
Sobre o Homem-Aranha
Homem-Aranha 1, 2, 3 – Spider-Man 1, 2, 3
Direção: Sam Raimi
Gênero: Ação, Aventura, HQ
EUA – 2002 – 2004 – 2007
Queria ter escrito um texto que mesclasse a história com as curiosidades nas HQs e filmes, mas somente quando comecei a escrevê-lo que percebi que se eu fizesse isso iria colaborar bem mais com o aspecto da arte e propaganda midiática do que com que mais valorizamos aqui: debate sobre conteúdo.
Criado por Stan Lee, Homem-Aranha é um dos heróis mais populares do mundo das HQs e Marvel Comics. Talvez tal popularidade se deva ao modo de vida de Peter Parker. O personagem se iguala à média da maioria promovendo identificações das mais variadas. Não mora com os pais e, sim, com seus tios Ben e May, num ambiente classe média com algumas dificuldades acentuadas, como hipoteca vencida. Inclusive,
Peter vende ao jornal local as fotos do Homem-Aranha, é o único heroi que se beneficia financeiramente de seu alterego. Pra pagar as contas de sua tia sozinha e viúva vale essa postura. Para Nietzsche, a Genealogia da Moral tem sua origem no social. O sujeito que se desenvolve “bom” é aquele que se desenvolveu “espiritualmente nobre”. (logo à frente ficará mais claro).
As identificações com a maioria não param por aí; afinal, Parker está longe de ser o garoto popular da escola, mesmo com sua inteligência. É um nerd avacalhado (bullying) pela maioria dos estudantes. Esse mundinho é sádico, sabemos, e Peter não revida ao que recebe no colégio. Ele deixa passar também por não ter meios para fazer o contrário a isso. Ao menos enquanto não se transformou ainda em Aranha. Além disso, é um heroi apaixonado… pronto! Homem-Aranha tem todas as fontes primárias para angariar solidariedade e compaixão, afinal, há heroi mais humano que ele neste mercado de quadrinhos?
Nas HQs, ele se apaixona primeiramente por Gwen Stacy, morta pelo Duende Verde (o primeiro e original Norman Osborn). No cinema, não sei por que, ela nem aparece. Somos apresentados para Mary Jane Watson, sua vizinha, por quem Peter também foi apaixonado depois que Stacy faleceu.
O primeiro filme, com direção de Sam Raimi, se desenvolve de maneira coerente à história em quadrinho, salvo a ausência de Gwen. Peter Parker (Tobey Maguire) é fotógrafo e estudante colegial quando vê numa visita ao laboratório de estudos científicos com aracnídeos a sua primeira chance real em se aproximar de Mary Jane (Kirsten Dunst) e, também, de seu mais novo destino. Picado por uma aranha geneticamente alterada seu corpo sofre diversas transformações. Inicialmente não tem consciência de seus poderes, se sente mal , mas não sabe exatamente por que. Não tarda para seu físico se alterar em consonância com as possibilidades estratégicas dos aracnídeos.
Seus tios percebem essas mudanças comportamentais e Ben decide conversar com o sobrinho. Eles discutem durante o percurso para a Biblioteca local. Essa é a última conversa que eles tem e seu tio finaliza seu discurso dizendo que “grandes poderes geram grandes responsabilidades”. Neste mesmo dia seu tio morre (assassinado) e Peter entende que poderia ter evitado sua morte se tivesse agido de maneira certa. Eis o prato cheio para o uso de seus poderes ao cumprimento do bem. O homem designa-se como o ser que mede valores, valora e mede; mede-se à outra pessoa, também. Além de comparar-se à coisa. E cada coisa tem seu preço real ou simbólico. O dano imediato é entendido como uma “quebra de palavra”, daí que as palavras são caras… Quanto elas valem? No caso em questão, o preço é impagável: o valor foi a vida de seu tio Ben. É preciso acertar as contas com seus fantasmas, Peter…
E então, Peter usa seus novos poderes para praticar o Bem. Vale o esforço de circunscrever a inquietação do sentimento de culpa; sobretudo, a vontade de considerar todo seu ato resgatável de algum modo.
Enquanto isso, seu melhor amigo Harry Osborn (James Franco) investe em Mary Jane, sua amada. E quem disse que Peter interfere? Com seu novo destino impossível de ser ignorado que importa mais essa punição? O espectador (quase) sente pena de tamanha cruz que deve ser carregada. Aumenta, óbvio e consideravelmente, sua popularidade em nome das identificações – aquelas que me referia no início do texto.
Vamos e venhamos! Peter sabe seu lugar… Harry não é um bom aluno. Ou melhor, não é tão brilhante como Parker. Talvez por isso seu pai Norman Osborn tenha um forte apreço pelo amigo do filho. Vê em Aranha uma parceria científica, coisa esta que nem de longe pode esperar de Harry, e Peter sabe disso. Norman é o ambicioso e milionário dono da Oscorp. Quer sempre mais e mais. Desenvolve um experimento bélico que beira o fracasso e o ameaça a perder seu patrocínio governamental. Então, na falta de cobaias competentes, experimenta em si a nova invenção. Nasce Duende Verde, um dos principais vilões da Marvel. Sua ambição cede espaço para a insanidade que deseja ter o controle do mundo. Descobre, porventura, a identidade de seu estraga-prazeres. O jeito é eliminá-lo. Ou melhor, tentar eliminá-lo.
