Thor

Thor

Direção: Kenneth Branagh

Gênero: Comédia, História em Quadrinhos, Ação

EUA – 2011

Comentário de Guerra de Pipoca:

Um aspecto da Marvel me agrada: eles tentam, com constância, embasar suas histórias na Ciência; por exemplo, os últimos marvelianos lançados ilustram minha afirmação, que são: Homem de Ferro 1 e 2, O Incrível Hulk. No entanto, a maneira como usam a Ciência para dar sustentação à história é, por vezes, deveras surreal. Desta vez, em Thor, a Ciência foi usada como suporte, mas em momento algum foi explicado o mínimo dos estudos de Jane Foster (Natalie Portman). Talvez isso dê ao filme mais graça, afinal, poucos vão ao cinema querendo estudar, mas ao mesmo tempo, deixou o enredo furado. Pois, por que Jane Foster e sua turma estavam às voltas com tais estudos?

A entrada de Thor na Terra funcionou, inclusive em palavras, para misturar a ciência com a magia. Afinal, Asgard não separa verdades, como ele mesmo disse para Jane. Deu ao filme um caráter fantástico e fantasioso promovendo graça. Um ser, literalmente, de outro planeta é lançado na Terra. É um ET dos mais diferentes do que dizem existir, afinal, não é verde, nem tem um cabeção enorme, não conversa por telepatia… ao contrário, Thor é um ogro bastante humano (e fala inglês), por assim dizer. Esse aspecto do filme é interessante, pois os costumes de Asgard  – que é o Reino dos Deuses – são bastante rústicos; o que contrapõe o imaginário de encontrar tecnologia x extrema civilização. (Ri muito quando Thor quebra uma caneca no chão da lanchonete, que é um costume de viking e não de “Deuses”). A tecnologia não implica (diretamente) em povo civilizado.

Asgard é fantástica. Linda, bem feita, Branagh está de parabéns por sua elaboração. O guardião Heimdall foi muito bem feito, também. No entanto, sinto-me pesarosa por Odin, Anthony Hopkins. Desperdício absoluto neste filme, embora proporcione soberania ao enredo. Porém, tal ator não tem cara de quadrinhos… Muito embora ele arrase em qualquer papel, colocá-lo para dormir mais da metade do filme pegou mal. Não gostei. Outro ponto que não gostei foi de Thor na pele de ogro irracional que precisa apanhar bastante para adquirir sabedoria. Loki, seu irmão, lhe deu mais lições do que o inverso. E, convenhamos, Thor da Marvel que ensina Loki e não o contrário. Mas, enfim, as cenas engraçadas passaram maquiagem nessas diferenças, foi tragável.

Um ponto que não diz respeito somente ao filme, mas, quero comentar, é Natalie Portman no papel principal ao lado de Thor fazendo uma interpretação ridícula, aquém de sua última aparição que tanto emocionou: Cisne Negro. Juro que olhei pra Morgue no meio do longa  e perguntei: Que aconteceu com essa atriz? Até agora não faço ideia do que houve, do motivo que a fez ser tão ruim como Jane Foster. Enfim, pelo menos, o filme não é exatamente uma comédia romântica, se me entendem.

A ideia conspiratória também não me agradou. Sei que está na moda e tal (vou deixar pra Vamp e Morgue falarem mais sobre esse aspecto, conforme o combinado), mas antes Thor ter sido elaborado em sua busca por paz, atrapalhando os planos sórdidos de Loki, do que um perdido no espaço (literalmente) preso por uma conspiração típica americana. Enfim.

Comentário de Vampira Olímpia:

A ideia de Thor é fazê-lo sofrer longe de sua terra para aprender ensinamentos altruístas básicos, como respeito ao outro e próximo (não tão próximo assim), paz etc. Seria ótimo se a vinda dele à Terra não fosse tão tragicômica. Primeiro que Asgard fala o mesmo inglês que os terráqueos. Talvez se a comunicação entre eles fosse, no mínimo, complicada, seria mais próximo aos propósitos da inserção da Ciência no filme: dar realidade ao enredo. É patético que até mesmo as piadas entre eles sejam iguais!

Ainda assim, gostei do filme pela grandiosidade fantástica do intercâmbio entre três planetas (não se pode esquecer dos Gigantes do Gelo). Sobre eles que irei falar. É óbvio que se o sentinela não conseguiu ver a entrada dos Gigantes do Gelo, então é porque há um traidor. E um traidor que conhece bem Asgard, do contrário não conseguiria burlar uma segurança tão forte. O que sugere de imediato que Loki tem seu dedinho nisso. Considero esse ponto do filme bastante atual, uma vez que novamente estamos (no sentido de mundo) retomando o assunto datado de 10 anos atrás: a invasão planejada da al-Qaeda nos EUA. Alguém teve que trair os EUA para isso acontecer. Quem? ;)

Comentário de Morgana:

Que cidade perdida no nada é a do filme, não? Se tiver 5 ruas e uma avenida principal, é muito. E de repente, não mais do que de repente, a equipe tática da S.H.I.E.L.D. (Superintendência Humana de Intervenção, Espionagem, Logística e Dissuasão – criada pela Marvel) apareceu em peso por lá, montando toda a estrutura para estudarem um… machado… O machado não tinha uma cara de “instrumento extraterrestre”, só era grande e pesado, mesmo assim: “Pânico! Ameaça de invasão no ar!”

Eu também estou “panicada”, não nego. Não pelas “ameaças vindas do espaço”, mas pela loucura que estamos vivendo quanto às pseudos-ameaças que nada mais são do que frutos paranoicos de governos que insistem em pregar a paz, a democracia, o respeito ao próximo, mas que não fazem o que falam, posto que são eles quem promovem guerra, discórdia, violência que contradiz qualquer Estado Democrático etc. A paranoia da falsa-paranoia me deixa paranoica, por assim dizer.

Com isso, vi (também) em Thor algo muito atual, como Circe e Vamp já apontaram em seus comentários: Asgard vive o que estamos vivendo: qualquer coisa é motivo para ameaças. Que espécie de animais estamos nos tornando? Preocupo-me bastante com as queixas frequentes das pessoas: falta de confiança, fobia social, mania de perseguição etc. Claro! O mundo vive uma “perseguição” consentida por autoridades! Como esperar outro comportamento do ser humano?

Por: Moiras.

Velha Nova Infância

 

(Feita por Guerra de Pipoca)

Lacan se dizia com 5 anos de idade, mas ter 5 anos de idade e saber ter esses anos de vida são duas coisas diferentes.

Saber ter 5 anos nas costas é fantasiar, brincar com a vida, brincar com que estiver disponível como instrumental e ferramenta e fazer disso um lindo momento de prazer e satisfação. É  saber rir e sorrir com as situações, adversidades, momentos, circunstâncias etc. Demora-se muito tempo para ser jovem…

Saber ter 5 anos é conseguir enxergar diversas possibilidades de respostas para as experiências da vida…

(Feita por Guerra de Pipoca)

assim como fazem as crianças que tiram do lenço depositado no chapéu -com toda mágica do mundo- um belo pombo. Assim como Lacan, que com muitos anos de experiência se dizia com 5 anos de idade.

Mais uma  vez: comemoremos o tempo dos Aquarianos, tempo este que é atemporal…

Felicidades, Aquarianos Guerreiros! (Guerra de Pipoca, Morgana, Vamp e BullDog)

Vida Longa e Próspera!

Por: Moiras.

Death Note

Death Note

Autor: Tsugumi Ohba

Direção do anime: Tetsurō Araki

Gênero: Animação, Suspense, Ação

Japão – 2004-2006 (mangá)/ 2006-2007 (anime)

 

FO-DÁS-TI-CO

 

Por: Eduardo Cidade*

 

*Observações sobre Death Note:

 

Pois, para os meus companheiros lançados na aventura após uma vida no mais das vezes pacata, essa mescla de maldade e de asneira afigurava-se um fenômeno inacreditável, único, excepcional, a incidência, sobre as suas próprias pessoas e sobre as de seus carcereiros, de uma catástrofe internacional como até então jamais se produzira na história. Mas para mim, que correra o mundo e que, nos anos anteriores, vira-me metido em situações pouco banais, uma experiência desse tipo não era de todo desconhecida. Sabia que, lenta e progressivamente, elas se punham a brotar, qual uma água traiçoeira, de uma humanidade saturada por sua própria imensidão e pela complexidade cada dia maior de seus problemas, como se a sua epiderme estivesse irritada com a fricção resultante de intercâmbios materiais e intelectuais ampliados pela intensidade das comunicações. Naquela terra francesa, a guerra e a derrota só haviam apressado a marcha de um processo universal, facilitado a instalação de uma infecção duradoura, e que jamais desapareceria por completo da face da Terra, renascendo em um ponto quando enfraquecesse em outro. Todas essas manifestações estúpidas, execráveis e crédulas que os grupos sociais segregam como um pus quando começa a lhes faltar a distância, eu não as encontrava naquele dia pela primeira vez”.

Claude Lévi-Strauss, Tristes Trópicos.

 

 

Raito Yagami—ou Yagami Raito, para falar como os japoneses—é um dos melhores alunos do Japão. É certinho demais. É curioso como é típico das pessoas se surpreenderem quando cidadãos do bem surtam. Na verdade é mais previsível do que imaginamos, embora não provável. O fato de algo ser raro não significa que não é previsto. Dificilmente ganharei na Mega Sena caso decida apostar; mas certamente não ganharei se jamais o fizer. Em temperamentos humanos, a ignição pode-se dar numa reestruturação da dicotomia “não quero” e “não posso”. Quando a barreira do “não posso” é suplantada, restando somente a do “não quero”, então fica-se mais fácil compreender porque tantas pessoas certinhas, cidadãos de bem, surtam. É o que acontece com Raito, num belo dia tedioso, quando o Shinigami (um deus da morte, na mitologia japonesa) Ryuuk deixa seu Death Note cair nas redondezas.

 

Não consigo pensar em outro exemplo menos tosco a fim de me tornar mais claro. Suponhamos uma sala que, impreterivelmente, explode às dez horas. Quem estiver nela neste horário, se dá mal. Desde criança o sujeito é educado—seja pela mãe ou quem for—a sair desta às nove horas. No início ele chora, grita e esperneia querendo ficar mais tempo, mas a autoridade é inflexível. A concessão, geralmente como recompensa por algum mérito deste indivíduo, é de alguns minutos—porém sempre antes das dez horas. Este ser crescerá incorporando seu natural desejo em sair da sala antes das dez. Isto se tornará parte de sua “natureza”, mesmo quando tal autoridade não mais o reprimir. Portanto, ele de fato “não quer” ficar até as dez. Não é forjado, é um desejo legítimo e sincero. Mas não vamos nos iludir. Ainda assim, ele “não pode”.

 

“Não faço a menor questão em ter um jatinho particular” ou “não gostaria de ser um rei, acho que seria sem-graça” são sentenças pronunciadas regularmente por pessoas que, ainda que quisessem, não poderiam. Não se trata de uma opção! Isto não quer dizer que sejam hipócritas ou frustradas. Na maior parte das vezes, dizem com toda a sinceridade o que desejam e o que não desejam. Este é o brilhantismo do poder que a cultura exerce em nosso senso de julgamento! É só prestar atenção em qualquer conversa de boteco: quanto mais sincero o “não quero” aparentar em relação ao “não posso”, mais moralmente belo consideramos o ator social que pronuncia tal assertiva. A boate fecha às 6 da manhã impreterivelmente. Quem é considerado mais elegante? O rapaz que sai às 5 da manhã por vontade própria ou o outro que, sob chutes e pontapés dos seguranças, tenta ficar para além do final?

 

Onde quero chegar com isso? Simples. O sentimento de Justiça tem nessa lógica um de seus alicerces. O moralmente belo tem seu preço e costuma ser bem elevado, afinal, la noblesse oblige. Quando se é correto em demasia, é fácil concluir que o mundo está podre e não tem mais salvação: resta somente a punição. Não quer sair da sala antes das dez? Então tudo bem; fique nela e morra! Em linhas gerais, Raito Yagami raciocina desse modo. E se nunca demonstrou antes é porque “não podia”, mas, com um belo Death Note em mãos, a coisa muda de figura…

 

Não há muito a dizer sobre Death Note além de que é fodástico. O Raito é fodão, o L é fodão, o Shinigami Ryuuk é fodão, a Misa nem tanto: mas, no conjunto, a série consegue prover um bom entretenimento. Obviamente a inteligência de Raito e L são extremamente exageradas. Embora ache legal, também admito que a falha desse desenho é precisamente essa “inteligência” surreal. “Eu sei que você sabe que eu sei que você que eu sei que você sabe que eu sei que você sabe. Logo, você sabe que eu sei, então agirei partindo desse pressuposto para você achar que eu não sei que você sabe quando, na verdade, eu sei. Contudo, farei de tal forma prevendo que você sabe que agirei dessa postura tentando te enganar, então propositalmente vou me contradizer para tentar enganá-lo. Você sabe que farei isso, por isso o farei etc”…ad infinitum. É para se perder, não? Enfim, é um desenho animado, então não dá para levar tão à sério assim.

