Nosso Lar

Nosso Lar

Direção: Wagner de Assis

Gênero: Fantasia

Brasil – 2010

 

A teologia é um ramo da literatura fantástica

                                        - Jorge Luís Borges

            Normalmente não me meto em assuntos religiosos. Tenho uma certeza praticamente absoluta sobre a inexistência do sobrenatural e, quando não em contexto de arguições antropológicas, considero obsoleto abordar o tema. Para ser sincero, o que penso das religiões em geral é bastante simples. Existe uma expressão, do sociólogo Erving Goffman, para instituições falidas que ainda pensam ter algum poder expressivo: acalmando o otário(não para as pessoas que acreditam, mas as Instituições em si!) No caso, as Igrejas não possuem poder significativo, mas é bom deixarmos acreditar que ainda tem relevância. Nada impede que, se algum dia de fato se sentirem ameaçadas, contra-ataquem e recuperem a influência social de outrora. Precisamente, para impedir que isto aconteça, a sociedade em geral confere certa voz à Igreja, fingindo dar importância às suas palavras. Na prática, pouco pode fazer. Se a Igreja se impõe contra o aborto, isto pode influenciar tão somente os próprios religiosos. Uma menina não-religiosa abortará de qualquer modo. E não sofrerá represálias morais por seus semelhantes, a princípio, seu grupo social. Se ela for religiosa, abortar e sofrer tais represálias pelos religiosos… bem, está na hora de se tornar atéia. E se argumentarmos sobre a constituição do Estado laico e das condições financeiras daquela que quer abortar; ipso facto, não muda muita coisa do que mencionei acima. No mais, certas leis serão eventualmente aceitas quer a Igreja tolere ou não. Sua voz é semelhante ao do velho patriarca gagá na discussão sobre os afazeres familiares. Todo mundo finge escutar por respeito. Entretanto, no fundo, os efeitos de suas palavras são inofensivos. É melhor deixar o velho patriarca iludido, sedado, do que provocá-lo. Vai que ele resolve deserdar todo mundo ou algo assim? Penso semelhante em relação às instituições religiosas.

            Portanto, não tinha a menor intenção em falar mal deste filme a priori. Infelizmente, ele é ruim demais! Ultrapassou todas as minhas expectativas! Recomendo para casos de insônia ou masoquismo. Diante o imenso sucesso do filme –o maior orçamento e a maior bilheteria do cinema nacional – é minha obrigação saber o que se passa nele já que meu trabalho é pensar as culturas e as sociedades. Tenho uma técnica para tornar o fardo menos torturante. Imagino tudo em termos de literatura fantástica. Portanto, quando São Tomas de Aquino, em sua Suma Teológica, revela os segredos da “Obra de Deus”, imediatamente penso na Terra Média, no Gandalf e no Sauraman erguendo seus cajados etc. A Bíblia, então, com a criação do mundo… leio como se fosse Tolkien.

Quando Aquino diz:

 ”Dizemos que Deus não tem nome ou está acima de qualquer denominação, porque a sua essência sobrepuja o que dele inteligimos e exprimimos pela palavra.

A verdade, considerada como virtude, não é a verdade comum, mas uma certa verdade, pela qual o homem se mostra como é, nas palavras e nas obras. A verdade da vida é aquela pela qual o homem, na sua vida, realiza o fim para o qual foi ordenado pelo intelecto divino…

Basta imaginar como se tais palavras fossem proferidas pela Khaleesi sobre a existência ou não de dragões, no Game of Thrones, para tudo se tornar mais interessante. Vão por mim que funciona!

Infelizmente, Nosso Lar é tão ruim que nem com essa capacidade de abstração consegui gostar do filme. Como? Como um filme tedioso, sem nenhum resquício de ação, repleto de lições moralistas simplórias auto-evidentes e pedantes conseguiu fazer tanto sucesso? Como isso foi possível? Se isso é o que brasileiro médio acredita e tem como valor, é de desanimar quaisquer perspectivas para o futuro do país.

A essência de qualquer religião, mais do que dizer qual será o destino dos homens após a morte, é estabelecer a Ordem do Universo para que os homens possam viver em harmonia. Cansamos de ouvir a velha história de que as Religiões pregam a paz fazendo guerra, certo? Não é exatamente uma hipocrisia, uma vez que a paz fundamental aqui é do próprio grupo. A Religião—seja lá qual for—mantém a coesão interna do grupo e justifica, legitima, a violência. Em outras palavras, ela controla e delimita qual segmento que deve morrer. Ao concentrar a violência da sociedade sobre infelizes determinados, ela garante a paz dos demais. Porém, para que isso seja possível, é preciso que a sociedade inteira concorde com as regras desse ordenamento. Junta-se o útil ao agradável em designar os hereges àqueles que devem morrer.

O termo “religião” provém do latim, religare. Há um duplo significado disto: religar os homens ao elo que possuem em comum, o fundamento do passado em comum que o fazem agora viverem juntos em sociedade. O outro significado é mais poético e talvez mais significativo. Religar/ delegar ao Outro aquilo que sou incapaz de fazer sozinho. Explico: a união dos homens é capaz de levantar prédios, pontes e mil maravilhas. Não obstante, é incapaz de, digamos, deter uma tsunami. Eis então como os homens elaboram seus pactos com os deuses, para que estes controlem a natureza em favor dos primeiros.

Portanto, a Religião é Política. Bispos na televisão não são algo recente. Digo, a televisão pode ser, mas os dedinhos santificados mexendo as cartas em nossos afazeres, não é. Sempre foi assim. E é por isso que falarei, neste texto, de Ciências Políticas. Evidentemente, das três irmãs das Ciências Sociais, este terreno é o que menos conheço. Vamos lá de qualquer forma, é sempre interessante brincar com São Tomas de Aquino e a concepção da cidade ideal na Idade Média. É surpreendentemente próxima daquela pregada em Nosso Lar, salvo pelo advento da mentalidade capitalista entre os setecentos anos de diferença das duas obras.

Constitucio, na Idade Média, denota os aspectos de órgão; não somente jurídico, mas também de corpos, como o de um ser humano. Pode-se dizer de um sarado que ele tem “boa constituição”. Se para os homens existem condições de saúde e de doença, o mesmo é pensando em relação ao Estado (lembrando que o Estado Moderno só surge na, tcharan, Idade Moderna). Em Aristóteles, há três formas de bom governo para as correspondentes formas degeneradas: Monarquia e Tirania, Aristocracia e Oligarquia, Politéia e Democracia. A noção de “regime” não tem nada a ver com os Vigilantes do Peso. Ela advém da pastoral cristã, não necessariamente relacionada ao poder coercitivo. Trata-se do deslocamento de um pastor de almas ao governante, ao longo do tempo. O que um sacerdote não convence pela persuasão, cabe ao rei punir através da força.

Então, um belo dia às vésperas da Segunda Guerra Mundial, um médico chamado André Luiz bate as botas. Embora o filme insista em negar Kant dizendo que espaço e tempo não existem, André Luiz cai num lugar geograficamente bem semelhante ao nosso imaginário, senão do Inferno, do Purgatório. Se espaço e tempo não existissem, ele poderia cair em qualquer lugar, mas me parece que a queda especificamente no Purgatório foi proposital. Então o espaço existe e pronto! E se tempo não existe, existe a morte pra início de conversa? A vida transcorre, do nascimento à morte, no tempo, não? Bem, não vou entrar na Física e muito menos na metafísica, voltemos para Aquino.

De regimine principum (1265) foi escrito por Ptolomeu de Lucca, mas Aquino levou os créditos. Tanto faz. É um livro de aconselhamento ao governante, cujo representante mor deste estilo literário é Maquiavel com O Príncipe. A noção moderna de Estado não deve ser aplicada nem ao mundo Medieval, nem ao Nosso Lar, porque nessa cosmologia o que define a cidade-estado como organização política não é o território. Esses conceitos de Estado, Poder e dominação são inseparáveis na modernidade, mas não é necessariamente universal. Regimen é diferente de dominatioRegimen não é uma ideia política. Seu significado é ético, relacionado à atividade pastoral. A função de um rector é de regere, ou seja, conduzir. A coerção pela força tem papel secundário, pois a condução das almas à salvação se dá pela persuasão.

Bem, vou dar um pulinho rápido em Max Weber. Pessoas mais humildes tendem a desenvolver religiosidades de salvação. O mundo é maculado por uma injustiça original, um pecado, então acredita-se na vinda de um Vingador, digo, Salvador para corrigir isso. Pessoas de classes médias para cima—como no caso da maioria dos adeptos do espiritismo ou das versões ocidentais do budismo—desenvolvem religiões mais particulares, individualistas, com forte ênfase no desenvolvimento pessoal e que, portanto, legitimam as recompensas e privilégios que podem adquirir. Nosso Lar, desta perspectiva, enquadra-se perfeitamente na análise de Weber. André Luiz é um médico, não um favelado. E todos seus amiguinhos poltergeist são advogados, engenheiros etc… claro, duvido que haja um antropólogo! Voltemos para Tomas de Aquino.

Dentre as três formas de governo, a monarquia de Um só (o rei, o líder espiritual ou seja lá quem for) favorece a função pela qual o governo existe, que é conduzir a multidão à unidade. As almas que não são dobradas pelo convencimento da palavra serão dobradas pela coerção imposta ao corpo. Ir para o céu depende aparentemente do seu livre-arbítrio, mas se porventura você não seguir os ditames locais…é Inferno!

Juntando Weber e a idealização política de Aquino, torna-se fácil entender a apologia do sofrimento feito pelo líder religioso naquela comunidade astral louca do filme. “Todo merecimento se conquista através do trabalho”. Assim…

Tipo…

Vamos combinar…

Rameira que pariu! Você rala a vida inteira, pasta, sofre para ganhar o pão de cada dia e depois de morrer… tem que continuar trabalhando? Se isso é o Paraíso, imagina o Inferno? E não é qualquer trabalho, é praticamente escravo, a ver a condição socioeconômica aparente dos residentes daquele mundo astral. Parece bem próximo de bairros proletários do subúrbio das grandes cidades. Ou seja, em vida, para médicos, engenheiros e advogados, a mais-valia da sua mão de obra é mais lucrativa do que post-mortem. Novamente, isto é no Paraíso, imaginem o Inferno…

A estrutura jurídica dos direitos de soberania é um pressuposto da ideia de governo, como uma condição de governo na modernidade. Na modernidade, o reino é a condição de governo. Na Idade Média, pode-se dizer que o regimen é a condição do regnum. Logo, os preceitos são opostos. A condição para que haja rei e realeza é de que o indivíduo que governa o faça com retedição: rex recte “regendo”. Afinal, o princeps é o primeiro lugar na ordem republicana. Ao reger com retidão, o indivíduo tem direito para ser rei. O rei existe para fazer a justiça no seculuum—o tempo dos homens, a realidade mundana.

Para Marcel Gauchet, Cristo é a radical subversão (oposição) às expectativas do que se supõe ser um messias. É pobre, ferrado, só apanha e, no final, não consegue salvar ninguém. Não tem redenção mundana, não chega envolto de glória. Não significou nem um pouco da pompa esperada de um messias. A Igreja se constitui na tentativa do monopólio das interpretações sobre a existência e a função do Cristo.

Então, naquele mundo do Nosso Lar, André Luz não tem sequer o direito de fazer perguntas. Reparem nisso: cada vez que ele faz uma indagação, leva um fora dos mais experientes. “Não faça tantas perguntas, tudo tem seu tempo para as respostas” (o mais interessante é que, nós, telespectadores, jamais saberemos quais são essas respostas). Nosso Lar menospreza as faculdades do intelecto—afinal, o conhecimento médico de André Luiz tornou-se completamente inútil—e faz apologia da alienação. Exemplos de frases concretas do filme? Eis: “Diplomas na Terra não servem de nada”; “O que sabe sobre medicina espiritual?” (eu, Eduardo Cidade, particularmente sei que ela não funciona, mas enfim); “Tente não pensar em nada”; “Diplomas terrenos!”. Aliás, para que exista medicina espiritual no mundo astral, significa que é possível sentir dor após a morte. Logo, não há total desvinculação com o corpóreo o que significa que o filme se contradiz o tempo todo.

O mundo medieval é tão somente um vale de lágrimas em espera da salvação. Qual é a justificativa e a legitimidade do governo mundano para exigir a obediência do cristão? O governo dos homens pelos homens faz parte dos planos da Providência Divina. E de que maneira entram nesses planos? Deve-se obedecer César porque o governante garante uma vida calma, serena, piedosa e digna. Os governantes indiretamente ajudam os indivíduos na vida virtuosa, criando as condições—paz e ordem—para que a realização de tal vida seja possível. Seria mais difícil alcançar a Virtude se houvessem conflitos e guerra. É o disciplinador dos corpos que assegura a ordem gerando o terreno favorável à dedicação da vida virtuosa. O rei (regnum) obriga os indivíduos a seguir a ordem pública. O reino é umaecclesia universalis—uma comunidade de fiéis batizados em Cristo. Não devemos confundir com uma hierarquia de organização eclesiástica, onde pertence o sacerdotium.

Atualmente, só se pode falar de governo supondo a existência de Estado. A equação é inversa no pensamento medieval. Só existe um reino digno deste nome se o rei é bom. O verdadeiro rei deve ser um santo. Ele personifica as leis naturais: ou seja, a ordem objetiva do mundo que deve servir de conduta para o indivíduo. O regime vem antes do governo! Os direitos de governo não precedem o governo. O rei apenas chega a sê-lo se for justo. As leis fundamentais são baseadas na tradição e, neste sentido, um bom motivo para uma revolta seria “eu me rebelo porque ele não cumpre o que prescreve a lei de Deus. Ele não é justo”. Surreal, não? A concepção ministerial da realeza deriva do fato que o ministério originalmente significa um serviço. O rei desempenha uma função eclesiástica. E o pastor é um ministro! Sacerdotium e regnum estão ambos ao serviço de deus. Surreal ao quadrado.

Então, aquele velhinho que concede ou não o direito das almas penosas falarem com os vivos é rei e sacerdote simultaneamente. O engraçado é que mesmo morto você não encontra com Deus diretamente, mas com seus asseclas. Deus é VIP demais para encontrar com sua própria criação. Em termos marxistas, seria ele um alienado? Já dizia Nietzsche: o cristianismo é o platonismo das massas (e antes de qualquer crítica, as religiões ocidentais, por mais que reivindiquem singularidade, possuem forte influência cristã).

Na virada do primeiro ao segundo milênio, o Papa Gregório VII propôs em sua reforma uma tentativa em submeter os governantes seculares à autoridade do babado, digo, papado. O rei começava a se secularizar, mas ainda é cedo para falar de uma ruptura, em termos modernos, da política com religião. No mundo de Nosso Lar, elas andam de mão dadas. Se não fosse o pecado, os homens não precisariam de um rei. Um evento que minou a predominância católica foi o de São Bartolomeu, na França do século XVI (quem não souber o que foi isso, Google! Se eu explicar, me estenderei demais). Surgiu uma necessidade dos protestantes defenderem publicamente a rebeldia contra o rei da França. A disputa é entre duas casas reais, os Guise (católicos) e os Bourbons (protestante). Catherine de Médici tenta matar o futuro Henrique IV, o rei protestante que se converte ao catolicismo e redige um edito de tolerância. Isso vai subverter as imagéticas do propósito do Rei e do Reino, mas não vamos nos apressar.

            Em primeiro lugar, o bem-comum é a paz. E o “um” (o rei) realiza melhor que dois, três ou quatro. Para São Tomas de Aquino, a monarquia realiza melhor a unidade e é de longe a melhor forma de governo. O papel do rei será tanto mais digno deste nome quanto mais virtuosamente ele cumprir sua função. A fácil definição de virtude é possível uma vez que operamos em princípios absolutos (o bom rei não tem muitos cavalos, não tem muitas mulheres e lê a Bíblia diariamente—que porre! Se é para ser rei assim, prefiro ser escravo).

