais importante: é preciso ouvir o que o entrevistado diz para fazer as perguntas que siga uma linha condutora ao que é dito no momento. Perguntas decoradas costumam não dar certo. Abujamra sabe disso.
Impressão minha ou Wagner Moura diz que entendeu Hamlet, além de dizer que nem leu o suficiente? rsrsrs
É possível que nem mesmo Shakespeare tenha entendido Hamlet, minha gente! Como entender a pergunta: “Ser ou não ser”? Eis a questão!!! Dilema de difícil solução porque não ser é ser de alguma forma. Hamlet sabia disso, nós sabemos disso, porém, como dissolver essa pergunta no ácido da existência?
Como que se comunica o ser sendo não ser que por vezes é? Por favor, Wagner Moura! Não diga besteiraaaaaaa! E quer besteira maior do que dizer que os ingleses sentem dificuldade de entender a própria língua, que por acaso, na cabeça dele, é melhor compreendida pela língua portuguesa?
De onde ele tirou essa? Da cartola do “Carandiru” ou da metralhadora do “BOPE”?
“O injusto perfeito recebe todos os louros do justo sem o sê-lo.”
Glaucon, em “A República”, livro II
“Ilari-la-li-ê! Ô, ô, ô! Ilalilariê; ô, ô, ô!”
Xuxa
Eu vos anuncio: o vencedor de qualquer Big Brother ou reality show será quem mais sofrer. Como assim, quem mais sofrer? É possível mensurar o sofrimento? Qualitativamente, não. A experiência individual do sofrimento é única, inerente da constituição psíquica do ser. Ao amante de chocolate, privar-se dos maravilhosos ovos de Páscoa é um imenso sofrimento. Não posso ter ciência da dor de um atropelamento se jamais passei por tal experiência. Quem sofre mais? Quasimodo por sua aparência ou Esmeralda por ser cigana? Não dá para estabelecer. Entretanto, é possível medir o sofrimento quantitativamente. Bastante foi dito sobre o totem e o tabu. Embora circunstâncias, dependentes do contexto histórico e estrutural, são absolutos enquanto existem. Logo, existe um sofrimento absoluto: aquele que todos da mesma sociedade concorda como tal. Ao perder seu ursinho de pelúcia favorito, há quem sinta solidariedade pela sua dor enquanto há quem deboche, alegando não passar de um vão capricho. Contudo, diante a morte da mãe, por exemplo, somos todos compreensíveis para quem sofre a perda. Quem sofre pelo denominador comum mais amplo tocará a sensibilidade geral. Logo, no caso do Brasil, onde todas as pesquisas de padrão de comportamento, gostos e afins tem por base a classe social e renda, é bastante óbvio que o sofrimento derivado da pobreza sensibilize as massas. Este é um dado a priori no Big Brother: há outros fatores em jogo.
A condição de pobreza do participante mais miserável é ponto favorável para conquistar a complacência pública. Não obstante, se este participante apelar excessivamente de sua condição, perderá a vantagem. Por que? Porque em tais circunstâncias, ele não sofre, mas aproveita-se da ideia de sofrimento para tirar benefícios. Outro fator importante é o sofrimento visível, plástico. O participante que for excluído socialmente da casa, isolado, sem justa causa (e nisto a edição do Big Brother pode alterar a realidade), naquela ocasião imediata da percepção pública, ele sofre mais que o pobre—se este se enturmar com os demais membro da casa. A vítima do complô adquire imensa vantagem sobre o manipulador, pois nossa visão maniqueísta tende a catalogar o opressor como mal e o oprimido como bom. Porém, caso se torne vísivel que o oprimido esteja tirando proveito da situação, ele deixa de sofrer e, nisto, perde o favoritismo. O sofrimento precisa ser legítimo. Não pode ser o pobre cachaceiro, mas aquele batalhador, que rala, pasta. E continua pobre. E o excluído precisa ser uma inocente vítima discriminada.
Por que tamanha admiração pelo sofrimento? O Homem insiste em negar sua condição egoísta; refuta ao menos compreender que tal egoísmo é somente necessário para assegurar a própria sobrevivência. O altruísmo supremo é o sacrifício. Por sacrifício compreende-se sofrer, sem ser em vão, em prol do benefício alheio, sem nada pedir em troca. Tanto a renúncia quanto a ambição retiram o aspecto sagrado do sacrifício. Somente um deus pode realmente exercer um sacrifício legítimo: os homens são incapazes de tamanho altruísmo. Ainda assim, por ser ideal e—justamente o que torna impossível—impulsionado pela vaidade de se aproximar dos deuses, o Homem tenta alçancar o pedestal do sacrifício.
Uma ressalva: o sacrifício precisa ser opcional. Se não houve outra opção, não é sacrifício: trata-se somente do necessário. Portanto, quando alguém disser “eu me sacrifiquei por você”, verifique se realmente houve alternativa. Ainda que fisicamente haja possibilidade de ações diversas, o peso da consciência constituinte da moral do indivíduo o impossibilita de agir de outra forma senão a do “sacrifício”. Porém, isto não é sacrifício. O que o indíviduo faz é evitar seu suicídio simbólico—ir contra os próprios princípios significa ir contra si mesmo: basta analisar a palavra “princípio”. E, novamente, o sacrifício legítimo não reclama ou exige trocas. Como somente um deus é capaz de realizar um verdadeiro sacrifício, o sofrimento humano consiste ou em Ananké (Necessidade. É a mãe das Moiras) ou, simplesmente, masoquismo. Ainda assim, quem mais sofre e, não obstante, encara o sofrimento, conquista nossa compaixão. Por isso o elegemos: para nos iludir em ideais transcendentais. E por isso a necessidade de sutileza, para não desvendar nem o aspecto egoísta ou masoquista do Homem.
Por que toquei neste assunto? Oras, para compreender Super Xuxa Contra o Baixo-Astral, precisamos analisar quem é Xuxa e o que a faz ser Super Xuxa? Certamente, o fato do shortinho de Super Xuxa ser menor que as ombreiras confere certas qualidades de “super”: assim como os herois masculinos vestem a cueca por cima das roupas colantes. Sempre interpretei isso como ausência de culpabilidade em se expôr! Superar esse sentimento de culpabilidade não é para qualquer um! Freud e as Moiras que o digam! Somos compelidos à falsa modéstia a fim de evitar testes. Afinal, quem se “garante” será constantemente testado até falhar. É um paradoxo. A ideia de sacrifício é altruísta, então o homem que deseja se tornar um deus deve tentar sê-lo sem ambição. O ambicioso é desprezado por evidenciar sua humanidade demasiadamente.
