Os Homens que não Amavam as Mulheres – The Girl with the Dragon Tattoo
Direção: David Fincher
Gênero: Suspense, Mistério
EUA – 2011
Suécia é fria, nórdica, distante, cheia de olhos azuis, de pessoas loiras e altas. Suécia também tem bons escritores. E, além disso; uma sociedade organizada, socializada e unida. Mas isso tudo não impede de gerar monstros. Tais como aquele, ou aqueles que são suspeitos de matar uma garota de 16 anos a 40 anos atrás.
Um excelente jornalista investigativo, vivido pelo Daniel Craig, acaba de levar uma ré imensa. Processado por um tubarão dos negócios e investimentos suecos, ele é obrigado a pagar uma fortuna. E sua revista vai junto, na credibilidade e insucesso. E então do nada, aparece um senhor, riquíssimo e pede-lhe para investigar um antigo desaparecimento.
Repare bem na sequência de abertura, lá estão todos os elementos da trama, ao som de Led Zeppelin. Aquela angústia, agressividade, refletem na personagem Lisbeth Salander, uma detetive high-tech.
Lisbeth é o filme e o filme é ela. Sofre desde sempre. Dificuldades de socialização, agredida por homens o tempo todo. Ela é anti-social, veste uma couraça corporal, e atua como jaguatirica acuada. Magra, cheia de piercings e tatoos, aquele visual que diz: não me toque!
Depois que ela se junta com o Craig, o filme esquenta. Até as cores que antes eram bem definidas para cada personagem, se misturam.
As investigações são muito interessantes, a habilidade dela em focar e nunca desistir, é sensacional. Sua “vendetta” com o abusador é de grande criatividade. E percebam que a trilha sonora acompanha cada passo, cada movimento dos takes. Dando um ritmo impensável ao que pode ter sido lido na obra Millenium (são três volumes) no qual o filme se baseia. Além da versão sueca anterior, que assisti também.
Agora, o andamento do filme é bom, ágil e caminha para um final excepcional, beneficiando a fotografia dos brancos, das locações em Upsalla e em Estocolmo. Cenários que não estamos acostumados a ver. Aquela ponte é linda. A casa no alto, idem. E o diálogo entre o psicopata e o repórter, desde o momento de largar a faca até a chegada da salvadora, é ótimo. Contudo o enredo poderia parar na explosão.
O que vem depois é chato e explicativo demais. Cansa. Algumas soluções poderiam ser inseridas com mais brevidade. Uma pena. E no finalzinho, jogar aquele casaco de couro no lixo, não combina nunca com quem sabe lidar com frustrações e parece que de uma hora pra outra virou apenas uma menininha decepcionada.
O que há de bom: trilha sonora (não só as músicas, mas, sobretudo os sons, mesmo) espetacular e fotografia muito caprichada
O que há de ruim: o pai do monstro foi pouco explorado, ele é o cerne de tudo
O que prestar atenção: a temperatura na Suécia é marca em graus Celsius e não Fahrenheit e não se compra cigarros daquele jeito em Estocolmo
A cena do filme: Lisbeth na Triumph, do jeito que ela é
Esse texto deveria ter sido escrito no período em que as Moiras escreveram Poltergeist e Evid Dead. Contudo, ocorrências em minha vida me fizeram tardar em acompanhá-las; infelizmente. Nem tudo está perdido, afinal, aqui estou para escrever sobre esse filme que tem por lema… adivinhem? “Nem tudo está perdido”. Hmmmmm! Por passos…
Em primeiríssimo lugar, é preciso que os leigos na obra saibam que aqui só se fala apenas de um único assunto: morte. São 103 minutos falando de mortes, cemitérios etc. Falar da morte é complicado porque, lembrando de Lacan, a morte é uma experiência que não há. Não há porque para se ter experiência é preciso ultrapassá-la a ponto de contá-la; isto não acontece quando se morre. Não no mundo “real”, mas em Pet Sematary, sim.
Novela de Stephen King, Cemitério Maldito conta a história de uma família feliz (Família Creed) que se muda para uma linda casa em beira de altoestrada. A estrada é perigosa, passa caminhão e mata animais desatentos constantemente. Jud, o solitário vizinho da família Creed), apresenta o escondido cemitério de animais, mas logo acima há um cemitério indígena; este, por sua vez, inicialmente não fora apresentado para os Creed…
Mary Lambert filma caminhões passando na estrada a cada cena reservada da família. Não é difícil supor que alguém será duramente atropelado. Primeiro, o gato de Ellie morreu e posteriormente, ah… puxa… quem iria imaginar?
Bom, aí que entra a má tradução do título. De cemitério de animais para cemitério maldito foi só o prazo de Charlie (pai Creed) enterrar o gato de Ellie (filha mais velha). Jud e Pascow alertaram: às vezes a morte é melhor.
Não acho que a morte seja melhor. Mas, uma vez que está morto, então o melhor é deixar morrer.
Ressalto, antes de finalizar minhas breves palavras, que Pet Sematary fecha um ciclo de filmes de terror que se consagraram entre os clássicos (pré-anos 90). Infelizmente, sua continuação é dispensável. Nem de longe mantém o clima pesaroso que a morte provoca. Embora cheio de clichês, é preciso parabenizar Lambert, pois manter o cheiro de morte durante 103 minutos não é fácil. O gato que o diga, já que Ellie acha que agora ele fede e não sabe o porque…
Para além, é um filme com algumas cenas fortes, que comovem. Sobretudo para aqueles que amam os animais e odeiam quando crianças são maltratadas. Será que é possível retornar ao ponto que se ultrapassou? Eu não sei… mas, peço por gentileza, quando morrer não me enterrem no cemitério indígena. Ficarei feliz de ser enterrada junto com os animais… rss
O que mais impressiona é o envelhecimento de Al Pacino. O primeiro filme é de 1972 e a sequência quase que imediata; somente dois anos de diferença. Contudo desta feita, estamos em 1990, fazendo as contas, passaram-se quase 20 anos da estréia. O impacto é o mesmo e o público, não. Nesta época as pessoas tinham dificuldades em ver um filme datado e a maioria somente o fazia, via TV. E por incrível que pareça, muitos não viram os dois filmes que o precederam. Estamos diante de um claro enigma. O que virá?
A postura de Michael mudou, tenta ser conciliador -coisa que nunca foi- diplomata e até justo. Al Pacino anda encarquilhado, como se o peso dos assassinatos o perturbasse, apesar de sabermos que somente uma morte ele carrega consigo, a de Fredo; seu irmão. Cabelos grisalhos, filhos crescidos, inimigos espalhados por todo o mundo, sem uma companheira. Só o dinheiro e a fama de gangster permanecem ao seu lado.
Ele que corrompe a tudo e a todos, agora tenta lavar o dinheiro e ter somente relações econômicas lícitas, evitando mortes desnecessárias. Isso causa um constrangimento e inveja colossais nos outros Dons. Que são inflamados por Joey Zaza, um selvagem mafioso.
As duas cenas iniciais; onde recebe uma comenda vindo diretamente do Vaticano – na bela igreja de São Patrício – e a festinha, na qual nos é apresentado o filho bastardo de Sonny, o Vincent “Vinnie” Mancini, resumem o filme. Família versus o poder.
Este – Vincent – flerta abertamente com a sua prima, Mary Corleone. E esta demora a perceber que o seu papel como líder da Fundação Corleone – braço filantrópico do monstro mafioso – é apenas uma maneira de mudar a visão que o público tem de seu pai. De chefão para benfeitor. E o outro filho é músico, e distante do pai.
O julgamento de Michael – ele é acusado de ser um criminoso, assassino, contrabandista, narcotraficante – possui uma série de diálogos poderosos, e uma impactante cena do velho soldado que vê chegar o seu irmão, direto da Sicília.
Mas Michael ainda não sabe quem o está traindo, qual é o sujeito que está por detrás de todas as animosidades que surgem.
Vincent é chamado para trabalhar com Michael e sua disputa contra o também ascendente Joey Zaza mantém a parte de violência da trilogia. Não obstante as cenas da primeira emboscada a Vincent e depois a vendetta dele no desfile, em plena festividade em Little Italy; o que seduz neste filme é o nível de envolvimento da máfia com a sociedade produtiva.
Michael tem inúmeros políticos em suas mãos, magistrados e agora clero. Ou seja, ele domina a tríade de uma sociedade: o padre, o prefeito e o juiz. A ordem de São Sebastião é uma condecoração ambicionada por muita gente. E os negócios com o Banco do Vaticano (lembram-se do escândalo do Banco Ambrosiano?) ligitima qualquer um… O que falta?
Resta descobrir qual é o verdadeiro “capo di capi”, que bola o ataque de helicóptero as famílias reunidas e que está envolvido até no premeditado assassinato do Papa Paulo VI e seu provável sucesso, Papa João Paulo I. Vejam em que nível Michael chegou. Infiltra-se numa das mais seculares estruturas do mundo ocidental, a igreja!