 

O nome da pessoa em que você escrever no caderno morrerá! E quem poderia cogitar a hipótese da existência de um Shinigami? Neste mundo científico, é absurdo pensar em razões místicas. Aqui, onde o absurdo entra em jogo, entra o questionamento: se jamais me descobrirão, então o “não posso” deixa de existir. E o “não quero”, ainda que verdadeiro e sincero, é frágil demais para se sustentar por muito tempo. Afinal, o poder corrompe justamente por ser a ausência do não-poder.

 

Regularmente menciono que minha definição favorita de cultura é “negação da natureza”, mas essa definição, embora eficaz na maioria dos exemplos, não é completa. Nos seres humanos, pensar na Natureza em estado bruto é inviável (e muito menos pensar numa natureza humana. Isto não existe, há, quando muito, uma condição humana em perpétua construção). O cientista dialoga não com a natureza pura, mas com um determinado estado da relação entre a natureza e a cultura definível pelo período da historia no qual ele vive, pela civilização que é a sua e pelos meios materiais de que dispõe. Logo, o inventário do conjunto predeterminado de conhecimentos práticos e teóricos e de meios técnicos limita as soluções possíveis para um dado questionamento seja lá de qual ordem, prático ou moral. O pensamento científico e o pensamento mítico, por mais que compartilhem semelhanças, nem de longe são iguais. Pode-se dizer que o primeiro opera através de conceitos enquanto o segundo, por meio dos signos. Com efeito, uma das maneiras pelas quais o signo se opõe ao conceito está ligada a que o segundo se pretende integralmente transparente em relação à realidade, enquanto o primeiro aceita, exige mesmo, que uma certa densidade de humanidade seja incorporada ao real. O conceito aparece como o operador de uma “abertura” do conjunto com o qual se trabalha, sendo a significação do operador a sua “reorganização”; ela não o aumenta nem o renova, limitando-se a obter o grupo de suas transformações. A moral—ou melhor, o moralmente belo—se assemelha ao pensamento místico.

 

Raito extrapola com o Death Note. Sua fama de Justiceiro se estende e ele adquire um novo nome, Kira, em alegoria ao termo inglês killer. O moralmente belo, a estética da ética, impulsiona a ação humana de tal modo que a forma é mais importante que o resultado. Alhures falei sobre o Sacrifício, que é basicamente o exemplo máximo desse sistema. Nele a dialética entre Necessidade e Utilidade se mostra de maneira ainda mais escancarada, e talvez isso fique mais claro na construção seguinte. Também mencionei alhures que o Sagrado é associado ao Inviolável (a Ordem do Mundo), que não há como ser de outra forma, e também é, como na etimologia de sacré, uma Maldição. Ou seja, o Sagrado é maldito e irrefutável. Mas não só isso, ele também é associado ao Belo. Maldito, Inviolável e Belo. Por isso as pessoas choram quando encontram Jesus. Ainda não o encontrei porque não frequentamos os mesmos bares, mas quem sabe um dia…

 

Para Durkheim a necessidade de Ordem sobrepuja a necessidade de Justiça. Ele tem razão. Uma sociedade tolera certas injustiças se com isso ela pode se manter estável durante períodos longos. De nada adianta existir Justiça se isto for possível somente durante um curto período, uma vez que é quase certo contrariar a premissa básica da Ordem social (chegarei nisso em breve). Não obstante, se racionalizarmos demais a vida, perceberemos que ela não faz sentido e que viver não vale a pena. É preciso criar certas ilusões, seja na forma de deuses ou de príncipes encantados e almas gêmeas. Em escala maior, algo semelhante se passa com a Sociedade. Ainda que a paz e o mundo dos Ursinhos Carinhosos sejam impossíveis aos Homens, a Sociedade precisa desses mitos bonitos para manter sua coerção; essa crença no impossível é a comunhão (“comunidade” vem do “comum”, o que há em comum ou pacto entre os iguais) dos homens em prol de um bem acima deles. E a Justiça se assemelha ao pensamento místico por ser irracional em sua praticidade, cuja premissa jaz na restituição equivalente entre as partes (abaixo falarei sobre os ritos místicos em contraposição ao “jogo” da contemporaneidade).

 

A relação entre Necessidade e Utilidade pode ser meio confusa. Preciso enfatizar que o “negar a Natureza” torna-se a “própria natureza” daquele indivíduo. Ainda assim, as culturas humanas, longe de seguirem a “economia da Natureza”, adoram complicar o que poderia ser simples. Algo pode ser maldito, mas também é belo. Fica claro o seguinte: a recompensa pelo sacrifício é o privilégio. E as relações de privilégio hierarquizam os homens. Antes de seguir adiante, tentarei elucidar um pouco mais sobre a relação Necessidade e Utilidade. O emprego de termos mais ou menos abstratos não é função de capacidades intelectuais, mas de interesses desigualmente marcados e detalhados de cada sociedade particular no seio da sociedade nacional. “Subi ao observatório; aí cada estrela não é mais simplesmente uma estrela, é a estrela X do Capricórnio, é a Y do Centauro, é a Z da Ursa Maior etc. O Universo é objeto de pensamento, pelo menos como meio de satisfazer a necessidade.

 

Cada civilização tende a superestimar a orientação objetiva de seu pensamento; é por isso, portanto, que ela jamais está ausente. Quando cometemos o erro de ver o selvagem como exclusivamente governado por suas necessidades orgânicas ou econômicas, não percebemos que ele nos dirige a mesma censura e que, para ele, seu próprio desejo de conhecimento parece melhor equilibrado que o nosso. O hábito tão simples como a mastigação de bétele supõe, nos hanunoo das Filipinas, o conhecimento de quatro variedades de sementes de areca e de oito produtos de substituição, de cinco variedades de bétele e de cinco produtos de substituição. As espécies animais e vegetais não são conhecidas porque são úteis; elas são consideradas úteis ou interessantes porque são primeiramente conhecidas. Pode-se objetar que uma tal ciência não deve absolutamente ser eficaz no plano prático. Mas, justamente, seu objeto primeiro não é de ordem prática. Ela antes corresponde a exigências intelectuais ao invés de satisfazer às necessidades. A ideia é introduzir um princípio de ordem no universo. Qualquer que seja a classificação, esta possui uma virtude própria em relação à ausência de classificação. Afinal, os cientistas suportam a dúvida e o fracasso porque não podem fazer de outra maneira. Mas a desordem é a única coisa que não podem nem devem tolerar. Todo o objeto da ciência pura é conduzir a seu ponto mais alto e mais consciente a redução do modo caótico de percepção, que começou num plano inferior e provavelmente inconsciente, com a própria origem da vida. Pode-se perguntar, em alguns casos, se o tipo de ordem elaborado é um caráter objetivo dos fenômenos ou um artifício construído pelos cientistas. Entretanto, o postulado fundamental da ciência é que a própria natureza é ordenada. Os termos “sistemática” e “ciência teórica” são basicamente sinônimos.

 

Misturar Lévi-Strauss e Norbert Elias com Raito Yagami e L no mesmo liquidificador não é simples, mas vamos lá! O início da série e seu final mostram uma radical mudança na personalidade do Raito. Em principio ele aparenta mais preocupado com o mundo do que com si, é mais importante “limpar a podridão”—como ele julga—do que ser o Deus do Novo Mundo. No final do seriado o oposto ganha maior evidência. Sua preocupação narcisista o faz inclusive cometer a tão abominável Injustiça aos seus olhos ou mesmo sem perceber isto. Claro, os deuses estão acima do Bem do Mal e há um motivo para isso: são eles, no mundo contemporâneo traduzidos como Estado, que detêm o monopólio da violência. No mais, é interessante observar: quem mais implica com os remédios de emagrecer são os saudáveis e quem mais implica com os livros toscos de auto-ajuda barata são os intelectuais. Isso é simples. Podem dizer que se preocupam com a saúde alheia, justificar cientificamente por X + Y que determinado elemento é nocivo, mas no fundo, o que está em jogo é a posição privilegiada de quem está no poder. Enquanto o indivíduo quer se assemelhar àquele que tem o poder seguindo os mesmos passos deste, ele ressalta e valoriza o poder dominante. Entretanto, se for possível obter os mesmos resultados práticos sem seguir os mesmos procedimentos, o poder do dominante entra em xeque. É claro que para um estudo acadêmico jamais um livro do estilo As Tartarugas Ninjas e a Filosofia poderá se equiparar ao conhecimento do legítimo intelectual, mas na mesa de bar, sim! É claro que o corpo adquirido graças aos remédios jamais será tão saudável quanto o do atleta, mas para flertar na boate, o resultado é o mesmo!

 

O privilégio é conquistado mediante a renúncia. O indivíduo se abstém de determinadas práticas e incorpora algum tipo de ascese (como renegar a pizza para comer cenoura, ainda que, enfatizo, ele possa realmente gostar mais de agrião do que de brigadeiro. Não é hipocrisia, é a influência da cultura!) a fim de, com isso, ganhar o carisma e ser aceito em um grupo privilegiado. E com isso ele terá benefícios. Quanto mais isso for naturalizado, quanto menos aparentar forçado, quanto mais ele demonstrar que realmente prefere a disciplina no lugar da lassidão, mais eficaz. Por que? Porque isso se torna quase natural. E o argumento da Natureza é o argumento supremo! “Não sou eu que digo que sou melhor que você: é a própria Natureza que diz isso!”, “Olha, não tenho nada contra ti, sério… mas a Natureza diz que tu és inferior a mim, então terás que me obedecer” e por aí vai. A velha anedota de quem é rico de verdade não ostenta gratuitamente se justifica nisso: o privilégio não precisa ser dito. É auto-evidente. Entrementes, se for questionado, o grupo ameaçado utiliza argumentos da Natureza para legitimar sua superioridade. “Ainda que você possa fazer como eu, seus métodos são nocivos e isso foi comprovado cientificamente. Eu sou natural”. Simples assim. E vemos esse tipo de situação o tempo todo, não? Usar a Natureza como recurso aparentemente ausenta a responsabilidade e arbitrariedade do dominador frente ao dominante. Trata-se de uma Ordem que supera ambos, fazendo com que o dominado aceite a Injustiça do mundo como Justiça.

 

Espero que duas conjecturas fiquem claras com isso! A única maneira da existência de uma Justiça perfeita é através da Injustiça para com aqueles que renunciaram diversos impulsos a fim de adquirir o privilégio. Ademais, o mundo, a priori, não tem problema algum. Os Homens inventam problemas para legitimar poderem então solucionar e legitimar sua importância. Ainda que fosse possível solucionar os ditos problemas do mundo, não há a menor intenção em fazê-lo porque a solução em si não é importante. O modo como atingir que prevalece e quanto mais homens conseguirem tal estado de perfeição, mais alto será alçado o patamar. Não se trata de simples egoísmo ou interesses conspícuos desprovidos de sensibilidade. Os Homens procedem dessa forma para garantir a Ordem.

 

A exigência de Ordem constitui a base do pensamento denominado “primitivo”, mas unicamente pelo fato de que constitui a base de todo pensamento, pois é sob o ângulo das propriedades comuns que chegamos mais facilmente às formas de pensamento que nos parecem muito estranhas. “Cada coisa sagrada deve estar em seu lugar”, já notava profundamente um índio doidão de algum canto bizarro, mas a ideia de base é esta: é isso o que a torna sagrada, pois, se fosse suprimida, mesmo em pensamento, toda a ordem do universo seria destruída; portanto, ela contribui para mantê-la ocupando o lugar que lhe cabe. Os requintes de um ritual que podem parecer dispensáveis quando examinados de fora e superficialmente explicam-se pelo cuidado em não deixar escapar nenhum ser, objeto ou aspecto, a fim de lhe assegurar um lugar no interior de uma classe. Esse cuidado com a observação exaustiva e com o inventário sistemático das relações e das ligações pode às vezes chegar a resultados de boa postura científica: é o caso dos índios blackfoot, que identificavam a aproximação da primavera pelo grau de desenvolvimento dos fetos de bisão extraídos do ventre das fêmeas mortas na caça. Não seria o pensamento mágico, “essa gigantesca variação sobre o tema do princípio da causalidade” (nas palavras de Hubert e Mauss) menos diferente da ciência por ignorância ou desprezo pelo determinismo do que por uma exigência de determinismo mais imperiosa e mais intransigente, e que a ciência pode, quando muito, julgar insensata e precipitada? A explicação científica corresponde sempre à descoberta de uma “ordenação”—toda tentativa desse tipo, mesmo inspirada em princípios não científicos, pode encontrar ordenações verdadeiras. Isto é possível se admitirmos que, por definição, o número das estruturas é finito: a “estruturação” possuiria então uma eficácia intrínseca, quaisquer que fossem os princípios e os métodos nos quais ela se inspirasse. Por exemplo, a química moderna reduz a variedade dos sabores e dos perfumes a cinco elementos diversamente combinados: carbono, hidrogênio, oxigênio, enxofre e azoto. Formando tabelas de presença e ausência, calculando as doses e os limites, ela chega a dar conta de diferenças e semelhanças entre qualidades que ela outrora banira de seu domínio como “secundárias”. Mas essas aproximações e distinções não surpreendem o sentimento estético, antes o enriquecem e esclarecem, criando associações de que já suspeitávamos e, portanto, pode-se compreender melhor por que e em que condições um exercício constante apenas de intuição já permitiria descobri-las. A cereja selvagem, a canela, a baunilha e o vinho de Xerez formam um grupo não mais apenas sensível, mas inteligível, pois todos contem aldeído.