Xuxa é uma celebridade. As celebridades contemporâneas ocupam o panteão divino e recebem, do público/ súditos, todos os louros possíveis: beleza, fama, riqueza. Gostamos de debochar da inteligência das celebridades: sejam modelos, atores ou políticos. E não é para menos! Mesmo “intelectuais” como Pedro Bial e Paulo Coelho não podem superar excessivamente a média humana: do contrário não há elos de identificação, não há intercâmbio comunicativo. A celebridade atua como oposto de um profeta diante o totem e o tabu. O profeta é visto como louco por dizer assuntos percebidos por nós como incoerentes. Em seu tempo, era realmente um louco. Somente tomará o título de profeta post-mortem. Por isso o gênio é incompreendido ou, quando muito, adquire fama e sucesso restritos aos círculos acadêmicos. Não sei a validade dessa postulação, mas o patamar máximo do QI de um líder das massas não pode ser acima de trinta pontos da média humana. Se a média humana é cem, a Madonna não pode ultrapassar 130 (cuidado com as informações de Internet delegando QI de 150 à Britney Spears. Einstein possuia 160 no máximo). Faço tais referências de QI pois abaixo mostrarei como Super Xuxa consegue ultrapassar—talvez não em inteligência, mas em transcendência humana—Goethe e Wittgenstein. Goethe é considerado o maior gênio da humanidade, empatado com Leonardo DaVinci. Wittgenstein ocupa o humilde terceiro lugar, depois dos dois citados acima. Super Xuxa é demais! Ah, nota de curiosidade! Não posso confirmar a validade de tal afirmação, mas o diferencial de trinta pontos é o limite do esforço. Com tamanha diferença, jamais o esforçado ultrapassará o talentoso inato, mesmo que o primeiro tenha hemorróidas de tanto estudar e o último, cirrose hepática por conta das baladas. É aqui que a compaixão humana da sociedade inverte a lógica e coroa o esforçado em prol do talentoso, apesar do desempenho inferior. O mérito se torna mais importante que o feito.
Já Xuxa, como representante da sociedade, desempenha a função em repetir incessantemente que “o céu é azul”. O mártir é o último a morrer com a queda do tabu. Por se tratar precisamente daquele que anuncia que o tabu já fora rompido, sua posição é neutra. É morto e após redimido, quando compreende-se o que dissera. E, graças a ele, os profetas, outrora loucos, também são resgatados do baú (porém, os loucos que inspiraram os profetas permanecem esquecidos, como insanos). Aliás, essa suposta neutralidade confere a noção mais próxima de “sacrifício” possível, pois a ambivalência da posição do mártir o situa fora de uma dicotomia. As celebridades são quem ascendem socialmente diante a nova ordem do totem e do tabu, porém “sofrendo” os preconceitos do tabu já derrubados. Justamente pelo caráter absoluto, que sequer é ousado ser mencionado, as celebridades debatem e interagem com o público o tabu derrubado—mas acreditando que ainda persiste, o que gera a eterna ideia de progresso e liberalismo social—esquecendo, obviamente, o atual tabu. Faustão, ao dizer que uma menina do Big Brother pode beijar outras meninas, recebeu salvas de aplausos do público. Ele não faria a mesma afirmativa diante Oscar Wilde. Ou inclusive Xuxa, ao indagar indignada “quantas Isabellas precisarão morrer?”. Logo, as polêmicas debatidas nada mais são que tabus caídos. E quanto mais são debatidas em amplitude, mais distante estão do antigo tabu e próximas do novo, porém não percebemos dessa forma. Se há um século era tabu uma menina beijar outra; hoje, é praticamente tabu condenar tal atitude. Diga-se de passagem, após sentenças como o “céu é azul” for proferida exaustivamente, questionar tal afirmação torna-se tabu. Durante algum tempo ninguém mais falará do assunto, até que certo sujeito indagará, “é realmente azul?”. Assim segue o ciclo do louco, profeta e mártir.
Então analisemos o caso brasileiro em meados da década de 80. O poder do pater familias quebrara há tempos. O feminismo triunfará há décadas. Os mártires morreram gerações antes. Uma jovem briga com o pai e decide tentar a sorte na cidade grande. Minha nossa! Como é possível? Uma jovem brigar com o pai! Ousar enfrentar o poder do pater familias? E ainda por cima, na condição de mulher, tentar sozinha a sorte na cidade grande? Essa é Xuxa. Não retiro seu mérito. Do contrário; aplaudo. Ela foi a pessoa mais normal possível de sua época. Enfrentou as dificuldades que todos ao redor enxergavam como intransponíveis, mas, na verdade, torcíamos desde o início em seu favor: para ver a queda do tabu confirmada! Ou melhor, do que julgamos ser tabu…
“A mais normal possível”: é exatamente por isso que a coroamos. De tão normal, precisamos fazê-la anormal. Daí a enriquecemos, conferimos glamour e lhe providenciamos um imenso poder simbólico. Não adianta tentar, agora, repetir os passos de Xuxa. Ela o fez antes. Seu mérito é ser, como oposto do profeta e do gênio que “vivem no futuro”, incrivelmente apurada no olhar do presente. Tal habilidade de percepção a permitiu encontrar a kairos! Essa palavra grega significa a perfeita harmonia entre Virtude e Fortuna. Quer ser modelo? Não adianta se degolar na academia de ginástica sem frequentar as boates e as praias onde os caça-talentos perambulam. Tampouco faz sentido percorrer tais ambientes com banhas assassinas quicando em seu ventre a cada passo dado. A kairos é a união das duas condições.
Para enfim falar de Super Xuxa, gostaria de finalizar sobre Xuxa. É claro que ela enfrentou inúmeros desafios, assim como todos nós o fizemos. O seu desafio, entretanto, é aquele considerado como desafio por todos os membros da sociedade. Absoluto. E circunstancial. Não surtiria efeito nem décadas antes, nem posteriores. Por isso uma grande celebridade é a pessoa mais normal possível, convertida por nós em anormal. E por isso sempre dizem “o céu é azul”. Certamente Xuxa, durante sua ascensão, era David. Mil problemas, personificando Golias, a esperavam à frente. Nós, não obstante, apedrejamos o Golias, torcendo por Xuxa. Enfatizo: não retiro seu mérito; aliás, apenas o engrandeço. Outro simples exemplo? Pensemos em Titanic, filme para um público de 1997 contextualizado em 1912. Aplaudimos a coragem de Rose. Choramos com a morte de Jack. Realmente, Jack era o David. O noivo da Rose, o Golias. Rose agiu como uma heroína, “quebrou” o tabu. Mentira! Rose não quebrou o tabu coisa alguma. Se ela realmente quebrasse o tabu contemporâneo, e não o já quebrado, teria escolhido o noivo no lugar de Jack. Neste caso, sairíamos do cinema revoltados! Não é possível que uma jovem mulher escolha um cara velho, só porque é endinheirado, ao invés do bonitão pobrezinho! Que mulher vagabunda, prostituta, golpista do baú! Mais ou menos isso…
Então, se Xuxa é a pessoa mais normal possível, quem é Super Xuxa? Para elaborar melhor o enredo do filme, consideremos o vocábulo “super” em termos do Nietzsche. O Super-Homem, que, de fato, significa “Além do Humano”, conforme o original alemão Übermensch. Logo, temos a obra cinematográfica ÜberXuxa contra o Baixo-Astral.
Considero esse filme como o antecessor das séries do Discovery Channel sobre combates improváveis, nos moldes de um duelo entre o tubarão branco com o urso polar. Não obstante, esses documentários possuem um grau de interesse apesar da irrelavância. É improvável por se tratar de distintos habitats, mas os cálculos são feitos pautados na força de cada antagonista. ÜberXuxa e Baixo-Astral racionalizam o ilógico com sublime dinamismo: leia-se, é tão sutil que nosso tendencionismo ecumênico costuma catalogar essa obra como infantil!
