Cisne Negro – O outro lado do espelho
Direção: Darren Aronofsky
Pensei em fazer outro texto, mas a proximidade e preparativos para o carnaval me fizeram recuar nessa ideia; por agora, sem tempo pra isso. Então, decidi escrever assim mesmo, de supetão, sem maiores correções.
Peço permissão para me referir à Nina por (Me)Nina. Penso que esse trocadilho não é ofensivo e nem desgastado no contexto do filme, faz jus ao seu mundinho colorido e de fadas cheio de bichinhos de pelúcias em seu quarto, cuidados maternos excessivos, tratamento como se fosse (me)Nina e de porcelana, ainda por cima.
Certo é que se a mãe dela se comportava assim foi por ser autorizada como um reflexo por (me)Nina. Não digo que todos os casos de não-crescimento são assim, mas este é. (me)Nina não se rebelava contra si mesmo; consequentemente, não se rebelava contra nada que lhe era imposto: aceitava chegar em casa ter seu jantarzinho preparado por sua mãe, ter as unhas cortadas por sua mãe, ver seu sono ser velado por sua mãe, ouvir por meio da caixinha da bailarina uma musiquinha para dormir… posta por sua mãe etc etc etc.
Controlada pela mãe, por seu diretor e por si mesma, pegou toda essa rebeldia recalcada e jogou contra si. Autoflagelo (vide as costas arranhadas etc). Só que este movimento não é da ordem do consciente. Aí que entra Kunis: a ameaça de vir à tona tudo que está muito bem recalcado.
O filme é difícil por isso, pois ao mesmo tempo que Kunis é uma bailarina real, é uma ameaça interna real para (me)NIna. Ou seja, boa parte do filme acreditamos que Kunis está realmente sabotando a Cisne Branco. A direção do filme nos faz acreditar que a sabotagem é externa, quando, na realidade, a sabotagem é interna. É a (ME)NINA quem se sabota o tempo inteiro.
São nas pequenas sutilezas que percebemos o jogo intenso proposto pela direção do filme. Um claro exemplo é quando (me)Nina começa a delirar nas entrelinhas: A cena em que ela se autoflagela puxando a carne do próprio dedo e logo na cena seguinte o dedo dela aparece sem nenhum machucado.
Desta maneira, Aronofsky insere o espectador no outro lado do espelho. Ele joga a dúvida para o espectador: Kunis é ou não uma perversa que quer tirar as glórias de Portman?
E se numa cena ele lança o delírio, na outra ele lança a dúvida: aquilo foi ou não um delírio? O filme é todo costurado entre o que se vê e o que se reflete no espelho. O que vemos é a ameaça de sabotagem da Kunis, mas o que se reflete no espelho é a própria (me)Nina se sabotando.
É como se o controle estivesse na ponta da panela de pressão pronto para explodir… e explode. E sempre vai explodir, ao menos em termos de estrutura psíquica no que tange ao mundo humano.
O ser humano necessita extravazar por algum lado, do contrário, o cristal se quebra na explosão mais sensível e delicada: na psicose.
(Me)Nina quis crescer ou simplesmente se viu explodindo? O ímpeto de rebeldia desmedida só me faz crer que se viu explodindo e quando é assim não há mais retorno. O cristal pode ser colado, mas as rachaduras sempre estarão presentes.
A tríade estava bem formada:
- a mãe: tirânica controladora;
- o diretor do balé: tentando fazer com que (Me)Nina se soltasse, mas segurando as rédias;
- Kunis: sem controle
A luta estava posta no ringue, que vença o/a melhor. O mundo do não controle era para (Me)Nina muito atraente. Acontece que ela não tinha estrutura só pra beber na fonte e voltar ao seu estado comum. Enfim, surtou.
E que surto lindo, não? Eu achei a cena maravilhosa quando o delírio a invade de uma vez e (me)Nina liberta a Cisne Negro... Foi espetacular, embora saiba que pra quem passa por isso é bastante sofrível.
Sei que quando ela chora é por estar sofrendo e carregando uma dor que não aguenta carregar. Numa clínica psiquiátrica, é de doer a alma. Mas, a cena, a arte, a poesia do filme, foi digna de aplausos. Ao invés de chorar com ela, abri um sorriso, porque FINALMENTE um diretor de cinema conseguiu captar o que é um delírio. Tarefa bem difícil para quem não é da área psi e mais, para quem faz arte com cinema.
Por essas e tantas outras coisas que estão atrás do espelho de Nina Menina, é que considero um erro da Academia Americana de Cinema não premiar este filme com o Oscar. Mas, quem precisa dessa estatueta para considerar essa obra brilhante?
Por: Guerra de Pipoca.