Um senhor pode ser um tirano em sua casa. A tirania é um conceito independente de sua função pública. A Economia, originalmente, se refere às normais e leis da conduta da casa (oikos, em grego). Os missi são enviados do imperador encarregados de velar pela boa ordem do reino com fortes implicações morais. Não se trata somente de impostos, mas, por exemplo, verificar se as mulheres de dada aldeia são adúlteras ou não.

            Na década de 1260, a Política de Aristóteles é traduzida por um monge dominicano flamengo. Aristóteles fornece menos um corpo de doutrinas do que uma linguagem a partir da qual será uma vertente propagada. Há duas tipologias de regime na Idade Média: o regime político e o regime real. Nas monarquias reais, o rei governa segundo suas leis. No regime política, tais como nas cidades italianas, o sujeito que governa o faz segundo as leis da cidade.

            A Universidade é o local de produção intelectual dos séculos XII e XIII, com a expansão urbana e associação de pessoas. Uma universitas é composta pela pluralidade de um grupo humano; quase uma “pessoa jurídica” resultante da pluralidade de indivíduos. As diversas faculdades rivalizam entre si, buscam prevalecer um ramo do saber sobre os outros. As faculdades, por excelência, são: Direito, Medicina, Teologia e Artes Liberais.

            A escolástica é um método (é a cultura das universidades) de estruturação do pensamento, cujo patrono-mor é Aristóteles. Desenvolve-se então um rigoroso sistema de argumentação e retórica. A produção escolástica máxima são os comentários sobre uma cultura formada de livros cânones. O que se faz na Universidade é para aqueles que estão dentro destas, numa lógica coorporativa fechada. Não é muito diferente de hoje em dia.

            O que isso tem a ver com as aventuras de André Luiz no além?  Nada…digo, tudo! O não-questionamento e obediência cega à autoridade são típicos do pensamento escolástico. Aristóteles disse x, então é x. Pode-se, no máximo, tecer comentários. “Beba água e não fale nada” – o que é isso senão incitação à não-crítica, suprimento do pensamento crítico? “Toda forma de servir é uma benção”: não seria uma total defesa da hierarquia já dada no mundo, na qual devo me conformar com as estruturas tais como elas já são designadas por um artífice soberano e supremo, inquestionável?

            Agora, o mais surpreendente de tudo! Se você acha que, após a morte, baixar na cabeça do Chico Xavier ou qualquer outro médium é de graça, reles engano! Um morto não pode simplesmente sair entrando na mente de qualquer médium: é preciso trabalhar! Os vivos pagam a conta do celular; os mortos, para falar através dos médiuns. É justo, não? Na verdade acho uma palhaça. Em Nosso Lar, é preciso acumular bônus-horas para merecer serviço. É “trabalho, sempre trabalho”. Mas em prol de que os mortos trabalham para construir algo? Se é metafísico, se não está submetido às leis da física, simplesmente não há necessidade empírica alguma. É totalmente moralista. A generosidade jamais é gratuita e o exemplo do filme deixa isto nítido. Uma morta infeliz não consegue enviar mensagens para a família. Ela precisa fazer algo para merecer. Assim, se fosse entre os vivos, entenderia, mas por que diabos o Paraíso é tão infernal, tão humano, demasiadamente humano? Nem mesmo no Céu pode-se escapar da lógica da dádiva, da maldição do dom, do Marcel Mauss? E praticamente o dinheiro astral deles serve apenas para entrar em contato com os vivos, ainda assim, é desaconselhado. “Não vale a pena entrar em contato com os vivos, é preciso ter espiritualidade”. Tipo, eu não sou um espírito? Somente espírito, aliás? Como é que faço para ter ainda mais espiritualidade se já sou, integralmente, um espírito? Bem, provavelmente não sou tão espírito assim, uma vez que, para se ter uma casa, preciso merecer. E quem não merece? Vira mendigo no Paraíso? Ou é um pressuposto que há seleção prévia, no sentido que somente os já disciplinados na doutrina e aptos a aceitar qualquer palhaçada dita podem adentrar o grupinho?

            Tudo bem que a ideia de liberdade como isenção de regras é moderna, data de Hobbes (e, mesmo assim, em Kant liberdade é um tipo de ação isenta de influência sensível, pautada pela racionalidade e com fortes implicações morais). Para os Antigos, liberdade é poder participar da vida política da civitas, mas carambolas…

            Nesse mundo astral, os dirigentes dão o exemplo… aff! É praticamente um daqueles discursos clichês de mercado, que exigem do funcionário o mesmo padrão de excelência que o patrão, mas sem recompensá-lo igualmente. E se ousar exigir recompensa, é mesquinharia. Ou melhor, é aquele velho discurso que o excesso material é dialeticamente proporcional ao vazio espiritual. Discurso tal que funciona somente com os proletários, não com os dirigentes. O filme é explícito nisto. O mundo que valoriza o valor de troca da mercadoria cai na contradição de que, em última análise, não há valor em nada. Pensei que o Paraíso estivesse acima disto, mas me iludi…

            Bem, se não é para falar com os vivos na lan house (sim, os mortos se comunicam com os médiuns em lan houses astrais. Tem Internet e tudo no universo supostamente imaterial). Entrementes, se para além de morar num bairro proletário e falar com os vivos nalan house, qual a finalidade dessa pregação moral toda sobre a importância do trabalho? Teria Tomas de Aquino a resposta para o enigma?

O Homem tem um fim para o qual está destinado, a razão é o meio para alcançá-lo. Como os homens divergem sobre estes fins, é preciso que um dirigente defina e oriente os homens. Telos, em grego, significa fim. A concepção da Natureza em Aristóteles é teleológica. Só se conhece a Natureza de algo quando suas potencialidades estão plenamente desenvolvidas. A Natureza do homem é ser um animal político; o homem está destinado em viver na cidade. Somente na cidade o homem se realiza plenamente. Lá, sua situação será de suficiência (e as necessidades humanas não são apenas materiais).

            Neste contexto, o regente existe por fazer parte de uma ordem da Natureza. Se antes o rei existia pelo pecado, em Tomas de Aquino é um dado inevitável da Natureza, de caráter ontológico. O fim da comunidade é o bem da multidão: é a paz e a unidade. Logo, a finalidade do rei tem um quê de mundano, apesar de toda pregação sacerdotal. A Graça não contradiz a Natureza, mas a aperfeiçoa. Existe congruência entre a ordem do mundo e os planos da Providência.

A verdadeira natureza é a semelhança de Deus; no entanto, por conta do pecado, o homem nega sua própria essência. Se os homens não fossem pecadores, bastariam os sacerdotes. Os topos são pontos de passagem canônicos na formulação da retórica. Qual é o fim do homem? O homem possui a razão para reconhecer seus fins, entretanto, a razão não lhe basta. Acontece, porém, agirem os homens de modos diversos em vista do fim, o que a própria diversidade dos esforços e ações humanos patenteia. Portanto, precisa o homem de um dirigente para o fim. É a carência biológica dos homens que os impelem à associação. Neste sentido, é utilitário. Lembremos de Max Weber em sua distinção entre ação instrumental e ação baseada em valores (há outros dois tipos de ações para Weber, como a via afetos e a por tradição). Uma ação relativiza os valores em função de cálculo de fins e meios. Noutro, entra a questão dos valores e honra. A deficiência do homem é suprimida pela capacidade de associação política.

            Oras, é melhor ser dois juntos do que um; desta forma pode-se tirar proveito da mútua sociedade. A natureza é o fim e a natureza do homem é a cidade, por lá encontrar condições de plena suficiência. O atributo natural implica atualização de determinada potencialidade. Em Max Weber, na Ciência como Vocação, não nos é mais dado fazer como um cientista do Renascimento. Ao conhecer fatos, se descobre sentidos, como por exemplo se alguém desvendar a natureza do piolho por consequência prova-se a existência dos deuses (se o piolho é perfeito, então ele é necessariamente obra divina). É por isso que argumentos religiosos são tão evidentes para os crentes e simplórios para cientistas. Se o mundo é tão belo, então necessariamente foi criado por entidades supremas. Tenho certeza que todos aqui já ouviram tal argumento. Aff.

            A cidade visa a vida boa e a virtude daqueles que nela vivem; é para além das meras segurança e manutenção utilitária das condições de vida. A linguagem em sua essência exige a cidade! Antonomasticamente (por analogia, por identidade raiz), o despotes—ou seja, déspota—, é o nome grego para o senhor de uma casa. O senhor concebe, o escravo realiza. A casa surge em condição de falta originária de cada um dos componentes. De uma associação de casas, surge a aldeia, que suprirá as carências da casa. De várias aldeias unidas, emerge a cidade. A cidade basta em si mesma, é o ponto de chegada. Aquilo que é suficiente é plenamente. A cidade é o ponto de chegada por ser suficiência e plenitude em termos ontológicos. A falta de tal plenitude é uma falha, uma falta da própria identidade. Afinal, o corpo que não muda é idêntico a si mesmo—e isso é o ideal na Antiguidade e na Idade Média.  O movimento na Física aristotélica é impulsionado por uma lógica de identidade, de essencialidade. Para Kant, a Natureza é o conhecimento de fenômenos, daquilo que é observável. O ideal é buscar conexões factuais. Em Aristóteles, fatos e sentidos são categorias inseparáveis. Falar da natureza do homem é ponderar do próprio sentido da existência humana. Ou melhor, arethé—virtude, excelência, aquilo que é bom e belo. O bom é associado ao reconhecimento dos outros de sua excelência. Lembram do Banquete do Platão? Alcebíades e Ágathon? Então, ágathos significa bom. O Cristianismo reverte essa concepção, uma vez que, quanto melhor for o indivíduo, menos este deve aparecer para os outros.

            Enfatizo que, para São Tomas de Aquino, o bem comum é a unidade, ou seja, a paz.Politeia pode, além da forma adequada da democracia, com cautela, ser traduzido comoconstituição ou regime. O regime bem organizado está em sintonia para com a finalidade ele mesmo existe, em harmonia com a natureza. Como o mundo é imperfeito, há espaço para a ação humana uma vez que a natureza não realiza por si só. Se muitos governarem a cidade, todos estes sujeitos precisarão submeter suas vontades a uma única vontade. Adiante, a natureza também funciona deste modo, realizando a unidade de modo mais eficaz. Porém, se um realiza o bem melhor, também realiza o mal pior vide ser uma vontade única na direção ruim; no caso dos muitos ruins, os interesses maus se neutralizam. A tirania absoluta é a pior forma de governo; não obstante, só um tiquinho de tirania ainda é melhor que a democracia. Melhor uma tirania light, com poucas calorias, do que a democracia. Se o importante é a unidade da cidade; neste aspecto o argumento é mundano. Os fins que dizem respeito à salvação dos homens não necessariamente coincidem com a salvação da cidade. E a salvação da cidade é a suprema lei.

            Até porque, se fosse só eclesiástico, os termos seriam incompreensíveis. De certo modo, isso justifica a lan house e as casas proletárias em Nosso Lar (sem contar os trens futurísticos estilo parque de diversões da Disney).

            As monarquias medievais são frequentemente eletivas. A eleição não é popular, mas o resultado da escolha de indivíduos de posição privilegiada. Não é por voto individual, mas fruto de consenso unânime. Um poder que limita o soberano é a negação do direito de matar e a possibilidade de resistência ao tirano. As autoridades são, então, aqueles que cumprem funções públicas, podendo destituir o tirano (e de qual país e século falamos).

            A resposta para o risco de tirania é simples. O governo misto. Neste arranjo, as virtudes não são dos governantes, mas das instituições. Elas não necessariamente produzem virtude, mas elaboram limites e restrições. No pensamento grego havia um ciclo vital básico das sociedades humanas. A monarquia se estabelece diante o caos do suposto Estado de Natureza. Os sucessores do primeiro rei esquecem da situação original de conflito e pensam mais em si mesmos do que no interesse público, culminando em tirania. Eventualmente são depostos pelos aristocratas que, caídos no vício, se entregam à oligarquia. É, então, novamente deposta: eis o surgimento da democracia. No governo misto, cada tipo de órgão encontra o contra-peso com os demais. Encontra-se uma ordem os diferentes regimes se equilibram mutuamente. É cheia de freios e contrapesos (checks and balances, no pensamento político anglo-saxão). Tal mecanismo evita o abuso de poder.

            Como garantir a estabilidade, a permanência—ou seja, a durabilidade—na vida da cidade? São Tomas de Aquino recupera a reflexão de Políbio. O regime é condição do reino, então Aquino aplica a ideia da linguagem da constituição do governo misto nesta. Não é uma descrição, mas uma afirmação normativa. O pressuposto do Rei é a justiça daquele que governa. O arranjo do governo misto permite uma realeza política. Logo, o rei é limitado pelas leis, assegurando que o rei governe com retidão e justiça. Não se trata da preocupação com a comunidade de cidadãos, mas a importância de assegurar que o monarca não se torne um tirano. A constituição mista, para Aquino, é a possibilidade da monarquia limitada. Se o rei for extremamente virtuoso, ele não estará submetido à lei vide que sua própria lei é a Justiça. Esta seria a monarquia real, mas não é “plausível”. Tempera-se o rei: a melhor forma de limitar o poder do rei e garantir a Justiça. Para Políbio, é mais importante a estabilidade e a paz. Na lógica de Aquino, não há Estado.

Em nota: governo misto é um protótipo da divisão dos poderes de Montesquieu. É uma tentativa de combinar monarquia com aristocracia e democracia, mas não planejo me estender muito nisto. Na minha humilde opinião, qual a forma de governo em Nosso Lar?

            Oras, trata-se de um governo oligofrênico (tal palavra significa, literalmente, débil mental). No Leviatã, de Hobbes, o estado de natureza é de homens segmentados. A instituição do governante transforma a multidão em pessoa pública. A realização da unidade da multidão envolve o conceito de finalidade uma vez que a ordem pública não é apenas a delegação de disciplinas. Ela envolve alguma concepção teleológica da vida coletiva: a sociabilidade dos homens tem determinado fim. No Leviatã, o homem não é social e tampouco tem um bem supremo. No mundo do Hobbes, não há finalidade objetivamente dada na vida política. Nossas percepções sensoriais recebem impressões que desempenham pressões por todo o corpo. Onde não há movimento, não há vida. Os valores são resultados dos nossos apetites que consideramos bons e ruins. O Bom depende dos apetites, daquilo que dá prazer. O mau é seu avesso. O desejo e a aversão não existem fora do Homem: existem apenas movimentos internos do corpo produzindo valores.

            Em São Tomas de Aquino, a ordem do mundo está objetivamente dada. Alguém lembra de como é a capa do Leviatã? Há um sujeito segurando um báculo—espécie de cetro episcopal—em uma das mãos e uma espada, na outra. A cabeça dá unidade ao corpo, que é composto por múltiplos bonequinhos—digo—súditos. O poder é um artífice e, sem um poder público, a unidade seria impossível. Os homens são dissidentes. Em Aquino, o poder não é um artifício, mas uma exigência lógica para alcançar os tais fins da Natureza. Se não há poder, então temos uma aberração. A comunidade perfeita, por natureza, exige a existência do poder. Entretanto, isto é pela lógica. Empiricamente, dada a imperfeição do mundo, é possível que o poder não exista (o que é, ressalto, uma aberração). A tirania em excesso é o pior dos regimes, porém a tirania moderada é melhor que o mau governo de muitos. A democracia permite que cada um busque seus próprios interesses, rompendo a unicidade do bem-comum.

            Religião não é qualquer Política. É monarquia absoluta!