Numa análise dos antagonistas, percebemos como o enredo do filme é centrado na ÜberXuxa difundindo o ateísmo niilista e desconstruindo as estruturas vigentes, moldando o mundo ao redor conforme sua vontade deliberada. A tolice de Baixo-Astral é sua intolerância, pois a dominação por completo tende à autodestruição. Ele deveria permitir que Xuxa seguisse com sua doutrina até que esta se enfraquecesse por si mesma. Uma alternativa pleonástica seria a manipulação dos sujeitos circundantes de Xuxa, para que estes entrem em conflito com ela, mas sem entrar em relação direta.
Com seu shortinho menor que as largas ombreiras – uma reformulação gramatical: o short que é pequeno demais ou a ombreira, excessivamente grande? – ÜberXuxa percorre o Rio de Janeiro de moto. A cada esquina perfaz atos de vandalismo, pintando muros do patrimônio público. Crianças rebelam-se contra a ordem panóptica do horário escolar e unem-se com ÜberXuxa na destruição da propriedade pública ou privada. Ela anuncia pomposamente seu intuito: pintar um arco-íris de energia!
Um arco-íris é um fenômeno da natureza! E de energia? Que tipo? Quântica? Mecânica? Termodinâmica? Ah, com tinta! ÜberXuxa vai contra as postulações de Wittgenstein. O filósofo austríaco pregava a falta de nexo em nomeações de sensações privadas sem consentimento público. Por exemplo, se quero denominar tal tom de vermelho como “alpha”, é necessário a concordância geral sobre o significado dessa designação. Xuxa deliberamente nomeia funções para cores, remodela o mundo conforme sua vontade. Afinal, ela decide, num estalar de dedos, que “toda cor tem poesia e magia. Emoções em forma de poesia”. Isso é ser ÜberXuxa, para além do bem e do mal da mera ética fenomenológica, castradora dos nossos impulsos e geradora do mal-estar individual em prol do processo civilizatório.
ÜberXuxa é além do humano no sentido em que pouco se importa com o mundo a seu redor; o que não implica numa submissão à regra ou pretensa superação, mas total indiferença sem, contudo, converter-se numa alienada. Podemos perceber isso claramente na atuação na personagem. ÜberXuxa é apática!
Páthos não é somente o mundo onde reina o Imperador Conde Pato. Com “p” minúsculo, trata-se de uma palavra grega cujo significado é paixão. Porém, essa paixão é pejorativa, pois implica na falta de controle do indivíduo de seus próprios impulsos, cedendo aos excessos, à catástrofe: uma passividade diante o efêmero, submissão sofrida e assujeitamento do fenomenológico. Desta palavra também deriva a atual “patologia”.
Logo, o ideal grego é o da pessoa apática: aquela que não cede diante as tentações da páthos. A pessoa apática, segundo o pensamento grego, possui controle de sua thymòs (humor). Nisto, ela mais ou menos consegue manter o equilibrío psíquico diante a eudamonia dos deuses. Eudamonia é frequentemente traduzido como “felicidade”, mas o conceito grego é bem diferente do nosso. Nós seguimos uma postura teoricamente utilitarista, proposta por Stuart Mill, em tentar controlar o destino. Na nossa ação, pensamos de antemão a prevenção de possíveis infortúnios e, assim, mantemos o mundo externo sob nosso controle. Os gregos não possuiam essa prepotência (mas eram prepotentes em outros quesitos). Sabiam que nada podiam fazer diante a Vontade dos deuses: controlar o mundo externo é em vão. Portanto, o controle deve ser, sobretudo, interno. Essa é a ideia de eudamonia. O que os deuses dão, seja glória ou fortuna, eles podem facilmente retirar conforme seus caprichos. Cabe ao indivíduo manter-se emocionalmente equilibrado, apático, e não sucumbir aos prantos da incerteza. O sujeito para além do bem e do mal é apático. E quem é apático desafia os deuses!
Das profundezas de Hades (ou do esgoto. Não dá para discernir), Baixo-Astral não pode tolerar os feitos ÜberXuxa. Sua reforma niilista põe em xeque a existência de Baixo-Astral. Quem é, afinal, Baixo-Astral?
Baixo-Astral é um totem em si, do mesmo modo como Helena de Tróia é o totem da Beleza. Ainda que nenhuma mulher possa ser mais bela que Helena de Tróia pela simples relação gramatical entre substantivos e adjetivos –se quiser, o que Aristóteles denominava como qualidades primárias, ela permanece circundada numa ordem prévia. É verdade: qualquer mulher bela terá a ideia de “mulher” como substantivo e “bela” como adjetivo, ou seja, um simples anexo. Isso jamais poderá se igualar com Helena, a Beleza em si, pois neste caso, “beleza” é o substantivo enquanto “mulher”, o adjetivo. Por obséquio, precisamente o caráter absoluto e totalitário da Beleza de Helena revela uma pequena fragilidade. Existe uma entidade capaz de ser mais bela que Helena. Uau, quem? A deusa Afrodite. Helena permanece inferior diante Afrodite. Por mais que seja a personificação da Beleza, é Afrodite quem dita o que é a Beleza. Só então essa pode enfim ter uma essência e se revistir na forma de Helena. Minha lógica persiste pois Afrodite não é uma mulher, mas uma deusa. Então, Helena é a favorita da deusa Afrodite. Apesar de tudo, está sujeita à eudamonia. Afrodite pode mudar de ideia e delegar a dádiva da Beleza suprema à Preta Gil ou Vovó Mafalda quando bem entender. Acaso Afrodite escolha Dercy Gonçalvez, nenhum homem poderá resistir aos encantos desta última. E Helena cairá no ostracismo.
Essa noção grega de eudamonia como felicidade é contraditória ao nosso conceito de sacrifício. Nós valorizamos o sofrimento a ponto de privilegiar o esforçado empenhado no lugar do talentoso inerte. Os deuses são indiferentes às emoções—afinal, são apáticos—e, ao contrário dos homens, escolherão o melhor, independente da intenção ou da vontade. O conceito do mundo schopenhauriano como Vontade e Representação é eudemonístico precisamente nesse aspecto de “necessário”. Não se trata de uma crueldade pessimista qualitativa, mas de uma ordem onde a mais-valia da Natureza é o que importa, indiferente do desejo humano.
Com Baixo-Astral se passa algo semelhante. Sua existência ameaçada, ele precisa se livrar, de uma vez por todas, de ÜberXuxa!
Quem vence esse duelo? Um totem dos deuses ou um humano além de si, indiferente dos deuses (o que não quer dizer superior)? É o que veremos abaixo!
O mundo de ÜberXuxa é perfeito até um incidente primevo: o sequestro de Xuxo! Xuxo, o cachorro de Xuxa, é capturado pelos capangas de Baixo-Astral. No mais, como Xuxo conseguiu ser capturado tão facilmente? Oras, ele não alcançou o patamar de ÜberXuxo; sujeito, portanto, às influências totêmicas do Mundo. Possuído pelo Baixo-Astral, tornou-se vítima fácil.
ÜberXuxa vai ao seu resgate! Vale salientar: ser apático, nos termos gregos, não é pejorativo como nós compreendemos. O niilismo é a crença no Nada, não em nada. Isto significa que ÜberXuxa não se sujeita aos caprichos dos deuses, é indiferente destes, mas de modo algum quer dizer que caiu na inércia. Do contrário, se tal apatia fosse traduzida por contentação, frustração ou depressão, seria páthos de qualquer modo. Seu desapego por questões mundanas não significa renúncia da vida, mas transfigura-se em seu exato oposto: em resolução e determinação constantes. Só assim, como na Pandéia, ÜberXuxa pode ultrapassar as ambições de Baixo-Astral, um totem dos deuses!