 

A exigência de organização é uma necessidade comum à Arte e à Ciência e, consequentemente, possui um valor estético eminente. Toda classificação é superior ao caos, e mesmo uma classificação é superior ao caos, e mesmo uma classificação no nível das propriedades sensíveis é uma etapa em direção a uma ordem racional. A natureza, embora sempre munida de exceções, é feita de maneira a ser mais vantajoso para ação e o pensamento agir como se uma equivalência que satisfaz o sentimento estético correspondesse também a uma realidade objetiva. Longe de serem, como muitas vezes se pretendeu, obra de uma “função fabuladora” que volta as costas à realidade, os mitos e os ritos oferecem como valor principal a ser preservado até hoje, de forma residual, modos de observação e de reflexão que foram—e sem dúvida permanecem—exatamente adaptados a descobertas de tipo determinado: as que a natureza autorizava, a partir da organização e da exploração especulativa do mundo sensível em termos de sensível. A característica do pensamento mítico, este que mescla com o sentimento estético, é a expressão auxiliada por um repertório cuja composição é heteróclita e que, mesmo sendo extenso, permanece limitado; entretanto, é necessário que o utilize, qualquer que seja a tarefa proposta, pois nada mais tem à mão. Essa limitação impossibilita uma visão não-relativa da Justiça, será sempre arbitrária e, como tal, inferior em importância à Ordem. Por mais que algo seja Injusto, se sua solução gerar um bafafá caótico, a tendência da Sociedade é fingir que não vê.

 

Hmm…não sei se isso vai ficar claro, mas tentemos! O universo instrumental do pensamento mítico é fechado, e a regra de seu jogo é sempre se arranjar com os “meios” que também são “limites”, isto é, um conjunto sempre finito de utensílios e de materiais bastante heteróclitos, porque a composição do conjunto não está em relação com o projeto do momento nem com nenhum projeto particular, mas é o resultado contingente de todas as oportunidades que se apresentaram para renovar e enriquecer o estoque ou para mantê-lo como os resíduos de construções e destruições anteriores. O conjunto de meios não é, portanto, definível por um projeto (o que suporia, aliás, como com o engenheiro, a existência tanto de conjuntos instrumentais quanto de tipos de projeto, pelo menos em teoria); ele se define apenas por sua instrumentalidade. Os elementos são recolhidos ou conservados em função do princípio de que “isso sempre pode servir”. Os elementos da reflexão mítica estão sempre situados a meio-caminho entre conceitos no qual o intermediário entre a imagem e o conceito é o signo. Isto, claro, para quem lembrar do Saussure. Como um elo entre uma imagem e um conceito, os signos (linguisticos, no caso de Saussure, mas não necessariamente aqui), na união estabelecida, desempenham respectivamente os papéis de significante e significado. Assim como a imagem, o signo é um ser concreto, mas assemelha-se ao conceito por seu poder referencial: um e outro não se referem exclusivamente a si mesmos; além de si próprios, podem substituir outra coisa. Todavia, nesse sentido, o conceito possui uma capacidade ilimitada, enquanto a do signo é limitada. O que cada conceito disponível previamente no arranjo poderá potencialmente vir a “significar” (ou não) contribui em si na definição do conjunto a ser realizado, que no final será diferente do conjunto instrumental apenas pela disposição interna das partes. As unidades constitutivas de um mito, cujas combinações possíveis são limitadas pelo fato de serem tomadas de empréstimo à língua onde já possuem um sentido que restringe sua liberdade de ação têm utilidades “pré-limitadas”, evidentemente. Por outro lado, a decisão do arranjo depende da possibilidade de permutar um outro elemento na posição vacante, se bem que cada escolha acarretará uma reorganização completa da estrutura que jamais será igual àquela vagamente sonhada nem a uma outra que lhe poderia ter sido preferida.

 

Os universos mitológicos estão destinados a serem desmantelados assim que formados, para que novos universos possam nascer de seus fragmentos. Entretanto, em tal incessante reconstrução com o auxílio dos mesmos materiais, são sempre os antigos fins os chamados a desempenhar o papel de meios: os significados se transformam em significantes e vice-versa. Talvez a Arte seja o meio-caminho entre o pensamento mítico e o pensamento científico… Afinal, a emoção estética provém dessa união instaurada no âmago de uma coisa criada pelo homem e, portanto, também virtualmente pelo espectador que lhe descobre a possibilidade, através da obra de arte, entre a ordem da estrutura e a ordem do fato. Os mitos nos aparecem simultaneamente como sistemas de relações abstratas e como objeto de contemplação estética uma vez que o ato criador que engendra o mito é inverso e simétrico àquele que se encontra na origem da obra de arte. Neste último caso, parte-se de um conjunto formado por um ou vários objetos e por um ou vários fatos, ao qual a criação estética confere um caráter de totalidade, por colocar em evidência uma estrutura comum. O mito percorre o mesmo caminho mas num outro sentido: ela usa uma estrutura para produzir um objeto absoluto que ofereça o aspecto de um conjunto de fatos (pois que todo mito conta uma história). A arte procede, então, a partir de um conjunto (objeto + fato) e vai à descoberta de sua estrutura; o mito parte de uma estrutura por meio do qual empreende a construção de um conjunto (objeto + fato).

 

Para resumir: o útil é aliado ao estético; juntos eles foram o intermediário entre a Arte a Necessidade. O útil capaz de negar à Necessidade é costumeiramente associado ao Belo, até que pode de fato se tornar imprescindível. Seja uma máscara melanésia ou uma estátua africana: o objeto, sua função e seu símbolo parecem dobrados, um sobre o outro, formando um sistema fechado em que o fato não tem nenhuma chance de se introduzir. A criação estética depende invariavelmente da ocasião, da execução e/ ou da finalidade. O equilíbrio entre estrutura e fato, necessidade e contingência, interioridade e exterioridade é um equilíbrio precário, constantemente ameaçado pelas trações exercidas num e noutro sentido, segundo as flutuações da moda, do estilo e das condições sociais gerais. Bem, se falei de Arte e a relação do pensamento mítico com o pensamento científico; vamos agora na questão do jogo. Afinal, o que é a disputa entre Raito e L senão um “jogo”? Acima de tudo, o embate entre os dois não significa meramente quem é o melhor, mas quem está “certo”. Este é o prêmio que disputam. O N (Near) só segue as pistas já deixadas por L. Até a Misa daria conta dele!

 

O jogo mantém relações próximas com o rito. Todo jogo se define pelo conjunto de suas regras, que tornam possível um número praticamente ilimitado de partidas; mas o rito, que também se “joga”, parece-se mais com uma partida privilegiada, retida entre todas as possíveis, pois apenas ela resulta em um certo tipo de equilíbrio entre os dois campos. A transposição pode ser facilmente verificada no caso dos gakuku-gama da Nova Guiné, que aprenderam futebol, mas que jogam durantes vários dias seguidos, tantas partidas quantas forem necessárias, para que se equilibrem exatamente as perdidas e ganhas por cada campo: isto é tratar um jogo como se fosse um rito. Pode-se dizer o mesmo dos jogos que desenrolavam entre os índios fox, quando das cerimônias de adoção cujo objetivo era substituir um parente morto por um vivo, permitindo, assim, a partida definitiva da alma do defunto. Os ritos funerários dos fox parecem, com efeito, inspirados no cuidado maior de se livrar dos mortos e de impedir que estes se vinguem dos vivos por causa da amargura e das saudades que sentem por não estarem mais no meio deles. Portanto, a filosofia indígena adota resolutamente o partido dos vivos: “A morte é dura; mais dura ainda é a tristeza”.

 

A origem da morte remonta à destruição, pelos poderes sobrenaturais, do mais jovem dos irmãos míticos que desempenham o papel de heróis culturais entre todos os algonkin. Mas ela ainda não era definitiva: foi o mais velho que a tomou assim, rejeitando, apesar do seu desgosto, o pedido do fantasma que queria retomar seu lugar entre os vivos. De acordo com esse exemplo, os homens deverão se mostrar firmes em face dos mortos: os vivos os farão compreender que eles nada perdem ao morrer, pois receberão regularmente oferendas de tabaco e de comida; em troca, espera-se deles que, em compensação dessa morte cuja realidade relembram os vivos e da tristeza que lhes causa por seu óbito, assegurem-lhes uma longa existência, roupas e o que comer. São os mortos que trazem a abundância, nessa lógica, e por isso devem ser bajulados. Ora, os ritos de adoração, indispensáveis para convencer a alma do morto a partir definitivamente para o além, onde assumirá seu papel de espírito protetor, são normalmente acompanhados de competições esportivas, de jogos de destreza ou de azar, entre dois campos constituídos de acordo com uma divisão em duas metades. O jogo opõe vivos e mortos, como se antes de se desembaraçarem definitivamente dele os vivos oferecessem ao defunto o consolo de uma última partida. Não obstante, essa simetria inicial entre os dois campos decorre automaticamente a determinação antecipada do resultado. Em outras palavras: se o homem que morreu era do clã A, então o clã B deve vencer a partida. Ou se a festa é em homenagem ao clã A, quem deve ganhar é o clã B em compensação.

 

No grande jogo biológico e social que perpetuamente se desenrola entre vivos e mortos, é claro que os únicos ganhadores são os primeiros. Mas, de maneira simbólica ganhar um jogo é “matar” o adversário. Prescrevendo sempre o triunfo da equipe dos mortos, dá-se a estes, portanto, a ilusão de que são os verdadeiros vivos e que seus adversários estão mortos, já que eles sos “matam”. A estrutura formal do que, numa primeira abordagem, poderia parecer uma competição esportiva é, em todos os sentidos, similar à de um puro ritual, tal como o mitawit ou midewin, dos mesmos povos algonkin, onde os neófitos se fazem matar simbolicamente pelos mortos, representados pelos iniciados, a fim de obter uma suplementação da vida real ao preço de uma morte simulada. Nos dois casos, usurpa-se a morte, mas apenas para enganá-la.

 

O jogo aparece, portanto, como disjuntivo: ele resulta na criação de uma divisão diferencial entre os jogadores individuais ou das equipes, que nada indicaria, previamente, como desiguais. Entretanto, no fim da partida, eles se distinguirão em ganhadores e perdedores. De maneira simétrica e inversa, o ritual é conjuntivo, pois institui uma união (comunhão) ou, de qualquer modo, uma relação orgânica entre dois grupos dissociados no início, como a coletividade dos fiéis e a personagem do oficiante. No caso do jogo, a simetria é pré-ordenada; e ela é estrutural, pois decorre do princípio de que as regras são as mesmas para os dois campos. Já a assimetria é engendrada: decorre inevitavelmente da contingência dos fatos, dependam estes da intenção, do acaso ou do talento. No ritual, ocorre o inverso: coloca-se uma assimetria preconcebida e postulada entre profano e sagrado, fiéis e oficiantes, mortos e vivos, iniciados e não-iniciados etc; e o “jogo” consiste em fazer passarem todos os participantes para o lado da parte vencedora, através de fatos cuja natureza e ordenação têm um caráter verdadeiramente estrutural. O jogo produz fatos a partir de uma estrutura: compreende-se, portanto, que os jogos competitivos prosperem em nossas sociedades industriais (como a ciência, no plano especulativo ou no prático), ao passo que os ritos e os mitos não são mais tolerados senão como hobby. Afinal, eles decompõem e recompõem conjuntos factuais no plano físico, sócio-histórico e técnico e se servem deles como de outras peças indestrutíveis, em vista de arranjos estruturais que assumem alternativamente o lugar de fins e de meios.

 

É importante lembrar que a nossa atual separação entre “razão” e “emoção” assemelha-se bastante com as estruturas do pensamento científico e do pensamento mítico respectivamente. E por mais racional que seja Raito, ele, no fundo, foi impulsionado pelo pensamento mítico. Neste sentido, L é de fato superior ao Raito. Ainda assim, diria que o personagem com a mentalidade mais cientifica do seriado é o Ryuuk, o Shinigami. Ironicamente, o mais mitológico dos personagens (a Shinigami Remu também é mitológico, mas é uma imbecil por se sacrificar pela Misa).

 

Finalizando, se eu tivesse um caderninho daqueles, escreveria alguns nomes e confesso. Ai de quem passar na minha frente em concursos…

Tem para vender no eBay. Será que funciona?

 

Cisne Negro

Cisne Negro – Black Swan

Direção: Darren Aronofsky

Gênero: Suspense

EUA – 2010.

A primeira dica é gostar de ballet. Não tem como gostar deste filme sem ao menos ter ouvido falar de “O Lago dos Cisnes” do russo Tchaikovsky. O próprio título do longa sugere ao espectador o que virá.