            Para finalizar, não posso deixar de falar da Eloísa, uma jovem morta que chega no além quando André Luiz começa a se adaptar com todo aquele esoterismo. Ela é rebelde, acha aquelas casas proletárias muita pobreza, detesta as lições de morais chatas e sei lá o que ao quadrado. Portanto, ela é categórica ao afirmar que tem direito sobre a própria vida. Eu também pensaria isso, mas André Luiz refuta, diz que não. Ele explica sobre a Lei da Ação e Reação, no melhor estilo de livros de auto-ajuda. Pode-se pensar que é o momento mais emocionante do filme, que enfim vai acontecer algo em torno de todo aquele sermão. E acontece. Mal Eloísa tenta fugir do Paraíso que ela se dá mal. O Céu é um cárcere privado. ÉLeviatã. Ao menos Hobbes é mais pragmático do que moralista.

            Regimem Bene Commixtum: regime adequadamente misturado. A representação não é algo resultante de uma designação eletiva. No melhor regime, há um que preside, alguns homens virtuosos exercem funções no principado e muitos elegem o príncipe. O melhor regime combina elementos de três formas constitucionais—a monarquia, a aristocracia e a democracia. É na questão da constituição mista em relação à monarquia absoluta que Aquino e Nosso Lar começam a divergir. Porém, na parte da virtude e do auto-convencimento da doutrina dominante, são quase idênticos.

Não troco nosso planeta azul por nenhum outro lugar na galáxia, nem pelos mundos felizes”. É preciso ser masoquista para dizer isso. Se o Homem não busca a felicidade e nem mesmo no Paraíso ela é encontra, o que é que ele busca? Ah, não caio nessas. O Homem moderno busca a felicidade. O Homem medieval, a salvação, mesmo que isso implique em preferir deliberadamente o sofrimento ao invés da boa-venturança.

Vamos combinar que os Vikings, estes sim, sabiam o que é realmente o Paraíso!

Não vou estragar a surpresa para quem não viu o filme, mas estas cenas, embora não realmente relevantes para o texto, não podem ser ignoradas!

*Depois de tanto discurso de superação e desapego de questões mundanas, André Luiz sentiu ciúmes ao saber que a mulher arrumou outro. Ah, francamente, que superação fajuta!

*O final do filme fala do André Luiz como se ele fosse uma pessoa de verdade, “André Luiz continua a trabalhar em Nosso Lar até os dias de hoje”. Ele não quis reencarnar de 1930 até a atualidade. Gostou mesmo de morrer. Será que o IDH é alto em Nosso Lar pra valer tanto a pena? Bem, só pode ser, porque night e diversão são inexistentes. A única coisa que compensa são os concertos de música clássica ao ar livre naqueles belos jardins, mas acho que não pode beber, então fica sem graça…

Por: Eduardo Cidade.

Tecnologia em 3D

Hoje me deparei com uma reportagem  de simples entendimento a respeito da tecnologia em 3D e considero pertinente trazer pra cá alguns aspectos do funcionamento de tal técnica aplicada nos cinemas.

Confira a reportagem na íntegra:

Clique Aqui!

O que mais me chamou atenção foi quase no fim da explanação; quando foi dito que uma câmera que consegue capturar as duas imagens simultaneamente para proporcionar o efeito 3D é ainda muito cara, tendo como solução o uso do computador para inserir a técnica em cima de uma filmagem normal. Por isso que saímos do cinema com a sensação de desagrado quanto ao 3D (vide Thor).

Na reportagem é dito de maneira clara e explícita que se trata de uma enganação ao consumidor. Devemos ir ao PROCON? Quem receberia uma denúncia deste porte? E mais, por que pagar mais caro por uma sessão que não é legítima na técnica ofertada?

Por: Guerra de Pipoca.

Retórica

Dizem que o cinema é uma arte completa, e até existem teóricos empenhados a provar essa afirmação. Enquanto não se tem conclusões quanto a isso, a música segue no topo da arte e considero que mereça essa posição de “completude”, pois a música alcança algo em nós com uma naturalidade quase nata. Mas, não estou com pretensões de me prolongar na música, quero falar sobre uma área da cinematografia que é específico do bom cinema: a retórica.

De maneira ampla, a retórica é a ciência da linguagem e comunicação. Restringindo-a ao mundo cinematográfico, a retórica se afunilaria para os efeitos do discurso e métodos para alcançar tais efeitos. Para além, é através da retórica que o cineasta obtém o domínio da plateia. O espectador, quando vai ao cinema, espera algo da obra. O papel do cineasta é comunicar aquilo que se espera, e mais, ele tem o poder de emocionar por meio da arte quem o assiste. Ou seja, ainda que o veículo do cinema seja tecnológico, o retórico (isto é, o cineasta) fala/comunica alguma coisa que é gerador de profundos efeitos (emocionais, racionais etc) no ser humano.

Eisenstein, teórico de cinema e cineasta, em 1932 afirmou que o cineasta – com sua retórica – tem a capacidade de destruir a realidade reconstruindo-a e transformando-a em um outro sistema também de realidade, e que proporciona “arrumar” imagens nos sentimentos e mentes dos espectadores. Desta forma e de acordo com Dudley Andrew(2002), a teoria de Eisenstein é interpretada como uma teoria da propaganda. Isto é, o objetivo dos filmes é arrumar imagens de forma inteligente com a intenção de causar o maior efeito emocional possível no espectador. Em outras palavras, o cinema-propaganda subordina a arte às reações emocionais no ser humano e aos “conhecimentos construídos” por meio da obra.

Desta maneira, o cinema é a maior arma de propaganda possível e seu método é a retórica. De forma que, a arte cinematográfica transmite mensagens completas que envolvem o espectador. Se ele “compra” o que vem na propaganda é outra boa questão para ser pensada, posto que os efeitos e mensagens de um filme não ocupam o lugar comum, a via comum. Isto é, sendo o cinema arte, então pode-se dizer que o objetivo visa – antes de tudo – as emoções e não a razão.

Por conseguinte, pode-se dizer que um bom filme é aquele que porta uma ótima retórica?

Por: Guerra de Pipoca.

Cisne Negro – O Outro Lado do Espelho

Nina em frente ao espelho de seu camarim

Cisne Negro – O outro lado do espelho

Direção: Darren Aronofsky

Pensei em fazer outro texto, mas a proximidade e preparativos para o carnaval me fizeram recuar nessa ideia; por agora, sem tempo pra isso. Então, decidi escrever assim mesmo, de supetão, sem maiores correções.

Peço permissão para me referir à Nina por (Me)Nina. Penso que esse trocadilho não é ofensivo e nem desgastado no contexto do filme, faz jus ao seu mundinho colorido e de fadas cheio de bichinhos de pelúcias em seu quarto, cuidados maternos excessivos, tratamento como se fosse (me)Nina e de porcelana, ainda por cima.

Certo é que se a mãe dela se comportava assim foi por ser autorizada como um reflexo por (me)Nina. Não digo que todos os casos de não-crescimento são assim, mas este é. (me)Nina não se rebelava contra si mesmo; consequentemente, não se rebelava contra nada que lhe era imposto: aceitava chegar em casa ter seu jantarzinho preparado por sua mãe, ter as unhas cortadas por sua mãe, ver seu sono ser velado por sua mãe, ouvir por meio da caixinha da bailarina uma musiquinha para dormir… posta por sua mãe etc etc etc.

Controlada pela mãe, por seu diretor e por si mesma, pegou toda essa rebeldia recalcada e jogou contra si. Autoflagelo (vide as costas arranhadas etc). Só que este movimento não é da ordem do consciente. Aí que entra Kunis: a ameaça de vir à tona tudo que está muito bem recalcado.

O filme é difícil por isso, pois ao mesmo tempo que Kunis é uma bailarina real, é uma ameaça interna real para (me)NIna. Ou seja, boa parte do filme acreditamos que Kunis está realmente sabotando a Cisne Branco. A direção do filme nos faz acreditar que a sabotagem é externa, quando, na realidade, a sabotagem é interna. É a (ME)NINA quem se sabota o tempo inteiro.

São nas pequenas sutilezas que percebemos o jogo intenso proposto pela direção do filme. Um claro exemplo é quando (me)Nina começa a delirar nas entrelinhas: A cena em que ela se autoflagela puxando a carne do próprio dedo e logo na cena seguinte o dedo dela aparece sem nenhum machucado.

Desta maneira, Aronofsky insere o espectador no outro lado do espelho. Ele joga a dúvida para o espectador: Kunis é ou não uma perversa que quer tirar as glórias de Portman?

E se numa cena ele lança o delírio, na outra ele lança a dúvida: aquilo foi ou não um delírio? O filme é todo costurado entre o que se vê e o que se reflete no espelho. O que vemos é a ameaça de sabotagem da Kunis, mas o que se reflete no espelho é a própria (me)Nina se sabotando.

É como se o controle estivesse na ponta da panela de pressão pronto para explodir… e explode. E sempre vai explodir, ao menos em termos de estrutura psíquica no que tange ao mundo humano.

O ser humano necessita extravazar por algum lado, do contrário, o cristal se quebra na explosão mais sensível e delicada: na psicose.

(Me)Nina quis crescer ou simplesmente se viu explodindo? O ímpeto de rebeldia desmedida só me faz crer que se viu explodindo e quando é assim não há mais retorno. O cristal pode ser colado, mas as rachaduras sempre estarão presentes.

A tríade estava bem formada:

  • a mãe: tirânica controladora;
  • o diretor do balé: tentando fazer com que (Me)Nina se soltasse, mas segurando as rédias;
  • Kunis: sem controle

A luta estava posta no ringue, que vença o/a melhor. O mundo do não controle era para (Me)Nina muito atraente. Acontece que ela não tinha estrutura só pra beber na fonte e voltar ao seu estado comum. Enfim, surtou.

E que surto lindo, não? Eu achei a cena maravilhosa quando o delírio a invade de uma vez e (me)Nina liberta a Cisne Negro... Foi espetacular, embora saiba que pra quem passa por isso é bastante sofrível.

Sei que quando ela chora é por estar sofrendo e carregando uma dor que não aguenta carregar. Numa clínica psiquiátrica, é de doer a alma. Mas, a cena, a arte, a poesia do filme, foi digna de aplausos. Ao invés de chorar com ela, abri um sorriso, porque FINALMENTE um diretor de cinema conseguiu captar o que é um delírio. Tarefa bem difícil para quem não é da área psi e mais, para quem faz arte com cinema.

Por essas e tantas outras coisas que estão atrás do espelho de Nina Menina, é que considero um erro da Academia Americana de Cinema não premiar este filme com o Oscar. Mas, quem precisa dessa estatueta para considerar essa obra brilhante?

Por: Guerra de Pipoca.

Leia aqui também.

Sobre Alice…

 

(Feita por mim do livro: Alice no País das Maravilhas)

Alice no País das Maravilhas  de Tim Burton – EUA / 2010

Por um motivo muito simples gosto bastante desta obra: toda a jornada de Alice é para conhecer aquilo que é desconhecido. Nada mais psicanalítico do que isto. Aliás, Alice é um incentivo para qualquer área desde que seja do saber ainda não sabido. Creio que pesquisadores, etnógrafos, analistas e até mesmo curiosos perguntadores sobre “por que o céu é azul” tem um pouco ou muito do “sangue” desta menina de belos cachos dourados. Não me resta dúvida: saber é um verbo que atinge o imaginário do país das maravilhas. Não importa se a dúvida é sobre “por que somos assim?” ou “por que Urano está tão longe do Sol?”, posto que – no fundo e no raso – qualquer pergunta que se faça é uma busca de sanar o  desconhecido de nós mesmos. “O que somos nós? Quem somos nós? Pra onde vamos nós?” –  O que Alice faz senão isto? Portanto, é uma obra literária que recomendo por, também, ser ancorada na fantasia. Aquilo que não damos conta de resolver, fantasiamos. Não esta fantasia consciente e que é dita de maneira racional, me refiro à fantasia inconsciente. Esta que não é conhecida… Ou seja, fantasiamos o tempo todo, ainda que não “saibamos” sobre isso.

A minha relutância em assistir a este filme diz respeito à repetição nos cinemas desta obra tão cara. Ora, se o assunto diz respeito ao desconhecido, por que repeti-la tantas vezes sob diversas máscaras a ponto de perder sua graça? Ou seja, a obra já está tão conhecida que a mensagem sobre buscar o desconhecido perdeu um pouco de seu valor no cinema. Será que não há mais nenhuma história de fantasia desconhecida que não possa ser retratada na telona? Só há a Alice? Tão limitante e limitado restringir a fantasia a apenas Alice no País das Maravilhas. Tendo a pensar que nós, seres humanos, estamos muito empobrecidos de criatividade…

Portanto, depois de um ano de seu lançamento, só agora que me dispus a assisti-lo. Espero que nenhum outro diretor tenha a falta de imaginação de por Alice mais uma vez nos cinemas. Já deu. Não há mais o que sugar desta obra. De maneira que imagino que esta Alice já se esgotou em possibilidades de mostrar sobre o desconhecido. Já se tornou conhecida demais e sob formas das mais variadas.

Falar deste filme, por conseguinte, é esmiuçar a pobreza da falta de criatividade desses diretores do Cinema. Deixo pra lá por respeito à obra literária, que é linda e instigante; e, sobretudo, não precisou ser feita em 3D para conquistar o mundo. Ao contrário, é uma trama muito simples.

Pra que complicá-la?

Por: Guerra de Pipoca.

Velha Nova Infância

 

(Feita por Guerra de Pipoca)

Lacan se dizia com 5 anos de idade, mas ter 5 anos de idade e saber ter esses anos de vida são duas coisas diferentes.

Saber ter 5 anos nas costas é fantasiar, brincar com a vida, brincar com que estiver disponível como instrumental e ferramenta e fazer disso um lindo momento de prazer e satisfação. É  saber rir e sorrir com as situações, adversidades, momentos, circunstâncias etc. Demora-se muito tempo para ser jovem…

Saber ter 5 anos é conseguir enxergar diversas possibilidades de respostas para as experiências da vida…

(Feita por Guerra de Pipoca)

assim como fazem as crianças que tiram do lenço depositado no chapéu -com toda mágica do mundo- um belo pombo. Assim como Lacan, que com muitos anos de experiência se dizia com 5 anos de idade.

Mais uma  vez: comemoremos o tempo dos Aquarianos, tempo este que é atemporal…

Felicidades, Aquarianos Guerreiros! (Guerra de Pipoca, Morgana, Vamp e BullDog)

Vida Longa e Próspera!

Por: Moiras.

Death Note

Death Note

Autor: Tsugumi Ohba

Direção do anime: Tetsurō Araki

Gênero: Animação, Suspense, Ação

Japão – 2004-2006 (mangá)/ 2006-2007 (anime)

 

FO-DÁS-TI-CO

 

Por: Eduardo Cidade*

 

*Observações sobre Death Note:

 

Pois, para os meus companheiros lançados na aventura após uma vida no mais das vezes pacata, essa mescla de maldade e de asneira afigurava-se um fenômeno inacreditável, único, excepcional, a incidência, sobre as suas próprias pessoas e sobre as de seus carcereiros, de uma catástrofe internacional como até então jamais se produzira na história. Mas para mim, que correra o mundo e que, nos anos anteriores, vira-me metido em situações pouco banais, uma experiência desse tipo não era de todo desconhecida. Sabia que, lenta e progressivamente, elas se punham a brotar, qual uma água traiçoeira, de uma humanidade saturada por sua própria imensidão e pela complexidade cada dia maior de seus problemas, como se a sua epiderme estivesse irritada com a fricção resultante de intercâmbios materiais e intelectuais ampliados pela intensidade das comunicações. Naquela terra francesa, a guerra e a derrota só haviam apressado a marcha de um processo universal, facilitado a instalação de uma infecção duradoura, e que jamais desapareceria por completo da face da Terra, renascendo em um ponto quando enfraquecesse em outro. Todas essas manifestações estúpidas, execráveis e crédulas que os grupos sociais segregam como um pus quando começa a lhes faltar a distância, eu não as encontrava naquele dia pela primeira vez”.