ÜberXuxa confronta-se com um muro repleto de hieróglifos egípcios. Ao menos, reconheci alguns destes. Não sei se os outros são signos babilônicos ou escrita cuneiforme. Lá, encontra Marlene Mattos, digo, a minhoca Xixa. Ultrapassam o muro e começam, juntas, uma imensa viagem astral.
Até nisso Xuxa se revela ÜberXuxa! Ela penetra no mundo astral sem necessidade de romper a simbiose corpo e alma! É além das capacidades humanas! É pura Vontade!
Durante toda a viagem, é interessante focalizar a apatia na atuação de ÜberXuxa. Ela não demonstra qualquer sinal de emoção. É perfeito! Não há escalas de expressividade em afirmativas díspares como “aquele tubarão branco vem me atacar” e “o céu é azul”. Somente um indivíduo com total controle de si é capaz de manter tamanha harmonia psíquica. Sua resolução pela busca de Xuxo afasta possibilidades de interpretarmos essa apatia como resignação ou ausência de vida.
Ainda mais fascinante é sua simplicidade e humildade em perguntar. Sabemos que a sabedoria não jaz nas respostas oferecidas, mas na capacidade de perguntar. Uma visão presa às entropias profanas poderia considerar ÜberXuxa como alienada, pois são frequentes as perguntas do gênero “onde estou?”, “o que é isso?”, “o que preciso fazer”, “o que é você?”, “o que está acontecendo?” etc; mera ilusão. Trata-se do mais minucioso metódo socrático, a indagação da questão até delimitá-la em seu axioma, se existir. E, para isso, para questionar tantas coisas, muita sabedoria é necessária.
Através das imensas planíces daquele mundo astral, ÜberXuxa depare-se com constantes barreiras aparentemente intransponíveis. O acesso à morada dos deuses é vedado aos homens. Isso é algo que mesmo Gilgamesh, o mais antigo relato mitológico da humanidade sobre o rei sumério com um-terço de divinidade, precisou compreender às duras custas. A prepotência de Gilgamesh em proclamar-se deus absoluto o levou ao combate com Enkidu, até então enviado dos deuses para deter o arrogante rei. Ao se tornarem amigos, ambos desafiaram criaturas sagradas e despertaram a fúria de Inana. Esta é a deusa do amor e do ódio, ancestral da Ishtar babilônica. Eventualmente a Afrodite grega. Inana destribui as tábuas do destino, as me. Cada homem recebe diversas me, mas a última é sempre idêntica: a morte! Enkidu e Gilgamesh fracassaram na tentativa de vencer a morte ao penetrarem a morada dos deuses. O que acontecerá com ÜberXuxa no mundo astral?
O erro de Gilgamesh foi tentar superar os deuses pela força. Após vencer temíveis monstros, remar, nadar, correr, lutar e sei lá o quê ao quadrado, ele não foi capaz de vencer o teste final: depois de tantos exercícios, deitar-se numa cama confortável e não dormir! ÜberXuxa não é tão ingênua. Ela tem soluções schopenhaurianas na manga!
A música, na visão de Schopenhauer, consegue por vezes ir além da tragédia como arte suprema. Ao esboçar emoção em estado puro capaz de anteceder a palavra, trata-se de uma linguagem capaz de gerar sentimento sem que haja sentido a priori. É como uma beleza desprovida de forma. Enquanto os totens absolutos da Natureza eudemonística são coisas em si, ding an sich kantianas. Enquanto sujeitos à Natureza, eles nos afetam inexoravelmente. O Übermensch de Nietzsche seria capaz, através da Arte, de revelar sua total indiferença com a Natureza, invertendo a lógica e tornando os esforços desta estéreis diante a pura resolução do Übermensch perfeito. ÜberXuxa, sempre que diante um problema aparentemente sem solução, começa a cantar. Sua música converte em pura emoção sobrepujando as forças da Natureza e, assim, transfigurando o mundo ao seu redor conforme sua vontade. Os golfinhos, as plantas e os animais passam a ajudá-la. O que era aparentemente impossível torna-se possível diante uma nova perspectiva: mas isto é algo que somente alguém no patamar de ÜberXuxa é capaz de realizar. A música de ÜberXuxa a eleva em todos as ramificações do mundo astral, inclusive o Alto-Astral.
Estamos à beira do conflito direto entre ÜberXuxa e Baixo-Astral. Preciso antes assinalar outro ponto. Thymós é “humor” em grego. Aqui existe uma divergência entre Platão e Aristóteles com Sêneca. Sêneca é romano, então dane-se para ele. Seguirei a visão platônica-aristotélica. Thymós seria a minha constância: ou seja, minha apatia. Porém—e isto pode tornar-se um pouco confuso, pois os conceitos gregos não são sempre compatíveis com os nossos—trata-se de outro assunto, diferente da relação do homem com a páthos. Lembram do velho ditado “a virtude está no meio”? Pois bem, a mediocridade também, como todos sabemos. Para Platão e Aristóteles, a vasta maioria dos homens seria susceptíveis à páthos sem, contudo, alterar a thymós. Do contrário, a constante recaída nos estados proporcionados pela páthos seria a própria thymós do indivíduo. A experiência limitada pela própria thymós resulta numa entropia e incapacidade de compreensão do Outro. O gênio e o louco (em Aristóteles analisado pelos casos de melancolia) compartilham uma extraordinária habilidade: a de conseguir oscilar entre a euthymia e a disthymia. Euthymia, para Sêneca, trata-se somente da ausência de inquietação. Vamos por Aristóteles e Platão!
A euthymia é o gozo de ser si mesmo, uma espécie de euforia por adorar-se. É o ser em sua completa auto-realização. A disthymia é a repugnância de si, o não-conhecimento do próprio indivíduo como tal. Enquanto um é entrar ao máximo dentro de si, o outro é afastar-se mais quanto possível. Quando um indivíduo é capaz de alcançar a euthymia e a disthymia, ele torna-se capacitado para compreender o Outro. Platão sugere a experiência alcóolica (o que poderíamos facilmente traduzir como ácidos lisérgicos ou drogas afins) como uma possibilidade primeva de oscilar pela euthymia e a disthymia. O alcóol, o estar embriagado, serveria como um fogo inicial para a experiência total da thymós. Porém, ele adverte: esse fogo serve apenas como pontapé inicial. Ele é útil para a compreensão da thymós, ou melhor, do reconhecimento desta de seus estados alterados, o eutímico e o distímico. Então o trabalho do gênio seria de conseguir reproduzir tais estados enquanto sóbrio. Em hipótese alguma Platão sugere o alcoolismo, pois ele adverte: se a chama do fogo externo (o alcóol) for mais intesa que o fogo interno (a thymós do indivíduo), o resultado será que a chama maior terminará por consumir totalmente a menor. Ou seja, a produção da melancolia. Trocando em miúdos, Platão aconselha experimentar de tudo, mas não se viciar. E o brilhantismo do gênio, através da kairos, é saber a dose perfeita deste equilíbrio.