Eu fiquei muito surpresa quando decidi ver a ficha técnica do filme, pois a direção é de Aronofsky; o mesmo diretor que fez O Lutador. Das arenas das pancadarias para o universo da delicadeza clássica… foi uma surpresa boa. Embora “Cisne Negro” também tenha muita “pancadaria”.

Eu fiz jazz durante muitos anos da minha vida porque não quis me torturar com a vida cheia de controles do ballet. Bailarinos e bailarinas não podem quase nada, portanto não é para mim, mas sempre admirei a leveza de borboleta de quem decide voar lindamente nos palcos. O filme mostra esses dois lados: o da leveza de uma borboleta e o da pancadaria do controle que o Ballet exige.

Nina (Natalie Portman) é uma bailarina com muita técnica, mas sem vida! Sem tesão! Ela não passa arte… só técnica. O seu instrutor tenta libertá-la deste controle, mas da pior maneira possível: controlando-a constantemente. Dorme num quarto cheio de bichinhos rosinhas, bonitinhos, fofinhos e tem 28 anos! É uma criança sendo vigiada pela mãe, instrutor paterno e, claro, por ela mesma na forma do espelho Lily.

Há algum suspense no filme, mas de cunho completamente psicológico. Detalhe interessante na técnica de Darren Aronofsky. Em O Lutador ele também buscou beber nesta fonte: ressaltar a personalidade e a individualidade de Mickey Rourke. Desta vez, o foco é Portman, extremamente magra, problemática e angelical.

Eu gostei do resultado. A presença de espelhos é constante. Em praticamente todos os ambientes estes objetos estiveram presentes e, muitas das vezes, a bailarina Nina fora filmada por seu reflexo narcísico no espelho e não por seu frontal; o que ela passa é o Cisne Branco, mas o que ela É, no reflexo para além de sua imagem, é o Cisne Negro….

Eu recomendo.

Por: Guerra de Pipoca.

Você vai conhecer o homem dos seus Sonhos

Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos – You Will Meet a Tall Dark Stranger

Direção: Woody Allen

Gênero: Drama, Romance

EUA, Espanha – 2010

Woody Allen é muito criticado por filmar mais de uma vez o mesmo tema. Mas o que verdadeiramente importa? Se ele faz uma boa comédia de costumes, se explora as fraquezas humanas em suas banalidades e imediatismos? Será que todos percebem que num filme aparentemente sem grandes pretensões ele vai fundo em uma das grandes ilusões das pessoas? Aquela de que a maioria delas acredita que alguém irá surgir e modificar sua vida medíocre e linear. O sonho do príncipe encantado…

Começa com uma senhora bem educada, estilosa, inglesa até a medula que vai consultar uma cartomante, a Cristal. Notem como a inversão de valores e costumes estão presentes o tempo todo. Apesar de classuda, ela bebe e acredita no pequeno jogo de auto-ajuda da farsante.

O outro personagem é o médico formado e escritor. Nada faz, só bebe cerveja. Pouco lê e nem o vejo escrevendo. E sim jogando pôquer com os amigões e paquerando a vizinha em frente, a belíssima indiana Dia. Logo se percebe que cada pessoa deseja mudanças, ser quem não é e ter o que não pode.

Interessantíssimo o perfil do Alfie, o ex-marido da elegante senhora. Sempre quis ter um filho homem, e agora casa-se repentinamente com uma profissional do sexo. Não que isso não seja uma boa opção, pois ele terá o que precisa, obviamente… Mas a que custo? Ela é caricata, mas engraçadíssima, seu sotaque australiano é peculiar e cada personagem fala inglês de uma maneira diversa. Alfie é galês, o amigo escritor é escocês e o seu cunhado – ele, pai da esposa do médico – é americano.

Embaraçados pelo hábil diretor, os personagens amam sempre o outro e não a si mesmos. E esse buraco existencial é que os leva a meteóricas mudanças em suas vidas. Separações e fantasias de crescimento pessoal e econômico. E quais são aqueles que prosseguem sendo coerentes em seus desejos e condutas? A lady e a vagabunda. Antíteses que combinam.
Os demais vivem ilusões descabidas. Como o chefe se apaixonaria por um colega e agora rival? Desde quando um escritor pode surrupiar o livro do outro e incólume ficar? E as outras publicações? Será que uma mulher consegue viver de elogios o resto de seu tempo? Sem um parceiro forte que a complete e que a faça ser ela mesma? E não apenas vestir de vermelho traduzindo sua inequívoca vocação para o erotismo e paixão…

E a melhor… ser rival de uma esposa morta e dedicada, aguardando o aval dela – a falecida – para seguir com o novo companheiro. Muito difícil. Pois pessoas mortas precocemente tendem a ser endeusadas e veneradas.

O final é abrupto, mas coerente. Woody nos brinda com pequenas pérolas de uma Londres bela e de interiores clássicos e outros modernos. Dos parques e das academias. Das lojas de arte e das apresentações de ópera e dos pubs sórdidos e ao mesmo tempo aconchegantes. E a vida? Continua.

O que há de bom: diálogos astutos e contrastes bem marcados

O que há de ruim: melhorar as locações e a atriz que faz a amiga e conselheira de Sally ( a esposa frustrada e despenteada e com pancinha discreta ) a atriz Eleanor Gecks é linda e talentosa, mais espaço pra ela

O que prestar atenção: mulher sempre nota adereços, o caso do brinco é imperdoável, isso a abalou de verdade

A cena do filme: gosto quando o Banderas (que está com o sorriso congelado, será que fez botox?) dá uma de desentendido e dispensa a Naomi, é assim mesmo… nem sempre quem nós gostamos gosta da gente do modo que desejamos, né?

Cotação: filme ótimo (@@@@)

Por: C.O.B.R.A.

Atração Perigosa

Atração Perigosa – The Town

Direção: Ben Affleck

Gênero: Suspense, Drama

EUA – 2010

Decidir por fazer um filme sobre assalto a bancos é simples, mas arriscado. Não por ser difícil a sua composição, inclusive o cenário é bastante simples, mas porque o mercado exauriu o assunto. A trama tem que ter competência para não se tornar óbvia demais e, convenhamos, Ben Affleck é um diretor muito mediano para tornar o assunto diferente. Como ator tem mais experiência, sem dúvidas, e também não é lá essas coisas. É um rosto bonitinho que sabe fazer cara de galã.

Em Atração Perigosa, foi o diretor e atuou no papel principal. Ou seja, fez um filme pro seu narcisismo, apenas. Realizou a fantasia de quando era criança, a de ser o bandido gente boa que é procurado pela Polícia, mas dá um olé nos maiores e melhores detetives de sua cidade.

Doug (Ben Affleck) lidera um grupo de ladrões e após um assalto a banco se aproxima de Claire, a gerente do lugar, para saber se ela sabe identificar o grupo. Claro que… se apaixona pela moça. Dilema típico: parar ou não parar de roubar?

Aquiles passou por dilema parecido e soa realmente bastante trágico: abandonar Troia com Briseida ou seguir seu instinto? Penso que fez escola, pois não há UM filme de “guerreiro” em que alguma mulher não seja a “Eva” do enredo. Cometer ou não cometer o pecado? Acho que o amor é sempre válido e o defendo, certamente. Mas há de convir que tais histórias arrumadinhas só acontecem no cinema. Os bandidos não são tão legais assim! Via de regra, também só no cinema que o público considera a bandidagem boa gente e torce para os mesmos se safarem da Polícia. Eu duvido que tenha alguém que leia este blog e que se divirta com os assassinatos bizarros mostrados em noticiários como do Datena, por exemplo. No noticiário do Datena, as pessoas torcem pela Polícia, pelas famílias etc. No cinema, não.

Eu dou minha cara à tapa: torci pela Mallory e pelo Mickey em Assassinos por Natureza, porque são os porraloucas mais divertidos enquanto dupla de matadores que o mundo cinematográfico já mostrou até o dia de hoje. Sem dizer que Hannibal Lecter tem meu total apreço, obviamente rsrsrs.

Porém, Doug não me conquistou. Achei o enredo fraco, leigo e bastante bobinho. Tem filmes melhores sobre o assunto e com atestado de garantia legítimo.

Por: Guerra de Pipoca.

Boas Festas, Feliz Aniversário, Feliz Ano Novo…

Mais um ano chegando ao fim… eu não vou ficar aqui desejando as mil maravilhas que escutamos quando se aproxima do Natal, porque acho tudo isso CAFOOOONNAAAAAAAAAAA!!!! rsrsrs

Que venha 2011!!! Um ano ímpar! E que seja ímpar para todos nós, sem igual, incomparável! Repleto de momentos gostosos, deliciosos, apoteóticos, orgásmicos, emocionantes! :)

Aproveito para deixar expresso os melhores desejos do mundo pelo aniversário de nossa Quelzita, que é dia 31.12. E parabéns para Tininha e Fernando, também, por seus aniversários, que não sei exatamente quando são… rsrsrs Mas tudo é festa e todo dia é dia de comemorar e brindar à vida!

Felicidades para todos nós, membros deste blog inadequado para sociedade comum!!!

:D

Por: Guerra de Pipoca.

Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme

Wall Street – O Dinheiro nunca dorme – Wall Street – Money Never Sleeps

Direção: Oliver Stone

Gênero: Desonestidade

EUA – 2010

(Continuação do filme: Wall Street – Poder e Cobiça)

Pensei que não iria escrever sobre filmes por agora, mas não resisti e aqui estou com “caneta e papel” na mão. Saudosa do velho Michael Douglas, confesso. Decidi assisti-lo para homenagear o tempo natalino: o acender das luzes do consumismo desenfreado. Falando nisso…

Eu não sou uma “mulher de Wall Street” como eles dizem sobre os “homens de negócios do topo da cadeia alimentar”, mas entendo levemente de Bolsa de Valores. É até engraçado pensar que entender de “bolsa” por si só é de intensa futilidade, porém, acrescentando “de Valores” ao lado a coisa muda de figura, rsrsrs. Coisas do mundo moderno. :D

Bom, aqui vai uma preciosa dica para iniciantes:

Estabeleça inicialmente um valor que deseja aplicar. Ex:  r$ 1.000,00

Escolha ações de empresas que são mais sólidas e trabalhem com ativos menos voláteis. Por exemplo: alimentos e remédios. Empresas que trabalham com “commodities” como aço, ferro, petróleo, tem sido mais rentáveis, mas sofrem com oscilações maiores.  Bancos rendem menos, mas perdem menos.

Lembrem-se que a aplicação é a longo prazo , mas você pode melhorar os ganhos a curto e médio prazos da seguinte maneira: aplicou o valor, comece a comparar os ganhos e as perdas durante períodos de 5 dias, se obteve um ganho maior que 5 vezes o ganho das aplicações comuns, venda tudo e pegue o lucro e aplique em outra coisa. O valor inicial deve ser aplicado em ações novamente e vá fazendo isso . Se perder também mais do que já ganhou, venda esse lote e comece com um novo. Por isso que é importante não investir alto no começo. É um jogo de apostas, com certeza, mas que não se ganha numa única rodada; é preciso paciência.

Com isso, as chances de manter o valor inicial e ainda obter lucros, sobretudo com aplicações mais seguras, são maiores.

E o mais importante: se perder, a vida continua, porque é um fato: “o dinheiro nunca dorme”. O seu até pode “morrer”, mas o Sistema, não. E isso que Jake custou a aprender. As pessoas que lidam com as Bolsas de Valores no fundo sabem que estão num cassino. Só que é um cassino sofisticado, com regras mais sofisticadas e totalmente legalizado no mundo todo. Mas, não deixa de ser um jogo.

Isso me lembra meu querido Al Pacino em Advogado do Diabo quando ele diz que para aprender a jogar bem tem que conhecer e andar no submundo. Não adianta ter um campo de visão somente no topo da Babilônia, no melhor da seleção natural financeira, como queria seu pupilo Keanu Reeves, se o que move a sujeira não está apenas lá. Michael Douglas bem que tentou ensinar seu “amigo pescador”, uma vez que passou 8 anos na cadeia e aprendeu muito lá dentro, mas o rapaz vê o mundo de maneira romântica demais e o mundo não é romântico.

Por falar nisso, o filme pecou muito em colocar em xeque o romantismo e a dura realidade do capitalismo. Pecou mais ainda em colocar “a família” como vencedora do jogo. Ela não é mais. Pode ser que já tenha sido.

Oliver Stone romantizou o valor do dinheiro. Quis dar a ele um crédito cheio de mimimi, não gostei. Não há meiguice nenhuma em um mundo onde um devora o outro, literalmente. Stone quase chegou com plenitude na ideia do devoramento: “Devora-me ou te decifro” (enigma da Esfinge que serve perfeitamente bem para simbolizar o Capitalismo), mas se acovardou fazendo um final patético e surreal.  Claro que existem valores muito mais importantes do que o dinheiro, porém, os “homens” de Wall Street só estão onde estão porque não ligam para isso.

p.s. a ponta que Charlie Sheen fez foi dispensável. Antes ter brilhado no primeiro filme e fim.