Claude Lévi-Strauss, Tristes Trópicos.

 

 

Raito Yagami—ou Yagami Raito, para falar como os japoneses—é um dos melhores alunos do Japão. É certinho demais. É curioso como é típico das pessoas se surpreenderem quando cidadãos do bem surtam. Na verdade é mais previsível do que imaginamos, embora não provável. O fato de algo ser raro não significa que não é previsto. Dificilmente ganharei na Mega Sena caso decida apostar; mas certamente não ganharei se jamais o fizer. Em temperamentos humanos, a ignição pode-se dar numa reestruturação da dicotomia “não quero” e “não posso”. Quando a barreira do “não posso” é suplantada, restando somente a do “não quero”, então fica-se mais fácil compreender porque tantas pessoas certinhas, cidadãos de bem, surtam. É o que acontece com Raito, num belo dia tedioso, quando o Shinigami (um deus da morte, na mitologia japonesa) Ryuuk deixa seu Death Note cair nas redondezas.

 

Não consigo pensar em outro exemplo menos tosco a fim de me tornar mais claro. Suponhamos uma sala que, impreterivelmente, explode às dez horas. Quem estiver nela neste horário, se dá mal. Desde criança o sujeito é educado—seja pela mãe ou quem for—a sair desta às nove horas. No início ele chora, grita e esperneia querendo ficar mais tempo, mas a autoridade é inflexível. A concessão, geralmente como recompensa por algum mérito deste indivíduo, é de alguns minutos—porém sempre antes das dez horas. Este ser crescerá incorporando seu natural desejo em sair da sala antes das dez. Isto se tornará parte de sua “natureza”, mesmo quando tal autoridade não mais o reprimir. Portanto, ele de fato “não quer” ficar até as dez. Não é forjado, é um desejo legítimo e sincero. Mas não vamos nos iludir. Ainda assim, ele “não pode”.

 

“Não faço a menor questão em ter um jatinho particular” ou “não gostaria de ser um rei, acho que seria sem-graça” são sentenças pronunciadas regularmente por pessoas que, ainda que quisessem, não poderiam. Não se trata de uma opção! Isto não quer dizer que sejam hipócritas ou frustradas. Na maior parte das vezes, dizem com toda a sinceridade o que desejam e o que não desejam. Este é o brilhantismo do poder que a cultura exerce em nosso senso de julgamento! É só prestar atenção em qualquer conversa de boteco: quanto mais sincero o “não quero” aparentar em relação ao “não posso”, mais moralmente belo consideramos o ator social que pronuncia tal assertiva. A boate fecha às 6 da manhã impreterivelmente. Quem é considerado mais elegante? O rapaz que sai às 5 da manhã por vontade própria ou o outro que, sob chutes e pontapés dos seguranças, tenta ficar para além do final?

 

Onde quero chegar com isso? Simples. O sentimento de Justiça tem nessa lógica um de seus alicerces. O moralmente belo tem seu preço e costuma ser bem elevado, afinal, la noblesse oblige. Quando se é correto em demasia, é fácil concluir que o mundo está podre e não tem mais salvação: resta somente a punição. Não quer sair da sala antes das dez? Então tudo bem; fique nela e morra! Em linhas gerais, Raito Yagami raciocina desse modo. E se nunca demonstrou antes é porque “não podia”, mas, com um belo Death Note em mãos, a coisa muda de figura…

 

Não há muito a dizer sobre Death Note além de que é fodástico. O Raito é fodão, o L é fodão, o Shinigami Ryuuk é fodão, a Misa nem tanto: mas, no conjunto, a série consegue prover um bom entretenimento. Obviamente a inteligência de Raito e L são extremamente exageradas. Embora ache legal, também admito que a falha desse desenho é precisamente essa “inteligência” surreal. “Eu sei que você sabe que eu sei que você que eu sei que você sabe que eu sei que você sabe. Logo, você sabe que eu sei, então agirei partindo desse pressuposto para você achar que eu não sei que você sabe quando, na verdade, eu sei. Contudo, farei de tal forma prevendo que você sabe que agirei dessa postura tentando te enganar, então propositalmente vou me contradizer para tentar enganá-lo. Você sabe que farei isso, por isso o farei etc”…ad infinitum. É para se perder, não? Enfim, é um desenho animado, então não dá para levar tão à sério assim.

 

O nome da pessoa em que você escrever no caderno morrerá! E quem poderia cogitar a hipótese da existência de um Shinigami? Neste mundo científico, é absurdo pensar em razões místicas. Aqui, onde o absurdo entra em jogo, entra o questionamento: se jamais me descobrirão, então o “não posso” deixa de existir. E o “não quero”, ainda que verdadeiro e sincero, é frágil demais para se sustentar por muito tempo. Afinal, o poder corrompe justamente por ser a ausência do não-poder.

 

Regularmente menciono que minha definição favorita de cultura é “negação da natureza”, mas essa definição, embora eficaz na maioria dos exemplos, não é completa. Nos seres humanos, pensar na Natureza em estado bruto é inviável (e muito menos pensar numa natureza humana. Isto não existe, há, quando muito, uma condição humana em perpétua construção). O cientista dialoga não com a natureza pura, mas com um determinado estado da relação entre a natureza e a cultura definível pelo período da historia no qual ele vive, pela civilização que é a sua e pelos meios materiais de que dispõe. Logo, o inventário do conjunto predeterminado de conhecimentos práticos e teóricos e de meios técnicos limita as soluções possíveis para um dado questionamento seja lá de qual ordem, prático ou moral. O pensamento científico e o pensamento mítico, por mais que compartilhem semelhanças, nem de longe são iguais. Pode-se dizer que o primeiro opera através de conceitos enquanto o segundo, por meio dos signos. Com efeito, uma das maneiras pelas quais o signo se opõe ao conceito está ligada a que o segundo se pretende integralmente transparente em relação à realidade, enquanto o primeiro aceita, exige mesmo, que uma certa densidade de humanidade seja incorporada ao real. O conceito aparece como o operador de uma “abertura” do conjunto com o qual se trabalha, sendo a significação do operador a sua “reorganização”; ela não o aumenta nem o renova, limitando-se a obter o grupo de suas transformações. A moral—ou melhor, o moralmente belo—se assemelha ao pensamento místico.

 

Raito extrapola com o Death Note. Sua fama de Justiceiro se estende e ele adquire um novo nome, Kira, em alegoria ao termo inglês killer. O moralmente belo, a estética da ética, impulsiona a ação humana de tal modo que a forma é mais importante que o resultado. Alhures falei sobre o Sacrifício, que é basicamente o exemplo máximo desse sistema. Nele a dialética entre Necessidade e Utilidade se mostra de maneira ainda mais escancarada, e talvez isso fique mais claro na construção seguinte. Também mencionei alhures que o Sagrado é associado ao Inviolável (a Ordem do Mundo), que não há como ser de outra forma, e também é, como na etimologia de sacré, uma Maldição. Ou seja, o Sagrado é maldito e irrefutável. Mas não só isso, ele também é associado ao Belo. Maldito, Inviolável e Belo. Por isso as pessoas choram quando encontram Jesus. Ainda não o encontrei porque não frequentamos os mesmos bares, mas quem sabe um dia…

 

Para Durkheim a necessidade de Ordem sobrepuja a necessidade de Justiça. Ele tem razão. Uma sociedade tolera certas injustiças se com isso ela pode se manter estável durante períodos longos. De nada adianta existir Justiça se isto for possível somente durante um curto período, uma vez que é quase certo contrariar a premissa básica da Ordem social (chegarei nisso em breve). Não obstante, se racionalizarmos demais a vida, perceberemos que ela não faz sentido e que viver não vale a pena. É preciso criar certas ilusões, seja na forma de deuses ou de príncipes encantados e almas gêmeas. Em escala maior, algo semelhante se passa com a Sociedade. Ainda que a paz e o mundo dos Ursinhos Carinhosos sejam impossíveis aos Homens, a Sociedade precisa desses mitos bonitos para manter sua coerção; essa crença no impossível é a comunhão (“comunidade” vem do “comum”, o que há em comum ou pacto entre os iguais) dos homens em prol de um bem acima deles. E a Justiça se assemelha ao pensamento místico por ser irracional em sua praticidade, cuja premissa jaz na restituição equivalente entre as partes (abaixo falarei sobre os ritos místicos em contraposição ao “jogo” da contemporaneidade).

 

A relação entre Necessidade e Utilidade pode ser meio confusa. Preciso enfatizar que o “negar a Natureza” torna-se a “própria natureza” daquele indivíduo. Ainda assim, as culturas humanas, longe de seguirem a “economia da Natureza”, adoram complicar o que poderia ser simples. Algo pode ser maldito, mas também é belo. Fica claro o seguinte: a recompensa pelo sacrifício é o privilégio. E as relações de privilégio hierarquizam os homens. Antes de seguir adiante, tentarei elucidar um pouco mais sobre a relação Necessidade e Utilidade. O emprego de termos mais ou menos abstratos não é função de capacidades intelectuais, mas de interesses desigualmente marcados e detalhados de cada sociedade particular no seio da sociedade nacional. “Subi ao observatório; aí cada estrela não é mais simplesmente uma estrela, é a estrela X do Capricórnio, é a Y do Centauro, é a Z da Ursa Maior etc. O Universo é objeto de pensamento, pelo menos como meio de satisfazer a necessidade.

 

Cada civilização tende a superestimar a orientação objetiva de seu pensamento; é por isso, portanto, que ela jamais está ausente. Quando cometemos o erro de ver o selvagem como exclusivamente governado por suas necessidades orgânicas ou econômicas, não percebemos que ele nos dirige a mesma censura e que, para ele, seu próprio desejo de conhecimento parece melhor equilibrado que o nosso. O hábito tão simples como a mastigação de bétele supõe, nos hanunoo das Filipinas, o conhecimento de quatro variedades de sementes de areca e de oito produtos de substituição, de cinco variedades de bétele e de cinco produtos de substituição. As espécies animais e vegetais não são conhecidas porque são úteis; elas são consideradas úteis ou interessantes porque são primeiramente conhecidas. Pode-se objetar que uma tal ciência não deve absolutamente ser eficaz no plano prático. Mas, justamente, seu objeto primeiro não é de ordem prática. Ela antes corresponde a exigências intelectuais ao invés de satisfazer às necessidades. A ideia é introduzir um princípio de ordem no universo. Qualquer que seja a classificação, esta possui uma virtude própria em relação à ausência de classificação. Afinal, os cientistas suportam a dúvida e o fracasso porque não podem fazer de outra maneira. Mas a desordem é a única coisa que não podem nem devem tolerar. Todo o objeto da ciência pura é conduzir a seu ponto mais alto e mais consciente a redução do modo caótico de percepção, que começou num plano inferior e provavelmente inconsciente, com a própria origem da vida. Pode-se perguntar, em alguns casos, se o tipo de ordem elaborado é um caráter objetivo dos fenômenos ou um artifício construído pelos cientistas. Entretanto, o postulado fundamental da ciência é que a própria natureza é ordenada. Os termos “sistemática” e “ciência teórica” são basicamente sinônimos.

 

Misturar Lévi-Strauss e Norbert Elias com Raito Yagami e L no mesmo liquidificador não é simples, mas vamos lá! O início da série e seu final mostram uma radical mudança na personalidade do Raito. Em principio ele aparenta mais preocupado com o mundo do que com si, é mais importante “limpar a podridão”—como ele julga—do que ser o Deus do Novo Mundo. No final do seriado o oposto ganha maior evidência. Sua preocupação narcisista o faz inclusive cometer a tão abominável Injustiça aos seus olhos ou mesmo sem perceber isto. Claro, os deuses estão acima do Bem do Mal e há um motivo para isso: são eles, no mundo contemporâneo traduzidos como Estado, que detêm o monopólio da violência. No mais, é interessante observar: quem mais implica com os remédios de emagrecer são os saudáveis e quem mais implica com os livros toscos de auto-ajuda barata são os intelectuais. Isso é simples. Podem dizer que se preocupam com a saúde alheia, justificar cientificamente por X + Y que determinado elemento é nocivo, mas no fundo, o que está em jogo é a posição privilegiada de quem está no poder. Enquanto o indivíduo quer se assemelhar àquele que tem o poder seguindo os mesmos passos deste, ele ressalta e valoriza o poder dominante. Entretanto, se for possível obter os mesmos resultados práticos sem seguir os mesmos procedimentos, o poder do dominante entra em xeque. É claro que para um estudo acadêmico jamais um livro do estilo As Tartarugas Ninjas e a Filosofia poderá se equiparar ao conhecimento do legítimo intelectual, mas na mesa de bar, sim! É claro que o corpo adquirido graças aos remédios jamais será tão saudável quanto o do atleta, mas para flertar na boate, o resultado é o mesmo!

 

O privilégio é conquistado mediante a renúncia. O indivíduo se abstém de determinadas práticas e incorpora algum tipo de ascese (como renegar a pizza para comer cenoura, ainda que, enfatizo, ele possa realmente gostar mais de agrião do que de brigadeiro. Não é hipocrisia, é a influência da cultura!) a fim de, com isso, ganhar o carisma e ser aceito em um grupo privilegiado. E com isso ele terá benefícios. Quanto mais isso for naturalizado, quanto menos aparentar forçado, quanto mais ele demonstrar que realmente prefere a disciplina no lugar da lassidão, mais eficaz. Por que? Porque isso se torna quase natural. E o argumento da Natureza é o argumento supremo! “Não sou eu que digo que sou melhor que você: é a própria Natureza que diz isso!”, “Olha, não tenho nada contra ti, sério… mas a Natureza diz que tu és inferior a mim, então terás que me obedecer” e por aí vai. A velha anedota de quem é rico de verdade não ostenta gratuitamente se justifica nisso: o privilégio não precisa ser dito. É auto-evidente. Entrementes, se for questionado, o grupo ameaçado utiliza argumentos da Natureza para legitimar sua superioridade. “Ainda que você possa fazer como eu, seus métodos são nocivos e isso foi comprovado cientificamente. Eu sou natural”. Simples assim. E vemos esse tipo de situação o tempo todo, não? Usar a Natureza como recurso aparentemente ausenta a responsabilidade e arbitrariedade do dominador frente ao dominante. Trata-se de uma Ordem que supera ambos, fazendo com que o dominado aceite a Injustiça do mundo como Justiça.

 

Espero que duas conjecturas fiquem claras com isso! A única maneira da existência de uma Justiça perfeita é através da Injustiça para com aqueles que renunciaram diversos impulsos a fim de adquirir o privilégio. Ademais, o mundo, a priori, não tem problema algum. Os Homens inventam problemas para legitimar poderem então solucionar e legitimar sua importância. Ainda que fosse possível solucionar os ditos problemas do mundo, não há a menor intenção em fazê-lo porque a solução em si não é importante. O modo como atingir que prevalece e quanto mais homens conseguirem tal estado de perfeição, mais alto será alçado o patamar. Não se trata de simples egoísmo ou interesses conspícuos desprovidos de sensibilidade. Os Homens procedem dessa forma para garantir a Ordem.