Chego a arrepiar ao ver a primeira fraquejada de Michael, quando ele confessa com o futuro papa. Sei que tudo acontecerá de forma rápida e simultânea na apresentação de Anthony-Vito Corleone, em Palermo. Sua escolha de tema não poderia ser melhor: Pietro Mascagni; Cavelleria Rusticana.
Um velho matador é contratado em Montelebre, o Mosca. Seu estilo é seco e direto, nada o impede. Cada morte que sucede, as encomendadas por Michael e o fatal disparo do assassino profissional, você fica abismado ao ver a fragilidade das pessoas e como elas estão expostas. A mais criativa é a de Don Luchesi, a proximidade e a arma improvisada. E logicamente que alguém do clã Corleone cai ao chão depois do tirambaço nas escadarias.
Termina uma saga, começa uma lenda. Três filmes do mesmo nível, com histórias longas que podem ser assistidas separadamente ou juntas. Sugiram que o façam das duas maneiras. Para mim, a trilogia mais gradiloquente e sólida da história do cinema.
O que há de bom: o elenco que se mantém e a atualidade do tema, bandidos e gente dita “digna” envolvidos quase que simbioticamente
O que há de ruim: Sofia Coppola não tem charme, nem beleza, nem carisma, nem nada, para viver a filha do Poderoso Chefão
O que prestar atenção: o diretor F. Ford Coppola é pai de Sofia e tio do Nicolas Cage (este até foi sondado para fazer o papel de Vicent, que Andy Garcia está magnífico) e não precisava colocar a Sofia nos três filmes, no primeiro ela é a sobrinha de Michael no batismo, e no segundo ela faz uma pequena imigrante que está ao lado de Vito, ao chegar à ilha Ellis, o nepotismo de atores é grande pois a Connie é irmã do diretor e tem outros mais…
A cena do filme: os assassinatos múltiplos que culminam no grito de perda irreparável de Michael
Fui achando que veria um pouco mais de Marlon Brando. Fui pensando que o arco de histórias já estava fechado. Fui com a ilusão de que esta continuação não estaria à altura da estréia bombástica do original. E dei-me com os burros n’água.
Marlon Brando está morto, e Michael tem uma ascensão meteórica no poder (tanto econômico quanto no político). Agora a narrativa faz um tremendo “Y”, bifurcando entre as origens de Vito Corleone e a atual gama de ações e jogadas de Michael. E o ambiente soturno, a música quase fúnebre, as mortes sangrentas e a total falta de esperança em um final feliz, tornam esta continuação tão boa (ou melhor ?! ) que a anterior.
Vito Corleone era filho de Antonio e irmão de Paolo Andolini. Morava em Corleone, Sicília. Numa dessas demonstrações de poder, ele perde pai, irmão e mãe, em um tempo só. O culpado? O Don Ciccio, chefão local. Foge no barco, com catapora, magricela e quase mudo. Quando chega, muda seu nome utilizando um velho costume italiano, dá como seu sobrenome a cidade em que nasceu. E quem o representa, o ator? Robert De Niro.
De Niro é jovem e forte. Michael – Pacino – está ficando velho e mau. Apesar de serem pai e filho no filme, jamais contracenam, óbvio. Mas o estilo é tão semelhante que ouso afirmar que foram parentes em alguma antiga cidade siciliana… Vito e sua ascendência são mostradas de forma poética, romanceada, como se fossem “os velhos tempos”. Seus comparsas são delineados claramente, há tempo para montar personagens. A cena da emboscada ao chefão local, já em Nova Iorque, o Don Fanucci é poderosa e bem engendrada.
Enquanto isso – paralelamente – vemos os negócios de Michael tomarem uma forma intrincada e longa. Uma teia de interesses que amarram Las Vegas até Cuba. E um formidável inimigo, o já idoso Hyman Roth, vivido por Lee Strasbeg. Reparem que a idade não afeta o discernimento de ninguém e que a fome de poder não é saciada com os anos. Talvez seja até o contrário.
O take da fuga de Cuba é muito bom, entremeado com os assassinatos pontuais de sempre…
Outro fato que aprecio notadamente é o destaque para personagens secundários, tais como o Clemenza, o Frankie Pentangeli – a sequência em que ele muda de idéia, em pleno tribunal – é antológica… Ninguém está ali solto, sem significância para toda a trama. Fantástico.
Michael é inteligente, soberbo, mas não acerta sempre e deixa de lado uma parte de sua vida que é fundamental nos grandes “Dons”, a família. Aqui a dissolução do seu casamento é impregnada por rancores e também decepções. Notem que nenhum dos filhos de Don Vito conseguiu ser feliz no matrimônio.
E pela primeira vez nessa épica sequência, uma mulher começa a ter valor e dar palpites; a irmã Connie.
O acerto de contas finaliza ambas as histórias – de pai e filho – Vito retorna a Sicília para encontrar o já decrépito Don Ciccio e dá-lhe o que merece. Vários inimigos são eliminados ao mesmo tempo em lugares diversos. E à beira do Lago Tahoe, numa tarde idílica e tranqüila, o próprio irmão sucumbe as regras da máfia. Um traidor não pode permanecer vivo dentro da família.
E desta feita, sei que haverá uma terceira edição e me pergunto. O que agora Michael irá enfrentar? Já que seus negócios estão todos “legais”. Onde a sua solidão o levará? E a total desconfiança de todos, será isso uma vida? Ou apenas o interpretar de um papel que nunca foi seu?
O que há de bom: narrativa dupla e muito simples de acompanhar, e dá-nos o prazer de saborear dois estupendos atores em sua juventude; De Niro e Al Pacino
O que há de ruim: são três horas, vinte minutos e quarenta e cinco segundos de filme, existem maneiras de abreviar certas cenas e sequências, um pouco longo
O que prestar atenção: enquanto Don Vito sempre foi muito admirado e querido por todos, a medida que Michael enriquece e seu poder torna-se quase que absoluto; ele é odiado e temido na mesma proporção que seu pai
A cena do filme: o beijo na boca do irmão, sinal selado de sua sina
Felizmente li o livro antes de assistir ao filme, e posso afirmar de que é uma das únicas obras em que não consigo dizer qual é melhor. Pragmático, masculino, forte, selvagem, seco, mil adjetivos. Porém pode-se resumir em um só nome: Marlon Brando.
Um dos homens mais bonitos de todos os tempos, aliado a um talento visceral. Ele, desde a primeira cena- em que está de costas- e ouvimos sua voz sussurrada discutindo valores e comportamentos – e a câmera recua como que temendo-o – da sua incontestável sabedoria e liderança, até quando brinca serelepe com o neto; é formidável.
Primeira parte é a família, centro das atenções e razão de viver. Suas frases emblemáticas já ficaram na boca do povo. Ali é desenhado o perfil de todos que o cercam. O filho frio e calculista (além de adotado), o impetuoso, o frouxo e o mais novo, e esperança de que seja igual ao pai, ou melhor. Este é vivido por outra lenda do cinema, Al Pacino. Seus capangas mais próximos, e também os rivais, todos delineados.
Segunda parte é a maneira cuidadosa como lida com os negócios e suas propostas irrecusáveis. A cena do cavalo arrancou um grito do meu pai, que na época já tinha sessenta anos e pensava que já havia visto de tudo. Ali ele molda o espírito de corpo, a união dos mafiosos e suas regras tácitas e ocultas.
Terceira parte é o mundo se transformando, novas -e mais sórdidas – maneiras de se ganhar dinheiro e que na lógica de Corleone não é ética. Paralelamente acontecem os dramas familiares internos, as traições, os interesses escusos e Michael, o filho alheio é jogado dentro deste turbilhão após o bem engendrado assassinato contra um membro da família.
Quarta parte as reações e mortes esperadas. A facilidade com que Michael mata, e ama, e casa, e retorna. Um homem direto, sem conversa fiada, puro instinto para os amigos e mais puro raciocínio contra os inimigos. Quaisquer semelhanças com o pai estão arquivadas.
O filme depura diálogos soberbos, como o da reunião com as cinco famílias mafiosas e cenas impactantes como, por exemplo, a emboscada contra Santino. Ou a morte do policial corrupto e o outro mafioso. E até mesmo a agressão contra a belíssima Apolônia. Nada esperado, tudo exaltado.
Não se consegue prever o que irá acontecer, apesar das reviravoltas do roteiro parecerem sempre naturais. O comportamento irascível de Michael, aliado a indestrutibilidade do pai, forma uma dupla invencível. Esse é o segredo do filme, a relação pai-e-filho sem conflitos, com mútua admiração e cumplicidade. Isso que todo homem de verdade deseja, isso que o Poderoso Chefão consegue.