Por: Guerra de Pipoca.

2 anos de Guerra de Pipoca!!!

Enfim, se fechamos o ciclo de mais um ano, então, que venha mais! Somos gulosos!

:D

Parabéns para nós!

Beijos,

Guerra de Pipoca.

Os Sonhadores

Os Sonhadores – The Dreamers

Direção: Bernardo Bertolucci

Gênero: Drama

França – Itália – Inglaterra – 2003

Bertolucci ficou conhecido com a direção de “O Último Tango em Paris”, filme de 1973 que deu a ele prêmios e popularidade.  A lista de filmes que dirigiu não é vasta apenas em número, mas em qualidade; e a última obra que produziu, até então, é Os Sonhadores. Filme belíssimo e, para mim, o melhor de sua filmografia.

Baseado no romance de Gilbert Adair, “Os Sonhadores” é uma linda homenagem ao cinema, na medida em que o filme recorre a outras grandes obras o tempo todo ao celebrar a juventude da década de 60 do século passado. É um filme muito polêmico e impactante, que dá imenso pano para manga.

A época é 68, tempo em que a França (Maio de 68) foi palco de uma greve geral – que também é mostrada no filme – denunciando o tempo das revoluções e movimentos políticos-sociais dos anos 60 e 70. Bertolucci não poupa em homenagem: a trilha sonora é espetacular e toda desse tempo de “Woodstock”: Hendrix, Joplin, Doors… enfim, muito boa.

O fim da década de 60 (com o início de 70) foi marcado por grandes acontecimentos: guerra do Vietnã, retorno do movimento feminista, politização dos jovens etc. Sutilmente, estes acontecimentos são resgatados no filme pelos 3 jovens Matthew e os gêmeos Theo e Isabelle, cinéfilos de classe econômica alta que se fecham em um apartamento enquanto seus pais viajam e a França está em chamas em plena revolução. Essa é a ideia do sonho no filme: o distanciamento e isolamento do que acontece ao redor. O mundo dos sonhos é interno e particular. Matthew, recém amigo dos gêmeos, embarca nos jogos psicológicos deles por ter se apaixonado por Isabelle, mas logo percebe que Theo e ela – ainda que irmãos – se relacionam quebrando a ideia do tabu do incesto. É um mundo à parte do que o social determina, tal como nos sonhos, onde tudo é (quase) possível. A ausência do pai é notória, tanto enquanto normalizador da ordem social (função paterna) e das regras e leis; quanto da imposição de um limite necessário aos filhos. França em caos, os filhos também. Onde está o pai?

Bertolucci não deixa barato: se a época é de um retorno ao feminismo, então que seja feita uma homenagem a elas também, com isso, é um dos poucos filmes que mostra o nu frontal masculino. Geralmente, o nu frontal é reservado às mulheres, os homens se preservam e são preservados, como o machismo determina. Aqui não. Aqui vemos Theo e Matthew compondo o triângulo com Isabelle… Mas, vale dizer que a ideia não é a de levantar preconceitos de gente escandalizada com que vê. A ideia é de um mundo sem leis, um mundo artístico onde a imaginação e o poder se cruzam e mostram o quanto o cinema – enquanto arte – tem a capacidade de mexer com nossas visões. Ou seja, é também um ato político!

“A rua entrou no quarto”.

Há um momento em que Isabelle grita isso aos outros dois jovens e eles saem do sonho e vão às ruas lutar na revolução. Trago esse momento para cá, pois é importante perceber a sutileza do que ela está dizendo: “os outros entraram em nossas vidas”. Ou seja, é a saída de um autismo alienante para a entrada de uma socialização. Eles “entram” no mundo social, saem do sonho individual, do mundinho próprio. Em outras palavras, o pai (a lei social normalizadora) retorna à casa.  É uma cena linda e extremamente sutil.

E quando a polícia resolve atacar a população? A filmagem é digna de aplausos! Bertolucci filma de frente, como se a Polícia viesse correndo para cima de nós: espectadores sentados, de braços cruzados, vendo tudo acontecer no camarote…

Belíssimo!

Recomendo, é uma obra-prima!

Por: Guerra de Pipoca.

O Auto da Compadecida

O Auto da Compadecida.

Direção: Guel Arraes

Gênero: Comédia

Brasil – 2000

“Não sei, só sei que foi assim”.

Talvez dizer isso seja o suficiente para quem viu. É motivo de rir e de lembrar de uma sucessão de jargões hilários e expressões inesquecíveis deste filme que mostra, sim, a miséria nordestina – uma das marcas do cinema brasileiro-, mas com o diferencial de ser com muita graça e bom humor.

“Passei 3 dias deitado numa cama e nem um copo d´água me mandaram.  Enquanto a cachorra comia bife passado na manteiga!”

Há várias maneiras de se contar uma história e O Auto da Compadecida, quando busca na comédia a base de seu enredo, conta a dinâmica interiorana brasileira cheia de graça. O fato do filme ser no nordeste é só um “detalhe”. Toda cidade do interior do Brasil tem uma praça, uma igreja (com missa sendo rezada se duvidar exatamente agora), um mercado que o dono é conhecido de e por todos,  um senhor de idade andando a pé puxando seu cavalo na corda, vários cachorros correndo no meio da rua, alguns dormindo na calçada e um Banco do Brasil. Sul, Leste, Oeste e Norte! É assim a estrutura interiorana brasileira. Contar miséria? Ah! Pode ter certeza absoluta que a cada janela aberta com duas mulheres observando os andarilhos são vinte fofocas lançadas na cidade. Fazer disso uma história cheia de tristeza, como em alguns filmes brasileiros, pra que?

“Cidadezinha tá muito parada! Minha mão ta coçando prá dá uns bufete!”

Na verdade, o interior nunca está realmente parado, mesmo quando a inércia é visível aos olhos. Tem alguns interiores que são mais ‘interior’ que outros interiores, que, por total falta do que fazer, há sempre algo para ser feito. Nessas minhas andaças por aí em vilarejos, já ouvi de um senhor a seguinte sabedoria: – “Senhora, a gente num tem teatro, cinema, uma coisa diferente para passear, o jeito é os homi beber cachaça, as mulher falar da vida alheia e as beata rezá por nós”. O Auto da Compadecida é quase isso. No lugar das “beata” tem um padre que entra em desavença justo com a mulher do padeiro, que promete pegar a vaquinha de volta caso o mesmo não reze o enterro da cachorra em latim!

Ah! Tem mais isso no interior: enterro. Aliás, qualquer enterro é motivo de certa “festa” no interior. Tudo para, a fofoca é geral e todos se preparam para o grande momento. As melhores roupas são tiradas do armário, claro. Por pouca coisa para fazer, poucos eventos importantes acontecem, e o enterro é um acontecimento! Pouca gente, todo mundo sabe da vida dos outros e aquele morto é sempre um conhecido. Mesmo quando é conhecido do conhecido do conhecido do conhecido. Não importa, importa que é um conhecido de alguém conhecida!

“Taí duas coisas que eu não sabia: uma que eu era corno e outra que morto falava!”

As traições, no interior, também são grandes acontecimentos. A mulher fica mal falada ad eternum e o homem, a vítima – coitado, um corno pelas costas e um homem de bem na frente dos parceiros, um pai de família decente que não merecia isso! Ah! Se a traição vem do homem? Nem merece comentários, as fofoqueiras não alardeiam muito, afinal, “homem trai mesmo e a mulher que é burra de tolerar um homem desses”. No fim, a culpa é sempre da mulher. Porque a estrutura interiorana é mais machista do que se imagina.  A diferença do filme O Auto da Compadecida é que quem sapateia no improvável é a mulher do padeiro!

Enquanto a filha do fazendeiro coronel da cidade é uma mocinha virgem, a donzela puritana que foi pedida em casamento pela dupla Chicó e João Grilo, a Dora, mulher do padeiro, pinta, borda e manda em todo mundo, desde o Bispo e Padre até no valentão da cidade, o Vicentão.

E por falar em “oxi”… quem é que não queria ter um gato que “descome” dinheiro? Imagine você ter uma mina de dinheiro que é produzida pelo fiofó do bichano? Ah! Cada cultura tem seu folclore, suas fantasias mitológicas, o gato que descome dinheiro é, no mínimo, uma invenção sensacional! Para esta história, o valor do dinheiro é o mesmo do local onde ele nasce! O Auto da Compadecida deixa isso claro o tempo todo, seja quando  João Grilo é maltratado pelos patrões até quando o coronel decide tirar uma tira do “côro” de Chicó por ele não ser um rico pretendente à mão de sua filha. Sem contar que o padre, pela vaca e dinheiro do padeiro, reza a missa em latim e depois tem consentimento do bispo. Ah! o gato que descome dinheiro é uma linda metáfora “interiorana mitológica”.

“‘I love you’, que é morena em francês.”

Isto eu nem preciso comentar, né? Melhor falarmos do cangaceiro Marco Nanini! Espetacular!

Cangaceiro: – Qual a sua graça?

João Grilo: – Pobre não tem graça, pobre tem desgraça.

E o cangaceiro: – Então qual é a sua Vossa Desgracença?

hahahahahahaha! Muito bom!

E aqui vem uma das partes mais surreais do filme: a gaita!

Realmente, não precisa dizer mais nada, a não ser que recomendo, claro! Pois como dizia Ariano Suassuna, quem escreveu essa história, “não troco o meu ‘Oxente’ pelo ‘Ok’ de ninguém”. :D

rsrsrs

Por: Guerra de Pipoca.

Kick-Ass

Kick Ass – Quebrando Tudo

Direção: Matthew Vaughn

Gênero: Ação, Aventura, História em Quadrinhos, Comédia

EUA – Reino Unido – 2010

Does that make me crazy?

Does that make me crazy?

Does that make me crazy?

Possibly.

(Gnarls Barkley – Crazy)

A ideia deste texto é a de passar por alguns pontos do filme, sem adentrar demais nos detalhes, para não estragar pros que não assistiram.

De acordo com a Wikipedia (e vamos ter que confiar que está correta, pois não lemos a HQ) Kick-Ass é uma história em quadrinhos da Marvel Comics lançada em 2008, escrita por Mark Millar e ilustrada por John Romita Jr.

O filme diz respeito a essa HQ e conta a história nerd de Dave Lisewski, viciado em histórias em quadrinhos, que decide se tornar um herói. Notoriamente, no longa, é influenciado por Batman, pois este é um herói, mas não tem poder além-do-humano, tal como Dave. E então, ele compra uma rouba verde, se nomeia por Kick-Ass, faz propaganda de si mesmo em sites de relacionamento e vai às ruas ajudar ao próximo. É hilária a primeira cena em que ele tenta impedir um roubo de carros. O descrédito dos ladrões mostra como que o mundo fora dos quadrinhos receberia heróis de roupas coladas que voam e fazem todo tipo de estripulia possível.

“(…)My heroes had the heart to lose their lives out on a limb

And all I remember is thinking “I want to be like them”

Ever since I was little, ever since I was little it looked like fun

And it’s no coincidence I’ve come

And I can die when I’m done(…)”

(Gnarls Barkley – Crazy)

Vida de herói não tem moleza e Dave logo de cara percebe em que se enfiou. Para sustentar a fama do novo herói e permanecer como tal, apanha muito. A graça do filme é isso! Pois, o longa mostra que não é tão simples assim ser um super-herói, ainda mais numa cidade que é chefiada por Frank D’Amico, grande mafioso da região. Opa, Kick-Ass não contava com parcerias, para ele o universo de HQs se limita aos papéis… mas… Big Daddy e Hit-Girl estão em ação!

É engraçadíssimo o treinamento dos dois. Palmas para Chloe Moretz (Hit Girl), interpretou maravilhosamente bem e roubou todas as cenas em que esteve presente.  Nicolas Cage (Big Daddy) também não ficou atrás e até se redimiu dos péssimos papéis que vinha interpretando nos últimos tempos.

Pra completar o quadro dos heróis do pedaço, o filho de Frank D’Amico – o mafioso – decide tornar-se herói para se aproximar de Kick-Ass e capturá-lo. Assim, nasce Red Mist!

I remember when, I remember, I remember when I lost my mind

There was something so pleasant about that phase

Even your emotions had an echo

In so much space.

(Gnarls Barkley – Crazy)

Ah! A propósito, essa música está no filme (a trilha sonora também está de parabéns)… e nós Moiras “surtaaaaamos” quando ela apareceu na narrativa! :D

A Circe deu “pause” no filme para cantá-la em pé no sofá e o microfone era sua taça de vinho…

Maybe I’m crazy

Maybe you’re crazy

Maybe we’re crazy

Probably…

(Gnarls Barkley – Crazy )

 

A maioria das pessoas supõe facilidade em fazer comédia. Não é tão simples assim. Retirar gargalhadas do outro é mais difícil do que arrancar lágrimas. Qualquer drama convence os mais sensíveis, basta ter meia-morte com muita tristeza envolvida que a maioria se comove. Já fazer comédia, que preste, é bem mais complicado. Nesta safra de péssimos filmes, Kick-Ass se sobressaiu por oferecer ao espectador uma comédia mais equilibrada, com humor ácido e interessante. Nada de pastelarias e imbecilidades que estamos saturados de ver.