 

A exigência de Ordem constitui a base do pensamento denominado “primitivo”, mas unicamente pelo fato de que constitui a base de todo pensamento, pois é sob o ângulo das propriedades comuns que chegamos mais facilmente às formas de pensamento que nos parecem muito estranhas. “Cada coisa sagrada deve estar em seu lugar”, já notava profundamente um índio doidão de algum canto bizarro, mas a ideia de base é esta: é isso o que a torna sagrada, pois, se fosse suprimida, mesmo em pensamento, toda a ordem do universo seria destruída; portanto, ela contribui para mantê-la ocupando o lugar que lhe cabe. Os requintes de um ritual que podem parecer dispensáveis quando examinados de fora e superficialmente explicam-se pelo cuidado em não deixar escapar nenhum ser, objeto ou aspecto, a fim de lhe assegurar um lugar no interior de uma classe. Esse cuidado com a observação exaustiva e com o inventário sistemático das relações e das ligações pode às vezes chegar a resultados de boa postura científica: é o caso dos índios blackfoot, que identificavam a aproximação da primavera pelo grau de desenvolvimento dos fetos de bisão extraídos do ventre das fêmeas mortas na caça. Não seria o pensamento mágico, “essa gigantesca variação sobre o tema do princípio da causalidade” (nas palavras de Hubert e Mauss) menos diferente da ciência por ignorância ou desprezo pelo determinismo do que por uma exigência de determinismo mais imperiosa e mais intransigente, e que a ciência pode, quando muito, julgar insensata e precipitada? A explicação científica corresponde sempre à descoberta de uma “ordenação”—toda tentativa desse tipo, mesmo inspirada em princípios não científicos, pode encontrar ordenações verdadeiras. Isto é possível se admitirmos que, por definição, o número das estruturas é finito: a “estruturação” possuiria então uma eficácia intrínseca, quaisquer que fossem os princípios e os métodos nos quais ela se inspirasse. Por exemplo, a química moderna reduz a variedade dos sabores e dos perfumes a cinco elementos diversamente combinados: carbono, hidrogênio, oxigênio, enxofre e azoto. Formando tabelas de presença e ausência, calculando as doses e os limites, ela chega a dar conta de diferenças e semelhanças entre qualidades que ela outrora banira de seu domínio como “secundárias”. Mas essas aproximações e distinções não surpreendem o sentimento estético, antes o enriquecem e esclarecem, criando associações de que já suspeitávamos e, portanto, pode-se compreender melhor por que e em que condições um exercício constante apenas de intuição já permitiria descobri-las. A cereja selvagem, a canela, a baunilha e o vinho de Xerez formam um grupo não mais apenas sensível, mas inteligível, pois todos contem aldeído.

 

A exigência de organização é uma necessidade comum à Arte e à Ciência e, consequentemente, possui um valor estético eminente. Toda classificação é superior ao caos, e mesmo uma classificação é superior ao caos, e mesmo uma classificação no nível das propriedades sensíveis é uma etapa em direção a uma ordem racional. A natureza, embora sempre munida de exceções, é feita de maneira a ser mais vantajoso para ação e o pensamento agir como se uma equivalência que satisfaz o sentimento estético correspondesse também a uma realidade objetiva. Longe de serem, como muitas vezes se pretendeu, obra de uma “função fabuladora” que volta as costas à realidade, os mitos e os ritos oferecem como valor principal a ser preservado até hoje, de forma residual, modos de observação e de reflexão que foram—e sem dúvida permanecem—exatamente adaptados a descobertas de tipo determinado: as que a natureza autorizava, a partir da organização e da exploração especulativa do mundo sensível em termos de sensível. A característica do pensamento mítico, este que mescla com o sentimento estético, é a expressão auxiliada por um repertório cuja composição é heteróclita e que, mesmo sendo extenso, permanece limitado; entretanto, é necessário que o utilize, qualquer que seja a tarefa proposta, pois nada mais tem à mão. Essa limitação impossibilita uma visão não-relativa da Justiça, será sempre arbitrária e, como tal, inferior em importância à Ordem. Por mais que algo seja Injusto, se sua solução gerar um bafafá caótico, a tendência da Sociedade é fingir que não vê.

 

Hmm…não sei se isso vai ficar claro, mas tentemos! O universo instrumental do pensamento mítico é fechado, e a regra de seu jogo é sempre se arranjar com os “meios” que também são “limites”, isto é, um conjunto sempre finito de utensílios e de materiais bastante heteróclitos, porque a composição do conjunto não está em relação com o projeto do momento nem com nenhum projeto particular, mas é o resultado contingente de todas as oportunidades que se apresentaram para renovar e enriquecer o estoque ou para mantê-lo como os resíduos de construções e destruições anteriores. O conjunto de meios não é, portanto, definível por um projeto (o que suporia, aliás, como com o engenheiro, a existência tanto de conjuntos instrumentais quanto de tipos de projeto, pelo menos em teoria); ele se define apenas por sua instrumentalidade. Os elementos são recolhidos ou conservados em função do princípio de que “isso sempre pode servir”. Os elementos da reflexão mítica estão sempre situados a meio-caminho entre conceitos no qual o intermediário entre a imagem e o conceito é o signo. Isto, claro, para quem lembrar do Saussure. Como um elo entre uma imagem e um conceito, os signos (linguisticos, no caso de Saussure, mas não necessariamente aqui), na união estabelecida, desempenham respectivamente os papéis de significante e significado. Assim como a imagem, o signo é um ser concreto, mas assemelha-se ao conceito por seu poder referencial: um e outro não se referem exclusivamente a si mesmos; além de si próprios, podem substituir outra coisa. Todavia, nesse sentido, o conceito possui uma capacidade ilimitada, enquanto a do signo é limitada. O que cada conceito disponível previamente no arranjo poderá potencialmente vir a “significar” (ou não) contribui em si na definição do conjunto a ser realizado, que no final será diferente do conjunto instrumental apenas pela disposição interna das partes. As unidades constitutivas de um mito, cujas combinações possíveis são limitadas pelo fato de serem tomadas de empréstimo à língua onde já possuem um sentido que restringe sua liberdade de ação têm utilidades “pré-limitadas”, evidentemente. Por outro lado, a decisão do arranjo depende da possibilidade de permutar um outro elemento na posição vacante, se bem que cada escolha acarretará uma reorganização completa da estrutura que jamais será igual àquela vagamente sonhada nem a uma outra que lhe poderia ter sido preferida.

 

Os universos mitológicos estão destinados a serem desmantelados assim que formados, para que novos universos possam nascer de seus fragmentos. Entretanto, em tal incessante reconstrução com o auxílio dos mesmos materiais, são sempre os antigos fins os chamados a desempenhar o papel de meios: os significados se transformam em significantes e vice-versa. Talvez a Arte seja o meio-caminho entre o pensamento mítico e o pensamento científico… Afinal, a emoção estética provém dessa união instaurada no âmago de uma coisa criada pelo homem e, portanto, também virtualmente pelo espectador que lhe descobre a possibilidade, através da obra de arte, entre a ordem da estrutura e a ordem do fato. Os mitos nos aparecem simultaneamente como sistemas de relações abstratas e como objeto de contemplação estética uma vez que o ato criador que engendra o mito é inverso e simétrico àquele que se encontra na origem da obra de arte. Neste último caso, parte-se de um conjunto formado por um ou vários objetos e por um ou vários fatos, ao qual a criação estética confere um caráter de totalidade, por colocar em evidência uma estrutura comum. O mito percorre o mesmo caminho mas num outro sentido: ela usa uma estrutura para produzir um objeto absoluto que ofereça o aspecto de um conjunto de fatos (pois que todo mito conta uma história). A arte procede, então, a partir de um conjunto (objeto + fato) e vai à descoberta de sua estrutura; o mito parte de uma estrutura por meio do qual empreende a construção de um conjunto (objeto + fato).

 

Para resumir: o útil é aliado ao estético; juntos eles foram o intermediário entre a Arte a Necessidade. O útil capaz de negar à Necessidade é costumeiramente associado ao Belo, até que pode de fato se tornar imprescindível. Seja uma máscara melanésia ou uma estátua africana: o objeto, sua função e seu símbolo parecem dobrados, um sobre o outro, formando um sistema fechado em que o fato não tem nenhuma chance de se introduzir. A criação estética depende invariavelmente da ocasião, da execução e/ ou da finalidade. O equilíbrio entre estrutura e fato, necessidade e contingência, interioridade e exterioridade é um equilíbrio precário, constantemente ameaçado pelas trações exercidas num e noutro sentido, segundo as flutuações da moda, do estilo e das condições sociais gerais. Bem, se falei de Arte e a relação do pensamento mítico com o pensamento científico; vamos agora na questão do jogo. Afinal, o que é a disputa entre Raito e L senão um “jogo”? Acima de tudo, o embate entre os dois não significa meramente quem é o melhor, mas quem está “certo”. Este é o prêmio que disputam. O N (Near) só segue as pistas já deixadas por L. Até a Misa daria conta dele!

 

O jogo mantém relações próximas com o rito. Todo jogo se define pelo conjunto de suas regras, que tornam possível um número praticamente ilimitado de partidas; mas o rito, que também se “joga”, parece-se mais com uma partida privilegiada, retida entre todas as possíveis, pois apenas ela resulta em um certo tipo de equilíbrio entre os dois campos. A transposição pode ser facilmente verificada no caso dos gakuku-gama da Nova Guiné, que aprenderam futebol, mas que jogam durantes vários dias seguidos, tantas partidas quantas forem necessárias, para que se equilibrem exatamente as perdidas e ganhas por cada campo: isto é tratar um jogo como se fosse um rito. Pode-se dizer o mesmo dos jogos que desenrolavam entre os índios fox, quando das cerimônias de adoção cujo objetivo era substituir um parente morto por um vivo, permitindo, assim, a partida definitiva da alma do defunto. Os ritos funerários dos fox parecem, com efeito, inspirados no cuidado maior de se livrar dos mortos e de impedir que estes se vinguem dos vivos por causa da amargura e das saudades que sentem por não estarem mais no meio deles. Portanto, a filosofia indígena adota resolutamente o partido dos vivos: “A morte é dura; mais dura ainda é a tristeza”.

 

A origem da morte remonta à destruição, pelos poderes sobrenaturais, do mais jovem dos irmãos míticos que desempenham o papel de heróis culturais entre todos os algonkin. Mas ela ainda não era definitiva: foi o mais velho que a tomou assim, rejeitando, apesar do seu desgosto, o pedido do fantasma que queria retomar seu lugar entre os vivos. De acordo com esse exemplo, os homens deverão se mostrar firmes em face dos mortos: os vivos os farão compreender que eles nada perdem ao morrer, pois receberão regularmente oferendas de tabaco e de comida; em troca, espera-se deles que, em compensação dessa morte cuja realidade relembram os vivos e da tristeza que lhes causa por seu óbito, assegurem-lhes uma longa existência, roupas e o que comer. São os mortos que trazem a abundância, nessa lógica, e por isso devem ser bajulados. Ora, os ritos de adoração, indispensáveis para convencer a alma do morto a partir definitivamente para o além, onde assumirá seu papel de espírito protetor, são normalmente acompanhados de competições esportivas, de jogos de destreza ou de azar, entre dois campos constituídos de acordo com uma divisão em duas metades. O jogo opõe vivos e mortos, como se antes de se desembaraçarem definitivamente dele os vivos oferecessem ao defunto o consolo de uma última partida. Não obstante, essa simetria inicial entre os dois campos decorre automaticamente a determinação antecipada do resultado. Em outras palavras: se o homem que morreu era do clã A, então o clã B deve vencer a partida. Ou se a festa é em homenagem ao clã A, quem deve ganhar é o clã B em compensação.

 

No grande jogo biológico e social que perpetuamente se desenrola entre vivos e mortos, é claro que os únicos ganhadores são os primeiros. Mas, de maneira simbólica ganhar um jogo é “matar” o adversário. Prescrevendo sempre o triunfo da equipe dos mortos, dá-se a estes, portanto, a ilusão de que são os verdadeiros vivos e que seus adversários estão mortos, já que eles sos “matam”. A estrutura formal do que, numa primeira abordagem, poderia parecer uma competição esportiva é, em todos os sentidos, similar à de um puro ritual, tal como o mitawit ou midewin, dos mesmos povos algonkin, onde os neófitos se fazem matar simbolicamente pelos mortos, representados pelos iniciados, a fim de obter uma suplementação da vida real ao preço de uma morte simulada. Nos dois casos, usurpa-se a morte, mas apenas para enganá-la.

 

O jogo aparece, portanto, como disjuntivo: ele resulta na criação de uma divisão diferencial entre os jogadores individuais ou das equipes, que nada indicaria, previamente, como desiguais. Entretanto, no fim da partida, eles se distinguirão em ganhadores e perdedores. De maneira simétrica e inversa, o ritual é conjuntivo, pois institui uma união (comunhão) ou, de qualquer modo, uma relação orgânica entre dois grupos dissociados no início, como a coletividade dos fiéis e a personagem do oficiante. No caso do jogo, a simetria é pré-ordenada; e ela é estrutural, pois decorre do princípio de que as regras são as mesmas para os dois campos. Já a assimetria é engendrada: decorre inevitavelmente da contingência dos fatos, dependam estes da intenção, do acaso ou do talento. No ritual, ocorre o inverso: coloca-se uma assimetria preconcebida e postulada entre profano e sagrado, fiéis e oficiantes, mortos e vivos, iniciados e não-iniciados etc; e o “jogo” consiste em fazer passarem todos os participantes para o lado da parte vencedora, através de fatos cuja natureza e ordenação têm um caráter verdadeiramente estrutural. O jogo produz fatos a partir de uma estrutura: compreende-se, portanto, que os jogos competitivos prosperem em nossas sociedades industriais (como a ciência, no plano especulativo ou no prático), ao passo que os ritos e os mitos não são mais tolerados senão como hobby. Afinal, eles decompõem e recompõem conjuntos factuais no plano físico, sócio-histórico e técnico e se servem deles como de outras peças indestrutíveis, em vista de arranjos estruturais que assumem alternativamente o lugar de fins e de meios.

 

É importante lembrar que a nossa atual separação entre “razão” e “emoção” assemelha-se bastante com as estruturas do pensamento científico e do pensamento mítico respectivamente. E por mais racional que seja Raito, ele, no fundo, foi impulsionado pelo pensamento mítico. Neste sentido, L é de fato superior ao Raito. Ainda assim, diria que o personagem com a mentalidade mais cientifica do seriado é o Ryuuk, o Shinigami. Ironicamente, o mais mitológico dos personagens (a Shinigami Remu também é mitológico, mas é uma imbecil por se sacrificar pela Misa).

 

Finalizando, se eu tivesse um caderninho daqueles, escreveria alguns nomes e confesso. Ai de quem passar na minha frente em concursos…

Tem para vender no eBay. Será que funciona?

 

2 anos de Guerra de Pipoca!!!

Enfim, se fechamos o ciclo de mais um ano, então, que venha mais! Somos gulosos!

:D

Parabéns para nós!

Beijos,

Guerra de Pipoca.

La Haine

La Haine

Direção: Mathieu Kassovitz

Gênero: Cinema Verdade, Ação

França – 1995

Alguém, quando criança, compreendia por que a noviça rebelde era rebelde se o máximo que fazia era cantar nos Alpes austríacos? É preciso compreender o contexto histórico, não? O que uma mera arma de fogo pode causar nas vinte e quatro horas na vida de três jovens das banlieus francesas? O beur (franco-árabe) Saïd Taghmaoui, o judeu Vicent Cassel e o negro Hubert Koundé não sabem que, numa queda, o importante é o impacto ao aterrisar. Quem são eles senão indesejáveis para o mundo? Não diria que são sem posição social, mas precisamente, como diria Foucault, inconscientemente citado por Saïd, jovens “trancados do lado de fora”. Essa é a lógica de um gueto, de uma área menosprezada, uma lepra da estética. A síntese do mal, a razão por todas as malezas sociais. Nos embalos de Tropa de Elite 2, enfim escrevo sobre La Haine, filme preto e branco que está longe de ser monótono! Ruben Katzman demonstra o processo de sedução à homogenia da cultura dominante para, esta, depois, abandonar os próprios seduzidos. Posso chegar –e é meu intuito, num buraco mais embaixo. Vamos por partes!