O que há de bom: atores magníficos em papéis de destaque, segue a listinha; Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, Robert Duvall, Diane Keaton e John Cazale…
O que há de ruim: eu e minha antiga vontade de ver tudo, não consegui esperar o Poderoso Chefão 2 e antes mesmo de sair, critiquei a possibilidade de conseguirem fazer um a continuação à altura
O que prestar atenção: toda vez que aparece uma laranja, alguém morre
A cena do filme: Marlon Brando passando o bastão para Al Pacino, memorável com a trilha sonora que é um carimbo de qualidade, ao fundo
Assisti a uma palestra sobre violência e passaram para o público alguns curtas, dentre eles, Bala Perdida. Por um acaso, achei o vídeo no youtube.
A qualidade do vídeo não está boa, mas é possível assistir por esse meio.
A ideia da “bala perdida” é mais recorrente no eixo Rio – São Paulo. Felizmente, as demais capitais não sofrem com esse tipo de situação no cotidiano, embora ocorra um caso ou outro (ao menos que seja divulgado pela mídia) em vários outros lugares.
O curta romantizou a cena e todo o cenário; achei esse aspecto interessante, pois dá um crédito artístico ao que se vê. Sem isso é como se tivéssemos vendo um noticiário em horários de jornais nacionais que falam sobre a violência que agride os olhos, mas se tornou comum…
Bala Perdida diz com algumas metáforas que o que se perdeu foi uma bala, que não atingiu o alvo certo. Se o valor fosse a vida, e não a bala, o termo usado talvez fosse outro, quem sabe “vida perdida”?
O período chamado de Baixa Idade Média (séculos XII – XV) é popularmente conhecido por Cruzadas. Época importante para sustentar o que vivemos hoje, uma vez que foi nesse tempo que o capitalismo começou a nascer, pois já havia sistemas de trocas e espírito de lucro, ainda que a relação trabalhista passava longe de ser assalariada. Outro aspecto que sustenta tempos atuais é a interferência da Igreja em assuntos políticos. Porém, na Baixa Idade Média era “tudo junto e misturado”. A Nobreza também fazia parte do Clero e, consequentemente, o Clero era nobre no que tange à influência direta das decisões políticas.
O homem medieval era, antes de tudo, um servo de Deus. Com a desculpa sangrenta de combater o “infiel”, a Igreja avançou territórios e conquistou muitas terras sob o crivo de matar bruxas compactuadas com o diabo. Acontece que neste tempo de sangue e com objetivos claríssimos de conquistar terras, muitos inocentes foram mortos: crianças, mulheres idosas, homens idosos, enfim, pessoas do bem. Toda essa riqueza do Clero não vinha de graça e questionar sobre tanta violência era equivalente a estar compactuado/a com o diabo, também. Um tempo metaforicamente de “vinho tinto de sangue” – parafraseando Chico Buarque ao cantar Cálice (o que eu gosto de chamar de Cale-se) nos tempos áureos de Ditadura.
Neste filme alguém (Nicolas Cage) decidiu não se calar. Percebeu a injustiça óbvia das inúmeras mortes e questionou uma autoridade religiosa. A consequência é bastante óbvia, também: tornou-se um desertor procurado em nome de Deus! Engraçado como Deus tem tantos inimigos, rsrsrs. Será que ele tem amigos fiéis ou só aqueles que fazem de tudo para fugir da fogueira? Acho que daí que vem o sábio ditado popular para traições: Fulano jogou beltrano na fogueira…
Enfim, o início do filme trata-se desse período sangrento. Até começa bem, com ótima fotografia (gostei bastante desse ponto), lutas rápidas mas em clima épico (ponto para a cena dos lobos, adorei); depois que Cage é tido como traidor a história balança um pouco. Não se sustenta tão bem. Acontece que uma bruxa foi acusada de trazer a Peste Negra e a saga do filme é de levá-la para os monges, que tinham a missão de curar toda a peste. Agora, como que os monges curam uma peste que se iniciou (metaforicamente também) dentro da própria instituição é uma pergunta que não podia ser feita nessa época do século XIV. Tal como se suspeita, Nicolas Cage seguiu a saga sem fazer muitas perguntas, aí que ele se deparou com muitos enganos…
O longa é bom até o início do fim. Quando começa o fim… humm! Sabe aquela promessa de festa que terminaria magistralmente e de repente a luz acaba e o som é interrompido à força? É isso que acontece no filme. Estava indo bem! De repente… não mais do que de repente, o filme vira uma dresgrama total! Horrível o fim. Ave Czar! Falta de sentido, de senso, de nexo, de tudo.
Recomendo pela boa mensagem de questionar os dogmas cristãos e de onde veio tanta riqueza, território, poder. Mas, de resto, não me crucifiquem pela indicação, pois o filme termina mal. E é um filme com ótimo elenco e fotografia… Realmente, Dominic Sena não sabe finalizar suas obras, pois ele comete o mesmo vacilo em Kalifornia (1993). Direção firme e no fim desandou pro besteirol…
Talvez por isso seja tão interessante e divertido. É mal feito, cheio de clichês, fórmulas batidas. Dizer que o cinema atual é clichê é tão clichê que parece falta do que falar, mas este filme é a soma de tudo e o pior, batido no liquidificador – não tem como não dizer isto.
Talvez seja o elenco a maior beleza da história, pois imaginar Malkovich fazendo comédia é fácil, mas junto com Morgan Freeman? No mínimo muito bizarro. Quando os atores são bons, o enredo cheio de falhas adquire um charme especial. E o charme do enredo está na cara: são velhos, aposentados, perigosos e fazem bizarrices em cima de bizarrices.
A ideia do filme é muito bacana, que é a de afirmar com todas as letras que os caras não estão mortos! Tudo bem que Bruce Willis vai morrer e ser difícil de matar, isso está em sua genética cinematográfica, mas o pano de fundo deste filme é para confirmar sua eternidade: “Ok, pessoal, envelheci como qualquer um envelhece quando está vivo, mas ainda estou vivo… e continuo FODA!” rsrsrs
Além desses devaneios, o filme se refere à HQ de Warren Ellis. Não me aterei a isto porque honestamente nunca nem bati os olhos nesta história em quadrinhos. Se as críticas à Guerra Fria são meras coincidências não poderei confirmar, se as críticas à violência gratuita fazem parte do original dos quadrinhos… também não sei dizer…
Certo é que o filme reúne 4 aposentados agentes da CIA que pretendem denunciar corrupções de dentro das instituições governamentais e salvar a “garota de Bruce”, a nerd telefonista que atraiu o perigoso Willis… seus encantos são pitorescos, mas é fato que eles são responsáveis até mesmo por Bruce ler histórias de banca de revistas, aquelas tipo “Sabrina” cheio de amor bandido, machezas diversas, armas de fogo, cavalos revoltos etc. Contos de fadas do “faroeste”. Felizmente, não está em jogo o “amor e uma cabana” do casal-telefônico.
Destaque para as mudanças de cidades que são feitas como cartão postal de turismo e para a única mulher aposentada e perigosa do grupo. Simplesmente phodástica. Hellen Mirren com uma arma na mão deixa qualquer “duro de matar” no chinelo!!
Levando-se em conta que o cinema americano transforma qualquer atorzinho meia-boca em herói matador, ver os heróis “de verdade” dos anos 80 assumidamente velhos e sem disfarçar esta realidade é muito bom! Esta é a graça do filme.
Não dá para vê-lo com olhos repletos de crítica, ao menos se a intenção é se divertir com eles…
"This is the end... my only friend, the end..." (The Doors)
Jogos Mortais 7 – Final – Saw 3D
Direção: Kevin Greutert
Gênero: Violência, Crime, Suspense, Terror
EUA – 2010.
**Vai ter “spoiler” porque é o último da saga, felizmente, e já saiu dos cinemas há um tempo. Suponho que não esteja estragando o filme para ninguém. Porém, quem não o viu e não deseja saber de algumas passagens: não leia**
Família e amigos reunidos na casa de Mamis quando anunciei que o filme que veríamos seria “Jogos Mortais, o Final”, metade da turma levantou-se para jogar War e baralho, preferiram. Não posso condená-los, tem que ter sangue no estômago para tolerar uma sessão de Jogos Mortais, ainda mais parte 7. Como já disse em outras ocasiões: preferiria que tivesse terminado a saga bem antes. O primeiro foi sensacional, inteligente e instigante. Posteriormente, o nível caiu gradativamente. Este é mais uma prova disso.
Já na cena em que os rapazes defendiam suas vidas publicamente, logo no início do filme, mais evasão. Enfim, ficamos eu e minha irmã na sala de televisão. Fazer o que? rsrsrs
Bom, já que me referi a esta cena… quero falar dela. Não gostei do sentido dado e que se repetiu ao longo do filme: Os rapazes foram enganados pela moça, não sabiam que ela estava com os dois. É justo que sejam colocados para jogar? Penso que não.