Nós recomendamos! Estamos pensando em ler as HQs também.

Por: Moiras.

La Haine

La Haine

Direção: Mathieu Kassovitz

Gênero: Cinema Verdade, Ação

França – 1995

Alguém, quando criança, compreendia por que a noviça rebelde era rebelde se o máximo que fazia era cantar nos Alpes austríacos? É preciso compreender o contexto histórico, não? O que uma mera arma de fogo pode causar nas vinte e quatro horas na vida de três jovens das banlieus francesas? O beur (franco-árabe) Saïd Taghmaoui, o judeu Vicent Cassel e o negro Hubert Koundé não sabem que, numa queda, o importante é o impacto ao aterrisar. Quem são eles senão indesejáveis para o mundo? Não diria que são sem posição social, mas precisamente, como diria Foucault, inconscientemente citado por Saïd, jovens “trancados do lado de fora”. Essa é a lógica de um gueto, de uma área menosprezada, uma lepra da estética. A síntese do mal, a razão por todas as malezas sociais. Nos embalos de Tropa de Elite 2, enfim escrevo sobre La Haine, filme preto e branco que está longe de ser monótono! Ruben Katzman demonstra o processo de sedução à homogenia da cultura dominante para, esta, depois, abandonar os próprios seduzidos. Posso chegar –e é meu intuito, num buraco mais embaixo. Vamos por partes!

 

O conhecimento é produto de uma dupla relação entre o que é produzido socialmente e o que é socialmente reproduzido. Logo, o que sabemos sobre as zonas degradadas—favelas, guetos, banlieus—e seus moradores perpassam um discurso tributário das representações do senso comum muito antes da análise da produção das ciências sociais a partir dos anos cinquenta. Esse problema se choca com sua antítese na militância da própria ciência social. Não há anjos e demônios; um discurso não deve ser suplementado por outro. O Capitão Nascimento pode xingar o quanto quiser os cientistas sociais. Sou um deles, mas diferente daqueles que ele denuncia. Tento distinguir o x qua x e o y qua y.

 

O outsider tem sua clássica representação como inimigo do Estado e da sociedade a ser combatido; são sujos e vivem em condições insalubres que denotam suas virtudes morais intrínsecas. Muito bem, quando a culpa recai sobre seus residentes torna-se fácil obscurecer a responsabilidade estatal. Uma comunidade carente é traduzida como antro da promiscuidade moral. Louis Chevalier chama tais segmentos de “classes perigosas” e disto advém o seguinte questionamento ético: deve-se permitir a sobrevivência de pessoas não enquadradas no mercado de trabalho? Seria isto estimular o ócio? O trabalho aqui não se configura em qualquer meio de subsistência, mas tão somente naquele oficializado pelo Estado. E justamente só come quem trabalha de acordo com a oferta do mercado. Logo, há uma geração de pobreza maior, uma vez que as ocupações destas populações são destituídas de seus meios tradicionais de sobrevivência. É um apelo sedutor para a cultura “dominante”. A falta de opção é vista como escolha, como preferência pelo vício por parte de quem resiste ao modelo idealizado. Aliás, lembrando que para Marx, Ideologia é falsa consciência enquanto Cultura é uma alienação mistificada. Quem preferir pode definir Cultura como espaço da discussão pela hegemonia. Acho que fica melhor neste contexto embora prefira a denominá-la como “negação da Natureza”.

 

O problema é justamente a falta de capacidade de absorção de todos àqueles que aderem as novas normas! Nas palavras de Katzman, “han sido seducidos por uma sociedad moderna em que solo pueden partipar simbolicamente, no pudiendo superar por sus próprios medios los obstáculos para alcanzar uma participacíon material equivalente”. Percebam porque não há anjos e demônios. A violência das áreas pobres em geral não se dá pela necessidade de comer ou algo vital capaz de legitimar o roubo. Obviamente a extrema pobreza existe, mas em geral em lugares mais distantes do que as favelas do Brasil e, muito menos, das banlieus francesas. Não falo da pobreza das zonas rurais, da Etiópia ou dos mendigos. Refiro-me à clássica pobreza das metrópoles urbanas. Roubam porque querem um PlayStation. Não são santos tampouco culpados, vide serem seduzidos a isso constantemente. O discurso da fome é uma espécie de redenção, mais mito do que realidade. Se estes indivíduos desejam o mesmo do que eu, qual o ponto de renúncia? Se ceder constantemente, não culminarei na inversão, ou seja, conferindo aos “indesejáveis” a prioridade na aquisição de certas mercadorias antes mesmo de mim? E se assim acontecer, talvez eu mereça isso, não? Afinal, fui eu quem ostentou e estimulou o desejo alheio pelas minhas posses. Para legitimar o desejo alheio em simultâneo ao afastamento da possibilidade de obtenção daquilo que possuo, o discurso ideológico costuma amalgamar a descrição morfológica do local com a descrição de seus habitantes, atribuindo-lhes características morais degradadas. São sujeitos transformados em objetos; entretanto, para reconhecer o sujeito, é necessário eliminar o objeto. Ao ignorar toda a subjetividade do sujeito, para que perguntar o que ele pensa ou acredita? Posso generalizar de antemão. E quando se faz uma pergunta nestas circunstâncias, já se sabe a resposta: uma noção positivista.

 

Devem desejar o que tenho porque este é o certo. Entretanto, não são dignos de tê-lo. O processo civilizador consiste na substituição da violência aberta pelo controle de normas comportamentais, ou seja, a disciplina e adestramento. É um túnel sem fim porque se traduz simplesmente em: para que você não roube meu PlayStation, te ensinarei regras de comportamento pautadas em valores que eu possuo pregadores exatamente do desejo pelo PlayStation. É por isso que a pobreza, por si só, não possui vínculo algum com a violência. Esta se manifesta mais no desejo. E essa mistura entre pessoas diferentes é um “risco”, a menos que seja regularizada e controlada. Daí o afastamento.

 

O cinturão vermelho na periferia parisiense onde os três jovens outsider residem tem seu nome num antigo conglomerado de comunistas. Ironicamente, agora estão isolados, “trancados do lado de fora”, incapazes de adentrar o glamour da contemporaneidade do capitalismo. O isolamento social produz segregação residencial. Logo, a rede de relações sociais é menor. A estrutura de oportunidades do indivíduo depende de sua sociabilidade e obtenção de recursos, para transformá-los em ativos. A falta de vínculos não gera somente a submissão do mais fraco diante o mais forte, na qual a “escória” oprimida tentaria subsistir. É além. Enquanto o oprimido jaz na base da pirâmide social, a exclusão social processa a des-filiação do indivíduo. Ele sequer é um oprimido da hierarquia. Sequer faz parte desta, é um “inútil para o mundo”. O inútil decorre da concentração e acumulação de desvantagens em determinados setores da sociedade. Não se trata de segmentação—processo de redução de oportunidades de interação de grupos ou categorias sociais distantes—mas de segregação. Não é mais o “exercito de capital de reserva” marxista, é mais grave. Não há função para estes indivíduos. Ou seja, refere-se aos processos de polarização e endurecimento das distâncias sociais. A hegemonia, aliás, é um consentimento ativo: não se impõe, convence.

A redução progressiva da sociabilidade informal entre diferentes grupos sociais, das quais um se tornará “inútil”. É realmente “inútil”? Por quais motivos? São vários: Necessidade de elevação constante dos limites de qualificação para integrar o mercado formal devido às aceleradas inovações tecnológicas e necessidades de produtividade e competição em nível mundial. A estagnação da classificação se dá, entre demais fatores como o residencial e a educação, pela própria divisão do trabalho. A segmentação diminui a interação social entre trabalhadores com diferentes graus de qualificação. Não é possível demonstrar algum talento inato ou aprender pela observação, pois não há chance para isso. Contudo, isso não afeta somente os pobres. Também afeta classes superiores, cujo resultado é uma sistemática piora a todos. Existe também a drástica desvalorização das habilidades e competências já adquiridas (antigamente Vovô servia pra ensinar algumas sabedorias de vida. Agora, se ele mal consegue acessar e-mail, é um imprestável descartável).

 

Ufa! Dá pra entender os humanistas, não? É cru-el. O problema é que é humano e não sei se é utópico acreditar que possa acontecer de outra maneira. Hubert, no ano de 1995, possui uma televisão de vinte e nove polegadas em sua casa. Os prédios não são caídos: para padrões brasileiros, seriam dignos de classe-média. É complicadíssimo determinar se a reivindicação é necessária ou exagerada. Inclusive porque muita dessa carência francesa não é meramente econômica. Adquirimos a noção do individualismo negativo: os “inúteis” para o mundo. Faltam referências, a carência é total. Faltam considerações, segurança, bens garantidos e vínculos estáveis.

 

Bem, vamos para a parte mais legal. René Girard e a gênese da violência humana! Talvez isso deixe mais claro o que tento dizer: pode ser injusto, mas há como ser de outra maneira?

Não existe relação humana sem objetos. É o mundano o espaço de troca entre homens por excelência. Em Violência e o Sagrado temos a teoria do desejo mimético (de desejar aquilo que o vizinho tem) aplicada nas mais variadas construções sociais e a lógica do sacrifício humano.  Há um duplo aspecto em vítimas expiatórias: são simultaneamente sagrados e criminosos (todo mundo aqui conhece o drama que fazem na morte de um traficante ou ditador, não? Deseja-se a morte do infeliz para depois sentir arrependimento). O bode expiatório é a válvula de escape dos ímpetos violentos acumulados no prelúdio do conflito iminente. Em geral, quem é o infeliz? O indesejável. Portanto, não se trata de um inútil para o mundo. Ele tem, sim, uma utilidade. É trágica, mas, repito, não conheço sociedade excetuando-se as de lógica totêmicas sem bodes expiatórios. O morador da banlieu ou favelado é a vítima substitutiva, sobre ela é desejado todo o ódio e sede de violência para aliviar e livrar a sociedade dos possíveis conflitos.

 

Uma sociedade está sempre sujeita a uma escalada de violência devido ao círculo vicioso de represálias, como já foi observado por etnólogos em sociedades primitivas. O surgimento de uma violência incontrolável no interior de uma sociedade ocorre normalmente nos momentos da crise sacrificial, ou seja, quando os sacrifícios rituais já não mais atuam eficientemente como válvula de escape dos impulsos violentos. Não lembro a terminologia precisa disto em economia, algo como “utilidade marginal”. É quando o remédio de emagrecer pára de dar efeito e você volta a engordar a menos que tome uma atitude nova em sua vida, provocando uma reestruturação do habitus. Talvez seja melhor explicar de outro modo: há uma exigência popular por um novo centro esportivo. O governo cede. Durante algum tempo os moradores estão felizes até este centro se banalizar e deixar de ser o foco de interesse. Surge um novo desejo. Se ninguém se manifestar, não haverá nada. O indivíduo que se manifestar é a vítima do sacrifício para gerar uma mudança.

 

Os ritos sacrificiais bem como os mitos que os narram simbolicamente representam a forma de uma sociedade reviver o seu acontecimento fundador, o sacrifício não mais ritual, mas real e espontâneo de uma vítima expiatória. Aqui insere-se a teoria do desejo mimético. Conforme nos conta Girard, o desejo mimético (o desejo de ter o bem do outro) é inerente à condição humana. Antes de racionalizar como devo agir diante uma situação, a lógica é espionar meu vizinho para ver como ele lida diante o mesmo fenômeno. Porém, a culpa não é do Outro, né? Seria fácil demais, como fazem filmes de teoria da conspiração, denunciar o Sistema como se o delator deste fosse isento de participação. Para que qualquer objeto meu tenha algum valor e significado denunciando meu próprio status, é necessário que outros o desejem.

 

Os homens desejam o bem e o ser do próximo invariavelmente, o que terminará por gerar a rivalidade mimética. O detentor do bem quererá defendê-lo mas, ao mesmo tempo, estimulará o desejo do outro pois o fato de o seu bem ser também desejado por outrem potencializa o valor do mesmo. Quando um irromper com um gesto violento o outro imediatamente revidará também por impulso mimético e assim se iniciará um rosário interminável de represálias que somente terminará com o sacrifício de uma vítima expiatória que trará de volta a paz à sociedade.

 

Nem mesmo a Terra das Brincadeiras, onde vivem os Ursinhos Carinhosos, está isenta disso. Para Girard, toda sociedade primitiva em seus primórdios experimentou o evento de uma crise de violência generalizada que ameaçava a sua própria existência e que findou com o sacrifício de uma vítima escolhida arbitrariamente, sobre a qual foram despejados todos os ódios e desejos de vingança, restaurando-se a paz social e fundando-se a própria sociedade politicamente organizada. Talvez o que incomode Vincent, Saïd e Hubert é a racionalização da função do “indesejável”. O nascimento é arbitrário: não se escolhe nascer príncipe ou mendigo. Entretanto, uma vez no mundo, a função que devem desempenhar como “indesejáveis” é bem nítida. A arma nas mãos é apenas o gatilho para cumprirem o rito sacrificial. Lembrando: se ninguém morresse em banlieus e favelas, haveria sequer um incômodo por parte da sociedade mais ampla com estas regiões?