 

O conhecimento é produto de uma dupla relação entre o que é produzido socialmente e o que é socialmente reproduzido. Logo, o que sabemos sobre as zonas degradadas—favelas, guetos, banlieus—e seus moradores perpassam um discurso tributário das representações do senso comum muito antes da análise da produção das ciências sociais a partir dos anos cinquenta. Esse problema se choca com sua antítese na militância da própria ciência social. Não há anjos e demônios; um discurso não deve ser suplementado por outro. O Capitão Nascimento pode xingar o quanto quiser os cientistas sociais. Sou um deles, mas diferente daqueles que ele denuncia. Tento distinguir o x qua x e o y qua y.

 

O outsider tem sua clássica representação como inimigo do Estado e da sociedade a ser combatido; são sujos e vivem em condições insalubres que denotam suas virtudes morais intrínsecas. Muito bem, quando a culpa recai sobre seus residentes torna-se fácil obscurecer a responsabilidade estatal. Uma comunidade carente é traduzida como antro da promiscuidade moral. Louis Chevalier chama tais segmentos de “classes perigosas” e disto advém o seguinte questionamento ético: deve-se permitir a sobrevivência de pessoas não enquadradas no mercado de trabalho? Seria isto estimular o ócio? O trabalho aqui não se configura em qualquer meio de subsistência, mas tão somente naquele oficializado pelo Estado. E justamente só come quem trabalha de acordo com a oferta do mercado. Logo, há uma geração de pobreza maior, uma vez que as ocupações destas populações são destituídas de seus meios tradicionais de sobrevivência. É um apelo sedutor para a cultura “dominante”. A falta de opção é vista como escolha, como preferência pelo vício por parte de quem resiste ao modelo idealizado. Aliás, lembrando que para Marx, Ideologia é falsa consciência enquanto Cultura é uma alienação mistificada. Quem preferir pode definir Cultura como espaço da discussão pela hegemonia. Acho que fica melhor neste contexto embora prefira a denominá-la como “negação da Natureza”.

 

O problema é justamente a falta de capacidade de absorção de todos àqueles que aderem as novas normas! Nas palavras de Katzman, “han sido seducidos por uma sociedad moderna em que solo pueden partipar simbolicamente, no pudiendo superar por sus próprios medios los obstáculos para alcanzar uma participacíon material equivalente”. Percebam porque não há anjos e demônios. A violência das áreas pobres em geral não se dá pela necessidade de comer ou algo vital capaz de legitimar o roubo. Obviamente a extrema pobreza existe, mas em geral em lugares mais distantes do que as favelas do Brasil e, muito menos, das banlieus francesas. Não falo da pobreza das zonas rurais, da Etiópia ou dos mendigos. Refiro-me à clássica pobreza das metrópoles urbanas. Roubam porque querem um PlayStation. Não são santos tampouco culpados, vide serem seduzidos a isso constantemente. O discurso da fome é uma espécie de redenção, mais mito do que realidade. Se estes indivíduos desejam o mesmo do que eu, qual o ponto de renúncia? Se ceder constantemente, não culminarei na inversão, ou seja, conferindo aos “indesejáveis” a prioridade na aquisição de certas mercadorias antes mesmo de mim? E se assim acontecer, talvez eu mereça isso, não? Afinal, fui eu quem ostentou e estimulou o desejo alheio pelas minhas posses. Para legitimar o desejo alheio em simultâneo ao afastamento da possibilidade de obtenção daquilo que possuo, o discurso ideológico costuma amalgamar a descrição morfológica do local com a descrição de seus habitantes, atribuindo-lhes características morais degradadas. São sujeitos transformados em objetos; entretanto, para reconhecer o sujeito, é necessário eliminar o objeto. Ao ignorar toda a subjetividade do sujeito, para que perguntar o que ele pensa ou acredita? Posso generalizar de antemão. E quando se faz uma pergunta nestas circunstâncias, já se sabe a resposta: uma noção positivista.

 

Devem desejar o que tenho porque este é o certo. Entretanto, não são dignos de tê-lo. O processo civilizador consiste na substituição da violência aberta pelo controle de normas comportamentais, ou seja, a disciplina e adestramento. É um túnel sem fim porque se traduz simplesmente em: para que você não roube meu PlayStation, te ensinarei regras de comportamento pautadas em valores que eu possuo pregadores exatamente do desejo pelo PlayStation. É por isso que a pobreza, por si só, não possui vínculo algum com a violência. Esta se manifesta mais no desejo. E essa mistura entre pessoas diferentes é um “risco”, a menos que seja regularizada e controlada. Daí o afastamento.

 

O cinturão vermelho na periferia parisiense onde os três jovens outsider residem tem seu nome num antigo conglomerado de comunistas. Ironicamente, agora estão isolados, “trancados do lado de fora”, incapazes de adentrar o glamour da contemporaneidade do capitalismo. O isolamento social produz segregação residencial. Logo, a rede de relações sociais é menor. A estrutura de oportunidades do indivíduo depende de sua sociabilidade e obtenção de recursos, para transformá-los em ativos. A falta de vínculos não gera somente a submissão do mais fraco diante o mais forte, na qual a “escória” oprimida tentaria subsistir. É além. Enquanto o oprimido jaz na base da pirâmide social, a exclusão social processa a des-filiação do indivíduo. Ele sequer é um oprimido da hierarquia. Sequer faz parte desta, é um “inútil para o mundo”. O inútil decorre da concentração e acumulação de desvantagens em determinados setores da sociedade. Não se trata de segmentação—processo de redução de oportunidades de interação de grupos ou categorias sociais distantes—mas de segregação. Não é mais o “exercito de capital de reserva” marxista, é mais grave. Não há função para estes indivíduos. Ou seja, refere-se aos processos de polarização e endurecimento das distâncias sociais. A hegemonia, aliás, é um consentimento ativo: não se impõe, convence.

A redução progressiva da sociabilidade informal entre diferentes grupos sociais, das quais um se tornará “inútil”. É realmente “inútil”? Por quais motivos? São vários: Necessidade de elevação constante dos limites de qualificação para integrar o mercado formal devido às aceleradas inovações tecnológicas e necessidades de produtividade e competição em nível mundial. A estagnação da classificação se dá, entre demais fatores como o residencial e a educação, pela própria divisão do trabalho. A segmentação diminui a interação social entre trabalhadores com diferentes graus de qualificação. Não é possível demonstrar algum talento inato ou aprender pela observação, pois não há chance para isso. Contudo, isso não afeta somente os pobres. Também afeta classes superiores, cujo resultado é uma sistemática piora a todos. Existe também a drástica desvalorização das habilidades e competências já adquiridas (antigamente Vovô servia pra ensinar algumas sabedorias de vida. Agora, se ele mal consegue acessar e-mail, é um imprestável descartável).

 

Ufa! Dá pra entender os humanistas, não? É cru-el. O problema é que é humano e não sei se é utópico acreditar que possa acontecer de outra maneira. Hubert, no ano de 1995, possui uma televisão de vinte e nove polegadas em sua casa. Os prédios não são caídos: para padrões brasileiros, seriam dignos de classe-média. É complicadíssimo determinar se a reivindicação é necessária ou exagerada. Inclusive porque muita dessa carência francesa não é meramente econômica. Adquirimos a noção do individualismo negativo: os “inúteis” para o mundo. Faltam referências, a carência é total. Faltam considerações, segurança, bens garantidos e vínculos estáveis.

 

Bem, vamos para a parte mais legal. René Girard e a gênese da violência humana! Talvez isso deixe mais claro o que tento dizer: pode ser injusto, mas há como ser de outra maneira?

Não existe relação humana sem objetos. É o mundano o espaço de troca entre homens por excelência. Em Violência e o Sagrado temos a teoria do desejo mimético (de desejar aquilo que o vizinho tem) aplicada nas mais variadas construções sociais e a lógica do sacrifício humano.  Há um duplo aspecto em vítimas expiatórias: são simultaneamente sagrados e criminosos (todo mundo aqui conhece o drama que fazem na morte de um traficante ou ditador, não? Deseja-se a morte do infeliz para depois sentir arrependimento). O bode expiatório é a válvula de escape dos ímpetos violentos acumulados no prelúdio do conflito iminente. Em geral, quem é o infeliz? O indesejável. Portanto, não se trata de um inútil para o mundo. Ele tem, sim, uma utilidade. É trágica, mas, repito, não conheço sociedade excetuando-se as de lógica totêmicas sem bodes expiatórios. O morador da banlieu ou favelado é a vítima substitutiva, sobre ela é desejado todo o ódio e sede de violência para aliviar e livrar a sociedade dos possíveis conflitos.

 

Uma sociedade está sempre sujeita a uma escalada de violência devido ao círculo vicioso de represálias, como já foi observado por etnólogos em sociedades primitivas. O surgimento de uma violência incontrolável no interior de uma sociedade ocorre normalmente nos momentos da crise sacrificial, ou seja, quando os sacrifícios rituais já não mais atuam eficientemente como válvula de escape dos impulsos violentos. Não lembro a terminologia precisa disto em economia, algo como “utilidade marginal”. É quando o remédio de emagrecer pára de dar efeito e você volta a engordar a menos que tome uma atitude nova em sua vida, provocando uma reestruturação do habitus. Talvez seja melhor explicar de outro modo: há uma exigência popular por um novo centro esportivo. O governo cede. Durante algum tempo os moradores estão felizes até este centro se banalizar e deixar de ser o foco de interesse. Surge um novo desejo. Se ninguém se manifestar, não haverá nada. O indivíduo que se manifestar é a vítima do sacrifício para gerar uma mudança.

 

Os ritos sacrificiais bem como os mitos que os narram simbolicamente representam a forma de uma sociedade reviver o seu acontecimento fundador, o sacrifício não mais ritual, mas real e espontâneo de uma vítima expiatória. Aqui insere-se a teoria do desejo mimético. Conforme nos conta Girard, o desejo mimético (o desejo de ter o bem do outro) é inerente à condição humana. Antes de racionalizar como devo agir diante uma situação, a lógica é espionar meu vizinho para ver como ele lida diante o mesmo fenômeno. Porém, a culpa não é do Outro, né? Seria fácil demais, como fazem filmes de teoria da conspiração, denunciar o Sistema como se o delator deste fosse isento de participação. Para que qualquer objeto meu tenha algum valor e significado denunciando meu próprio status, é necessário que outros o desejem.

 

Os homens desejam o bem e o ser do próximo invariavelmente, o que terminará por gerar a rivalidade mimética. O detentor do bem quererá defendê-lo mas, ao mesmo tempo, estimulará o desejo do outro pois o fato de o seu bem ser também desejado por outrem potencializa o valor do mesmo. Quando um irromper com um gesto violento o outro imediatamente revidará também por impulso mimético e assim se iniciará um rosário interminável de represálias que somente terminará com o sacrifício de uma vítima expiatória que trará de volta a paz à sociedade.

 

Nem mesmo a Terra das Brincadeiras, onde vivem os Ursinhos Carinhosos, está isenta disso. Para Girard, toda sociedade primitiva em seus primórdios experimentou o evento de uma crise de violência generalizada que ameaçava a sua própria existência e que findou com o sacrifício de uma vítima escolhida arbitrariamente, sobre a qual foram despejados todos os ódios e desejos de vingança, restaurando-se a paz social e fundando-se a própria sociedade politicamente organizada. Talvez o que incomode Vincent, Saïd e Hubert é a racionalização da função do “indesejável”. O nascimento é arbitrário: não se escolhe nascer príncipe ou mendigo. Entretanto, uma vez no mundo, a função que devem desempenhar como “indesejáveis” é bem nítida. A arma nas mãos é apenas o gatilho para cumprirem o rito sacrificial. Lembrando: se ninguém morresse em banlieus e favelas, haveria sequer um incômodo por parte da sociedade mais ampla com estas regiões?

 

Os mitos narrariam figuradamente os eventos que culminam no sacrifício, e dentre os mitos, René Girard inclui não apenas as narrativas mitológicas, mas a tragédia grega e mesmo o Antigo Testamento. Nestes textos, há uma espécie de descrição figurada parcial ou total da rivalidade mimética, da escalada de violência e do sacrifício de vítimas expiatórias. O cinema opera com o onírico, o imaginário. Há algo de mitológico nele e, assim como mitos indígenas, filmes da estirpe de Tropa de Elite 2 e La Haine desvendam o sentido oculto de muitos dos textos das culturas primitivas e antigas: eles representam simbolicamente os horríveis eventos fundadores da sociedade que terminam no sacrifício da vítima expiatória. Mas que infernos a morte de Vincent tanto representa, carambolas? A Revolução Francesa, talvez? A emancipação política do camponês antes de se tornar proletário? As guerras de colonização de um povo sobre o outro? Não posso especificar.

 

É válido lembrar aqui o exemplo do pharmakós grego (pois é, o bode expiatório que serve para aliviar as tensões sociais é o que hoje dá nome para “farmácia”. Neste exato sentido de remédio para curar. Há quem diga que não era exatamente executado, mas certamente o infeliz era condenado, no mínimo, ao ostracismo!), um pária que era mantido cativo para ser sacrificado em épocas de grandes crises e catástrofes—mesmo naturais—, como se sua morte pudesse eliminar a crise ou a catástrofe, tal como no acontecimento fundador da sociedade, o sacrifício da primeira vítima expiatória eliminou uma grave crise de violência.  O estabelecimento de uma nova Ordem, lembrando as resenhas que redigi anteriormente, transpassa uma recolocação entre o Totem e o Tabu. Quando o Escravo derruba o Rei, suas posições revezam. É claro que este tipo de análise pressupõe a História como cíclica, não é bem assim. Não obstante, não me estenderei nesse viés. Basta assinalar que uma reprodução da estrutura gera sua transformação. E mais importante! Se você hoje é Rei, nada garante que um dia o Escravo possa lhe usurpar. Neste caso, o Escravo será você! Por isso a relação de posse é delicada. Elas devem ser cobiçadas para adquirirem valor, mas é extremamente perigoso não afastar aqueles que a desejam da real possibilidade de efetivamente a usurparem. Para impedir que isso aconteça, Vincent, Saïd e Hubert são constantemente relembrados de suas posições como párias, o que abala a própria auto-estima e crença na legimitidade destas posses. A ver como o estigma é reproduzido numa cena com uma jornalista indagando se sabiam algo sobre os conflitos, como se bastasse morar no bairro para ser um de seus residentes “problemáticos”.

 

O rito serve assim para manter viva a memória do acontecimento fundador e para servir como um despejo de impulsos violentos. Quando o rito já não mais desempenha a sua função, surge a crise sacrificial: muito bem representada pelo mito de Caim e Abel. Abel sacrifica os primogênitos de seu rebanho, portanto tem uma válvula de escape. Caim já não a possui, por isso não contém seus impulsos violentos e, movido pelo desejo mimético ou inveja pelo amor que Deus tem pelo seu irmão, mata Abel.

Não apenas os ritos e os mitos são podem ser interpretados mediante teorias do desejo mimético e do sacrifício, mas inúmeros costumes primitivos como o uso de máscaras, a repulsa ao sangue menstrual e aos gêmeos, e muitas das proibições ou regras de direito primitivas. Isto serve para compreender problemas do nosso próprio tempo tais como o racismo, o anti-semitismo ou o aborto. Afinal, a perseguição por motivos de raça ou a luta pela liberação do aborto não seriam formas de ressuscitar o velho mecanismo sacrificial, elegendo novas vítimas expiatórias de nossos ódios intestinos?