Esta não é a lógica do filme e a minha percepção quanto a esta cena – que se estendeu no decorrer das demais – é que nada foi assinado por Jigsaw. O amadorismo ficou claro na primeira passagem do filme quando relembraram o primeiro da saga mostrando o médico que cortou seu próprio pé para sobreviver. Qualquer pessoa experiente com o suspense sacou de cara o que viria no final. Eu e minha irmã nos olhamos com “xiiiiiiiiiiiiiiiii” na ponta da língua.
Depois o jogo com o mentiroso que ganhou dinheiro às custas de se fingir sobrevivente de Jigsaw… Gente! Quantos erros de continuidade!!! Fiquei impressionada com a péssima qualidade do enredo e de tudo.
Primeiramente, o mentiroso não podia ter autografado o seu livro para Jigsaw, pois este já estava em fase terminal quando começou o primeiro jogo com o médico e com o fotógrafo.
Depois, quantas vezes ele tinha acabado de se sujar todo de sangue naquele labirinto e apareceu todo limpinho no segundo seguinte? Os momentos mais gritantes foram (1) quando ele tentou salvar a sua advogada e ao levantar aquele peso se machucava. Só que depois não havia sangue nenhum em sua roupa (2) o momento que ele arranca dois de seus dentes e quando entra na sala em que estava Joyce sua boca estava limpérrima (3) ESSA FOI A PIOR: quando já estava com os ganchos de suspensão no tórax e ao cair foi filmado com o peito super limpo, como se não tivesse jorrado sangue dois segundos antes.
Qualidade zero!
Sem contar que ele mentiu para a esposa, logo,ela não deveria estar ali e muito menos sob pena de ser morta. Ele foi o sacana e não ela.
O filme foi todo pautado nesta lógica do bonzinho que é enganado pelo mauzinho e sofre as penalidades em seu lugar. Putz! Sem comentários.
Aliás, sem mais. Pois, assim como a menina no início enganou os dois rapazes e Bobby Dagen enganou um punhado de pessoas, Jogos Mortais 7 seguiu o mesmo princípio: foi uma enganação e enrolação premeditada. Suponho que em 3D a enganação foi vernizada. Não recomendo. Que bom que acabou, deveria ter acabado com o brilho de Jigsaw, mas agora nem isso sobrou.
Decidir por fazer um filme sobre assalto a bancos é simples, mas arriscado. Não por ser difícil a sua composição, inclusive o cenário é bastante simples, mas porque o mercado exauriu o assunto. A trama tem que ter competência para não se tornar óbvia demais e, convenhamos, Ben Affleck é um diretor muito mediano para tornar o assunto diferente. Como ator tem mais experiência, sem dúvidas, e também não é lá essas coisas. É um rosto bonitinho que sabe fazer cara de galã.
Em Atração Perigosa, foi o diretor e atuou no papel principal. Ou seja, fez um filme pro seu narcisismo, apenas. Realizou a fantasia de quando era criança, a de ser o bandido gente boa que é procurado pela Polícia, mas dá um olé nos maiores e melhores detetives de sua cidade.
Doug (Ben Affleck) lidera um grupo de ladrões e após um assalto a banco se aproxima de Claire, a gerente do lugar, para saber se ela sabe identificar o grupo. Claro que… se apaixona pela moça. Dilema típico: parar ou não parar de roubar?
Aquiles passou por dilema parecido e soa realmente bastante trágico: abandonar Troia com Briseida ou seguir seu instinto? Penso que fez escola, pois não há UM filme de “guerreiro” em que alguma mulher não seja a “Eva” do enredo. Cometer ou não cometer o pecado? Acho que o amor é sempre válido e o defendo, certamente. Mas há de convir que tais histórias arrumadinhas só acontecem no cinema. Os bandidos não são tão legais assim! Via de regra, também só no cinema que o público considera a bandidagem boa gente e torce para os mesmos se safarem da Polícia. Eu duvido que tenha alguém que leia este blog e que se divirta com os assassinatos bizarros mostrados em noticiários como do Datena, por exemplo. No noticiário do Datena, as pessoas torcem pela Polícia, pelas famílias etc. No cinema, não.
Eu dou minha cara à tapa: torci pela Mallory e pelo Mickey em Assassinos por Natureza, porque são os porraloucas mais divertidos enquanto dupla de matadores que o mundo cinematográfico já mostrou até o dia de hoje. Sem dizer que Hannibal Lecter tem meu total apreço, obviamente rsrsrs.
Porém, Doug não me conquistou. Achei o enredo fraco, leigo e bastante bobinho. Tem filmes melhores sobre o assunto e com atestado de garantia legítimo.
Gênero: Ação, Aventura, História em Quadrinhos, Comédia
EUA – Reino Unido – 2010
Does that make me crazy?
Does that make me crazy?
Does that make me crazy?
Possibly.
(Gnarls Barkley – Crazy)
A ideia deste texto é a de passar por alguns pontos do filme, sem adentrar demais nos detalhes, para não estragar pros que não assistiram.
De acordo com a Wikipedia (e vamos ter que confiar que está correta, pois não lemos a HQ) Kick-Ass é uma história em quadrinhos da Marvel Comics lançada em 2008, escrita por Mark Millar e ilustrada por John Romita Jr.
O filme diz respeito a essa HQ e conta a história nerd de Dave Lisewski, viciado em histórias em quadrinhos, que decide se tornar um herói. Notoriamente, no longa, é influenciado por Batman, pois este é um herói, mas não tem poder além-do-humano, tal como Dave. E então, ele compra uma rouba verde, se nomeia por Kick-Ass, faz propaganda de si mesmo em sites de relacionamento e vai às ruas ajudar ao próximo. É hilária a primeira cena em que ele tenta impedir um roubo de carros. O descrédito dos ladrões mostra como que o mundo fora dos quadrinhos receberia heróis de roupas coladas que voam e fazem todo tipo de estripulia possível.
“(…)My heroes had the heart to lose their lives out on a limb
And all I remember is thinking “I want to be like them”
Ever since I was little, ever since I was little it looked like fun
And it’s no coincidence I’ve come
And I can die when I’m done(…)”
(Gnarls Barkley – Crazy)
Vida de herói não tem moleza e Dave logo de cara percebe em que se enfiou. Para sustentar a fama do novo herói e permanecer como tal, apanha muito. A graça do filme é isso! Pois, o longa mostra que não é tão simples assim ser um super-herói, ainda mais numa cidade que é chefiada por Frank D’Amico, grande mafioso da região. Opa, Kick-Ass não contava com parcerias, para ele o universo de HQs se limita aos papéis… mas… Big Daddy e Hit-Girl estão em ação!
É engraçadíssimo o treinamento dos dois. Palmas para Chloe Moretz (Hit Girl), interpretou maravilhosamente bem e roubou todas as cenas em que esteve presente. Nicolas Cage (Big Daddy) também não ficou atrás e até se redimiu dos péssimos papéis que vinha interpretando nos últimos tempos.
Pra completar o quadro dos heróis do pedaço, o filho de Frank D’Amico – o mafioso – decide tornar-se herói para se aproximar de Kick-Ass e capturá-lo. Assim, nasce Red Mist!
I remember when, I remember, I remember when I lost my mind
There was something so pleasant about that phase
Even your emotions had an echo
In so much space.
(Gnarls Barkley – Crazy)
Ah! A propósito, essa música está no filme (a trilha sonora também está de parabéns)… e nós Moiras “surtaaaaamos” quando ela apareceu na narrativa!
A Circe deu “pause” no filme para cantá-la em pé no sofá e o microfone era sua taça de vinho…
Maybe I’m crazy
Maybe you’re crazy
Maybe we’re crazy
Probably…
(Gnarls Barkley – Crazy )
A maioria das pessoas supõe facilidade em fazer comédia. Não é tão simples assim. Retirar gargalhadas do outro é mais difícil do que arrancar lágrimas. Qualquer drama convence os mais sensíveis, basta ter meia-morte com muita tristeza envolvida que a maioria se comove. Já fazer comédia, que preste, é bem mais complicado. Nesta safra de péssimos filmes, Kick-Ass se sobressaiu por oferecer ao espectador uma comédia mais equilibrada, com humor ácido e interessante. Nada de pastelarias e imbecilidades que estamos saturados de ver.
Nós recomendamos! Estamos pensando em ler as HQs também.
Antes de mais nada, gosto da direção de Sam Liu, mas o considero pouco criativo nas narrativas. Hulk, pra mim, é sinônimo de força desmedida e incontrolável. Bruce pensa! Hulk não! Este filme peca em diversos pontos, e o pior deles é colocar Hulk sempre transformado em Hulk e racional. Que isso!!! Esteve com raiva o tempo todo? Surreal!
Bom, perigoso demais para continuar vivendo no Planeta Terra, Hulk foi despachado pro espaço e antes que chegasse no destino programado, arrebentou toda a nave e foi parar no Planeta Sakaar. No momento em que chegou em Sakaar, estava sendo realizada uma reza para o “salvador” do Planeta não tardar em voltar para lá… eu não gostei dessa relação Hulk x Salvador x Misticismo. Achei tola a construção e desvirtuou a história pro lado religioso que não condiz com os quadrinhos do Verdão.
