
The Evil Dead – A Morte do Demônio
Direção: Sam Raimi
Gênero: Terror, Horror, Trash
EUA – 1981
Esse texto ficará mais pessoal, pois foi o primeiro filme de terror que assisti na íntegra e a primeira vez a gente nunca esquece.
Quero dedicar esse momento de escrita aos meus 4 irmãos, que compartilham comigo o gosto por filmes de terror. Sempre que nós cinco íamos brincar juntos era com algum artifício sobrenatural envolvido, ou brincávamos de trem fantasma – e devo dizer que o Rico era o fantasma mais assustador da trupe – ou a bola da vez era fazer mágicas (o que eu adoro e conheço muitos truques básicos!!), ou fazíamos sessão de bruxaria (brincamos pouco disso porque a casa ficava cheirando a incenso e Papis não gosta de “cheiro de mato queimado” rsrsrs), ou contávamos, à luz de velas, histórias macabras durante a madrugada toda – e esse momento era sempre muito especial, pois esperávamos nossos pais irem dormir para irmos à biblioteca passar a madrugada cochichando, falando baixinho, contando mil histórias. Tinha toda uma graça envolvida, uma vez que usávamos códigos para marcar a noitada na biblioteca. As combinações se desenvolviam de maneira secreta, cheio de mistérios prévios. Era muito legal! … ou nos reuníamos para assistir filmes horrendos e de terror. Este último conseguimos fazer recentemente: nos unimos para assistir ao outrora temido Evil Dead.
Claro que quando assisti a este filme aos 7 anos (em VHS no ano de 85) senti um medo que hoje, aos 33, é motivo de brincadeiras entre eu e meus irmãos. O filme é um clássico do terror e não se poupa em usar todos os artifícios do gênero: música macabra, noite sombria e solitária, sons de corujas, lobos uivando, morcegos voando, pouca luz ou nenhuma, velas que apagam do nada, ventos que fazem a porta abrir e fechar, janelas que batem dando sustos inesperados, reflexos nos espelhos que insinuam que ninguém está realmente sozinho no ambiente, vozes sinistras, floresta, isolamento, casa mal-assombrada, maldição, sangue (muito sangue), galpão, sótão e principalmente, demônios, muitos demônios…
Difícil não se assustar com o filme que data de 81 e não tinha a tecnologia que tem hoje, muito menos o bombardeio de informações que dispomos na atualidade; as provocações no terror se davam de maneira “manual”, quase teatral. E Sam Raimi não economizou nenhum minuto sequer, desde o início o longa se mostra assustador. Os 5 amigos que foram passar uns dias numa cabana no meio do nada passam apuros desde a primeira cena quando a ponte que liga a estrada à casa rompe prendendo o pneu do automóvel. Será que eles passam ou não? Sam Raimi insere a ideia de “eu avisei… vocês poderiam ter voltado pra trás neste momento”, mas não voltam… Você voltaria? Eu não voltaria! O que é uma ponte quebrada no meio da estrada perto da possibilidade de diversão e saída da rotina? Como suspeitar que isto foi feito para não ter meio de sair dali?
Desde o momento que chegam à cabana percebem que algo ali não vai muito bem, mas atribuem ao isolamento e à falta de estrutura da casa, menos Linda. Linda tem uma sensibilidade maior do que dos amigos, mas visto o filme hoje nota-se o aspecto dado por Raimi à personagem: ela é sensível ou problemática?
O primeiro jantar feito na cabana é a típica ocasião em que as primeiras suspeitas surgem de que há algo realmente errado ali. Seria um animal preso no sótão? Scott paga pra ver e encontra o maldito tocador de discos vinis e fitas K7… o destino dos cinco mudam ali, neste momento. Trata-se de um cientista que encontra mantras macabros para ressuscitar os mortos. Bem… não é todo e qualquer morto que vem ao mundo dos vivos, são sempre os demônios, seres do mal. Os seres do bem e que estão mortos tem mais o que fazer, ora pois! Resta saber o que. Acontece que o lado negro da força acorda com a execução do mantra e aí não há como voltar atrás. Literalmente, inclusive! Pois os demônios não permitem que o dia amanheça! Ai que saga pra fazer o filme amanhecer! O filme, não, o dia!
Claro! Se o dia amanhecer, como poderemos nos assustar? Não tem a menor graça ver filme de terror de dia! (Viu, Fernando? O melhor e ideal é na madrugada e explico a seguir o por que). Filme de terror de dia tem a luz do sol, o barulho das pessoas circulando, enfim, o dia está “vivo”! Pois se o filme se trata de pessoas mortas e o silêncio só atinge seu grau máximo à noite, de preferência na madrugada… ora! Elementar, meu caro Watson!, diria Holmes.
Além dos seres de bem ter mais o que fazer, os seres do mal sempre trazem consigo dosagens cavalares de sexualidade. É como se o sexo fosse algo “do mal”. Santa babaquice Batman! Convenhamos, os “demônios” são mais interessantes do que os santos; Cioran (filósofo romeno) estava certo quando falou em Breviário da Decomposição a chatice que é o ser humano que almeja ser um bezerro na vida, uma vaca de presépio assexuada. E não precisamos ir tão longe, como são chamados ambientes que tem de tudo? “Inferninhos”. Honestamente, eu não fiz nenhuma amizade duradoura em minha vida bebendo leite…
Os demônios do filme são debochados, risonhos, irônicos, exalam sexualidade. Enfim, são demônios. E com isso, foram pintados de maneira feia e bizarra, para ligar à ideia de que demônios são tão ruins que são feinhos, tadicos! Agora pense se teria alguma graça fazer um filme em que os anjos possuem as pessoas? HAHAHAHA!!! Se mata!

Aliás, esse termo possuir é bastante sugestivo: “um espírito possuiu um corpo!” Uia! Entrou por onde? Ah! Isso foi uma perguntinha que fiz quando tinha meus sete aninhos. No dia seguinte à exibição do filme, depois de todo medo que senti, na hora do almoço eu perguntei para Papis: Pai, os demônios quando possuem as pessoas entram por qual buraco? O mal-estar à mesa foi geral, “quem manda criança assistir filmes de adultos?” – Mamis deve ter pensado. Meu pai, sempre espirituoso, respondeu: “Nunca fui possuído, filha, não posso te responder”. A risada foi geral, só hoje eu entendo a piada ambígua no contexto; o que os mais velhos entenderam de imediato. Mas no dia mesmo sem “entender” conscientemente ri também, sei lá, achei engraçado…
É isso que o filme é: divertido. Foi ótimo revê-lo!
Recomendo!!! Evil Dead está um pouco envelhecido, o sangue é notoriamente artificial, as roupas são super anos 80, os cabelos, cortes, maquiagens, enfim, mas vale muito a pena!
Por: Guerra de Pipoca.