 

OK! Então a violência é necessária para o próprio mito fundador de uma civilização, totem e tabu simultaneamente. Isso quer dizer que não devo fazer nada? Filosoficamente, talvez sim. Por outro lado, em um contexto mais pragmático, essa opção não me é dada. A burocracia existe para simultaneamente retificar e contornar os conflitos sociais. No caso do Brasil, a forma de distribuição de direitos sempre foi condicionada pelo mercado de trabalho e sindicatos. Duas lógicas operam correlacionadas, a dizer, quem está fora do mercado de trabalho não tem acesso aos direitos e que, para um bom governo, é necessário o pagamento de todos por bens usufruídos somente por alguns. Eventualmente a noção de que é legítimo taxar sobre a propriedade privada para assim garantir certos bens àqueles que não possuem “nada” se propagou, retificando o ideal igualitário.

 

Antes preciso salientar algo que talvez não tenha ficado tão claro no texto anterior! A miséria do mundo é gerada pelo Capitalismo e pela Indústria, é verdade. Contudo, estes só puderam desenvolver graças aos ideais Iluministas. Se a premissa de que os homens nascem iguais e livres não existir, os Fashion Weeks não serviriam para nada! As idolatrias dos deuses e a das celebridades são comparáveis em grau, contudo há uma nítida diferença no gênero! O indivíduo que idolatra Zeus ou Hera sabe que jamais será um deus, quando muito clama por benevolência. O indivíduo que idolatra Ronaldinhos ou Xuxa o faz com a intenção subliminar de um dia tornar-ser um deles. Se existe uma lei pregando que você, nascido plebeu, não poderá jamais vestir os trajes de um nobre mesmo que porventura reúna condições materiais para adquirir tais trajes, o catálogo de moda não serve para nada! Se existe uma lei te obrigando a andar com a cabeça abaixada atrás de um nobre, mesmo que os trajes lhe fossem acessíveis, permaneceriam sem grande valor! Somente com a ideia de que todos podem adquirir os produtos que bem entender sem receio de discriminação por casta ou qualquer qualidade irrefutável, inerente, é que a Indústria e o Capitalismo podem prosperar. E não é à toa que seu impulso primordial se deu na indústria têxtil! Também no espelho! Isso mesmo, espelho! A imagem refletida do que você potencialmente pode ser ao experimentar uma roupa no shopping!

 

Ainda assim, existe uma geometria variável: o direito em suas variantes (direitos civis, direitos políticos, direito sociais etc) depende do contexto. Na Era Vargas, a expansão dos direitos sociais foi concomitante à diminuição dos outros. Porém, Brasil não é França. O Estado nasceu forte no Brasil, com a noção do cidadão como súdito. Na França, os cidadãos “empurram” a cidadania na marra. A construção do cívico é “de baixo para cima”. Ou era, né? Se ainda fosse assim, não haveria Saïd, Vicent e Huberts perdidos por aí…

 

A sociedade privatiza o Estado. O Estado “fagocita” a sociedade. Ademais, com a queda do muro de Berlim, a crise do Estado do Bem-Estar Social se agravou. Pessoalmente não gosto desses termos escatológicos, proféticos de fim de mundo. Mas é a história oficial, então vamos lá: o Neoliberalismo conduz ao debate entre o ético e o eficaz. Os critérios de justiça e responsabilidade estatal entram em contraposição aos critérios de eficiência. Há, claro, um imaginário coletivo, um savoir vivre de adequação aos novos tempos, um “discurso gramatical”. Evidentemente só é ouvido quem consegue se ajustar à gramática e o repertório do contexto. Dane-se se você quer ser artista se o mundo não se interessa mais por isso, ainda que, em sua juventude, você tenha sido ensinado a valorizar a Arte. Essa rápida transitoriedade pós-moderna não permite com que todos se ajustem, evidentemente. A transitoriedade é justificada pelo discurso da eficiência. É isto que vai melhorar e pronto! A faca é de dois gumes. Se não mudar, piora. Se mudar, nem todos se adaptam e a exclusão aumenta. Piora de qualquer modo. Evidentemente, qualquer hegemonia estatal depende, para ter legitimidade, de dois fatores: coerção e consentimento. Nunca é só um destes; é sempre uma dosagem entre os dois termos.

 

VOCÊ FAZ PARTE DO SISTEMA E ESTÁ DE ACORDO COM ELE, QUEIRA ISSO OU NÃO! Humf! Pronto! Falei! Odeio filme de conspiração por transmitirem essa ideia de isenção de culpabilidade do indivíduo, ou então de inocência, como a ciência de sua responsabilidade pudesse lhe trazer redenção. Para ele, claro. Não para os Outros.

 

Um Sistema nada mais é que um “Universo cognitivo simbólico”. Qualquer movimento social ou protesto de ONG possui uma dupla face. São expressivas e disruptivas e integrativas e coorporativas. A ruptura também é integrativa. As duas faces da mesma moeda não são contraditórias. Afinal, se quero ir contra o Sistema, ao realizar um protesto necessariamente estabeleço um diálogo com este. E através do diálogo o Sistema permanece. O poder só é legitimado com o mínimo de consentimento. Não há como ir totalmente contra um Sistema porque não sou um ser desassociado deste: faço parte dele tanto quanto àqueles que condeno.

 

Habitantes de banlieus são pessoas de diferentes níveis educacionais, ocupações etc: não se trata de algo homogêneo. São tão estratificados entre si e seguem igualmente a lógica da “sociedade”. São capitalistas. O que os diferencia de “nós”, os “estabelecidos” em relação aos “outsiders” é somente a percepção social. Certas regiões periféricas, como todos devem saber, por vezes são mais ricas que algumas regiões dos “bairros” clássicos. Dentro das periferias os moradores agem exatamente como fazem os indivíduos da sociedade “estabelecida”, travando relações capitalistas. Não há uma lógica igualitária poética de comunidade. É a mesma lógica do público. Um gueto é tão somente um arranjo particular plenamente inserido na generalidade capitalista. Também nestes locais a monopolização dos recursos é fundamental para a reprodução das atividades econômicas. Vive-se e reproduz-se a partir da própria vulnerabilidade. Uma das piores situações que poderia acontecer para tais segmentos seria a democratização igualitária dos recursos, implicando a quebra da hierarquia local (leia-se recursos por específicas ajudas de ONGs, instituições de caridade etc).

 

A perspectiva de Anthony Giddens seria uma terceira via, nem Direita neo-liberal, nem Esquerda comunista. Para ele, não há pós-modernidade, mas uma radicalização da modernidade. Esta ocorreria quando o homem reflete e pensa sobre sua condição de vida sociologicamente. Refletindo sobre si mesmo, a sociedade pensa na própria diante os ditos da sociologia—uma dupla hermenêutica. Tal como um movimento de hélice, sociedade e sociologia se auto-definem. Entretanto, nem sempre acontece desse moldo. Quando não se conhecem as duas faces, não é possível compreender a “realidade”. A sociedade marcha num ritmo diferente da sociologia, que fica para trás. Portanto, por mais que ideólogos acreditem na revolução por vir do povo, da soberania popular etc…

 

É ilusão! Não é uma surpresa constatar que habitantes de guetos não sejam revolucionários. Na realidade, nunca o foram. Não é de suas constituições. Os pressupostos dos militantes diferem do que realmente acontece. O que se constata, repito, é a “integração” e a “negociação” (há exceções; claro). Por mais comum que seja a aspiração para mudar de vida, o entrelaçamento cultural rege para o estabelecimento de uma regularidade normativa. Os valores, hábitos, gostos, interesses e aspirações, ou seja, as aspirações, variam mais ou menos condicionadas pela forma e meio de morar. A visão de um mundo de um indivíduo o faz aspirar um salário maior a fim de ampliar o consumo, não modificá-lo. Aqui a coisa complica nos limites da tolerância.

 

Quem lembra da cena onde os três jovens entram num vernissage e flertam com duas meninas (saliento o fato de uma delas ser negra)? Eis uma peculiaridade francesa. Quando as discrepâncias entre classes são muito gritantes, como no Brasil, é visível de antemão quem é e quem não é “da área”. O conflito oriundo da segregação não chega a ocorrer por ser impedido de antemão. Quando se dá, sobretudo, por diferenças étnicas, como nos Estados Unidos, a materialização do estigma é ainda mais visível. Agora, notemos como dos três jovens, o mais revoltado é Vicent. O branco! Não é o franco-árabe nem o negro. Por que? Porque para ele o motivo de sua segregação é mais sutil, o que, ao ser efetivada, a torna mais gritante. Não é por classe ou por etnia. É simplesmente por ele não se enquadrar na Ordem. Enquanto calados, são aceitos no mundo que os tranca do lado de fora. Basta abrir a boca para…

 

Quando a descriminação não é pelo “Ter”, se torna pelo “Ser”. Mais crua e violenta, diria. O diálogo é outro. A sociabilidade é diferente. Vejamos: um vestido Versace no corpo da Dona Zulmira, a caixa do supermercado, é apenas um vestido preto. Para que aqueles trapos de pano se tornem verdadeiramente Versace, sua forma é apenas metade do caminho. A outra metade depende do modo de quem o vestir! Se os ombros ficarão à mostra, ou se vai combinar com determinado tom de batom ou corte de cabelo, a cor da bolsa e o tamanho do salto. O jeito de andar e, portanto, movimentar o vestido. É isso que transformará o vestido inteiramente em um verdadeiro Versace. A coroa de um rei não se sustenta por muito tempo na cabeça de quem não sabe governar! Portanto, por mais economicamente igualitário que seja, por mais que dois indivíduos—um da periferia e outro do bairro tradicional—possam comprar o vestido Versace, apenas o derradeiro “sabe” vesti-lo. Isto é válido para bens não-materiais. Arte contemporânea é um desses. Todo mundo que entende um pouquinho de arte sabe que Arte contemporânea não tem definição, que não é para entender nada. E é hilário ver pessoas que não entendem nada filosofando sobre o assunto na tentativa de se passarem por entendidos. É mais ou menos isso que aconteceu com os três jovens no vernissage. Naturalmente o mais revoltado é o Vicent. Ele não tem válvula de escape, não pode alegar que foi injustiçado por sua etnia negra ou árabe. Na cabeça desse rapaz a pergunta que não quer calar é: mas o que foi que eu fiz? Por que não sou como eles? O que me faz diferente dessas pessoas?

 

Você não sabe vestir o vestido Versace adequadamente. Simples assim. E tem mais! Isto equivale dizer que a maneira como você veste o vestido é barbárie. Pois é, a política é a continuação da guerra por outros meios, rapaz. A violência, neste caso simbólica, é a ausência do conflito. O seu mal-estar advém de nascer numa região degradada num país que se diz com igualdade, fraternidade e liberdade para todos. Para Loïc Wacquant, é “uma Vingança da História”. Tais valores são facilmente aderidos pelos antigos povos conquistados, porém não são realizáveis na práxis. A rotulação como periférico é uma classificação. E qualquer classificação é uma desumanização, contrariando os próprios ideias que seduzem levas de imigrantes na esperança de viver a Utopia na Terra. Bem, uma utopia, precisamente, não tem topos, não tem lugar. Só resta, então, a arma na mão.

 

Guetos incorporam pela sociedade mais ampla a metáfora da guerra. São vistos como inimigos internos que ameaçam a existência da sociedade como um todo. Precisam ser derrotados sem contemplação, estão à margem da própria sociedade e por isso não são dignos de piedade. Este “mal a ser combatido” é para além dos casos isolados que podem porventura de fato provocar problemas. Engloba toda a população circundante. Outra vez o fenômeno é cíclico. Com o cotidiano violento, somos levados a pensar que só se adapta a viver neste lugar quem é essencialmente parte disto, tão degradado quanto. A convivência dos moradores com os indivíduos potencialmente problemáticos é interpretada como conivência. Forças estatais, seja o BOPE ou polícia francesa, alegam como numa “guerra” as baixas são naturais. A mecânica opera na premissa de que inimigos não têm direitos. Em guetos não há cidadãos a proteger. Obviamente isto não implica em matar deliberadamente; porém, se morrer…é um mal necessário.

 

O repertório dos Direitos Humanos contempla basicamente os direitos civis. O apelo aos direitos humanos é a defesa mínima à Vida. Aquele que apela tanto pelos Direitos Humanos significa que suas condições mínimas de vida estão ameaçadas. Talvez alguns destes realmente sejam criminosos. Por outro lado, os que condenam os Direitos Humanos o fazem porque já os possuem, não?

 

Ninguém é santo ou demônio. Creio que deva existir uma divisão da responsabilidade pela violência uma vez que não é possível apontar um culpado palpável deste ciclo vicioso. Ou melhor, não há realmente um culpado se isto faz parte da condição humana. Realmente, prefiro dedicar-me, a partir de agora, em defender o direito das abelhas de produzirem o mel. Os gregos podem me chamar de “idiots”, aquele que não participa da bios política.

 

Herdeiro dos Intocáveis da Índia, dos vikings idosos, das mães com filhos mortos do sudoeste americano, dos judeus e dos ciganos (povo originário da região da “Boêmia”. Bem sugestivo, não? O que não se inscreve na Ordem tem lá sua “pureza”, mas é um “perigo”, para Mary Douglas), Vicent não tem perspectiva de futuro brilhante. A arma na mão pode lhe soar como um efemero grito oco de esperança. Mas somente por pouco tempo. Ele é o bode expiatório de um rito sacrificial contemporâneo.

Ele e este carinha aqui debaixo deveriam lembrar que o importante não é a queda, mas a aterrisagem.

Por: Eduardo Cidade.

A Filosofia do Absurdo versus o Absurdo Cinematográfico

Kafka e Camus instituíram um sóbrio buraco no solo terrestre quando lançaram as ideias sobre o Absurdo (filosófico), que consiste em um processo de estranhamento do mundo tendo em vista a falta de sentido da vida. Com efeito, a vida não ter sentido faz mudar o questionamento “de onde viemos” para “afinal, o que diabos estamos fazendo aqui?”.

É na exigência de familiaridade com o universo que o homem se pauta, exatamente por saber que este mundo não o pertence. Ainda que compreender o mundo signifique reduzi-lo ao humano, claro. Não há outro meio de vislumbrar o universo se não for por este olhar, ao menos quando se é Homo sapiens. Este é o drama humano, para a filosofia do Absurdo de Camus.

No cinema, cuja estrutura se dá através do imaginário, fabrica-se dramas e romances em cadeias. A nostalgia humana que compõe seu drama de ser animal consciente é revertida por uma ordenação de sonhos, que foi levada a cabo através da subversão quando a arte cinematográfica abandonou a grande tradição do heroísmo enquanto dotado de sacrifícios. O heroi grego, que vive uma vida de provações, apaziguamentos e reconciliações com sua existência, não existe mais. Pra não ser tão radical, não é mais cotidianamente retratado na arte cinematográfica. Obviamente que os clássicos da literatura ainda são preservados no cinema. Imagine um filme sobre Édipo-Rei de Sófocles onde no fim ele se reconcilia plenamente com seu destino? Ou que não mata seu pai e nem fura seus olhos quando se descobre filho de Jocasta? Nem tanta subversão, não é? O primeiro diretor de cinema que fizer isso com um clássico da literatura escreverá seu próprio nome na cruz.

O cinema, como dizia, subverteu a ordem natural dos fatores. Para apaziguar o caminho natural do absurdo de viver uma vida totalmente sem sentido, a arte (que dizem que imita a vida, será?) instituiu o filme “Happy End” (nome dado por Edgar Morin). Segundo Morin, o “Happy End” não busca uma reparação, como nos clássicos dos herois do passado, mas a irrupção da felicidade. Ou seja, o filme mostra desde a felicidade total ou a esperança de felicidade, pois é necessário que haja algum sentido nisso tudo. É necessário? Necessário pra quem?