Além disso, a história – mediada pela religiosidade – foi narrada na perspectiva imperial: imperador – escravos. Não há criatividade no filme, uma vez que a narrativa de gladiadores se assemelha em absoluto ao filme Gladiador. A ideia de um sofrido e solitário gladiador que salvará Roma de seu malicioso Czar é exatamente a mesma em Sakaar, e o salvador solitário é Hulk. Não nego: torci o nariz para isso.
Gente! Hulk é um ser regido por instinto que só pensa quando está no formato Bruce!!! De repente, este Hulk do filme arquiteta o plano para destronar o Imperador?
WTF!!!!
Seus amigos de arena
A construção de Sakaar é baseada em Roma, até mesmo a arena dos gladiadores chama-se Coliseu. Hulk por se negar a lutar, exatamente como Maximus, torna-se o “misericordioso” para o povo. As analogias não param… é preciso conferir para ter noção da falta de criatividade de Sam Liu.
Ao mesmo tempo, a história prende o espectador. Ao menos me prendeu. A minha ideia era de ver novamente Ondas do Destino (de Lars von Trier), mas acabei optando por ver Hulk para me distrair mais e o filme cumpriu com essa demanda. Sobretudo, pelo personagem Miek, esse inseto pirralhinho entre os Gladiadores. rsrsrs Muito fofinho!
Miek é o “Covarde, o cão coragem” do filme. O medo dele chega a ser engraçado, é o ponto cômico da obra. E deu certo! O seu jeitinho medroso acessou o lado “humano” de Hulk. Foi bonito conferir esse lado do filme.
Bom, de escravo para gladiador, de gladiador para salvador, de salvador para imperador, só foi uma questão de Sam Liu acordar de bem com a vida para produzir esta animação… ou não, né? Talvez tenha sido um ímpeto masoquista que tenha feito a cabeça dele, porque o que deve ter ouvido de xingamento dos fãs… está escrito nos gibis??????????
Como fã do Hulk, de histórias em quadrinhos, indico o filme, mas enquanto cinéfila… hummmm! Melhor assistirem Ondas do Destino, é mais interessante.
Eu tinha 16 anos quando vi este filme. Não sabia identificar onde se passava, pois estradas longas, carros de direção inglesa, desertificação, motos Kawasaki e um sotaque prá lá de esquisito da maioria dos seus protagonistas… simplesmente não combinavam. E para finalizar um sujeito com dois faróis azuis no lugar dos olhos, casado com uma mulher inexpressiva e fazendo sinalzinhos de surdo-mudo.
Mel Gibson. Jovem, bonito, forte, saudável. Uma vida pela frente e estradas a percorrer. Policial de interceptação. Dirige um Ford Falcon 74 XB. Amarelo, brega, veloz e de barulho ensurdecedor com seus 351 cavalos num V8 Cleveland. Logo de primeira, após seus colegas falharem em abordar um maluco das estradas (um deles dirige o mesmo carro e o outro um modelo mais lento o XA, que era o taxi predileto dos motoristas de Melbourne) ele coloca-se frente-a-frente com o marginal e este amarela. Morte imediata destroçando o Holden HQ Monaro V8, modelo 74. Max é “fool”.
Desfile de motos. Contei umas 11 do mesmo modelo com modificações apenas na aparência. São Kawasaki’s KZ-1000 modelo 77. Um sonho inimaginável, para mim e milhares de adolescentes que vibraram com a derrapada controlada de “Goose”, o melhor amigo de Max. O roteiro é bem linear e simples. Os malvados ficam revoltados com a morte do seu colega e querem vingança. Mas Max move-se mais mortalmente.
Numa sequência de fúria e destruição contra um casalzinho num Impala Chevy 59, a coisa fica feia. Pelado no trigal e amarrada no carro. Chocante. Depois, sabotam a moto de Goose e o queimam, após o velho truque do tijolo no vidro no carro reboque. Max fica “crazy”.
Max está de férias, na praia. Filhinho pequeno, esposinha carinhosa e frágil. Sorvete, mato, carro “station wagon” e absoluta tranqüilidade. Novamente cena impactante. Bolinha no chão, consorte idem. Max fica “Mad”.
Daí em diante a caçada torna-se impiedosa e os grandes planos dos arredores de Lara, ao norte de Geelong, com uma câmera com as originais lentes anamórficas são ideais para o melhor de tudo: seu carro preto com sua alma, o Interceptor GT351 modificado, modelo 73.
Carnificina geral, sangue espirrando, membros decepados. E a platéia insandecida. Para nós, Mad será sempre “insane”.
O que há de bom: os V8 potentes, as motos, o cenário, as motos, e a turminha maluquete do líder “Toecutter”
O que há de ruim: a impossibilidade – na época – de pelo menos vermos carros e motos daquele estilo num Brasil atrasado e de estradas esburacadas
O que prestar atenção: a Austrália pela primeira vez é mundialmente vista e Mel Gibson apresentado ao grande público
A cena do filme: a mulher correndo com o filho no colo, até ali eu achava que tudo iria acabar bem
Alguém, quando criança, compreendia por que a noviça rebelde era rebelde se o máximo que fazia era cantar nos Alpes austríacos? É preciso compreender o contexto histórico, não? O que uma mera arma de fogo pode causar nas vinte e quatro horas na vida de três jovens das banlieus francesas? O beur (franco-árabe) Saïd Taghmaoui, o judeu Vicent Cassel e o negro Hubert Koundé não sabem que, numa queda, o importante é o impacto ao aterrisar. Quem são eles senão indesejáveis para o mundo? Não diria que são sem posição social, mas precisamente, como diria Foucault, inconscientemente citado por Saïd, jovens “trancados do lado de fora”. Essa é a lógica de um gueto, de uma área menosprezada, uma lepra da estética. A síntese do mal, a razão por todas as malezas sociais. Nos embalos de Tropa de Elite 2, enfim escrevo sobre La Haine, filme preto e branco que está longe de ser monótono! Ruben Katzman demonstra o processo de sedução à homogenia da cultura dominante para, esta, depois, abandonar os próprios seduzidos. Posso chegar –e é meu intuito, num buraco mais embaixo. Vamos por partes!
O conhecimento é produto de uma dupla relação entre o que é produzido socialmente e o que é socialmente reproduzido. Logo, o que sabemos sobre as zonas degradadas—favelas, guetos, banlieus—e seus moradores perpassam um discurso tributário das representações do senso comum muito antes da análise da produção das ciências sociais a partir dos anos cinquenta. Esse problema se choca com sua antítese na militância da própria ciência social. Não há anjos e demônios; um discurso não deve ser suplementado por outro. O Capitão Nascimento pode xingar o quanto quiser os cientistas sociais. Sou um deles, mas diferente daqueles que ele denuncia. Tento distinguir o x qua x e o y qua y.
O outsider tem sua clássica representação como inimigo do Estado e da sociedade a ser combatido; são sujos e vivem em condições insalubres que denotam suas virtudes morais intrínsecas. Muito bem, quando a culpa recai sobre seus residentes torna-se fácil obscurecer a responsabilidade estatal. Uma comunidade carente é traduzida como antro da promiscuidade moral. Louis Chevalier chama tais segmentos de “classes perigosas” e disto advém o seguinte questionamento ético: deve-se permitir a sobrevivência de pessoas não enquadradas no mercado de trabalho? Seria isto estimular o ócio? O trabalho aqui não se configura em qualquer meio de subsistência, mas tão somente naquele oficializado pelo Estado. E justamente só come quem trabalha de acordo com a oferta do mercado. Logo, há uma geração de pobreza maior, uma vez que as ocupações destas populações são destituídas de seus meios tradicionais de sobrevivência. É um apelo sedutor para a cultura “dominante”. A falta de opção é vista como escolha, como preferência pelo vício por parte de quem resiste ao modelo idealizado. Aliás, lembrando que para Marx, Ideologia é falsa consciência enquanto Cultura é uma alienação mistificada. Quem preferir pode definir Cultura como espaço da discussão pela hegemonia. Acho que fica melhor neste contexto embora prefira a denominá-la como “negação da Natureza”.