ÜberXuxa, no Alto-Astral, alcançou a euthymia! E não foi através do vinho ou da embriaguez, mas da Arte! É a dádiva suprema da genialidade! Novamente, trata-se de uma equivalência parcialmente eficaz, mas é quase possível afirmar que ÜberXuxa atingiu a poèsis, a contemplação dos deuses, o poder heurístico de criação, de conferir existência onde outrora era inexistência. Essa contemplação dos deuses consiste num vislumbre rápido, porém profundo, da perfeição das formas divinas. Goethe descreveu em termos típicamente faustianos a tentativa de Fausto em desvendar o Absoluto. Fausto fita os olhos diretamente para o Sol. Mefistófeles relembra a existência de poderes que ultrapassam seu próprio e Fausto queima os olhos. Não se trata de resignação, mas Fausto vira de costas e compreende que o Absoluto é apreendido somente sob a forma de reflexos da luz solar. A poèsis grega é parcialmente análoga.
ÜberXuxa: totalmente apática, conforme denota sua atuação, é blindada contra as influências da páthos! E agora conseguiu, através da música e da Arte, diante um problema original –quem sabe uma disthymia?—alcançar a euthymia e a poèsis! Para alguém assim, os deuses não são necessários.
O contrário se passa com Baixo-Astral. Como totem, não obstante, sem ser o emblema totêmico máximo, é totalmente dependente da benevolência divina. Agora, ÜberXuxa está pronta para enfrentar Baixo-Astral. Uma nota sobre o enredo: Baixo-Astral não apenas sequestrou Xuxo, mas também um rapaz. Foi um grande erro, pois este rapaz é humano e, portanto, condicionado aos apelos da páthos.
Baixo-Astral tenta humanizar ÜberXuxa, transformá-la em tão somente Xuxa! Logo, é apelativo na esfera das emoções. Diz que Xuxo não suportou tamanha demora e culpabiliza Xuxa pelo fracasso da empreitada e morte de Xuxo!
A hermenêutica nos permite várias interpretações da seguinte cena. Uma visão ingênua diria que ÜberXuxa humanizou-se e, degradada como somente Xuxa, incorporou o sentimento de culpabilidade de um superego extremamente sádico. É a cena em que Xuxa apresenta-se como Bruxa. Baixo-Astral diz que sua única saída é o pacto de aliança. Porém, nossa investigação minuciosa não é enganada por diálogos levianos, certo? Sabemos que tudo não passou de uma estratégia de ÜberXuxa para enganar o próprio Baixo-Astral, tanto que ela não mudou seu estado apático na atuação. Um golpe de mestre! Pura maiêutica socrática: conferir credibilidade ao argumento do opositor para depois refutá-lo. Ao fingir-se humana—o que ela, agora ciente das variantes da thymós, pode fazer conforme sua vontade—seduziu pela compaixão o garoto perdido por perto. Foi ele quem se aventurou, comovido pelo aparente sofrimento de ÜberXuxa, e libertou Xuxo.
Assim, cão e dona se unem novamente! Porém, Baixo-Astral não se dá por vencido. Um totem não se dá por vencido até que seja derrubado por outro—neste caso, alguém indiferente à ordem dos deuses—por isso não pode jamais ser redimido, somente destruído.
Munido de seus asseclas Titica e Morcegão, ele lança raios de puro Baixo-Astral, coisa em si, contra ÜberXuxa. E também agarra Marlene Mattos, digo, a minhoca Xixa.
Lembram do que foi dito em Nárnia? Um totem possui imenso poder, porém somente se acreditam nele? ÜberXuxa compreende essa lógica perfeitamente. Fenomelógica, husserliana, ela soluciona o impasse mediante a Einfuhlung (“sentir dentro”, “empatia”. Indica um modo de conhecimento que procura penetrar na experiência de outro ser humano e saber e sentir o mundo como ele faz) com Titica e Morcegão.
Com isso, ela oferece o benefício do perdão. Diante o público, claro, para surtir maior efeito. Sobretudo, diante Baixo-Astral exatamente no momento em que as forças estão equilibradas. É pela emoção, com ajuda da kairos, portanto, que ela vence. Ela, apática, que nada sente, consegue manipular os outros pela emoção. Não consigo deixar de me impressionar diante tamanha genialidade, além da possibilidade humana! Afinal, para quem nada sente, é extremamente fácil perdoar. Não apenas o ser não fora afetado como implanta culpabilidade naquele que julga ter conseguido provocar sofrimento. Assim como o sacrifício, somente um deus pode perdoar legítimamente. Ou ÜberXuxa.
Com a música, desconfigurando a gramática, num verdadeiro amalgama sensorial, ÜberXuxa lança seu raio de arco-íris, aniquilando Baixo-Astral de vez!
É muita emoção e poesia numa cena só!
Naturalmente, não posso deixar de observar: seja lá qual for o deus protetor do Baixo-Astral, este o havia abandonado. É como se Helena de Tróia decidisse participar num concurso de miss num momento em que Afrodite já escolhera outra “coisa”, seja uma zebra ou ser humano, para totem máximo de beleza. Helena de Tróia perde para Mulher Melancia se Afrodite assim desejar.
Dois cenários se desfecham, portanto. Primeiro, ÜberXuxa, unida de seu cão Xuxo, segue no comando de crianças vândalas pintando patrimônio público e propriedade privada, na difusão de caóticos ideais niilistas.
Noutro…
Os deuses sumérios compreendiam muito melhor que os deuses gregos ou das tradições judaico-cristã a essência da própria divindade. Anu e Enlil eram os deuses do firmamento, da ordem. Pai e filho em perpétua transmutação. Não suportavam um ao outro e, como deuses, não são obrigados a tolerar a companhia. São auto-suficientes. Enquanto um reinava supremo, envelhecia. O outro, afastado da assembléia divina, rejuvenescia. E assim eles revezam o trono do deus supremo. Enquanto Enki, o deus da sabedoria, ria de Enkidu e Gilgamesh. A última tábua do destino, as me, é sempre a mesma: morte. Enki sabia que nem mesmo ele e os demais deuses poderiam escapar da última tábua. Porém, eram diferentes de Gilgamesh ou do Baixo-Astral. Apesar de outros nomes, sempre renascerão enquanto o homem for homo sapiens. ÜberXuxa deve, portanto, jamais baixar a vigilância!
Abaixo deixo um vídeo de ÜberXuxa, além do bem e do mal, desconsiderando os círculos da crítica de cinema, em alusão ao seu poder totêmico superior. Afinal, ela comanda crianças. O que os críticos podem fazer?
“Respiro! É o suficiente que me enclausure” (E. Cioran)
Acusado de ser um filme feminista, uma vez que os homens no longa estão em segundo plano, eu entendo que na verdade trata-se de um filme niilista. Antonia representa o niilismo. Ele, o niilismo, é o sintoma da angústia da cultura ocidental. Não, Antonia não é angustiante, ao contrário. Pra falar desse assunto, convido Nietzsche pro papo; ele pensa o niilismo a partir de sua crítica aos valores. Estabelecer uma finalidade para a vida é dar uma orientação ao homem através dos valores. Assim, é possível estabelecer uma relação importante: se a vida é devir, uma passagem, os valores passam a ser pensados como ideais. Surge a pergunta: Qual seu valor? Qualquer valor dado a vida tem como objetivo dar segurança e esperança para o ser humano. Em contrapartida, os valores (morais etc) existem para corrigi-la, ou seja, para dizer que “essa” vida vivida não deveria ser como é; precisa ser corrigida com o propósito de vivê-la “melhor”. Os valores, portanto, são uma resposta ofertada pela cultura com fim de dar mais valor à vida. Ou seja, são criações. Dessa forma, o niilismo se apresenta muito além de mera formação intelectual, pois se revela como um sentimento, que traduz que nada vale à pena, uma vez que a vida nada vale. Tal descrença nos valores acarreta na desvalorização dos valores historicamente constituídos em sociedade. Assim, o niilismo passa a ser sentido no corpo do ser humano, psicologicamente, em forma de angústia. Não há mais objetivo para viver, não se sabe mais o motivo de estar vivo, se é que alguém algum dia soube disso. Falta uma meta e quando a falta falta, já dizia Lacan, a angústia comparece.