 

Os mitos narrariam figuradamente os eventos que culminam no sacrifício, e dentre os mitos, René Girard inclui não apenas as narrativas mitológicas, mas a tragédia grega e mesmo o Antigo Testamento. Nestes textos, há uma espécie de descrição figurada parcial ou total da rivalidade mimética, da escalada de violência e do sacrifício de vítimas expiatórias. O cinema opera com o onírico, o imaginário. Há algo de mitológico nele e, assim como mitos indígenas, filmes da estirpe de Tropa de Elite 2 e La Haine desvendam o sentido oculto de muitos dos textos das culturas primitivas e antigas: eles representam simbolicamente os horríveis eventos fundadores da sociedade que terminam no sacrifício da vítima expiatória. Mas que infernos a morte de Vincent tanto representa, carambolas? A Revolução Francesa, talvez? A emancipação política do camponês antes de se tornar proletário? As guerras de colonização de um povo sobre o outro? Não posso especificar.

 

É válido lembrar aqui o exemplo do pharmakós grego (pois é, o bode expiatório que serve para aliviar as tensões sociais é o que hoje dá nome para “farmácia”. Neste exato sentido de remédio para curar. Há quem diga que não era exatamente executado, mas certamente o infeliz era condenado, no mínimo, ao ostracismo!), um pária que era mantido cativo para ser sacrificado em épocas de grandes crises e catástrofes—mesmo naturais—, como se sua morte pudesse eliminar a crise ou a catástrofe, tal como no acontecimento fundador da sociedade, o sacrifício da primeira vítima expiatória eliminou uma grave crise de violência.  O estabelecimento de uma nova Ordem, lembrando as resenhas que redigi anteriormente, transpassa uma recolocação entre o Totem e o Tabu. Quando o Escravo derruba o Rei, suas posições revezam. É claro que este tipo de análise pressupõe a História como cíclica, não é bem assim. Não obstante, não me estenderei nesse viés. Basta assinalar que uma reprodução da estrutura gera sua transformação. E mais importante! Se você hoje é Rei, nada garante que um dia o Escravo possa lhe usurpar. Neste caso, o Escravo será você! Por isso a relação de posse é delicada. Elas devem ser cobiçadas para adquirirem valor, mas é extremamente perigoso não afastar aqueles que a desejam da real possibilidade de efetivamente a usurparem. Para impedir que isso aconteça, Vincent, Saïd e Hubert são constantemente relembrados de suas posições como párias, o que abala a própria auto-estima e crença na legimitidade destas posses. A ver como o estigma é reproduzido numa cena com uma jornalista indagando se sabiam algo sobre os conflitos, como se bastasse morar no bairro para ser um de seus residentes “problemáticos”.

 

O rito serve assim para manter viva a memória do acontecimento fundador e para servir como um despejo de impulsos violentos. Quando o rito já não mais desempenha a sua função, surge a crise sacrificial: muito bem representada pelo mito de Caim e Abel. Abel sacrifica os primogênitos de seu rebanho, portanto tem uma válvula de escape. Caim já não a possui, por isso não contém seus impulsos violentos e, movido pelo desejo mimético ou inveja pelo amor que Deus tem pelo seu irmão, mata Abel.

Não apenas os ritos e os mitos são podem ser interpretados mediante teorias do desejo mimético e do sacrifício, mas inúmeros costumes primitivos como o uso de máscaras, a repulsa ao sangue menstrual e aos gêmeos, e muitas das proibições ou regras de direito primitivas. Isto serve para compreender problemas do nosso próprio tempo tais como o racismo, o anti-semitismo ou o aborto. Afinal, a perseguição por motivos de raça ou a luta pela liberação do aborto não seriam formas de ressuscitar o velho mecanismo sacrificial, elegendo novas vítimas expiatórias de nossos ódios intestinos?

 

OK! Então a violência é necessária para o próprio mito fundador de uma civilização, totem e tabu simultaneamente. Isso quer dizer que não devo fazer nada? Filosoficamente, talvez sim. Por outro lado, em um contexto mais pragmático, essa opção não me é dada. A burocracia existe para simultaneamente retificar e contornar os conflitos sociais. No caso do Brasil, a forma de distribuição de direitos sempre foi condicionada pelo mercado de trabalho e sindicatos. Duas lógicas operam correlacionadas, a dizer, quem está fora do mercado de trabalho não tem acesso aos direitos e que, para um bom governo, é necessário o pagamento de todos por bens usufruídos somente por alguns. Eventualmente a noção de que é legítimo taxar sobre a propriedade privada para assim garantir certos bens àqueles que não possuem “nada” se propagou, retificando o ideal igualitário.

 

Antes preciso salientar algo que talvez não tenha ficado tão claro no texto anterior! A miséria do mundo é gerada pelo Capitalismo e pela Indústria, é verdade. Contudo, estes só puderam desenvolver graças aos ideais Iluministas. Se a premissa de que os homens nascem iguais e livres não existir, os Fashion Weeks não serviriam para nada! As idolatrias dos deuses e a das celebridades são comparáveis em grau, contudo há uma nítida diferença no gênero! O indivíduo que idolatra Zeus ou Hera sabe que jamais será um deus, quando muito clama por benevolência. O indivíduo que idolatra Ronaldinhos ou Xuxa o faz com a intenção subliminar de um dia tornar-ser um deles. Se existe uma lei pregando que você, nascido plebeu, não poderá jamais vestir os trajes de um nobre mesmo que porventura reúna condições materiais para adquirir tais trajes, o catálogo de moda não serve para nada! Se existe uma lei te obrigando a andar com a cabeça abaixada atrás de um nobre, mesmo que os trajes lhe fossem acessíveis, permaneceriam sem grande valor! Somente com a ideia de que todos podem adquirir os produtos que bem entender sem receio de discriminação por casta ou qualquer qualidade irrefutável, inerente, é que a Indústria e o Capitalismo podem prosperar. E não é à toa que seu impulso primordial se deu na indústria têxtil! Também no espelho! Isso mesmo, espelho! A imagem refletida do que você potencialmente pode ser ao experimentar uma roupa no shopping!

 

Ainda assim, existe uma geometria variável: o direito em suas variantes (direitos civis, direitos políticos, direito sociais etc) depende do contexto. Na Era Vargas, a expansão dos direitos sociais foi concomitante à diminuição dos outros. Porém, Brasil não é França. O Estado nasceu forte no Brasil, com a noção do cidadão como súdito. Na França, os cidadãos “empurram” a cidadania na marra. A construção do cívico é “de baixo para cima”. Ou era, né? Se ainda fosse assim, não haveria Saïd, Vicent e Huberts perdidos por aí…

 

A sociedade privatiza o Estado. O Estado “fagocita” a sociedade. Ademais, com a queda do muro de Berlim, a crise do Estado do Bem-Estar Social se agravou. Pessoalmente não gosto desses termos escatológicos, proféticos de fim de mundo. Mas é a história oficial, então vamos lá: o Neoliberalismo conduz ao debate entre o ético e o eficaz. Os critérios de justiça e responsabilidade estatal entram em contraposição aos critérios de eficiência. Há, claro, um imaginário coletivo, um savoir vivre de adequação aos novos tempos, um “discurso gramatical”. Evidentemente só é ouvido quem consegue se ajustar à gramática e o repertório do contexto. Dane-se se você quer ser artista se o mundo não se interessa mais por isso, ainda que, em sua juventude, você tenha sido ensinado a valorizar a Arte. Essa rápida transitoriedade pós-moderna não permite com que todos se ajustem, evidentemente. A transitoriedade é justificada pelo discurso da eficiência. É isto que vai melhorar e pronto! A faca é de dois gumes. Se não mudar, piora. Se mudar, nem todos se adaptam e a exclusão aumenta. Piora de qualquer modo. Evidentemente, qualquer hegemonia estatal depende, para ter legitimidade, de dois fatores: coerção e consentimento. Nunca é só um destes; é sempre uma dosagem entre os dois termos.

 

VOCÊ FAZ PARTE DO SISTEMA E ESTÁ DE ACORDO COM ELE, QUEIRA ISSO OU NÃO! Humf! Pronto! Falei! Odeio filme de conspiração por transmitirem essa ideia de isenção de culpabilidade do indivíduo, ou então de inocência, como a ciência de sua responsabilidade pudesse lhe trazer redenção. Para ele, claro. Não para os Outros.

 

Um Sistema nada mais é que um “Universo cognitivo simbólico”. Qualquer movimento social ou protesto de ONG possui uma dupla face. São expressivas e disruptivas e integrativas e coorporativas. A ruptura também é integrativa. As duas faces da mesma moeda não são contraditórias. Afinal, se quero ir contra o Sistema, ao realizar um protesto necessariamente estabeleço um diálogo com este. E através do diálogo o Sistema permanece. O poder só é legitimado com o mínimo de consentimento. Não há como ir totalmente contra um Sistema porque não sou um ser desassociado deste: faço parte dele tanto quanto àqueles que condeno.

 

Habitantes de banlieus são pessoas de diferentes níveis educacionais, ocupações etc: não se trata de algo homogêneo. São tão estratificados entre si e seguem igualmente a lógica da “sociedade”. São capitalistas. O que os diferencia de “nós”, os “estabelecidos” em relação aos “outsiders” é somente a percepção social. Certas regiões periféricas, como todos devem saber, por vezes são mais ricas que algumas regiões dos “bairros” clássicos. Dentro das periferias os moradores agem exatamente como fazem os indivíduos da sociedade “estabelecida”, travando relações capitalistas. Não há uma lógica igualitária poética de comunidade. É a mesma lógica do público. Um gueto é tão somente um arranjo particular plenamente inserido na generalidade capitalista. Também nestes locais a monopolização dos recursos é fundamental para a reprodução das atividades econômicas. Vive-se e reproduz-se a partir da própria vulnerabilidade. Uma das piores situações que poderia acontecer para tais segmentos seria a democratização igualitária dos recursos, implicando a quebra da hierarquia local (leia-se recursos por específicas ajudas de ONGs, instituições de caridade etc).

 

A perspectiva de Anthony Giddens seria uma terceira via, nem Direita neo-liberal, nem Esquerda comunista. Para ele, não há pós-modernidade, mas uma radicalização da modernidade. Esta ocorreria quando o homem reflete e pensa sobre sua condição de vida sociologicamente. Refletindo sobre si mesmo, a sociedade pensa na própria diante os ditos da sociologia—uma dupla hermenêutica. Tal como um movimento de hélice, sociedade e sociologia se auto-definem. Entretanto, nem sempre acontece desse moldo. Quando não se conhecem as duas faces, não é possível compreender a “realidade”. A sociedade marcha num ritmo diferente da sociologia, que fica para trás. Portanto, por mais que ideólogos acreditem na revolução por vir do povo, da soberania popular etc…

 

É ilusão! Não é uma surpresa constatar que habitantes de guetos não sejam revolucionários. Na realidade, nunca o foram. Não é de suas constituições. Os pressupostos dos militantes diferem do que realmente acontece. O que se constata, repito, é a “integração” e a “negociação” (há exceções; claro). Por mais comum que seja a aspiração para mudar de vida, o entrelaçamento cultural rege para o estabelecimento de uma regularidade normativa. Os valores, hábitos, gostos, interesses e aspirações, ou seja, as aspirações, variam mais ou menos condicionadas pela forma e meio de morar. A visão de um mundo de um indivíduo o faz aspirar um salário maior a fim de ampliar o consumo, não modificá-lo. Aqui a coisa complica nos limites da tolerância.

 

Quem lembra da cena onde os três jovens entram num vernissage e flertam com duas meninas (saliento o fato de uma delas ser negra)? Eis uma peculiaridade francesa. Quando as discrepâncias entre classes são muito gritantes, como no Brasil, é visível de antemão quem é e quem não é “da área”. O conflito oriundo da segregação não chega a ocorrer por ser impedido de antemão. Quando se dá, sobretudo, por diferenças étnicas, como nos Estados Unidos, a materialização do estigma é ainda mais visível. Agora, notemos como dos três jovens, o mais revoltado é Vicent. O branco! Não é o franco-árabe nem o negro. Por que? Porque para ele o motivo de sua segregação é mais sutil, o que, ao ser efetivada, a torna mais gritante. Não é por classe ou por etnia. É simplesmente por ele não se enquadrar na Ordem. Enquanto calados, são aceitos no mundo que os tranca do lado de fora. Basta abrir a boca para…

 

Quando a descriminação não é pelo “Ter”, se torna pelo “Ser”. Mais crua e violenta, diria. O diálogo é outro. A sociabilidade é diferente. Vejamos: um vestido Versace no corpo da Dona Zulmira, a caixa do supermercado, é apenas um vestido preto. Para que aqueles trapos de pano se tornem verdadeiramente Versace, sua forma é apenas metade do caminho. A outra metade depende do modo de quem o vestir! Se os ombros ficarão à mostra, ou se vai combinar com determinado tom de batom ou corte de cabelo, a cor da bolsa e o tamanho do salto. O jeito de andar e, portanto, movimentar o vestido. É isso que transformará o vestido inteiramente em um verdadeiro Versace. A coroa de um rei não se sustenta por muito tempo na cabeça de quem não sabe governar! Portanto, por mais economicamente igualitário que seja, por mais que dois indivíduos—um da periferia e outro do bairro tradicional—possam comprar o vestido Versace, apenas o derradeiro “sabe” vesti-lo. Isto é válido para bens não-materiais. Arte contemporânea é um desses. Todo mundo que entende um pouquinho de arte sabe que Arte contemporânea não tem definição, que não é para entender nada. E é hilário ver pessoas que não entendem nada filosofando sobre o assunto na tentativa de se passarem por entendidos. É mais ou menos isso que aconteceu com os três jovens no vernissage. Naturalmente o mais revoltado é o Vicent. Ele não tem válvula de escape, não pode alegar que foi injustiçado por sua etnia negra ou árabe. Na cabeça desse rapaz a pergunta que não quer calar é: mas o que foi que eu fiz? Por que não sou como eles? O que me faz diferente dessas pessoas?