O problema é justamente a falta de capacidade de absorção de todos àqueles que aderem as novas normas! Nas palavras de Katzman, “han sido seducidos por uma sociedad moderna em que solo pueden partipar simbolicamente, no pudiendo superar por sus próprios medios los obstáculos para alcanzar uma participacíon material equivalente”. Percebam porque não há anjos e demônios. A violência das áreas pobres em geral não se dá pela necessidade de comer ou algo vital capaz de legitimar o roubo. Obviamente a extrema pobreza existe, mas em geral em lugares mais distantes do que as favelas do Brasil e, muito menos, das banlieus francesas. Não falo da pobreza das zonas rurais, da Etiópia ou dos mendigos. Refiro-me à clássica pobreza das metrópoles urbanas. Roubam porque querem um PlayStation. Não são santos tampouco culpados, vide serem seduzidos a isso constantemente. O discurso da fome é uma espécie de redenção, mais mito do que realidade. Se estes indivíduos desejam o mesmo do que eu, qual o ponto de renúncia? Se ceder constantemente, não culminarei na inversão, ou seja, conferindo aos “indesejáveis” a prioridade na aquisição de certas mercadorias antes mesmo de mim? E se assim acontecer, talvez eu mereça isso, não? Afinal, fui eu quem ostentou e estimulou o desejo alheio pelas minhas posses. Para legitimar o desejo alheio em simultâneo ao afastamento da possibilidade de obtenção daquilo que possuo, o discurso ideológico costuma amalgamar a descrição morfológica do local com a descrição de seus habitantes, atribuindo-lhes características morais degradadas. São sujeitos transformados em objetos; entretanto, para reconhecer o sujeito, é necessário eliminar o objeto. Ao ignorar toda a subjetividade do sujeito, para que perguntar o que ele pensa ou acredita? Posso generalizar de antemão. E quando se faz uma pergunta nestas circunstâncias, já se sabe a resposta: uma noção positivista.
Devem desejar o que tenho porque este é o certo. Entretanto, não são dignos de tê-lo. O processo civilizador consiste na substituição da violência aberta pelo controle de normas comportamentais, ou seja, a disciplina e adestramento. É um túnel sem fim porque se traduz simplesmente em: para que você não roube meu PlayStation, te ensinarei regras de comportamento pautadas em valores que eu possuo pregadores exatamente do desejo pelo PlayStation. É por isso que a pobreza, por si só, não possui vínculo algum com a violência. Esta se manifesta mais no desejo. E essa mistura entre pessoas diferentes é um “risco”, a menos que seja regularizada e controlada. Daí o afastamento.
O cinturão vermelho na periferia parisiense onde os três jovens outsider residem tem seu nome num antigo conglomerado de comunistas. Ironicamente, agora estão isolados, “trancados do lado de fora”, incapazes de adentrar o glamour da contemporaneidade do capitalismo. O isolamento social produz segregação residencial. Logo, a rede de relações sociais é menor. A estrutura de oportunidades do indivíduo depende de sua sociabilidade e obtenção de recursos, para transformá-los em ativos. A falta de vínculos não gera somente a submissão do mais fraco diante o mais forte, na qual a “escória” oprimida tentaria subsistir. É além. Enquanto o oprimido jaz na base da pirâmide social, a exclusão social processa a des-filiação do indivíduo. Ele sequer é um oprimido da hierarquia. Sequer faz parte desta, é um “inútil para o mundo”. O inútil decorre da concentração e acumulação de desvantagens em determinados setores da sociedade. Não se trata de segmentação—processo de redução de oportunidades de interação de grupos ou categorias sociais distantes—mas de segregação. Não é mais o “exercito de capital de reserva” marxista, é mais grave. Não há função para estes indivíduos. Ou seja, refere-se aos processos de polarização e endurecimento das distâncias sociais. A hegemonia, aliás, é um consentimento ativo: não se impõe, convence.
A redução progressiva da sociabilidade informal entre diferentes grupos sociais, das quais um se tornará “inútil”. É realmente “inútil”? Por quais motivos? São vários: Necessidade de elevação constante dos limites de qualificação para integrar o mercado formal devido às aceleradas inovações tecnológicas e necessidades de produtividade e competição em nível mundial. A estagnação da classificação se dá, entre demais fatores como o residencial e a educação, pela própria divisão do trabalho. A segmentação diminui a interação social entre trabalhadores com diferentes graus de qualificação. Não é possível demonstrar algum talento inato ou aprender pela observação, pois não há chance para isso. Contudo, isso não afeta somente os pobres. Também afeta classes superiores, cujo resultado é uma sistemática piora a todos. Existe também a drástica desvalorização das habilidades e competências já adquiridas (antigamente Vovô servia pra ensinar algumas sabedorias de vida. Agora, se ele mal consegue acessar e-mail, é um imprestável descartável).
Ufa! Dá pra entender os humanistas, não? É cru-el. O problema é que é humano e não sei se é utópico acreditar que possa acontecer de outra maneira. Hubert, no ano de 1995, possui uma televisão de vinte e nove polegadas em sua casa. Os prédios não são caídos: para padrões brasileiros, seriam dignos de classe-média. É complicadíssimo determinar se a reivindicação é necessária ou exagerada. Inclusive porque muita dessa carência francesa não é meramente econômica. Adquirimos a noção do individualismo negativo: os “inúteis” para o mundo. Faltam referências, a carência é total. Faltam considerações, segurança, bens garantidos e vínculos estáveis.
Bem, vamos para a parte mais legal. René Girard e a gênese da violência humana! Talvez isso deixe mais claro o que tento dizer: pode ser injusto, mas há como ser de outra maneira?
Não existe relação humana sem objetos. É o mundano o espaço de troca entre homens por excelência. Em Violência e o Sagrado temos a teoria do desejo mimético (de desejar aquilo que o vizinho tem) aplicada nas mais variadas construções sociais e a lógica do sacrifício humano. Há um duplo aspecto em vítimas expiatórias: são simultaneamente sagrados e criminosos (todo mundo aqui conhece o drama que fazem na morte de um traficante ou ditador, não? Deseja-se a morte do infeliz para depois sentir arrependimento). O bode expiatório é a válvula de escape dos ímpetos violentos acumulados no prelúdio do conflito iminente. Em geral, quem é o infeliz? O indesejável. Portanto, não se trata de um inútil para o mundo. Ele tem, sim, uma utilidade. É trágica, mas, repito, não conheço sociedade excetuando-se as de lógica totêmicas sem bodes expiatórios. O morador da banlieu ou favelado é a vítima substitutiva, sobre ela é desejado todo o ódio e sede de violência para aliviar e livrar a sociedade dos possíveis conflitos.
Uma sociedade está sempre sujeita a uma escalada de violência devido ao círculo vicioso de represálias, como já foi observado por etnólogos em sociedades primitivas. O surgimento de uma violência incontrolável no interior de uma sociedade ocorre normalmente nos momentos da crise sacrificial, ou seja, quando os sacrifícios rituais já não mais atuam eficientemente como válvula de escape dos impulsos violentos. Não lembro a terminologia precisa disto em economia, algo como “utilidade marginal”. É quando o remédio de emagrecer pára de dar efeito e você volta a engordar a menos que tome uma atitude nova em sua vida, provocando uma reestruturação do habitus. Talvez seja melhor explicar de outro modo: há uma exigência popular por um novo centro esportivo. O governo cede. Durante algum tempo os moradores estão felizes até este centro se banalizar e deixar de ser o foco de interesse. Surge um novo desejo. Se ninguém se manifestar, não haverá nada. O indivíduo que se manifestar é a vítima do sacrifício para gerar uma mudança.
Os ritos sacrificiais bem como os mitos que os narram simbolicamente representam a forma de uma sociedade reviver o seu acontecimento fundador, o sacrifício não mais ritual, mas real e espontâneo de uma vítima expiatória. Aqui insere-se a teoria do desejo mimético. Conforme nos conta Girard, o desejo mimético (o desejo de ter o bem do outro)é inerente à condição humana. Antes de racionalizar como devo agir diante uma situação, a lógica é espionar meu vizinho para ver como ele lida diante o mesmo fenômeno. Porém, a culpa não é do Outro, né? Seria fácil demais, como fazem filmes de teoria da conspiração, denunciar o Sistema como se o delator deste fosse isento de participação. Para que qualquer objeto meu tenha algum valor e significado denunciando meu próprio status, é necessário que outros o desejem.
Os homens desejam o bem e o ser do próximo invariavelmente, o que terminará por gerar a rivalidade mimética. O detentor do bem quererá defendê-lo mas, ao mesmo tempo, estimulará o desejo do outro pois o fato de o seu bem ser também desejado por outrem potencializa o valor do mesmo. Quando um irromper com um gesto violento o outro imediatamente revidará também por impulso mimético e assim se iniciará um rosário interminável de represálias que somente terminará com o sacrifício de uma vítima expiatória que trará de volta a paz à sociedade.
Nem mesmo a Terra das Brincadeiras, onde vivem os Ursinhos Carinhosos, está isenta disso. Para Girard, toda sociedade primitiva em seus primórdios experimentou o evento de uma crise de violência generalizada que ameaçava a sua própria existência e que findou com o sacrifício de uma vítima escolhida arbitrariamente, sobre a qual foram despejados todos os ódios e desejos de vingança, restaurando-se a paz social e fundando-se a própria sociedade politicamente organizada. Talvez o que incomode Vincent, Saïd e Hubert é a racionalização da função do “indesejável”. O nascimento é arbitrário: não se escolhe nascer príncipe ou mendigo. Entretanto, uma vez no mundo, a função que devem desempenhar como “indesejáveis” é bem nítida. A arma nas mãos é apenas o gatilho para cumprirem o rito sacrificial. Lembrando: se ninguém morresse em banlieus e favelas, haveria sequer um incômodo por parte da sociedade mais ampla com estas regiões?