Preferi por esse título, pois não saberia falar exclusivamente sobre o filme. Matrix tem o mérito de por pulgas atrás de orelhas, são delas que me disponho a dialogar, já que a chatice romântica de Neo e Trinity não me interessa nenhum pouco. [Porém, se alguém quiser comentar somente sobre o filme, não me oponho]
Matrix é um filme que entendo como “elástico”, aquele que contém inúmeras interpretações. Já vi gente forçar a barra ao ponto de entendê-lo como “cristão”, esse blabla de enviados. Porém, se Matrix for visto por esse caminho, ele facilmente pode ser entendido como um processo analítico, por exp., que não tem nada de cristão, onde Neo está na busca de conhecimento de si mesmo – ser ou não ser, eis a questão?-, até com ajudas extras de Oráculos de Delfos, etc.
Pra não sambar em diversas interpretoses possíveis, nada melhor do que questionar pros próprios criadores do filme qual era o propósito, intenção e inspiração. Ao fazer esse questionamento, encontrei a resposta, não é nenhum, nem o outro e possivelmente muitas outras interpretações não são fontes primevas para o surgimento desse filme. A inspiração vem de Simulacros e Simulação, de Baudrillard [Filósofo francês]. Disso que quero falar.
Numa entrevista que a Revista Época fez com Baudrillard, questionaram-no a despeito de Matrix:
ÉPOCA – Seu raciocínio lembra os dos personagens da trilogia Matrix. O senhor gostou do filme?
Baudrillard – É uma produção divertida, repleta de efeitos especiais, só que muito metafórica. Os irmãos Wachowski são bons no que fazem. Keanu Reeves também tem me citado em muitas ocasiões, só que eu não tenho certeza de que ele captou meu pensamento. O fato, porém, é que Matrix faz uma leitura ingênua da relação entre ilusão e realidade. Os diretores se basearam em meu livro Simulacros e Simulação, mas não o entenderam. Prefiro filmes como Truman Show e Cidade dos Sonhos, cujos realizadores perceberam que a diferença entre uma coisa e outra é menos evidente. Nos dois filmes, minhas idéias estão mais bem aplicadas. Os Wachowskis me chamaram para prestar uma assessoria filosófica para Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, mas não aceitei o convite. Como poderia? Não tenho nada a ver com kung fu. Meu trabalho é discutir idéias em ambientes apropriados para essa atividade.
[Muito bom, né? risos]
A catástrofe em Matrix começou pelos diretores insistirem numa didática que já nasce manca. Morpheus, Deus do Sonho, passou uns 30 minutos do filme explicando ao Neo que virtual e real não se diferem, o mais impressionante é que Keanu Reeves não entendeu!!!! [risos] O pior de tudo é que a maioria dos espectadores também não entendeu à primeira vista, pois a didática foi traída com uma constância inegável. Ao sair do cinema, confesso que achei engraçado o olhar de pânico de inúmeros diante do qual as observações não-assimiladas se petrificaram em alegorias exdrúxulas que estilhaçam a ilusão do cotidiano nocauteado pela escolha de uma pílula. Não é permitido duvidar que muitos suspiraram aliviados de finalmente estarem a salvos: fora da sala de cinema em contato com o “real”, o que demonstra não terem entendido o que viram.
“Digo sempre a verdade: não toda, porque dizê-la toda não se consegue. Dizê-la toda é impossível materialmente: faltam as palavras. É justamente por esse impossível que a verdade provém do real”.
(Jacques Lacan – Televisão)
Tomo essa ideia emprestada para dizer que também não darei conta de dizer tudo que penso a respeito da realidade e virtualidade, me faltarão palavras; nos faltarão palavras nesse possível debate. Contudo, vamos ao que interessa:
O que é real? O que é virtual? A nossa realidade é fiel ao que seja real ou é apenas uma realidade construída? Se é construída, qual a porcentagem ilusória que se tira disso?
Segundo Baudrillard, todo o ambiente é contaminado por uma intoxicação midiática que ordena o sistema, isto é, a vida humana se tornou uma virtualidade real dentro da realidade virtual. O sistema que faz as pessoas acharem que vivem a realidade mas na verdade vivem uma ilusão, daí o próprio filósofo entender que o filme Truman Show defende mais sua teoria do que Matrix. A visão materialista limita realidade ao que vemos, mas o que vemos é manipulado? Se é manipulado, o que vemos não é uma realidade. Ou melhor, é uma realidade construída, implantada. Esticando o “elástico”, até mesmo o Mundo das Ideias é algo inventado e forjado por nós mesmos. Damos conta de por a cara pra fora da Caverna (Platão)? Quando é sabido que se encontra fora dela se a realidade do que se vê não é tão defensável quanto se parece?
A pulga que Matrix implanta é válida, pois desperta o sono profundo de Neo pela contradição vigente de um Deus do Sonho. Morpheus diz algo mais ou menos que se ele escolher a pílula vermelha, vai acordar em sua cama sem lembrar de nada. Neo escolhe a pílula que permite entender o que é a Matrix. Oras, mas se é uma realidade inventada e construída, Neo conseguiu chegar perto da Verdade? Obviamente que não, pois até mesmo a Matrix não é real. Aqui que os diretores foram didáticos demais onde não deveriam, não cometerei o mesmo erro que eles. [risos]
Sem dúvidas Wells, junto de Verne, fora um dos maiores escritores de ficção científica de todos os tempos. A imagem que temos hoje dos alienígenas cabeçudos, os greys, vem de sua obra do Homem no Ano Um Milhão (algo assim). Então, é interessante como ele faz uma representação totalmente diferente em A Máquina do Tempo. Afinal, entre 800 mil e um milhão, é um pulo de “somente” 200 mil anos, não? Há uma resenha, no blog, sobre a versão recente, de 2002. Gosto de ambas as versões. A adaptação recente fora dirigida pelo bisneto de Wells, então encaro como quase uma homenagem, rescrita, da obra por seu descendente. Afinal—não li o livro—mas os dois filmes, de análogo, compartilham somente o título. Os enredos diferem bastante e sei que a versão da década de 60 é mais fidedigna (contudo, como não li o livro, não sei o quanto. Há algumas observações que não pude deixar de exclamar: será que Wells, um gênio, não percebeu isso? No que concerne a evolução humana, deve ter percebido, vide seu outro livro. Entretanto, a Máquina do Tempo fora seu primeiro livro. Estaria ele desinformado então?). Se ele percebeu, mas os produtores deliberadamente omitiram, deve ter sido pelo contexto da Guerra Fria, propagação ideológica do capitalismo e outros vieses que prefiro não adentrar.
