Trust
Direção: David Schwimmer
Gênero: Drama
EUA – 2011
As histórias infantis, via de regra, começam com “Era uma vez” e terminam com “…e foram felizes para sempre”. Não é por acaso, o propósito é simples: trata-se de confortar psicologicamente a criança para seus futuros e prováveis dramas internos. Após o “Era uma vez” há uma sucessão de eventos emaranhados que denunciam angústias pueris. Como, por exemplo, se perder dos pais, que é o caso de João e Maria. Qual criança não tem medo dos pais se esquecerem de ir à escola buscá-los? Qual criança não tem medo de se perder dos responsáveis num passeio, supermercado, shopping? João e Maria é uma história de desamparo e durante esse “abandono” uma bruxa (personagem que dialoga com a metáfora do mal na sociedade) se aproveitou para atacá-los e “tome-lhe comida”. Não dizem que se alimentar faz crescer? Em horas como estas, João e Maria tiveram que “crescer” (amadurecer) para, enfim, atingirem o tão sonhado “e foram felizes para sempre”.
Acontece que essa artimanha psicológica nem sempre procede no real das existências infantis. Enquanto conselho e instrução, os contos são fantásticos. Mas, ocorre que conselhos – via contos de fadas – não resolvem o real da Coisa em si. Isto é, as histórias infantis servem apenas para efeito catártico. Ou seja, João e Maria diminui a angústia na criança, mas não evita que ela se perca dos pais, por exemplo. De maneira que o mundo é muito mais duro do que as histórias contam…
Annie descobriu às duras penas que o príncipe encantado de seus sonhos não existe como ela fantasiou. Não digo que príncipes não existam, eles até existem, mas nunca são como na fantasia. Uns são mais sapos do que outros. Esse do filme era o monstro da lagoa verde. Pedófilo de 35 anos virtualmente iludiu Annie, de 14. Por que Annie pode transar com um homem de 15, mas não pode com um de 35? Isso é algo que nós leitores do blog já temos a resposta pronta na ponta da língua, mas é essa questão que Annie levanta durante boa parte do filme. Ela, por ter 14 anos, não faz a mínima ideia do por que a sociedade implica com uma relação deste porte, uma vez que ela pode namorar com alguém de sua idade.
Isso me fez questionar a que ponto os projetos sócio-educativos alcançam o/a adolescente e a criança neste entendimento. Será que basta dizer para não darem atenção a estranhos? Será que nós, adultos, veteranos de guerra, estamos imunes às mazelas das relações? Se nem nós estamos, o que dirá uma criança e/ou um(a) adolescente… Falta resposta para muitas perguntas, porque essas regras são elaboradas na sociedade para depois serem elaboradas na jurisdição vigente.
O filme não tem nenhum artifício cinematográfico especial, mas em termos de conteúdo – sobretudo para quem trabalha com clínica, com ser humano e suas complexidades – é muito bom por lidar com um assunto atual e que mexe com toda ordem familiar de alguém que passa por abuso sexual.
Tendo em vista comparações com outros filmes, gostei muito da atuação da terapeuta; não foi excepcional, mas, felizmente, o filme não capengou nesse ponto, pois não colocou a psicóloga numa posição de autoajuda. Nós não cursamos 5 anos de faculdade + o tempo de formação clínica para nos tornarmos conselheiros/as!!!! Nós não somos conselheiros/as! Achei ótimo que esse diretor de cinema não fez do/a psicólogo/a um adepto dos livros da Nova Era…
Por: Guerra de Pipoca.





