 

Você não sabe vestir o vestido Versace adequadamente. Simples assim. E tem mais! Isto equivale dizer que a maneira como você veste o vestido é barbárie. Pois é, a política é a continuação da guerra por outros meios, rapaz. A violência, neste caso simbólica, é a ausência do conflito. O seu mal-estar advém de nascer numa região degradada num país que se diz com igualdade, fraternidade e liberdade para todos. Para Loïc Wacquant, é “uma Vingança da História”. Tais valores são facilmente aderidos pelos antigos povos conquistados, porém não são realizáveis na práxis. A rotulação como periférico é uma classificação. E qualquer classificação é uma desumanização, contrariando os próprios ideias que seduzem levas de imigrantes na esperança de viver a Utopia na Terra. Bem, uma utopia, precisamente, não tem topos, não tem lugar. Só resta, então, a arma na mão.

 

Guetos incorporam pela sociedade mais ampla a metáfora da guerra. São vistos como inimigos internos que ameaçam a existência da sociedade como um todo. Precisam ser derrotados sem contemplação, estão à margem da própria sociedade e por isso não são dignos de piedade. Este “mal a ser combatido” é para além dos casos isolados que podem porventura de fato provocar problemas. Engloba toda a população circundante. Outra vez o fenômeno é cíclico. Com o cotidiano violento, somos levados a pensar que só se adapta a viver neste lugar quem é essencialmente parte disto, tão degradado quanto. A convivência dos moradores com os indivíduos potencialmente problemáticos é interpretada como conivência. Forças estatais, seja o BOPE ou polícia francesa, alegam como numa “guerra” as baixas são naturais. A mecânica opera na premissa de que inimigos não têm direitos. Em guetos não há cidadãos a proteger. Obviamente isto não implica em matar deliberadamente; porém, se morrer…é um mal necessário.

 

O repertório dos Direitos Humanos contempla basicamente os direitos civis. O apelo aos direitos humanos é a defesa mínima à Vida. Aquele que apela tanto pelos Direitos Humanos significa que suas condições mínimas de vida estão ameaçadas. Talvez alguns destes realmente sejam criminosos. Por outro lado, os que condenam os Direitos Humanos o fazem porque já os possuem, não?

 

Ninguém é santo ou demônio. Creio que deva existir uma divisão da responsabilidade pela violência uma vez que não é possível apontar um culpado palpável deste ciclo vicioso. Ou melhor, não há realmente um culpado se isto faz parte da condição humana. Realmente, prefiro dedicar-me, a partir de agora, em defender o direito das abelhas de produzirem o mel. Os gregos podem me chamar de “idiots”, aquele que não participa da bios política.

 

Herdeiro dos Intocáveis da Índia, dos vikings idosos, das mães com filhos mortos do sudoeste americano, dos judeus e dos ciganos (povo originário da região da “Boêmia”. Bem sugestivo, não? O que não se inscreve na Ordem tem lá sua “pureza”, mas é um “perigo”, para Mary Douglas), Vicent não tem perspectiva de futuro brilhante. A arma na mão pode lhe soar como um efemero grito oco de esperança. Mas somente por pouco tempo. Ele é o bode expiatório de um rito sacrificial contemporâneo.

Ele e este carinha aqui debaixo deveriam lembrar que o importante não é a queda, mas a aterrisagem.

Por: Eduardo Cidade.

Tropa de Elite 2

Uns dos Engravatados

Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro

Direção: José Padilha

Gênero: Ação, Aventura, Policial

Brasil – 2010

Já dizia Sartre que o inferno é o Outro…

O maior problema do poder é a sua legitimidade. Quando é legítimo o uso do poder, da autoridade, da força?

O princípio de legitimidade, que hoje é justificado por meio do princípio ético, legitima os governantes a atuarem de acordo com as vontades de Deus e do povo. Ignoremos as vontades de Deus, mas não tanto assim, posto que Ele e povo no filme Tropa de Elite 2 é encarnado na mesma persona, a saber, Capitão Nascimento. Ele é O cara. Com seu surgimento, Chuck Norris está decididamente demitido, diz Roberto Justus sobre Wagner Moura.

Os métodos de Chuck, o boneco assass… ops, o Capitão Nascimento, são arbitrários, impostos e ilusoriamente justificados por meio da explicação de que “bandido bom é bandido morto”.

A narrativa muito bem pensada de Padilha sustenta a ilusão de que a “justiça” e os “direitos humanos” só atrapalham. Quem manda nós, os cientistas das HUMANIDADES, protegermos o direito nato à HUMANIDADE? Que coisa absurda! Deveríamos nos ocupar em defender os direitos das abelhas produzirem mel!

Se estivéssemos em alguns séculos atrás, Capitão Nascimento não teria de enfrentar tanta burocracia. Mataria e pronto. Ele é a lei e a lei é dele. Chegaria o dia, e o passado histórico nos confirma, que matar bandido e mocinho é só uma questão de acordar de pá virada, “parceiro”. Nero e tantos outros não nos deixam mentir.

Acontece que, felizmente ou não, esse tempo arbitrário está dissipado pelo que entendemos por poder judiciário, uma parcela da divisão do poder em si. E até que se aperte o gatilho, tem muita instância pela frente.

Resta questionar se esse processo de “condenação” é uma conquista da dita humanidade. Nós, Moiras, defendemos que SIM. Conquistamos o direito à defesa! E essa legitimidade não nos foi dada, foi conquistada com muito sangue derramado.

Imaginemos se no mundo real e atual um policialzinho qualquer pudesse matar apenas porque entendeu que estaria limpando a sociedade dos bandidos coçadores de saco e cheiradores de bunda?

Não demoraria muito e o cabra daria um tiro na própria mãe! Poder é algo perigoso e não é à toa que para casos de extrema babaquice dizem que “o poder lhe subiu à cabeça”. E sobe mesmo, “parceiro”. Só que hoje em dia, nêgo perde a linha por causa que o poder subiu a cabeça, mas se depara com uma chatice jurídica enorme pautada na idiota perspectiva dos Direitos Humanos.

É por conta dos Direitos Humanos que os assassinos tem que se vestir de terno e gravata, “parceiro”.  O Capitão Nascimento sabe qual é o peso de mudar de farda para terno; e aí ele ocupa o lugar ora de vítima, ora de salvador. Vítima porque, puxa…, ele é mero fantoche do Sistema, coitado… E salvador, porque o cara é esperto pra caramba, “parceiro”, ele “saca” qual é a “noia” toda e de um jeito muito principesco salva a donzela Brasília das garras do mau-caratismo político. Desvendou todo o Sistema com seus caros neurônios tão logo o soldado de chumbo Matias “bateu as bota”, literalmente. O justiceiro ex-BOPE e atual burocrata acorda para revanche e aí “foda-se” a constituição dos fatores e a brasileira de 88, a justiça e o que mais vier, “parceiro”. O “lance” agora é “passar geral”, vingar o Matias e derrubar o Sistema pro próprio Sistema!!!!!!!! E mais, so-zi-nho!

Bom, é filme…

Um cara desse não precisa de “parceiros”, ele faz o que tem que fazer sozinho. “Vagabundo que se oriente!” Capitão Nascimento está na área.

O processo eleitoral, que inclusive estamos vivendo, se vale do oportunismo burguês. Em Tropa de Elite 2, o processo eleitoral é amparado pela Polícia. E a Polícia, no filme, está para Favela assim como a Favela está para Polícia.

A ideia de que a Polícia está para bandidos é coisa de primeiro mundo, que enquadra no xadrez qualquer malandro tendo carteira gorda ou não. No filme e, talvez, no Brasil, se a polícia está para a favela, logo, a lógica não é a de prender bandido, mas a de prender pobre. Este mesmo pobre que elege os maus políticos… As CPIs estão engavetadas na vida real, no filme tem uma em aberto, mas dos resultados só ouvimos falar por alto, porque é mais importante acabar o filme (ih já vimos este filme…) e retratar a vida de Rafael, filho do nosso Capitão, que se encontra internado no hospital devido um golpe duro do Sistema… Enfim, continuamos a colocar na conta do Papa?

Por: Moiras.

Por Amor a Nancy

Por amor a Nancy – For the love of Nancy

Direção: Paul Schneider

Gênero: Drama

EUA – 1994

Esta imagem não é do filme, mas é pertinente trazê-la.

Filme de 94 que é muito atual, pois se refere à história real de um caso extremo de anorexia (transtorno alimentar que pode levar à morte). Diante de tanta tecnologia avançada e exigência cultural da indústria da beleza, os que sofrem de transtornos alimentares não tem escapatória, uma vez que se afundam em suas neuroses e distorções corporais com o consentimento social. Bom, comecemos pelo início.

Enquanto criança, as diferenças físicas são mais marcantes no que se referem à genitália. Corpos de crianças não se diferem muito umas da outras. Somente no decorrer dos anos de vida é que os corpos se desenvolvem e se diferenciam com maior evidência. Como dizem no popular: o sujeito “encorpa”. As diferenças de gênero passam a ser mais visíveis, não preciso descrever aqui, claro.

Na adolescência, o corpo se desenvolve de maneira desproporcional. Os braços crescem e se alongam, a voz sofre modificações em tempos variados, as pernas não crescem no mesmo tempo que os braços. Enfim. São os “desengonçados/as” por natureza. Somado a isso, todos/as adolescentes sentem-se de “mal” com seus corpos em transformação.

Pensemos juntos: primeiro se é criança, diferença gritante com o mundo adulto. Depois, as pessoas deixam de ser crianças, crescem desproporcionalmente, tem corpos de pessoas  adultas, mas não são tratadas como tais. São tratadas entre a infantilidade e a adultice, sabem que são tratadas assim porque seus corpos mudaram e o pior, de uma maneira extremamente disforme. Se os corpos ao menos mudassem de maneira uniforme… Difícil exigir que não fiquem de mal com a vida na adolescência…

Os indivíduos que sofrem mais com isso são aqueles que psicologicamente não querem adquirir essas mudanças corporais que denunciam maturidade sexual. Em outras palavras, são aquelas pessoas que querem permanecer com seus corpos de crianças, tratados/as como tais, sem formas, sem curvas, sem atrativos sexuais. Pois, o corpo adulto é um corpo biologicamente preparado para a vida sexual ativa.

Somado a essa problemática, na cultura ocidental em épocas pós-modernas  ser bonito/a é ser magro/a. Ou seja, ser “sarado/a” é ter um corpo malhado, sem gorduras, sem excessos desnecessários. Em contrapartida, ser “doente” (pra fazer semblante ao ser “sarado”) é ser gordo/a, acima do peso exalando excessos.

Negação (inconsciente) da sexualidade + negação (inconsciente)  do corpo em desenvolvimento + neurose estética cultural = anorexia.

Parada rápida para um comentário pertinente: os/as modelos são cabides! Expositores de roupas que são guardadas em guarda-roupas, armários!

Voltando, “parar de comer” para o/a anoréxico/a é equivalente a ter “controle” do desenvolvimento corporal. Isto é, decidir não comer mais faz com que se emagreça tanto que “as curvas”, as formas, desaparecem. Não é assim? Almejam a assexualidade.

(gente, estou falando de pessoas com corpos adultos que chegam a 30 kilos!)

A diferença entre anorexia e bulimia é que na bulimia o indivíduo consome grandes quantidades de alimentos calóricos de maneira rápida e depois faz grandes estágios de jejuns somados à provocação de vômitos e ingestão de laxantes para por tudo o que se comeu pra fora, pelos buracos possíveis do corpo. E o sujeito anoréxico simplesmente não come.

O filme mostra Nancy em todos os estágios anoréxicos. Para a turma Psi é indispensável assisti-lo. Porém, recomendo para todos. Lembrando que o que está em jogo não é somente a neurose cultural do corpo perfeito, o buraco é mais embaixo… trata-se de uma doença psicológica crivada na distorção manifesta do corpo e da sexualidade…

Não dispensem as guloseimas ao assistirem “Por amor a Nancy”!

Por: Guerra de Pipoca.