É preciso lembrar que o livro tem lá sua intenção política. Wells quis demonstrar como a classe dominante explora os proletários. Tal exploração, aliada ao progresso tecnológico, tornaria as diferenças de classe ainda mais díspares, culminando na dissolução do homem em duas espécies. Os Eloi são os descendentes da burguesia. Ociosos e alienados da indiferença da Natureza. Os Morlocks derivam dos proletariados. Tornaram-se mais fortes, porém, ao invés de aniquilar com seus exploradores, os mantêm vivos, como fonte de alimento.
Se eu for falar de possíveis ideologias capitalistas embutidas no filme, direi que o resumo da ópera é o seguinte: no final, pobre sempre se ferra. Os Morlocks são derrotados. Se você é pobre, seu futuro é ficar azul e virar Smurf. Por isso, prefiro não adentrar.
Os Morlocks são azuis. Queria zoar e dizer que são Smurfs, ou então a cor azul provém da dieta canibal. Pombas! Quer ser canibal? Que seja! Mas usar carne humana como única fonte de alimentação é não saber balancear os alimentos. Contudo, é preciso lembrar que eles permaneceram subterrâneos durante muito tempo. Biologicamente, se acaso a luz solar se tornasse mais fraca, as plantas, a fim de potencializar ao máximo a fotossíntese, tenderiam a escurecer, com aspecto meio azulado. Se Wells pensou nisso: brilhante! Se não pensou, chutou e colheu maduro!
Resolvi falar desse filme, pois há algo interessante sobre a noção de ciúmes, que vem gera debate desde nos entendemos como seres humanos, uma vez que as noções de justiça e propriedade são postas em xeque.
George (nome dado como homenagem, pois no livro é tão somente “O Viajante no Tempo”) cria uma máquina do tempo. Diferente da versão de 2002, na qual o intuito da viagem é descobrir como alterar o passado para salvar a noiva da morte, o objetivo deste é deleite pelo avanço científico.
(Atenção: piadas de loira abaixo)
Enquanto Alexander precisa viajar até o ano 800 mil e tantos para descobrir porque ele não consegue reverter o passado (porque sua esposa Emma é loira! Não importa quantas vezes ele a salvar, ela acabará morrendo novamente), George decide avançar (além de ficar preso nas crostas sólidas de magma vulcânico—em Londres?—durante milênios) para constatar quando, finalmente, o homem conseguirá viver em paz. Um futuro que os Jetsons não conseguiram prever. É nisto que quero fuçar.
Ao chegar no futuro distante, ele suspira. Enfim a humanidade conseguiu a paz! Então ele passeia pelos vales até encontrar os Elói, uma comunidade hippie com vestidos dos anos 60 e cabelos loiros. Os Morlocks foram inteligentíssimos ao permitir a sobrevivência somente dos loiros!
Entre risos blasés, uma loira se afoga. Ninguém faz nada. Apenas a contemplam morrer sem demonstrar qualquer traço de emoção. Não tramaram nada contra a menina, claro. Apenas, seguem impassíveis diante a indiferença da Natureza. Aceitam que é a ordem natural das coisas a ocorrência de acidentes. George, no entanto, fica indignado, revoltado, com o desleixo dos demais loiros.
Eis a sua resposta, George! Perguntou quando os homens poderiam viver, enfim, sem guerras? Bem, a solução não é das mais agradáveis!
A sua indignação é o motivo das guerras entre os homens! A morte é a única certeza absoluta da existência: não há nada a fazer para alterar isto. A pulsão da ação, de atividade, condena aos homens à guerra irremediavelmente. A omissão passiva dos Elói leva a “guerra” até eles. De qualquer modo, o final é a morte. Poder-se-ia alegar a desnecessidade de extremos. Afinal, uma das quatro verdades nobres do budismo é: “a virtude está no meio”.
Será a virtude ou o vício que está no meio? Sidharta Gautama, o Oráculo de Delfos, o Tao te Ching e outros mencionam um “meio” individual e intransferível. O meio, mesclado ao social, é a fonte dos vícios. Não confundir perspectivas de Hobbes, Baudelaire ou seu oposto em Rousseau.
O meio virtuoso pregado por tantos desde o início da História é único, inaliável, intrínseco, enraizado em cada indivíduo. É o equilíbrio individual. Ele é, necessariamente, antagônico ao equilíbrio do social, uma vez que duas pessoas não podem ser idênticas e, mesmo dentro do próprio indivíduo, sua transitoriedade no que concerne mudanças ideológicas é inegável, o que pode deturpar a noção de estabilidade. Sem contar que: se as emoções primárias de moralidade são derivadas do “meio” social, como produzir um “meio/ equilíbrio” único? Eis a fonte de todo o conflito interno, que se manifesta no externo mediante a guerra.
Quando George, da versão de 1960, reclama da preguiça do homem da raça Éloi, da negligência e reivindica, ele responde sua própria pergunta porque há tantas guerras no mundo de seu tempo. Sua irritabilidade contra esse povo, sua afirmação de que é humano, desconsidera a “paz” enfim encontrada na humanidade. Reparem: os Éloi não ajudaram a menina que estava se afogando. Eles apenas não interferem na Natureza (aquilo que nós tentamos fazer, rsrs).
Ele prefere a guerra, desde que haja ação humana, no lugar da paz, se a condição para tal for a conformidade do homem em relação à Natureza.
Eu queria tanto ser um cara azul para falar isto pra ele no final do filme…
Ele chama as loiras de vegetais (e não por estarem de dieta). Claro, ele é animal, por isso age com seus impulsos. Ambos filmes fazem referência de que não possuem conhecimento do passado nem planos para o futuro. É a destruição do conceito de Tempo. Nós tememos o medo por isso lutamos contra ele. De certa forma, os Éloi entraram em harmonia, mas sabem que nada é de graça.
O medo do futuro vem do conhecimento das relações causais experimentadas no passado. Se o passado for esquecido, não há o que temer no futuro. A relação entre ciúmes e filantropia é bem semelhante àquela entre o Amor e Ódio, ou então, a piedade e a compaixão na visão de Nietzsche.
Seria extremamente interessante realizar um estudo quantitativo das relações de morte e procriação entre aqueles loiros, para saber: será que vale a pena? Reclamamos tanto da dominação do homem pelo homem. O único modo disto acabar é através da aceitação da indiferença da Natureza. Então, é válido? Impossível saber, pois 800 mil anos podem ser o suficiente para aniquilar o aparelho psíquico que condiciona nossa humanidade, mas, ad hoc, não há texto capaz de fazê-lo atualmente. Devo salientar que a alimentação dos hippies é providenciada “gratuitamente” pelos Morlocks. Aliás, em última análise, não se trata de canibalismo, uma vez que são duas espécies distintas. Os Éloi são tratados simplesmente de jeito semelhante como fazemos com o gado.
O sinal toca. Os loiros seguem como zumbis à morada de seus devoradores. George, em total reformulação de seu modus operanti, esquece que é cientista nerd e vira ninja, derrotando todos. Aquilo que os loiros todos foram incapazes de fazer durante dezenas de milênios, George faz em alguns minutos. O mais interessante é como ninguém esqueceu de falar inglês durante 800 mil anos sem livros. Aliás, como alguns livros apodrecidos sobreviveram tanto tempo?