Não é tão simples assim. A não ser que… bom, Mary Jane está na trama, também, pra isso… E mais uma vez Peter terá de salvá-la, até por que carregar mais essa culpa nas costas será pesado demais. Não daria conta. Seriam duas caras vidas colocadas em sua conta. Quanto ficaria, desta vez, o valor da “hipoteca”? Daria para parcelar o prejuízo?
Entre Mary Jane e o pai do melhor amigo, Peter escolhe o óbvio.
O segundo filme mostra Peter ainda mais afundado em seus infortúnios: não tem emprego fixo, não está com Mary Jane, não tem a amizade de Harry porque este deseja saber a identidade de Aranha e Peter, obviamente, nega-lhe a informação. Puxa! Que fardo! O peso da fantasia é a tecla batida que Sam Raimi encontra para escamotear os furos do(s) filme(s). Aliás, o peso da existência é comum entre os “salvadores do mundo”. Sofrer é um verbo caro para tais herois, pois não existe ato heroico se não for trágico. O exagero faz parte do show. Daí que é comum propagarem histórias como “passou o dia todo apanhando, carregou nas costas e sozinho uma cruz e ainda deu conta de salvar o mundo” e o ser humano se convencer com as faces pálidas por tamanha desgraça e altruísmo. Peter Parker não é diferente disso – nenhum outro heroi o é; pois, segundo Nietzsche, “do que é igual sempre brotarão os iguais” -, só que o peso de sua cruz é uma roupa até bem interessante para o mundo das festas à fantasia. Confesso que vejo mais charme nas vestimentas de Batman.
A magnitude consiste no valor daquilo que teve ou deve ser sacrificado. Parker, como todos os outros herois da Marvel Comics, DC Comics, Bíblia etc, tenta evitar que a massa sacrificada seja justamente a humanidade. O e no fundo, há de se ter nobreza nas finalidades! A relação de nobreza (espiritualmente bons) e aristocracia faz semblante aos “espiritualmente bem-nascidos”. Em contrapartida, o plebeísmo é entendido como o semblante do “ruim”, “comum”, “baixo”. É fácil supor as condições egoístas dos bandidos, né?
Por falar nisso,
o vilão do filme II é o Dr. Octopus. Que coisa… Aqui vale a pena pensarmos sobre a vilania deste doutor. Debatíamos AQUI a respeito disso. Eu dizia que ele tem uma clara motivação construída: a morte de sua esposa logo após a falha de um experimento. Os tentáculos ficaram presos ao seu corpo comandando seu cérebro. Vale perguntar: se ele fosse sumariamente bom, os tentáculos conseguiriam fazê-lo cometer o mal? Porém, existe alguém suficiente e inteiramente bom? Nos herois americanos é visível a condição de ser bom – inteiramente bom – não há espaço nem mesmo para um deslize ingênuo, característico da Tragédia grega. Tenho notado imensa diferença neste ponto entre americanos e japoneses. Pelo pouco que vi, nas animações japonesas fica claro que o heroi perambula nas duas instâncias; o que torna mais atraente a animação. Pois não há ninguém, que seja antes de tudo humano, inteiramente bom. As motivações dos mocinhos e bandidos são imutáveis?
Mais uma vez, o alvo foi Mary Jane… Tremenda falta de criatividade Raimi colocá-la novamente como isca.
No terceiro filme, o vilão é o Homem-Areia.
No longa, ele sofreu uma modificação se comparada à HQ. Na HQ, Homem-Areia sempre foi do mal. No filme, era um pai de família que se viu falido e com uma filha beirando à morte; assalto a banco se tornou uma solução. Raimi não estava satisfeito com a apresentação de um vilão por filme, então ele colocou mais dois: Venon e Duende Verde, o retorno. Duende Verde é Harry, que deseja vingar seu pai, e nas HQ pipocam Duendes Verdes pós-original.
Neste filme algo interessante acontece: Mary Jane é a fracassada do momento. Os infortúnios chegaram para essa moça como um meteoro particular. Seu relacionamento com Aranha não dá certo, sua carreira também… Em contrapartida, Peter está no auge de sua glória, deixou de ser aquele paspalho bobo e pamonha! O mais curioso é que Parker se permite estar por cima porque por um momento ele usou o poder de Venon. Ou seja, do mal rsrsrs. Cartas marcadas. Bom, eu vou preferir não me aprofundar sobre Venon porque sei que ferraram demais com esse vilão no filme, porém, prefiro que os mais inteirados da HQ comentem a respeito.
E sabe do que mais? Adivinhem… Mary Jane, claro, foi mais uma vez alvo rsrsrs… Grandes poderes geram grandes responsabilidades, né Mary Jane?
Por: Guerra de Pipoca.