Os mitos narrariam figuradamente os eventos que culminam no sacrifício, e dentre os mitos, René Girard inclui não apenas as narrativas mitológicas, mas a tragédia grega e mesmo o Antigo Testamento. Nestes textos, há uma espécie de descrição figurada parcial ou total da rivalidade mimética, da escalada de violência e do sacrifício de vítimas expiatórias. O cinema opera com o onírico, o imaginário. Há algo de mitológico nele e, assim como mitos indígenas, filmes da estirpe de Tropa de Elite 2 e La Haine desvendam o sentido oculto de muitos dos textos das culturas primitivas e antigas: eles representam simbolicamente os horríveis eventos fundadores da sociedade que terminam no sacrifício da vítima expiatória. Mas que infernos a morte de Vincent tanto representa, carambolas? A Revolução Francesa, talvez? A emancipação política do camponês antes de se tornar proletário? As guerras de colonização de um povo sobre o outro? Não posso especificar.
É válido lembrar aqui o exemplo do pharmakós grego (pois é, o bode expiatório que serve para aliviar as tensões sociais é o que hoje dá nome para “farmácia”. Neste exato sentido de remédio para curar. Há quem diga que não era exatamente executado, mas certamente o infeliz era condenado, no mínimo, ao ostracismo!), um pária que era mantido cativo para ser sacrificado em épocas de grandes crises e catástrofes—mesmo naturais—, como se sua morte pudesse eliminar a crise ou a catástrofe, tal como no acontecimento fundador da sociedade, o sacrifício da primeira vítima expiatória eliminou uma grave crise de violência. O estabelecimento de uma nova Ordem, lembrando as resenhas que redigi anteriormente, transpassa uma recolocação entre o Totem e o Tabu. Quando o Escravo derruba o Rei, suas posições revezam. É claro que este tipo de análise pressupõe a História como cíclica, não é bem assim. Não obstante, não me estenderei nesse viés. Basta assinalar que uma reprodução da estrutura gera sua transformação. E mais importante! Se você hoje é Rei, nada garante que um dia o Escravo possa lhe usurpar. Neste caso, o Escravo será você! Por isso a relação de posse é delicada. Elas devem ser cobiçadas para adquirirem valor, mas é extremamente perigoso não afastar aqueles que a desejam da real possibilidade de efetivamente a usurparem. Para impedir que isso aconteça, Vincent, Saïd e Hubert são constantemente relembrados de suas posições como párias, o que abala a própria auto-estima e crença na legimitidade destas posses. A ver como o estigma é reproduzido numa cena com uma jornalista indagando se sabiam algo sobre os conflitos, como se bastasse morar no bairro para ser um de seus residentes “problemáticos”.
O rito serve assim para manter viva a memória do acontecimento fundador e para servir como um despejo de impulsos violentos. Quando o rito já não mais desempenha a sua função, surge a crise sacrificial: muito bem representada pelo mito de Caim e Abel. Abel sacrifica os primogênitos de seu rebanho, portanto tem uma válvula de escape. Caim já não a possui, por isso não contém seus impulsos violentos e, movido pelo desejo mimético ou inveja pelo amor que Deus tem pelo seu irmão, mata Abel.
Não apenas os ritos e os mitos são podem ser interpretados mediante teorias do desejo mimético e do sacrifício, mas inúmeros costumes primitivos como o uso de máscaras, a repulsa ao sangue menstrual e aos gêmeos, e muitas das proibições ou regras de direito primitivas. Isto serve para compreender problemas do nosso próprio tempo tais como o racismo, o anti-semitismo ou o aborto. Afinal, a perseguição por motivos de raça ou a luta pela liberação do aborto não seriam formas de ressuscitar o velho mecanismo sacrificial, elegendo novas vítimas expiatórias de nossos ódios intestinos?
OK! Então a violência é necessária para o próprio mito fundador de uma civilização, totem e tabu simultaneamente. Isso quer dizer que não devo fazer nada? Filosoficamente, talvez sim. Por outro lado, em um contexto mais pragmático, essa opção não me é dada. A burocracia existe para simultaneamente retificar e contornar os conflitos sociais. No caso do Brasil, a forma de distribuição de direitos sempre foi condicionada pelo mercado de trabalho e sindicatos. Duas lógicas operam correlacionadas, a dizer, quem está fora do mercado de trabalho não tem acesso aos direitos e que, para um bom governo, é necessário o pagamento de todos por bens usufruídos somente por alguns. Eventualmente a noção de que é legítimo taxar sobre a propriedade privada para assim garantir certos bens àqueles que não possuem “nada” se propagou, retificando o ideal igualitário.
Antes preciso salientar algo que talvez não tenha ficado tão claro no texto anterior! A miséria do mundo é gerada pelo Capitalismo e pela Indústria, é verdade. Contudo, estes só puderam desenvolver graças aos ideais Iluministas. Se a premissa de que os homens nascem iguais e livres não existir, os Fashion Weeks não serviriam para nada! As idolatrias dos deuses e a das celebridades são comparáveis em grau, contudo há uma nítida diferença no gênero! O indivíduo que idolatra Zeus ou Hera sabe que jamais será um deus, quando muito clama por benevolência. O indivíduo que idolatra Ronaldinhos ou Xuxa o faz com a intenção subliminar de um dia tornar-ser um deles. Se existe uma lei pregando que você, nascido plebeu, não poderá jamais vestir os trajes de um nobre mesmo que porventura reúna condições materiais para adquirir tais trajes, o catálogo de moda não serve para nada! Se existe uma lei te obrigando a andar com a cabeça abaixada atrás de um nobre, mesmo que os trajes lhe fossem acessíveis, permaneceriam sem grande valor! Somente com a ideia de que todos podem adquirir os produtos que bem entender sem receio de discriminação por casta ou qualquer qualidade irrefutável, inerente, é que a Indústria e o Capitalismo podem prosperar. E não é à toa que seu impulso primordial se deu na indústria têxtil! Também no espelho! Isso mesmo, espelho! A imagem refletida do que você potencialmente pode ser ao experimentar uma roupa no shopping!
Ainda assim, existe uma geometria variável: o direito em suas variantes (direitos civis, direitos políticos, direito sociais etc) depende do contexto. Na Era Vargas, a expansão dos direitos sociais foi concomitante à diminuição dos outros. Porém, Brasil não é França. O Estado nasceu forte no Brasil, com a noção do cidadão como súdito. Na França, os cidadãos “empurram” a cidadania na marra. A construção do cívico é “de baixo para cima”. Ou era, né? Se ainda fosse assim, não haveria Saïd, Vicent e Huberts perdidos por aí…
A sociedade privatiza o Estado. O Estado “fagocita” a sociedade. Ademais, com a queda do muro de Berlim, a crise do Estado do Bem-Estar Social se agravou. Pessoalmente não gosto desses termos escatológicos, proféticos de fim de mundo. Mas é a história oficial, então vamos lá: o Neoliberalismo conduz ao debate entre o ético e o eficaz. Os critérios de justiça e responsabilidade estatal entram em contraposição aos critérios de eficiência. Há, claro, um imaginário coletivo, um savoir vivre de adequação aos novos tempos, um “discurso gramatical”. Evidentemente só é ouvido quem consegue se ajustar à gramática e o repertório do contexto. Dane-se se você quer ser artista se o mundo não se interessa mais por isso, ainda que, em sua juventude, você tenha sido ensinado a valorizar a Arte. Essa rápida transitoriedade pós-moderna não permite com que todos se ajustem, evidentemente. A transitoriedade é justificada pelo discurso da eficiência. É isto que vai melhorar e pronto! A faca é de dois gumes. Se não mudar, piora. Se mudar, nem todos se adaptam e a exclusão aumenta. Piora de qualquer modo. Evidentemente, qualquer hegemonia estatal depende, para ter legitimidade, de dois fatores: coerção e consentimento. Nunca é só um destes; é sempre uma dosagem entre os dois termos.
VOCÊ FAZ PARTE DO SISTEMA E ESTÁ DE ACORDO COM ELE, QUEIRA ISSO OU NÃO! Humf! Pronto! Falei! Odeio filme de conspiração por transmitirem essa ideia de isenção de culpabilidade do indivíduo, ou então de inocência, como a ciência de sua responsabilidade pudesse lhe trazer redenção. Para ele, claro. Não para os Outros.