O heroi da atualidade não morre, não fracassa, não sofre. Faz mil e uma acrobacias com tom quase cômico (que diverge solenemente do tom trágico de outrora) e obtém sucesso e êxito não só no final, mas em todo o filme, pra tentar provar que a felicidade é possível. “E foram felizes para sempre”. A arte imita a vida? Repito.

Talvez para entretenimento, que por vezes se pauta no divertimento ilusório, o cinema “Happy End” tenha alguma importância até mesmo terapêutica. Mas é preciso que se diga que tal arte não responde ao absurdo da vida e não aplaca a estranha familiaridade do verbo existir.

Por: Guerra de Pipoca.

Provocações – Sergio Ajzenberg

Vi esse vídeo e não me aprofundei demais em meus pensamentos. Trago para cá para pensarmos juntos. O vídeo não é propriamente sobre cinema, porém, é possível articularmos algo pensando nesta arte.

“Você não gostaria, por exemplo, de repente, idolatrar a dúvida?”

- Abujamra -

Questão pertinente pro assunto proposto.

Cinema também é marketing cultural? Em que ponto marketing cultural atinge a arte cinematográfica?

Ainda que a “plataforma de comunicação” tenha mudado muito, o paladar humano é diversificado demais. É difícil responder ao que o ser humano tem fome, posto que comemos de tudo. É difícil, no cinema, prever que o universo 3D vai abafar a vanguarda, por exemplo. Pois calcular tal incerteza é perder tempo.

Sobre os assuntos abordados no cinema ou em qualquer outra arte são sempre aqueles que tangem o nosso próprio universo. Não dá pra fugir dessa esfera humana. Então, de alguma maneira, por mais que a moda se diversifique, nada envelhece plenamente. Se hoje, como Ajzenberg apontou, a moda é o meio ambiente, isso não necessariamente modificará temáticas cinematográficas. É possível que a maquinaria se modifique bem mais rápido do que o universo consciente que a moda propõe.

Gosto muito da parte “vozes da rua”. rsrsrs

Marketing cultural ou marketing financeiro? Será que o cinema alternativo, esse muitas vezes visto como trash, caseiro, ou esse que não tem muita publicidade, propaganda, está fadado à decadência total apenas porque não tangencia a margem do rio que vislumbra bem mais o espetáculo e o lucro excessivo?

Por: Guerra de Pipoca.

O Império das Raves

Documentário feito e produzido por Raves ponto com ponto br.

Já fui muito em raves e trances, sobretudo, no tempo em que estas estavam saindo (ou entrando) da marginalização citada no documentário. Estas festas são fenômenos com caráter de atitude, não devem ser vistas com juízo de valor do “melhor ou pior” tão característico das classificações que estamos acostumados. No entanto, essa característica é refletida no fenômeno enquanto atitude. Paradoxal, certamente.

Com a fetichização da diferença, que assenta na ideia de que, para reparar uma desigualdade, convém valorizar uma diferença em relação a outra diferença, todo mundo quer ter seu espaço no solo do individualismo. Isto é, se todos querem, logo, deixou de ter um caráter plenamente individual. Outro paradoxo, sem dúvida.

Acontece que, se é errôneo valorizar o universalismo em nome da recusa da diferença, então, é errôneo tanto quanto rejeitar o universalismo em nome da arbitrariedade da diferença.

Roudinesco, historiadora e psicanalista francesa, há muito já evocava aos quatro ventos o quanto o sujeito tem vivido num tempo em que as manifestações repousam em máscaras diversas. Assim, as expressões se tornam isoladas, exageradas indo de encontro aos limites. De acordo com ela, “a violência da calmaria, às vezes, é mais temível do que a travessia das tempestades”. (Seria o que chamamos de “Tempo Emo”?). Nas festas raves, percebe-se excesso de euforia, de “amizade”, de sociabilidade que destrói as diferenças, as classes, os problemas, todo mundo “é” igual momentaneamente. Todos querem exorcizar suas “infelicidades” festejando a céu aberto.

A questão duvidosa é quando o exorcismo se dá pela via da droga ilícita. Será que ocasiona mesmo um “exorcismo” das “infelicidades” e infortúnios? Não quero generalizar, em absoluto, pois sei que muitos vão nestas festas para outros “etc e afins”. Mas, fico tentada a continuar pensando o que tantos corpos dançantes nos dizem neste ambiente festivo e isolado do urbanismo, porém repleto de urbanização. Eles não dizem apenas que festejam ao dilúvio  da existência, mas dizem também que desaba-fam…

Por: Guerra de Pipoca.

Provocações – Wagner Moura

Provocações, pra quem não sabe, é um programa de entrevistas com o maravilhoso Antônio Abujamra. Pra mim, é o melhor da linha dual no cara-a-cara. Entrevistar alguém não é tão simples. Pra ser bem feito é preciso um estudo prévio do que vai ser perguntado, até para haver interlocução. E o mais importante: é preciso ouvir o que o entrevistado diz para fazer as perguntas que siga uma linha condutora ao que é dito no momento. Perguntas decoradas costumam não dar certo. Abujamra sabe disso.

Impressão minha ou Wagner Moura diz que entendeu Hamlet, além de dizer que nem leu o suficiente? rsrsrs

É possível que nem mesmo Shakespeare tenha entendido Hamlet, minha gente! :D Como entender a pergunta: “Ser ou não ser”? Eis a questão!!! Dilema de difícil solução porque não ser é ser de alguma forma. Hamlet sabia disso, nós sabemos disso, porém, como dissolver essa pergunta no ácido da existência?

Como que se comunica o ser sendo não ser que por vezes é? Por favor, Wagner Moura! Não diga besteiraaaaaaa! E quer besteira maior do que dizer que os ingleses sentem dificuldade de entender a própria língua, que por acaso, na cabeça dele, é melhor compreendida pela língua portuguesa? :o

De onde ele tirou essa? Da cartola do “Carandiru” ou da metralhadora do “BOPE”?

Por: Guerra de Pipoca.

Sobre o Homem-Aranha

Sobre o Homem-Aranha

Homem-Aranha 1, 2, 3 – Spider-Man 1, 2, 3

Direção: Sam Raimi

Gênero: Ação, Aventura, HQ

EUA – 2002 – 2004 – 2007

Queria ter escrito um texto que mesclasse a história com as curiosidades nas HQs e filmes, mas somente quando comecei a escrevê-lo que percebi que se eu fizesse isso iria colaborar bem mais com o aspecto da arte e propaganda midiática do que com que mais valorizamos aqui: debate sobre conteúdo.

Criado por Stan Lee, Homem-Aranha é um dos heróis mais populares do mundo das HQs e Marvel Comics. Talvez tal popularidade se deva ao modo de vida de Peter Parker. O personagem se iguala à média da maioria promovendo identificações das mais variadas. Não mora com os pais e, sim, com seus tios Ben e May, num ambiente classe média com algumas dificuldades acentuadas, como hipoteca vencida. Inclusive, Peter vende ao jornal local as fotos do Homem-Aranha, é o único heroi que se beneficia financeiramente de seu alterego. Pra pagar as contas de sua tia sozinha e viúva vale essa postura. Para Nietzsche, a Genealogia da Moral tem sua origem no social. O sujeito que se desenvolve “bom” é aquele que se desenvolveu “espiritualmente nobre”. (logo à frente ficará mais claro).

As identificações com a maioria não param por aí; afinal, Parker está longe de ser o garoto popular da escola, mesmo com sua inteligência. É um nerd avacalhado (bullying) pela maioria dos estudantes. Esse mundinho é sádico, sabemos, e Peter não revida ao que recebe no colégio. Ele deixa passar também por não ter meios para fazer o contrário a isso. Ao menos enquanto não se transformou ainda em Aranha. Além disso, é um heroi apaixonado… pronto! Homem-Aranha tem todas as fontes primárias para angariar solidariedade e compaixão, afinal, há heroi mais humano que ele neste mercado de quadrinhos?

Nas HQs, ele se apaixona primeiramente por Gwen Stacy, morta pelo Duende Verde (o primeiro e original Norman Osborn). No cinema, não sei por que, ela nem aparece. Somos apresentados para Mary Jane Watson, sua vizinha, por quem Peter também foi apaixonado depois que Stacy faleceu.

O primeiro filme, com direção de Sam Raimi, se desenvolve de maneira coerente à história em quadrinho, salvo a ausência de Gwen. Peter Parker (Tobey Maguire) é fotógrafo e estudante colegial quando vê numa visita ao laboratório de estudos científicos com aracnídeos a sua primeira chance real em se aproximar de Mary Jane (Kirsten Dunst) e, também, de seu mais novo destino. Picado por uma aranha geneticamente alterada seu corpo sofre diversas transformações. Inicialmente não tem consciência de seus poderes, se sente mal , mas não sabe exatamente por que. Não tarda para seu físico se alterar em consonância com as possibilidades estratégicas dos aracnídeos.

Seus tios percebem essas mudanças comportamentais e Ben decide conversar com o sobrinho. Eles discutem durante o percurso para a Biblioteca local. Essa é a última conversa que eles tem e seu tio finaliza seu discurso dizendo que “grandes poderes geram grandes responsabilidades”. Neste mesmo dia seu tio morre (assassinado) e Peter entende que poderia ter evitado sua morte se tivesse agido de maneira certa. Eis o prato cheio para o uso de seus poderes ao cumprimento do bem. O homem designa-se como o ser que mede valores, valora e mede; mede-se à outra pessoa, também. Além de comparar-se à coisa. E cada coisa tem seu preço real ou simbólico. O dano imediato é entendido como uma “quebra de palavra”, daí que as palavras são caras… Quanto elas valem? No caso em questão, o preço é impagável: o valor foi a vida de seu tio Ben. É preciso acertar as contas com seus fantasmas, Peter…

E então, Peter usa seus novos poderes para praticar o Bem. Vale o esforço de circunscrever a inquietação do sentimento de culpa; sobretudo, a vontade de considerar todo seu ato resgatável de algum modo.

Enquanto isso, seu melhor amigo Harry Osborn  (James Franco) investe em Mary Jane, sua amada. E quem disse que Peter interfere? Com seu novo destino impossível de ser ignorado que importa mais essa punição? O espectador (quase) sente pena de tamanha cruz que deve ser carregada. Aumenta, óbvio e consideravelmente, sua popularidade em nome das identificações – aquelas que me referia no início do texto.

Vamos e venhamos! Peter sabe seu lugar… Harry não é um bom aluno. Ou melhor, não é tão brilhante como Parker. Talvez por isso seu pai Norman Osborn tenha um forte apreço pelo amigo do filho. Vê em Aranha uma parceria científica, coisa esta que nem de longe pode esperar de Harry, e Peter sabe disso. Norman é o ambicioso e milionário dono da Oscorp. Quer sempre mais e mais. Desenvolve um experimento bélico que beira o fracasso e o ameaça a perder seu patrocínio governamental. Então, na falta de cobaias competentes, experimenta em si a nova invenção. Nasce Duende Verde, um dos principais vilões da Marvel. Sua ambição cede espaço para a insanidade que deseja ter o controle do mundo.  Descobre, porventura, a identidade de seu estraga-prazeres.  O jeito é eliminá-lo. Ou melhor, tentar eliminá-lo.

Não é tão simples assim. A não ser que… bom, Mary Jane está na trama, também, pra isso… E mais uma vez Peter terá de salvá-la, até por que carregar mais essa culpa nas costas será pesado demais. Não daria conta. Seriam duas caras vidas colocadas em sua conta. Quanto ficaria, desta vez, o valor da “hipoteca”? Daria para parcelar o prejuízo?

Entre Mary Jane e o pai do melhor amigo, Peter escolhe o óbvio.

O segundo filme mostra Peter ainda mais afundado em seus infortúnios: não tem emprego fixo, não está com Mary Jane, não tem a amizade de Harry porque este deseja saber a identidade de Aranha e Peter, obviamente, nega-lhe a informação. Puxa! Que fardo! O peso da fantasia é a tecla batida que Sam Raimi encontra para escamotear os furos do(s) filme(s). Aliás, o peso da existência é comum entre os “salvadores do mundo”. Sofrer é um verbo caro para tais herois, pois não existe ato heroico se não for trágico. O exagero faz parte do show. Daí que é comum propagarem histórias como “passou o dia todo apanhando, carregou nas costas e sozinho uma cruz e ainda deu conta de salvar o mundo” e o ser humano se convencer com as faces pálidas por tamanha desgraça e altruísmo. Peter Parker não é diferente disso – nenhum outro heroi o é; pois, segundo Nietzsche, “do que é igual sempre brotarão os iguais” -, só que o peso de sua cruz é uma roupa até bem interessante para o mundo das festas à fantasia. Confesso que vejo mais charme nas vestimentas de Batman.

A magnitude consiste no valor daquilo que teve ou deve ser sacrificado. Parker, como todos os outros herois da Marvel Comics, DC Comics, Bíblia etc, tenta evitar que a massa sacrificada seja justamente a humanidade. O e no fundo, há de se ter nobreza nas finalidades! A relação de nobreza (espiritualmente bons) e aristocracia faz semblante aos “espiritualmente bem-nascidos”. Em contrapartida, o plebeísmo é entendido como o semblante do “ruim”, “comum”, “baixo”.  É fácil supor as condições egoístas dos bandidos, né?

Por falar nisso,  o vilão do filme II é o Dr. Octopus. Que coisa… Aqui vale a pena pensarmos sobre a vilania deste doutor. Debatíamos AQUI a respeito disso. Eu dizia que ele tem uma clara motivação construída: a morte de sua esposa logo após a falha de um experimento. Os tentáculos ficaram presos ao seu corpo comandando seu cérebro. Vale perguntar: se ele fosse sumariamente bom, os tentáculos conseguiriam fazê-lo cometer o mal? Porém, existe alguém suficiente e inteiramente bom? Nos herois americanos é visível a condição de ser bom – inteiramente bom – não há espaço nem mesmo para um deslize ingênuo, característico da Tragédia grega. Tenho notado imensa diferença neste ponto entre americanos e japoneses. Pelo pouco que vi, nas animações japonesas fica claro que o heroi perambula nas duas instâncias; o que torna mais atraente a animação. Pois não há ninguém, que seja antes de tudo humano, inteiramente bom. As motivações dos mocinhos e bandidos são imutáveis?

Mais uma vez, o alvo foi Mary Jane… Tremenda falta de criatividade Raimi colocá-la novamente como isca.

No terceiro filme, o vilão é o Homem-Areia. No longa,  ele sofreu uma modificação se comparada à HQ. Na HQ, Homem-Areia sempre foi do mal. No filme, era um pai de família que se viu falido e com uma filha beirando à morte; assalto a banco se tornou uma solução. Raimi não estava satisfeito com a apresentação de um vilão por filme, então ele colocou mais dois: Venon e Duende Verde, o retorno. Duende Verde é Harry, que deseja vingar seu pai, e nas HQ pipocam Duendes Verdes pós-original.

Neste filme algo interessante acontece: Mary Jane é a fracassada do momento. Os infortúnios chegaram para essa moça como um meteoro particular. Seu relacionamento com Aranha não dá certo, sua carreira também… Em contrapartida, Peter está no auge de sua glória, deixou de ser aquele paspalho bobo e pamonha! O mais curioso é que Parker se permite estar por cima porque por um momento ele usou o poder de Venon. Ou seja, do mal rsrsrs. Cartas marcadas. Bom, eu vou preferir não me aprofundar sobre Venon porque sei que ferraram demais com esse vilão no filme, porém, prefiro que os mais inteirados da HQ comentem a respeito.

E sabe do que mais? Adivinhem… Mary Jane, claro, foi mais uma vez alvo rsrsrs… Grandes poderes geram grandes responsabilidades, né Mary Jane? :D

Por: Guerra de Pipoca.