Na versão de 2002, o inglês é considerado Old language, conhecida somente por poucos (uma mulher, no caso) que ao menos se interessou em estudar, demonstrando não ser total parasita. Na versão de 1960, os parasitas lembram perfeitamente de como se fala inglês!
E outra! Quando mamãe diz que “não se fazem mais docinhos como antigamente”, ela está certa! Reparem que na sala de Antiguidades, podemos encontrar estátuas gregas, esculturas egípcias etc; mas nada de nossa época. Realmente, é tudo muito descartável. Depois da queda de Roma, nada presta!
George volta para 1900. Com exceção de seu melhor amigo, os demais se revelam descrentes. Outro tópico interessante: não interessa o quanto algo seja óbvio! O homem enxerga somente o que deseja ver e, quanto mais “óbvio”, na verdade mais obscuro é. Se é óbvio, há um motivo longínquo que estabeleceu tal regra de obviedade. Desvendar tal regra é mais complexo que perceber o óbvio naquilo que parece, em primeiro relance, complicado.
Desapontado, George resolve voltar ao ano 800 mil e poucos e se proclamar o Rei da Floresta, digo, viver entre os hippies loiros. O filme termina com um enigma. A empregada repara a ausência de três livros na estante e seu amigo pergunta: quais três livros você levaria para o futuro?
Bem, isso pode gerar debate, mas para mim, não há dúvidas.
Primeiro, um livro de receitas culinárias da Ana Maria Braga. Jamais poderia viver num ambiente onde só se come saladas e frutas. Quem faria minha pizza?
Segundo, o Kama Sutra (a versão sem gravuras, claro. Quem disse que quero compartilhar o conhecimento?). Se é para viver entre loiras o resto da vida, que seja para aproveitar e instalar o “antigo” modelo de seleção natural.
Terceiro, um gibi dos Cavaleiros do Zodíaco. Se restaurar a condição humana for inevitável, isto pressupõe o retorno da religião, em qualquer que seja a manifestação de uma fé. Prefiro que idolatrem Shaka de Virgem.
Percebam que neste meu egoísmo estarei restaurando a condição humana da melhor maneira possível, não? Se não a melhor, a mais fiel – não através dos livros em si, mas das razões de minha escolha.
E vocês? Quais levariam?
Por: Eduardo Cidade (Conde Pato jamais se daria o trabalho de escrever resenhas, claro!)
Não serei nostálgica na escrita comemorativa de hoje. Obviamente que muita coisa aconteceu no decorrer desse um aninho de blog, o histórico está vivo na memória de todos que aqui frequentam e compõem esse espaço delicioso.
Também não acho justo a nostalgia de narrar como que me veio a ideia de abrir esse blog, pois com o passar do tempo, na leitura passiva de muitos e na escrita ativa de alguns, eu deixei de falar sozinha nele e com ele.
Portanto, vamos direto ao bolo, sem esquecermos da vodka! rsrsrs
Parabéns e felicidades para nós!
Um ano de Guerra de Pipoca, estamos engatinhando ainda, balbuciando pequenas frases, logo, logo estaremos sem fraldas nesse universo rico chamado Cinema.
Aqui não falarei sobre o filme buscando seus conteúdos, emitirei apenas uma opinião que serve para vários outros filmes.
Não desejamos algo, desejamos o desejo que o Outro investe nesse algo (objeto). A diferença entre um pedaço de pano e uma bandeira: a bandeira é objeto do desejo do Outro; o pano não. Outro ex: sabe quando uma mulher não tem namorado, ninguém quer? pois se ela arruma namorado, os homens quererão. Por quê? Porque um homem a desejou. ela fica significada como desejável pelo desejo do homem.
Daí soluciono o grande mistério: Tostines vende mais pq é mais gostoso ou é mais gostoso pq vende mais? simples: é mais gostoso porque vende mais. Primeiro alguém compra e diz que é gostoso. aí outra pessoa compra tb pq a primeira pessoa comprou (ie, desejou o biscoito). e Tostines acaba sendo gostoso. que nem cerveja: horrível, mas todos bebem e gostam, e vc bebe e gosta.
É que nenhum gosto da gente é nosso - o que chamamos “gostoso” é o que alguém desejou e gostou antes de nós. Por isso desejamos o desejo e não o objeto. nenhum objeto é desejável se não foi desejado primeiro.
ah, maiores explicações com Hegel ou com seu discípulo mais famoso, Jacques Lacan. Alexander Kojeve tb serve.
Para, a partir daí, entender o movimento psicológico que a cobiça provoca passa a ser bem mais simples, não?
“(…) Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu’il est comique et laid!
L’un agace son bec avec un brûle-gueule,
L’autre mime, en boitant, l’infirme qui volait!
Le Poëte est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l’archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l’empêchent de marcher. “
L´ Albatros
(Charles Baudelaire)
Para os que não tem domínio da língua francesa, deixo a tradução:
“(…)Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!
O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de voar.”
A Angústia é um afeto que não mente, bem disse Jacques Lacan, Psicanalista Francês – sucessor de Sigmund Freud.
A fragilidade da existência e a dialética do ser talvez sejam dois nomes para mesma Lua que deságua em mares estrangeiros sempre que esse afeto comparece. Onde está o Sol que arde na saída da caverna de nós mesmo queimando a pele, assando as escamas?
Ambos queriam ser escutados em suas dores e assaduras: Breuer (amigo e professor de Sigmund Freud) e Nietzsche (Filósofo Alemão).
Breuer, autorizado a escutar por sua legitimidade profissional, demandou como pagamento para escutar Nietzsche ser escutado pelo filósofo. Inusitado. Via de regra, isso é improvável de acontecer num consultório Psicanalítico em rumos normais e reais que não cabe apontar os motivos aqui. No entanto, estamos falando de uma obra de arte onde tudo é possível.
Como recomendava Aristóteles, o rito peripatético, ou seja, o de pensar caminhando, foi algo que notei nesse filme como uma das possíveis saídas de um divã. Lacan não deixa por menos, afirma que todo ser falante pensa com os pés. Pensar com pés como sinônimo de caminhar, avançar, sair do lugar não requer empurrões de terceiros.
Para além da culpa moral, civilizatória, cristã – tão combatida por Nietzsche e por descendentes como Sigmund Freud-, terá Nietzsche provado do travo amargo de uma culpa pré-moral, a culpa de existir?
A recusa da fal-ânsia cotidiana que muitas vezes chega sob o crivo do afeto que não mente faz com que a solidão existencial se deflagre ante um espelho desnudo de um vivente que esqueceu que a vida não permite ensaios e pré-apresentações com N figurinos e máscaras: a época das lágrimas chegou junto com um inverno que se recolhe em seu silêncio mais profundo, na alcova mais íntima. Nietzsche chora, o que comprova que os Brutus também amam. Ele amou Salomé, talvez fora amado (quem convive estreitamente com Nietzsche e não o ama?) mas não na mesma expectativa que demandou à Salomé.
Nietzsche chora, na obra, no filme, por se saber como exceção, coisa de indivíduo autêntico que era. O conformismo, como ele dizia, é coisa pra gado humano, pras vacas de presépio como brinca Deusa Circe. Para o Übermensch (Além-Homem) que ele era, sabia que era cria-dor de si mesmo e de suas angústias mais vis e consequentemente, mais belas.