Um Sistema nada mais é que um “Universo cognitivo simbólico”. Qualquer movimento social ou protesto de ONG possui uma dupla face. São expressivas e disruptivas e integrativas e coorporativas. A ruptura também é integrativa. As duas faces da mesma moeda não são contraditórias. Afinal, se quero ir contra o Sistema, ao realizar um protesto necessariamente estabeleço um diálogo com este. E através do diálogo o Sistema permanece. O poder só é legitimado com o mínimo de consentimento. Não há como ir totalmente contra um Sistema porque não sou um ser desassociado deste: faço parte dele tanto quanto àqueles que condeno.
Habitantes de banlieus são pessoas de diferentes níveis educacionais, ocupações etc: não se trata de algo homogêneo. São tão estratificados entre si e seguem igualmente a lógica da “sociedade”. São capitalistas. O que os diferencia de “nós”, os “estabelecidos” em relação aos “outsiders” é somente a percepção social. Certas regiões periféricas, como todos devem saber, por vezes são mais ricas que algumas regiões dos “bairros” clássicos. Dentro das periferias os moradores agem exatamente como fazem os indivíduos da sociedade “estabelecida”, travando relações capitalistas. Não há uma lógica igualitária poética de comunidade. É a mesma lógica do público. Um gueto é tão somente um arranjo particular plenamente inserido na generalidade capitalista. Também nestes locais a monopolização dos recursos é fundamental para a reprodução das atividades econômicas. Vive-se e reproduz-se a partir da própria vulnerabilidade. Uma das piores situações que poderia acontecer para tais segmentos seria a democratização igualitária dos recursos, implicando a quebra da hierarquia local (leia-se recursos por específicas ajudas de ONGs, instituições de caridade etc).
A perspectiva de Anthony Giddens seria uma terceira via, nem Direita neo-liberal, nem Esquerda comunista. Para ele, não há pós-modernidade, mas uma radicalização da modernidade. Esta ocorreria quando o homem reflete e pensa sobre sua condição de vida sociologicamente. Refletindo sobre si mesmo, a sociedade pensa na própria diante os ditos da sociologia—uma dupla hermenêutica. Tal como um movimento de hélice, sociedade e sociologia se auto-definem. Entretanto, nem sempre acontece desse moldo. Quando não se conhecem as duas faces, não é possível compreender a “realidade”. A sociedade marcha num ritmo diferente da sociologia, que fica para trás. Portanto, por mais que ideólogos acreditem na revolução por vir do povo, da soberania popular etc…
É ilusão! Não é uma surpresa constatar que habitantes de guetos não sejam revolucionários. Na realidade, nunca o foram. Não é de suas constituições. Os pressupostos dos militantes diferem do que realmente acontece. O que se constata, repito, é a “integração” e a “negociação” (há exceções; claro). Por mais comum que seja a aspiração para mudar de vida, o entrelaçamento cultural rege para o estabelecimento de uma regularidade normativa. Os valores, hábitos, gostos, interesses e aspirações, ou seja, as aspirações, variam mais ou menos condicionadas pela forma e meio de morar. A visão de um mundo de um indivíduo o faz aspirar um salário maior a fim de ampliar o consumo, não modificá-lo. Aqui a coisa complica nos limites da tolerância.
Quem lembra da cena onde os três jovens entram num vernissage e flertam com duas meninas (saliento o fato de uma delas ser negra)? Eis uma peculiaridade francesa. Quando as discrepâncias entre classes são muito gritantes, como no Brasil, é visível de antemão quem é e quem não é “da área”. O conflito oriundo da segregação não chega a ocorrer por ser impedido de antemão. Quando se dá, sobretudo, por diferenças étnicas, como nos Estados Unidos, a materialização do estigma é ainda mais visível. Agora, notemos como dos três jovens, o mais revoltado é Vicent. O branco! Não é o franco-árabe nem o negro. Por que? Porque para ele o motivo de sua segregação é mais sutil, o que, ao ser efetivada, a torna mais gritante. Não é por classe ou por etnia. É simplesmente por ele não se enquadrar na Ordem. Enquanto calados, são aceitos no mundo que os tranca do lado de fora. Basta abrir a boca para…
Quando a descriminação não é pelo “Ter”, se torna pelo “Ser”. Mais crua e violenta, diria. O diálogo é outro. A sociabilidade é diferente. Vejamos: um vestido Versace no corpo da Dona Zulmira, a caixa do supermercado, é apenas um vestido preto. Para que aqueles trapos de pano se tornem verdadeiramente Versace, sua forma é apenas metade do caminho. A outra metade depende do modo de quem o vestir! Se os ombros ficarão à mostra, ou se vai combinar com determinado tom de batom ou corte de cabelo, a cor da bolsa e o tamanho do salto. O jeito de andar e, portanto, movimentar o vestido. É isso que transformará o vestido inteiramente em um verdadeiro Versace. A coroa de um rei não se sustenta por muito tempo na cabeça de quem não sabe governar! Portanto, por mais economicamente igualitário que seja, por mais que dois indivíduos—um da periferia e outro do bairro tradicional—possam comprar o vestido Versace, apenas o derradeiro “sabe” vesti-lo. Isto é válido para bens não-materiais. Arte contemporânea é um desses. Todo mundo que entende um pouquinho de arte sabe que Arte contemporânea não tem definição, que não é para entender nada. E é hilário ver pessoas que não entendem nada filosofando sobre o assunto na tentativa de se passarem por entendidos. É mais ou menos isso que aconteceu com os três jovens no vernissage. Naturalmente o mais revoltado é o Vicent. Ele não tem válvula de escape, não pode alegar que foi injustiçado por sua etnia negra ou árabe. Na cabeça desse rapaz a pergunta que não quer calar é: mas o que foi que eu fiz? Por que não sou como eles? O que me faz diferente dessas pessoas?
Você não sabe vestir o vestido Versace adequadamente. Simples assim. E tem mais! Isto equivale dizer que a maneira como você veste o vestido é barbárie. Pois é, a política é a continuação da guerra por outros meios, rapaz. A violência, neste caso simbólica, é a ausência do conflito. O seu mal-estar advém de nascer numa região degradada num país que se diz com igualdade, fraternidade e liberdade para todos. Para Loïc Wacquant, é “uma Vingança da História”. Tais valores são facilmente aderidos pelos antigos povos conquistados, porém não são realizáveis na práxis. A rotulação como periférico é uma classificação. E qualquer classificação é uma desumanização, contrariando os próprios ideias que seduzem levas de imigrantes na esperança de viver a Utopia na Terra. Bem, uma utopia, precisamente, não tem topos, não tem lugar. Só resta, então, a arma na mão.
Guetos incorporam pela sociedade mais ampla a metáfora da guerra. São vistos como inimigos internos que ameaçam a existência da sociedade como um todo. Precisam ser derrotados sem contemplação, estão à margem da própria sociedade e por isso não são dignos de piedade. Este “mal a ser combatido” é para além dos casos isolados que podem porventura de fato provocar problemas. Engloba toda a população circundante. Outra vez o fenômeno é cíclico. Com o cotidiano violento, somos levados a pensar que só se adapta a viver neste lugar quem é essencialmente parte disto, tão degradado quanto. A convivência dos moradores com os indivíduos potencialmente problemáticos é interpretada como conivência. Forças estatais, seja o BOPE ou polícia francesa, alegam como numa “guerra” as baixas são naturais. A mecânica opera na premissa de que inimigos não têm direitos. Em guetos não há cidadãos a proteger. Obviamente isto não implica em matar deliberadamente; porém, se morrer…é um mal necessário.
O repertório dos Direitos Humanos contempla basicamente os direitos civis. O apelo aos direitos humanos é a defesa mínima à Vida. Aquele que apela tanto pelos Direitos Humanos significa que suas condições mínimas de vida estão ameaçadas. Talvez alguns destes realmente sejam criminosos. Por outro lado, os que condenam os Direitos Humanos o fazem porque já os possuem, não?
Ninguém é santo ou demônio. Creio que deva existir uma divisão da responsabilidade pela violência uma vez que não é possível apontar um culpado palpável deste ciclo vicioso. Ou melhor, não há realmente um culpado se isto faz parte da condição humana. Realmente, prefiro dedicar-me, a partir de agora, em defender o direito das abelhas de produzirem o mel. Os gregos podem me chamar de “idiots”, aquele que não participa da bios política.
Herdeiro dos Intocáveis da Índia, dos vikings idosos, das mães com filhos mortos do sudoeste americano, dos judeus e dos ciganos (povo originário da região da “Boêmia”. Bem sugestivo, não? O que não se inscreve na Ordem tem lá sua “pureza”, mas é um “perigo”, para Mary Douglas), Vicent não tem perspectiva de futuro brilhante. A arma na mão pode lhe soar como um efemero grito oco de esperança. Mas somente por pouco tempo. Ele é o bode expiatório de um rito sacrificial contemporâneo.
Ele e este carinha aqui debaixo deveriam lembrar que o importante não é a queda, mas a aterrisagem.